Sessão de cinema: A PROCURA DA REVOLUÇÃO

NÃO À OCUPAÇÃO MILITAR DO HAITI

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

V BRIGADA MUNDIAL "PRIMERO DE MAYO", 2010

Convocatoria

Estimado Amigo (a):

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Reciba el saludo fraterno y cordial del Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos.

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Este año nuevamente nuestro Instituto convoca a la V edición de la Brigada Mundial de Solidaridad con Cuba “Primero de Mayo”. Esperamos contar con la presencia de amigos y amigas de todo el mundo quienes, como en años anteriores, compartirán las celebraciones por el Día Internacional de los trabajadores junto a la clase obrera y el pueblo cubano.

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El programa organizado contempla visitas a lugares de interés históricos, económicos, culturales y sociales; conferencias sobre diversos temas de actualidad nacional, así como el Encuentro Internacional de Solidaridad con Cuba que se realizará después de las actividades centrales por la efemérides del Primero de Mayo.

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Las actividades de la brigada se desarrollarán del 26 de abril al 9 de mayo 2010 en las provincias de La Habana, Ciudad de La Habana y Matanzas; con visitas opcionales a Tropicana en Varadero y Santa Clara. La estancia comprende 10 noches en el Campamento Internacional “Antonio Mella" (CIJAM), ubicado en el municipio Caimito a 45 Kms. de la Ciudad de La Habana y 3 noches en hotel Canimao, en la provincia de Matanzas . El campamento, creado en el año 1972, cuenta con condiciones adecuadas para satisfacer la vida colectiva y las necesidades de los amigos que nos visitan de diferentes partes del mundo.

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Las jornadas de trabajo agrícola se realizaran en áreas aledañas al CIJAM y en la provincia de Matanzas.

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La estadía tendrá un costo de 295.00 CUC que incluye alojamiento en habitaciones compartidas hasta para 8 personas en el CIJAM, pensión alimentaría completa, transfer in – out y transportación a todas las actividades del Programa. Las visitas opcionales no se incluyen en el precio del paquete. La estancia en el CIJAM por noche adicional tiene un costo de 10.00 CUC.

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La creciente participación en la brigada de un número cada vez mayor de amigos y amigas procedentes de todo el mundo, denota no solo la motivación por conocer Cuba, sino como la solidaridad con la isla se extiende por todo el universo estimulada por el compromiso que despierta la Revolución cubana en su lucha contra el bloqueo impuesto por el imperialismo norteamericano y por nuestro derecho a existir como nación independiente y soberana.

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Con su asistencia el brigadista se compromete a cumplir con el Programa señalado y a observar adecuadamente las normas de conducta, disciplina y convivencia social. El consumo de drogas o cualquier sustancia alucinógena es totalmente ilegal y es penado por las legislaciones vigentes en nuestro país.

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Mucho nos agradaría contar con su presencia en la Brigada Mundial de Solidaridad con Cuba "Primero de Mayo" por lo que le invitamos cordialmente a participar en la misma.

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Las inscripciones estarán abiertas para los interesados hasta el 1ro de abril 2108. Le rogamos nos Mantengan informados de la fecha, hora de llegada y línea aérea.

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Idania Ramos Carmona

Directora

V Brigada Internacional

Primero de Mayo 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O seqüestro do Haiti

John Pilger

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O roubo do Haiti foi ágil e brutal. A 22 de Janeiro, os Estados Unidos asseguraram "aprovação formal" das Nações Unidas para ocupar todos os portos aéreos e marítimos do Haiti e para "assegurar" as estradas. Nenhum haitiano assinou o acordo, o qual não tem base legal. A potência impera com um bloqueio naval americano e a chegada de 13 mil fuzileiros navais, forças especiais, espiões e mercenários, nenhum deles com treino para ajuda humanitária.

O aeroporto na capital, Port-au-Prince, é agora uma base militar americana e vôos de socorro foram redirecionados para a República Dominicana. Todos os vôos cessaram durante três horas para a chegada de Hillary Clinton. Haitianos criticamente feridos esperaram sem ajuda enquanto 800 americanos residentes no Haiti eram alimentados, lavados e evacuados. Passaram-se seis dias antes de a U.S. Air Force lançar água engarrafada para pessoas a sofrerem de sede e de desidratação.

Os primeiros relatos da TV desempenharam um papel crítico, dando a impressão de um caos de crime generalizado. Matt Frei, o repórter da BBC despachado de Washington, parecia ofegante quando zurrava acerca da "violência" e necessidade de "segurança". Apesar da dignidade demonstrada pelas vítimas do terremoto, e da evidência de grupos de cidadãos a trabalhar sem ajuda para resgatar pessoas, e até mesmo da avaliação de um general americano de que a violência no Haiti era consideravelmente menor do que antes do terremoto, Frei berrava que "o saqueio é a única indústria" e que "a dignidade do passado do Haiti está há muito esquecida". Portanto, uma história de implacável violência e exploração estadunidense no Haiti foi atribuída à vítimas. "Não há dúvida", relatava Frei na seqüência da sangrenta invasão do Iraque pelos EUA em 2003, "que o desejo de trazer o bem, de levar os valores americanos ao resto do mundo, e especialmente agora ao Médio Oriente... está agora cada vez mais ligado ao poder militar".

Num certo sentido, ele estava certo. Nunca antes num tempo considerado de paz as relações humanas foram tão militarizadas pela potência predadora. Nunca antes um presidente americano subordinou o seu governo ao establishment militar do seu desacreditado antecessor, como fez Barack Obama. Para prosseguir a política de guerra e dominação de George W. Bush, Obama pediu ao Congresso um orçamento militar sem precedentes de US$700 mil milhões. Ele tornou-se, com efeito, o porta-voz de um golpe militar.

Para o povo do Haiti as implicações são claras, ainda que grotescas. Com tropas estadunidenses no controle do seu país, Obama nomeou George W. Bush para o "esforço de ajuda": uma paródia retirada certamente de The Comedians , de Graham Greene, que se passava no Haiti de Papa Doc. Como presidente, o esforço de Bush a seguir ao Furacão Katrina em 2005 conduziu a uma limpeza étnica de grande parte da população negra de Nova Orleans. Em 2004, ele ordenou o seqüestro do primeiro-ministro eleito democraticamente no Haiti, Jean-Bertrand Aristide, e exilou-o na África. O popular Aristide teve a temeridade de legislar modestas reformas, tais como um salário mínimo para aqueles que labutam em oficinas no Haiti sob condições atrozes.

Da última vez que estive no Haiti, observei muitas meninas recurvadas sobre máquinas de costura zumbidoras e estridentes na Port-au-Prince Superior Baseball Plant. Muitas tinham os olhos inchados e os braços lacerados. Saquei de uma câmara e fui expelido para fora. O Haiti é onde a América faz o equipamento para o seu bendito jogo nacional, quase de graça. O Haiti é onde empreiteiros da Wal Disney fazem pijamas Mickey Mouse, quase de graça. Os EUA controlam o açúcar, a bauxita e o sisal do Haiti. A cultura do arroz foi substituída por arroz americano importado, levando o povo para as cidades e habitações improvisadas. Ano após ano, o Haiti foi invadido pelos US marines, infames pelas atrocidades que têm sido a sua especialidade desde as Filipinas até o Afeganistão.

Bill Clinton é outro comediante, tendo conseguido ser nomeado o homem da ONU no Haiti. Outrora bajulado pela BBC como o "Sr. Belo Tipo... que leva a democracia a uma terra triste e perturbada", Clinton é o mais notório corsário do Haiti, a exigir a desregulamentação da economia em benefício dos barões das fábricas escravizantes (sweatshops). Ultimamente, ele tem estado a promover um negócio de US$ 55 milhões para transformar o Norte do Haiti num "campo turístico" anexado à América.

Não é por causa dos turistas que o edifício da embaixada dos EUA em Port-au-Prince é o quinto maior do mundo. Décadas atrás foi descoberto petróleo no Haiti e os EUA mantiveram-nas em reserva até que o do Médio Oriente começasse a esgotar-se. De modo mais premente, um Haiti ocupado tem uma importância estratégica nos planos de Washington para "reverter" a América Latina. O objetivo é o derrube de democracias populares na Venezuela, Bolívia e Equador, o controle das abundantes reservas petrolíferas da Venezuela e a sabotagem da crescente cooperação regional que deu a milhões o antegosto de uma justiça econômica e social sempre negada pelos regimes patrocinados pelos EUA.

O primeiro êxito da reversão ocorreu no ano passado com o golpe contra o presidente José Manuel Zelaya, que também ousou advogar um salário mínimo e que os ricos pagassem impostos. O apoio secreto de Obama ao regime ilegal de Honduras implica uma advertência clara a governos vulneráveis da América Central. Em Outubro último, o regime na Colômbia, há muito financiado por Washington e apoiado por esquadrões da morte, entregou aos EUA sete bases militares para, segundo documentos da US Air Force, "combater governos anti-EUA na região".

A propaganda dos media preparou o terreno para o que pode vir a ser a próxima guerra de Obama. Em 14 de Dezembro, investigadores na Universidade de West England publicaram as primeiras descobertas de um estudo de dez anos de noticiários da BBC sobre a Venezuela. De 304 reportagens da BBC, apenas três mencionavam algumas das reformas históricas do governo Chávez, ao passo que a maioria difamava o extraordinário registro democrático de Chávez, ao ponto de compará-lo a Hitler.

Tais distorções e o concomitante servilismo ao poder ocidental são predominantes nos media corporativos anglo-saxônicos. Povos que lutam por uma vida melhor, ou pela própria vida, da Venezuela a Honduras e ao Haiti, merecem o nosso apoio.
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O original encontra-se em johnpilger.com
Publicado em Resistir

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Impunidade fardada

Da Carta Capital

Novamente o Brasil terá de prestar contas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Desta vez, pela omissão da Justiça brasileira diante de uma violenta repressão da Polícia Militar contra uma marcha do Movimento dos Sem Terra (MST) no Paraná. O confronto, ocorrido em maio de 2000, resultou na morte do agricultor Antonio Tavares, de 37 anos, vítima do projétil disparado por um PM. O atirador obteve a indulgência do tribunal militar e conseguiu um habeas corpus para trancar a ação penal na Justiça comum, com base na decisão anterior dos colegas de farda.

Ainda há um longo processo pela frente antes de o caso ser remetido à Corte Inter-americana, que pode obrigar o País reabrir a investigação. O primeiro passo foi dado: a aceitação da denúncia pela comissão ligada à Organização dos Estados Americanos, que não se convenceu da idoneidade das investigações criminais realizadas no Brasil e citadas pelos advogados de defesa do Ministério das Relações Exteriores e da Secretaria Especial de Direitos Humanos para desqualificar as acusações. Além disso, o áspero relatório da comissão, assinado em outubro de 2009 e divulgado somente agora, recrimina o País por confiar a apreciação do processo a uma corte militar, a despeito das orientações da OEA.

Desde 1997, a entidade recomenda ao Estado brasileiro “a atribuição de competência à Justiça comum para julgar todos os crimes cometidos por membros das polícias militares estaduais”. O relatório ainda ressalta que os tribunais militares não gozam “da independência e autonomia necessárias para investigar de maneira imparcial as supostas violações de direitos humanos” e reitera o apelo de não se permitir o julgamento de violações aos direitos humanos em cortes militares.

Após relembrar as circunstâncias do massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 19 sem-terra foram mortos por policiais militares no Pará, os magistrados que assinam o documento avaliam que um inquérito conduzido pela Justiça Militar “elimina a possibilidade de uma investigação objetiva e independente, executada por autoridades judiciais não ligadas à hierarquia de comando das forças de segurança”. E mesmo que o caso passe logo à Justiça ordinária, observam os juízes, o processo fica comprometido, “dado que não foram colhidas as provas necessárias de maneira oportuna e efetiva”.

Na avaliação da ONG Justiça Global, uma das autoras da denúncia oferecida à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a investigação que se seguiu à morte do lavrador comprova esses vícios. O confronto aconteceu depois que a Polícia Militar montou um cerco na rodovia BR-277, que dá acesso a Curitiba, para impedir uma manifestação dos sem-terra na capital paranaense. Para dispersar os manifestantes, a polícia iniciou uma batalha campal, com bombas, gás lacrimogêneo, disparos com balas de borracha e até com armas de fogo. Além do agricultor assassinado, 185 pessoas ficaram feridas.

“Quando percebemos, já estávamos cercados pela polícia. A tropa de choque de um lado, atiradores de elite do outro, um helicóptero sobrevoando e lançando bombas do alto”, comenta José Damasceno, 49 anos, membro da coordenação do MST no Paraná. “No fim, todo mundo estava desnorteado. Os policiais obrigaram todos a deitar de bruços no chão. Na confusão, perdi meu filho de vista. Só fui reencontrá-lo três dias depois.”

Tão logo o confronto acabou o então secretário da Segurança Pública do Paraná, José Tavares, apressou-se em defender a operação, reiterando que o confronto fora inevitável e não ocorreu uso de armas de fogo. As imagens captadas por emissoras de tevê e o resultado de um laudo do Instituto Médico Legal desmentem Tavares. As gravações mostram a brutalidade da ação policial contra trabalhadores desarmados. E o laudo atesta que a bala que matou o lavrador saiu da arma do soldado Joel de Lima Sant’Ana. O projétil teria rebatido no asfalto e perfurado o abdome da vítima.

Como o homicídio doloso é o único crime previsto em lei capaz de levar um policial militar, no exercício de suas funções, à Justiça comum, dois inquéritos foram abertos: um civil e um militar. O civil levou a Promotoria a denunciar o soldado pelo assassinato, destacando que o policial assumiu o risco de matar ao efetuar disparos contra o chão diante da multidão. Já o promotor da Justiça Militar, Misael Duarte Pimenta Neto, pediu o arquivamento do caso, sob a justificativa de que o soldado agiu no cumprimento da lei e sem intenção de matar. No mesmo dia em que recebeu o processo de 960 páginas, o juiz militar José Carlos Dalaqua absolveu o PM.

Foi com base nessa decisão que o soldado Sant’Ana conseguiu um habeas corpus no Tribunal de Justiça do Paraná para trancar a ação penal movida pelo Ministério Público na Justiça comum. “Na prática, os desembargadores assumiram como válida a decisão da Justiça Militar, na qual o processo já havia sido arquivado”, afirma a advogada Renata Lira, da Justiça Global. “Mas basta ler o processo redigido pelo promotor militar para ver como era enviesado. Ele chama o MST de ‘milícia à margem da lei, da moral e da razão’.”

Mais do que garantir uma investigação criteriosa e punir os responsáveis pela morte do lavrador, as organizações que levaram o caso à OEA esperam que a Corte Interamericana obrigue o Brasil a acabar de vez com os julgamentos de crimes contra civis nas cortes militares. “Se o País for condenado, o que era uma recomendação passa a ser uma obrigação. E se não cumpri-la, pode sofrer sanções dos Estados membros da OEA”, diz Lira.

Até 1996, todos os crimes cometidos por policiais militares no exercício de suas funções eram investigados e julgados por cortes militares. Com a aprovação da Lei nº 9.299, de 1996, proposta pelo advogado Hélio Bicudo, a regra mudou: os homicídios passaram para a esfera da Justiça comum, mesmo que tenham acontecido durante operações policiais. Nas Forças Armadas, a regra é diferente: todos os crimes praticados em operações militares são julgados por uma corte fardada.

“É compreensível que a regra seja diferente para os policiais, porque eles não ficam dentro dos quartéis. Seu trabalho é na rua e as consequências dos seus crimes vão muito além da caserna”, comenta a socióloga Cristina Neme, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP). “Com essa alteração na lei, ao menos os casos de homicídio deveriam seguir um trâmite independente na Justiça comum. Mas não é raro encontrar exemplos de policiais que conseguem interferir na investigação, alterando a cena do crime ou removendo o corpo das vítimas para despistar a perícia, com a justificativa de prestar socorro.”

Para Hélio Bicudo, que já presidiu a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, todos os crimes praticados por militares deveriam ser julgados pela Justiça comum. “A manutenção de uma corte especial, com esse perfil corporativista, é incompatível com a democracia”, afirma. “Quando propus a alteração na lei, era para abarcar todos os crimes cometido pelos militares. Mas não foi possível.”

Para o advogado, o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, sancionado por decreto presidencial no fim de 2009, poderia avançar mais nessa questão. “Os planos anteriores sugeriam restrições à competência da Justiça Militar. Mas no atual eu não encontrei nenhuma diretriz nesse sentido”, lamenta Bicudo. “O mais preocupante é que o governo federal já atribuiu poder de polícia ao Exército, e agora está encaminhando um projeto para o Congresso para estender esse poder à Marinha e à Aeronáutica. Mas e os crimes que, por ventura, os militares vierem a cometer no exercício das novas atividades policiais?”

De acordo com os ministros da Justiça, Tarso Genro, e da Defesa, Nelson Jobim, as Forças Armadas só deverão atuar em áreas fronteiriças, onde as autoridades policiais não têm pleno controle do território. Fora desse cenário, os militares só seriam convocados em casos excepcionais e a pedido do presidente da República, como aconteceu nas ocupações de favelas cariocas para pacificar guerras do tráfico. Os eventuais crimes praticados pelos militares durante essas operações continuam sob a esfera da Justiça Militar, exceto se eles praticarem um crime comum e fora das suas obrigações de trabalho.

“Se o sujeito está numa operação subsidiária, por exemplo, de patrulhamento da Força Aérea e autoriza-se a legislação de abate, estaria sujeito à Justiça Militar porque se trata de ação militar”, afirmou Jobim, durante uma palestra no fim de 2009. “Agora, se um soldado numa operação militar pratica um crime comum, ele vai responder à Justiça comum.”

A explicação não satisfaz boa parte das entidades de defesa dos direitos humanos. “Se um policial militar ou um soldado do Exército praticam um crime no cumprimento de uma operação qualquer, como a reintegração de posse de uma fazenda, ele deveria enfrentar a Justiça comum, porque a lei deve ser a mesma para todos”, afirma Darci Frigo, da ONG Terras de Direitos. “No fundo, os abusos e a impunidade que vemos no campo não são muito diferentes do que ocorre nos centros urbanos, onde sempre vemos denúncias de execuções sumárias envolvendo PMs. É preciso acabar com esse manto corporativista que protege criminosos. E espero que o julgamento da morte de Antonio Tavares possa contribuir para esse debate no Brasil.”

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O claro silêncio sobre a Mesopotâmia

Hussein Anwar

Tradução de Francisca Macias

Foi já há algum tempo que comecei a ter a sensação de que se passa algo suspeito, e vejo isso em toda a parte, na Televisão, nos Jornais, na Internet… em todo o lado. E pergunto-me por quê? Sempre que ligo a TV em qualquer canal de notícias tudo o que encontro à minha frente é, Gaza, Palestina, Israel, Mahmoud Abbas, Olmert, prisioneiros palestinos… etc.

Como se fosse a Palestina o único país a sofrer, como se os Palestinos fossem os únicos a estarem presos…

O povo Iraquiano sofreu muito mais do que os Palestinos nestes 7 anos, como um Iraquiano me disse “ Nós tornamo-nos mais Palestinos do que eles próprios.” Em 2006 houve uma estatística pelo canal Al Jazzera… 660 Palestinos foram mortos durante 2006 e no mesmo ano foram mortos 3000 Iraquianos em cada semana.

Em dez artigos sobre a Palestina encontra-se um ou nenhum sobre o Iraque. Por que este Silêncio? POR QUÊ? E eu não me estou a dirigir aqui apenas aos Iraquianos… estou a dirigir-me mesmo aos Europeus ou a outros de outras nacionalidades que escrevem, assinam blogues e protestam contra o Crime e a Tirania; blogues, crônicas e protestos pela ajuda da humanidade. Por que é que vocês se calam sobre o Iraque?

Alguma coisa os assusta? Têm medo de alguma coisa? Eu acho que sim… porque não haveriam de ter… afinal vocês recebem ameaças de morte e toda essa… mas vocês fogem facilmente de vós próprios, são facilmente Silenciados. Decidiram entrar nesta tarefa… e quem alguma vez entra nesta tarefa deve esperar ser ameaçado ou mesmo despedido do emprego, se são tão facilmente silenciados, se são assim cobardes… porque é que se envolveram neste ambiente, em primeiro lugar? Por quê?

Esta causa não saúda pessoas cobardes, não dá as boas vindas a pessoas que se calam, ela saúda os fortes, pessoas que falam a verdade mesmo se tiverem uma faca contra a garganta.

A não ser dois ou três canais da Televisão Iraquiana, no máximo… nenhum outro canal mostra o sofrimento do povo iraquiano, a tirania que estão a testemunhar, os homicídios diários por sectarismo, pessoas a serem perfuradas com brocas, tortura, a vida miserável nas cidades e aldeias.

Há uma semana telefonei a um amigo Xiita do bairro Karadda em Bagdá, eu não falava com ele desde o final de 2002 e não sabia nada do seu paradeiro, não sabia se estava vivo ou morto, e por coincidência um amigo comum deu-me o contacto dele.

Quando lhe telefonei primeiro e lhe disse quem era… ele não queria acreditar, eu senti a felicidade na sua voz, era como se quisesse saltar pelo telefone, imediatamente começou a chorar e disse:

“Eles nos humilharam General… humilharam-nos depois da sua partida, estes bastardos prenderam-me, e puseram-me na prisão dizendo que o meu pai era do Partido Baath, deixaram-me preso durante 4 meses, e quando me libertaram eu urinava sangue.”

Perguntei-lhe… como está Bagdá agora?

É melhor não a ver General… Bagdá tornou-se uma cidade fantasma, é assustadora, suja, pedintes por toda a parte, nos velhos tempos nós costumávamos ver um ou dois pedintes no máximo nalgumas ruas… agora eles multiplicaram-se por 100, estão em toda a parte, as pessoas aqui estão a morrer à fome. Estas milícias bastardas Xiitas Persas correm os bairros, levantando checkpoints por todo o lado, eu só saio de casa quando tenho muita necessidade.”

E então… o que dizem os Iraquianos agora sobre Saddam Hussein?

Acredite, mesmo os Iraquianos que o odeiam e ficaram felizes no dia da sua morte… Agora a lamentam e desejam poder ter um dia da vida que tinham no governo dele, e lamentam-no a ele, e há ainda Iraquianos que sofrem com a fome e cegos, mas odeiam admitir isso, mentem a si próprios e dizem que o Iraque está melhor agora, mentem a si próprios primeiro do que aos outros.”

Eu estive a ver no canal de TV Al Sharqiyah, um programa chamado “A Vida Diária de uma Cidade”, este programa escolhe uma cidade diferente todos os dias e hoje era Bassorá. Eu cheguei a meio da reportagem, havia um campo de lama, água suja, lixo, sacos de plástico e um edifício deserto sem portas nem janelas, um edifício sujíssimo que mais parecia uma espelunca, garotos descalços a olhar para a câmara, escondidos no escuro, e de repente o câmara- man entrou numa sala onde estava um professor a dar uma aula aos garotos iraquianos, aquilo era uma ESCOLA!

Fiquei em choque!... O professor começou a chorar e disse:

“Digam a este novo governo, mostrem-lhes esta escola, será isto uma escola? Honestamente vocês chamam a isto uma escola? Será que este é um ambiente saudável para as crianças receberem ensino? Porque é que os filhos das entidades iraquianas estudam em escolas especiais? Como podemos nós educar uma nova geração de jovens Iraquianos numa escola destas?...”

Eu saltei e gritei para a TV… Eles não querem que vocês eduquem uma nova geração de iraquianos... Seu louco... Eles não vos querem fazer isso... Eles são persas!

Há coisas que muita gente não entende… especialmente não Iraquianos, este governo fantoche além de serem fanáticos Xiitas… são Persas, não são Iraquianos, vieram para destruir, roubar e matar o povo Iraquiano, eles não querem que os Iraquianos tenham elevados níveis de instrução, assassinaram muitos dos nossos professores, doutores e cientistas. Os felizes professores, doutores e cientistas tiveram de escolher entre deixarem o Iraque ou serem mortos.

Está publicada uma lista dos Cérebros Iraquianos mortos

Honestamente, quererão convencer-me que este governo fantoche resolverá as disputas da fronteira com o Irão a favor do Iraque? Isso é treta… é precisamente a mesma coisa que dizer que vão devolver o Alasca à Rússia… e sem pagar.

Os Iranianos já se apoderaram de mais de três poços de petróleo e este governo fantoche não está a fazer nada contra isso… por que deveriam fazer? Eles são Iranianos… porque deveriam resolver isso a favor do Iraque?

Eu já sei que eles se vão apoderar de mais poços de petróleo, mais terra e que podem assinar um acordo em como isto é solo Iraniano e que podem apoderar-se de MAIS solo Iraquiano em vez de o devolverem.

A História repete-se… desde os tempos do Rei Nabucodonosor, os Persas vão-se apoderando do solo Iraquiano sempre que há um Acordo de Demarcação… geralmente depois das guerras entre o Iraque e o Irão.

Eles não disseram que o regime de Saddam Hussein era um regime corrupto, brutal, uma organização criminosa, um bando de tiranos, e etc.?

Disseram isso antes, durante e depois de virem para o Iraque atrás dos tanques americanos…

Porque é que vocês não podem ser melhores do que ele? Porque é que vocês não podem dar ao povo Iraquiano coisas melhores do que aquilo que Saddam Hussein lhe deu? Pelo menos segurança, eletricidade e água limpa… pelo menos estas três, ou será que estão mais ocupados em roubar o Iraque? Recentemente faltaram 40 bilhões de dólares das contas do governo fantoche… NINGUÉM sabe para onde foi este dinheiro… NINGUÉM! Não são 40 dólares… são 40 BILHÕES DE DÓLARES! Uma soma que é impossível esconder…

E o Silêncio continua sobre os crimes cometidos no Iraque…

Até quando os Iraquianos vão continuar em Silêncio?...

ACORDEM!...

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Publicado em Tribunal Iraque

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

São Paulo 456 anos – Uma cidade submersa no caos da gestão Serra/Kassab

Em reunião nessa última terça-feira (26), a Comissão Política do Comitê Municipal de São Paulo do PCdoB aprovou documento no qual faz um balanço político sobre os impactos da gestão DEMo-Tucana na Capital Paulista.


A cidade de São Paulo completou no mês de janeiro 456 anos de sua fundação. Ela que acolhe diariamente pessoas do Brasil e do mundo e se tornou a cidade mais populosa do Hemisfério Sul. Atualmente ostenta o décimo lugar como a cidade mais rica do mundo. Porém, nos últimos 40 anos, a cidade cresceu desenfreada e quase dobrou a sua população - em 1970 eram 5.925.000 habitantes, hoje são mais de 11 milhões. O poder público colaborou com esse crescimento desordenado ditado pela especulação imobiliária, pela industria automobilística e pelos interesses das elites. Na capital paulista existem distritos com padrões europeus, como Higienópolis, Aclimação, Jardins e, também, bairros parecidos com o Haiti devastado. Há um grande déficit social nas áreas de habitação, saúde, educação, transporte público, creches entre tantos outros.

No inicio dos anos 90, a desindustrialização ganhou força em São Paulo aumentando o número de desempregados e crescendo o emprego informal. O sopro Neoliberal freiou o desenvolvimento da cidade e seus problemas se agravaram. Nossos gestores, seguido a cartilha neoliberal, enfraqueceram o poder público no seu papel de superar os entraves e buscar diminuir as desigualdades. As poucas empresas públicas que restaram foram sucateadas e perderam seu papel indutivo e fiscalizador. As privatizações e as terceirizações dominaram as áreas essenciais da gestão pública com a visão privada. Os problemas estruturais da cidade não são enfrentados com devido empenho político, daí o trânsito caótico, as enchentes e os desabamentos serem fatores que levam pessoas a perderem vidas nessa metrópole.

Hoje, a cidade é dirigida, assim como o Estado de São Paulo, por um consórcio político (PSDB e DEM) que ao contrário do governo federal não aposta no desenvolvimento econômico. A arrecadação da cidade, fruto do crescimento econômico do País e da ampliação de receitas saiu de R$ 11,6 bilhões em 2003 para mais de 27 bilhões aprovados para 2010, um crescimento de mais de 133%. Porém, isso não representou maior investimento na infraestrutura e nas questões sociais para diminuir os problemas e as desigualdades. As gestões Serra/Kassab não cumprem suas promessas de campanha e ao contrário de uma imagem de bons administradores “tucanos” e “democratas” deixam a cidade e a população submersa no mais absoluto caos todos os dias.

Uma cidade submersa no caos
Sem um plano eficiente de moradia e de urbanização o PSDB, que governa o Estado há mais de 16 anos, jogou a população para as margens dos rios e dos mananciais. Hoje, tanto a capital como as cidades vizinhas da região metropolitana da Grande São Paulo, convivem com o drama dos deslizamentos e das inundações.

No caso das enchentes, a prefeitura investiu somente 63% dos recursos orçados em 2009 nos serviços de manutenção e conservação do sistema de drenagem. Já os desabamentos são consequências da falta de uma política de urbanização e de construção de novas unidades habitacionais priorizado milhares de famílias que vivem nas centenas de áreas de riscos geológicos da cidade e em áreas de várzea como o Jd. Pantanal e Jd. Romano, bairros que desde 08 de dezembro de 2009 estão submersos.

No transporte, a população convive com um serviço de péssima qualidade. São poucos ônibus, um dos menores metros do mundo, e em contra partida tem uma frota de carros particulares que ultrapassa 5 milhões de veículos causando quilômetros de congestionamentos todos os dias. Além de não abastecer a população com transporte de qualidade, as gestões Serra/Kassab aumentaram os valores de ônibus e metro afetando o bolso dos paulistanos. As administrações de Serra e de Kassab não aplicaram os recursos orçados para a construção de corredores, terminais de ônibus e outras melhorias a favor do transporte coletivo.

Uma outra São Paulo é possível
Com tudo isso, se faz necessário um novo projeto de desenvolvimento para a cidade e para o estado de São Paulo. É preciso rever as políticas de urbanização, transporte, saúde, moradia, tributária, educação e emprego. É preciso dar mais qualidade de vida para a sua população e impulsionar novamente essa locomotiva chamada São Paulo.

A população paulistana demonstra insatisfação e indignação com os acontecimentos na semana de seu aniversário e cobra de forma legítima do governo municipal mais compromisso com a cidade. É preciso combater os problemas estruturais que junto com as profundas desigualdades tem sido a marca da atual gestão.

O PCdoB continuará sua trajetória de 87 anos de luta pelos direitos dos trabalhadores, e do povo paulistano, e não medirá esforços na denuncia e na busca de soluções para que, em um futuro breve, a população de São Paulo possa comemorar o aniversário da Cidade com respeito, dignidade e menos desigualdade. Uma cidade mais humana com desenvolvimento econômico e social que garanta trabalho, justiça, moradia, saúde, educação, esporte e lazer para todos.

São Paulo, 26 de Janeiro de 2010.
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Comissão Política do Comitê Municipal Paulistano.
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Original em Vermelho

Além do imperialismo ecológico

Jayati Ghosh
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A disputa sobre a mudança climática não é só uma batalha entre ricos e pobres: ilustra a futilidade da obsessão do crescimento econômico. O imperialismo ecológico – o crescimento do centro do sistema a taxas insustentáveis, mediante a exaustiva degradação ecológica da periferia– está gerando agora um conjunto de contradições ecológicas em escala planetária que põe em perigo a biosfera em seu conjunto.
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A conferência de Copenhague não transmitiu nenhuma esperança de mudança substancial, nem sequer uma indicação de que os líderes mundiais sejam suficientemente conscientes da amplitude e urgência do problema. Mas, constitui isso uma surpresa? Nada indicava no tão animado período prévio à conferência que os organizadores tivessem verdadeiramente a ambição de mudar seu curso e deter ou inverter um processo de crescimento claramente insustentável.

Parte do problema reside em que a questão da mudança climática se descreve cada vez mais como concorrência de interesses entre países. Deste modo, a conferência é interpretada como uma luta entre “os dos grandes culpados” - os EE.UU. e China – ou entre um pequeno grupo de nações desenvolvidas e um pequeno grupo de países recém emergentes (o grupo dos quatro, China, Índia, Brasil e África do Sul), ou na melhor das hipóteses, entre países ricos e pobres. O legado histórico do crescimento no passado dos países ricos, que tem uma repercussão adversa real, se deixa sentir vivamente no mundo em desenvolvimento. Não se trata só do passado: as emissões per capita de gases de estufa no mundo desenvolvido superam ainda em muito as de qualquer país em desenvolvimento, incluída a China.
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Assim, a tentativa dos comentaristas do norte de por a culpa sobre alguns países pela falta de resultado é vista na maioria dos países em desenvolvimento como uma prova a mais de um enfoque essencialmente colonial.

Mas descrever isto como uma luta entre países perde de vista o ponto essencial: que a questão está vinculada a um sistema econômico – o capitalismo – que depende de forma crítica do rápido crescimento como força impulsora, ainda que este “crescimento” não suponha uma vida melhor para as pessoas. De maneira que não se questiona a suposição de que os países ricos cuja população diminui devam seguir crescendo em términos de PIB, em lugar de encontrar formas distintas de criar e distribuir a produção para gerar uma maior qualidade de vida. Não se debate o padrão de “crescimento” dos países em desenvolvimento “com êxito”, que se tem produzido, em muitos casos, ao preço do aumento da desigualdade, de maior insegurança material para um setor considerável da população e um enorme prejuízo ao meio ambiente.

Uma vez que essas questões nem sequer se puseram sobre a mesa na conferência de Copenhague, inclusive um resultado com “êxito” sobre a base de uma declaração comum apenas se assinalou o tipo de mudança que se deseja. Mas isso não significa que o problema haja desaparecido; de fato, é mais premente que nunca.
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Os otimistas crêem que o problema se pode resolver com um resultado benéfico para todos que se baseie no crescimento "verde" e as novas tecnologias que proporcionam uma produção desmaterializada, de modo que o crescimento tenha um impacto decrescente sobre o meio ambiente. Mas essa esperança se vê também limitada pelo paradoxo de Jevons (do economista do século XIX inglês William Stanley Jevons) [1], que estabelece que a expansão tipicamente inibe de forma característica qualquer aumento da eficiência no rendimento dos materiais e da energia.
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Assim se elucida em um livro importante de recente publicação de John Bellamy Foster. [2] Foster sustem que uma reorganização racional do metabolismo entre natureza e sociedade deve dirigir-se não só à mudança climática mas também ao conjunto completo de problemas ambientais. “O imenso perigo que enfrenta hoje a espécie humana (...) não se deve só às limitações do meio ambiente natural mas também que decorre de um sistema social alienado que gira sem controle e, mais concretamente, do imperialismo norte-americano”. (pág. 105)
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O que tem a ver com isto o imperialismo? "O capital lança-se contra barreiras ecológicas que não se pode superar em termos de biosfera, como era anteriormente o caso, através do "arranjo espacial" da expansão geográfica e a exploração. O imperialismo ecológico – o crescimento do centro do sistema a taxas insustentáveis, mediante a exaustiva degradação ecológica da periferia – está gerando agora um conjunto de contradições ecológicas em escala planetária que põe em perigo a biosfera em seu conjunto". (pág. 249)

Isto não significa que os interesses da gente do centro se oponham inevitavelmente aos da gente da periferia, posto que em ambos os casos se vêem adversamente afetados pelos resultados desses desequilíbrios ecológicos. Significa, por outro lado, que é hoje do interesse de todos nós passar de una obsessão por um crescimento que se dirige primariamente ao aumento do beneficio capitalista a uma organização mais racional da sociedade e da relação entre a humanidade e a natureza.
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Assim pois, existe desde logo uma solução onde todos ganham, mas que não pode basear-se no paradigma econômico existente. A boa noticia é que as alternativas mais humanas e democráticas também têm a probabilidade de ser mais sustentáveis ambientalmente. www.ecoportal.net
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Jayati Ghosh é professora de Economia da Universidade Jawaharlal Nehru de Nova Déli, e secretaria executiva de IDEAS (International Development Economics Associates). Colabora habitualmente com diversos meios jornalísticos da Índia, assim como com varias organizações e movimentos sociais de perfil progressista. É também membro da National Knowledge Commission (Comissão Nacional para o Conhecimento) que assessora ao primeiro ministro indiano
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Tradução para Sin Permiso: Lucas Anton
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Traduzido do espanhol por Rosalvo Maciel
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Notas:
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[1] O paradoxo de Jevons afirma que à medida que o aperfeiçoamento tecnológico aumenta a eficiência com que se usa um recurso, o mais provável é que aumente o consumo de dito recurso, ao invés de diminuir. Concretamente, o paradoxo de Jevons implica que a introdução de tecnologias com maior eficiência energética pode, por fim, aumentar o consumo total de energia.
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[2] John Bellamy Foster, The Ecological Revolution: Making Peace with the Planet, Nueva York, Monthly Review Press, 2009.

O desenho de Kalvellido


Contrastes de classe

O terremoto no Haiti desnudou a indigência a que o capitalismo votou o país. O imperialismo prepara-se agora para o ocupar e fazer milhões com a reconstrução e a exploração dos seus recursos naturais.

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O Haiti revela a impiedosa lógica do sistema. Nem o fato de Port-au-Prince ter ficado em escombros, e três milhões de habitantes se encontrarem imersos em entulho compadece as classes dominantes. As campanhas e as palavras graves escondem a operação em curso: trata-se de uma ocupação cujo resultado será o avolumar da tragédia social que emergiu com a catástrofe, um negócio de milhões e uma manobra do volte-face que o imperialismo procura na América Latina (Honduras, provocações a partir de Curaçao, bases na Colômbia).

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Os EUA tomaram de assalto o aeroporto e o palácio presidencial e enviaram para o território, onde curiosamente já têm a quinta maior embaixada do mundo, um contingente militar multidisciplinar que superava em 30 vezes os profissionais de saúde destacados. Com os dez mil soldados já estacionados no Haiti, antes do terremoto, sob mandato da ONU, o total de tropas estrangeiras per capita supera o do Afeganistão.

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A prioridade de Washington não foi aterrar ajuda alimentar e equipas de salvamento, mas fazer chegar ao território milhares de soldados, um porta-aviões nuclear, submarinos e outros vasos de guerra. O Comando Sul do Pentágono, cuja função é promover a estratégia de Washington na região, responde pelas movimentações e entregou à USAID – agência com provada cobertura à espionagem da CIA, e destreza na adjudicação de contratos faraônicos de «ajuda humanitária» e reconstrução (Iraque, Afeganistão) – a distribuição de víveres e outros bens fundamentais.

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O navio-hospital dos EUA atendeu 10 pessoas nos primeiros dias após o sismo, mostrando ser apenas retaguarda dos EUA, os quais, disse Hillary Clinton, ficarão no Haiti «hoje, amanhã, e no futuro».

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A França e o Brasil protestaram. O embaixador gaulês referiu-se ao aeroporto como um apêndice de Washington. Paris pediu à ONU a definição do papel dos EUA e lembrou que se trata de «ajudar, não ocupar o Haiti». O chefe da proteção civil italiana acrescentou que os EUA confundem ajuda humanitária com militar, e considerou que na plataforma logística a prioridade, mais que acelerar o auxílio à população, é identificar os pacotes de ajuda com uma chancela que brilhe na televisão.

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Protestos idênticos mais bem contundentes foram feitos por Cuba, Bolívia, Nicarágua e Venezuela.

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Resultado da dependência

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A informação dominante mostra o desespero e a destruição; empola motins, saques e crenças pagãs para justificar a imagem de uma nação arcaica, «naturalmente» caótica, sobre povoada, ingovernável, veiculando teses colonialistas de matiz racista.

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O que fica por descortinar é que as conseqüências do terremoto remontam ao passado. Olhando apenas para os últimos 20 anos, os bairros arrasados já careciam de saneamento básico, eletricidade e água potável. Os milhares de sem-abrigo, famintos, moribundos sem assistência médica já lutavam pela sobrevivência.

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Os números são claros: 80 por cento dos haitianos vivem abaixo do limiar da pobreza e o país é dos últimos no índice de desenvolvimento humano. O analfabetismo rural é de cerca de 70 por cento e o urbano de mais de 50 por cento. A mortalidade infantil supera os 80 por mil.

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Nenhuma catástrofe natural trouxe os haitianos até aqui nestas condições. Foram os dois golpes de Estado promovidos pela Casa Branca - em 1991, nas primeiras eleições livres, e em 2004, no bicentenário da primeira vitória sobre o colonialismo escravagista na América Latina - que derrubaram Jean-Bertrand Aristide colocando no lugar do «padre dos pobres» o atual presidente, René Preval.

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Foi pela cartilha do capital que se arruinou a agricultura de uma nação de solos férteis, que passou a importar arroz, trigo e açúcar, e empurrou milhares de camponeses e assalariados rurais para Port-au-Prince, fazendo crescer as favelas que agora desabaram.

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Foi sob Préval que se privatizaram portos de águas profundas que poderão servir para escoar o petróleo que alguns sustentam existir no Haiti, e os recursos minerais que todos concordam estarem subexplorados; que se vendeu, para logo desmantelar, as empresas estatais de moagem de trigo e produção de cimento, bens essenciais que no actual contexto o Haiti vai importar a elevado preço; que se distribuiu por três empresas os serviços de comunicações que tanta falta fazem às equipas solidárias.

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Foi também o presidente e o «amigo» yankee quem, contra a Constituição do país, impuseram a presença militar estrangeira, da qual não resulta a construção de qualquer infra-estrutura ou sequer a prometida força local de ordem pública (adjudicada mas nunca concretizada à DynCorp, companhia mercenária com serviço nas guerras de ocupação do imperialismo).

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A missão militar da ONU delega apenas um rasto de repressão contra o povo que, bem recentemente, se manifestou contra as eleições, a inflação e o desemprego, e pelo aumento dos salários miseráveis pagos nas fábricas das multinacionais.

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Foi aplicando a receita imperialista que o governo deu às grandes ONG’s serviços públicos, e é para estas, e só para elas, que os EUA já antes canalizavam os milhões de dólares de «ajuda».

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Era bom escrutinar como ficaram os bairros onde habita a elite haitiana. O grau de concentração da riqueza no Haiti é o mais elevado da América Latina, superando inclusivamente o do Brasil, país ao qual nos referimos como de «contrastes». Contrastes de classe que saltam à vista na tragédia haitiana.

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Original em Avante!

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

AFRICOM, a recolonizarão de África pelos EUA

Pese a dificuldade que muitas pessoas ainda têm de encarar a realidade, a verdade é que com Obama a política belicista dos EUA não só se manteve como há já vários exemplos de ter recrudescido.
Agora procuram recolonizar o continente africano para o que precisam de aí instalar um exército de armamento sofisticado – AFRICOM



Tichaona Nhamoyebonde* -



Os revolucionários africanos têm agora que dormir de olhos bem abertos porque os Estados Unidos da América não se detêm perante nada na sua intenção de estabelecer a AFRICOM, um exército estadunidense altamente equipado, permanentemente estacionado em África para supervisionar os interesses imperialistas norte-americanos.

No final do ano passado o governo estadunidense intensificou os seus esforços para estabelecer um exército permanente em África, o chamado Comando de África (Africom, African Command) como a última ferramenta da subtil recolonização de África.

Antes do final do ano passado, o general William E. Garret, comandante do exército dos EUA para África, reuniu-se com os adidos militares de todas as embaixadas africanas em Washington para vender aos seus governos a ideia de um exército estadunidense com base em África.

Os últimos relatórios da Casa Branca deste mês de Janeiro indicam que 75% do trabalho do exército se fez através de uma unidade militar com base em Stuttgart, Alemanha, e que os restantes 25% são dedicados a conseguir um país africano que albergue o exército e faça andar as coisas.

A Libéria e Marrocos ofereceram-se para albergar o AFRICOM, enquanto a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sua sigla em inglês) fechou todas as possibilidades de algum dos seus Estados membros albergar o exército norte-americano.

Outros países permaneceram em silêncio.

A Libéria tem uma longa relação com os Estados Unidos, devido à sua história de escravatura, enquanto o desalinhado Marrocos, que não pertence à União Africana nem realiza eleições, deseja este exército dos EUA para que este o ajude a reprimir qualquer levantamento democrático.

A recusa da SADC é uma pequena vitória para os povos africanos na sua luta pela independência total, mas os restantes blocos regionais de África esforçam-se por chegar a uma postura comum, o que é preocupante.

O próprio exército dos Estados Unidos quer um país mais estratégico que Marrocos e a Libéria, já que o exército será o epicentro de influentes, articuladas e protetoras políticas econômicas e de relações exteriores estadunidenses.

O outro perigo é que o AFRICOM Transforme África num campo de batalha entre os Estados Unidos e grupos terroristas anti-estadunidenses.

O AFRICOM não é mais do que uma cortina de fumo atrás da qual os EUA pretendem esconder os seus desígnios de assegurar o petróleo e outros recursos naturais de África.

Os dirigentes africanos não podem esquecer que os Estados Unidos e Europa utilizaram sempre a força militar como o único meio eficaz de cumprir a sua agenda e de assegurar que os governos de cada país estão dirigidos por pessoas submissas à disciplina norte-americana.

Ficando sediado em África, o AFRICOM garantirá que os tentáculos dos Estados Unidos cheguem facilmente a cada país africano e assim influenciem cada acontecimento em beneficio dos Estados Unidos.

Ao albergar o exército norte-americano, África cede a sua independência militar aos Estados Unidos e inicia o processo de recolonização através de um exército que pode abafar qualquer tentativa por parte de África para mostrar a sua capacidade militar.

A pergunta fundamental é: uma vez estabelecido, quem tirará daí o AFRICOM? Com que meios?

Pela sua origem, o AFRICOM será técnica e financeiramente superior a qualquer exército africano e decidirá com todo o à vontade a mudança de regime em qualquer país, e aprofundará, dirigirá e acelerará o esquema norte-americano de exploração de recursos naturais.

Não resta a menor dúvida que quando este exército norte-americano estiver operacional, serão revogados todos os êxitos das independências em África.

Se os atuais dirigentes africanos cederem aos desejos dos EUA e aceitarem que este seu exército opere em África, ficarão na história como a geração de políticos que aceitou a prevalência dos males futuros.

William Shakespeare daria voltas na tumba e exclamaria: «… para que triunfe o mal basta que os homens de bem não façam nada».

Não podemos esquecer que os africanos, que ainda estão sentidos com a humilhação, a
subjugação, a brutalidade e o complexo de inferioridade provocados pelo colonialismo, não necessitam não precisam de outras formas de colonialismo, mesmo que subtil.

O AFRICOM foi um tema controverso desde que o ex-presidente estadunidense George W. Bush o anunciou pela primeira vez em Fevereiro de 2007.

Os dirigentes africanos não devem esquecer que com a administração de Barack Obama a política norte-americana para África e o resto do mundo em vias de desenvolvimento não mudou um milímetro. Continua a ser uma política militar em apoio dos benefícios materiais.

Os titulares de cargos importantes tanto da administração Bush como de Obama argumentam que o principal objetivo do AFRICOM é profissionalizar as forças de segurança em países-chave de toda a África.

No entanto, nenhuma destas administrações fala do impacte do estabelecimento do AFRICOM sobre partidos e governos minoritários, sobre dirigentes fortes considerados infiéis aos EUA, nem se os EUA utilizarão o AFRICOM para promover ditadores amigos.

Os programas de treino e armamento, e a transferência de armas da Ucrânia para a Guiné Equatorial, Chade, Etiópia e o governo de transição da Somália indicam claramente o uso do poder militar para manter a influência [estadunidense] nos governos de África, que continua a ser uma prioridade da política externa dos Estados Unidos.

Com a Revolução Laranja, os Estados Unidos levaram ao poder os atuais dirigentes da Ucrânia e agora estão a dar-lhes carta branca para fornecerem armamento aos conflitos africanos.

Os dirigentes africanos devem dar mostras solidariedade e bloquear todo o movimento dos Estados Unidos para estabeleceras suas bases na mãe pátria, a menos que queiram ver um novo assalto da colonização.

Se se permitir que o AFRICOM estabeleça uma base em África, Kwame Nkrumah, Robert Mugabe, Sam Nujoma, Nelson Mandela, Jules Nyerere, Hastings Kamuzu Banda, Keneth Kaunda, Agostinho Neto e Samora Machel, entre outros, teriam lutado nas guerras de libertação em vão.

Milhares de africanos que morreram nos cárceres coloniais e nas frentes de guerra terão derramado o seu sangue em vão se África for de novo colonizada.

Porque deveria o atual grupo de dirigentes africanos aceitar sistematicamente a recolonização o que é que aprenderam da sujeição ao colonialismo, ao apartheid e ao racismo? Porque não vai o atual grupo de dirigentes africanos tratar a administração norte-americana de igual para igual e dizer-lhe na cara que não necessita um exército estrangeiro, já que a União Africana está a preparar o seu próprio exército?

Os dirigentes africanos não necessitam de profetas procedentes de Marte para saber que a fascinação estadunidense pelo petróleo, a guerra contra o terrorismo e o exército se centrará agora em África, depois da aventura no Iraque.


* Tichaona Nhamoyebonde é um analista político e reside na Cidade do Cabo, África do Sul.

Este texto foi publicado em Global Research

Tradução de José Paulo Gascão

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Porque os EUA devem bilhões de dólares ao Haiti

Bill Quigley

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Porque é que os EUA devem bilhões de dólares ao Haiti? Colin Powell, antigo secretário de Estado dos EUA, definiu a sua política externa como a "regra do Pottery Barn". Ou seja – "quem parte, paga".

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Durante 200 anos os EUA fizeram tudo para "partir" o Haiti. Estamos em dívida para com o Haiti. Não é uma questão de caridade. Estamos em dívida para com o Haiti por uma questão de justiça. Indenizações. E não apenas os 100 milhões de dólares prometidos pelo presidente Obama – isso são trocos. Os EUA devem ao Haiti bilhões de dólares – com Bs maiúsculos.

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Há séculos que os EUA têm feito tudo para dar cabo do Haiti. Os EUA usaram o Haiti como uma plantação. Os EUA ajudaram a sangrar o país economicamente desde que ele se tornou independente, invadiu várias vezes o país com forças militarizadas, apoiou ditadores que violentaram a população, utilizaram o país como caixote do lixo para nossa conveniência econômica, arruinaram as suas estradas e a sua agricultura, e derrubaram os eleitos pela população. Os EUA até usaram o Haiti como os antigos proprietários de plantações e esgueiravam-se para ali freqüentemente para recreação sexual.

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Eis a história mais resumida de algumas das principais tentativas dos EUA para dar cabo do Haiti.

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Em 1804, quando o Haiti conquistou a sua independência da França na primeira revolução de escravos bem sucedida a nível mundial, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer o país. Os EUA continuaram a recusar o reconhecimento do Haiti durante mais 60 anos. Por quê? Porque os EUA continuavam a escravizar milhões dos seus próprios cidadãos e receavam que o reconhecimento do Haiti encorajasse a revolução dos escravos nos EUA.

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Depois da revolução de 1804, o Haiti foi sujeito a um debilitante embargo econômico pela França e pelos EUA. As sanções americanas duraram até 1863. A França acabou por usar o seu poderio militar para forçar o Haiti a pagar indenizações pelos escravos que foram libertados. As indenizações foram de 150 milhões de francos. (A França vendeu todo o território da Louisiana aos EUA por 80 milhões de francos!).

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O Haiti foi forçado a pedir dinheiro emprestado aos bancos da França e dos EUA para pagar as indenizações à França. Por fim, em 1947, foi finalmente feito um enorme empréstimo aos EUA para liquidar a dívida aos franceses. Qual o valor atual do dinheiro que o Haiti foi forçado a pagar aos bancos franceses e americanos? Mais de 20 bilhões de dólares – com Bs maiúsculos.

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Os EUA ocuparam e governaram o Haiti pela força de 1915 a 1934. O presidente Woodrow Wilson enviou tropas para o invadir em 1915. As revoltas dos haitianos foram dominadas pelos militares americanos – que mataram mais de 2000 num só confronto. Durante os dezenove anos que se seguiram, os EUA controlaram as alfândegas no Haiti, cobraram impostos e dirigiram muitas instituições governamentais. Quantos bilhões foram aspirados pelos EUA durante esses 19 anos?

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De 1957 a 1986, o Haiti foi forçado a viver sob as ditaduras de "Papa Doc" e de "Baby Doc" Duvalier, apoiados pelos americanos. Os EUA apoiaram esses ditadores econômica e militarmente porque eles faziam o que os EUA queriam e eram politicamente "anticomunistas" – ou seja, como se traduz hoje, eram contra os direitos humanos das suas populações. Duvalier roubou milhões ao Haiti e contraiu uma dívida de centenas de milhões que o Haiti ainda continua a dever. Dez mil haitianos perderam a vida. As estimativas revelam que o Haiti tem uma dívida externa de 1,3 mil milhões de dólares e que 40% dessa dívida foi contraída pelos Duvaliers apoiados pelos EUA.

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Há trinta anos o Haiti não importava arroz. Hoje o Haiti importa quase todo o seu arroz. Embora o Haiti fosse à capital do açúcar das Caraíbas, hoje também importa açúcar. Por quê? Os EUA e as instituições financeiras mundiais dominadas pelos EUA – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – forçaram o Haiti a abrir os seus mercados ao mundo. Depois os EUA despejaram no Haiti milhões de toneladas de arroz e açúcar subsidiados pelos EUA – arruinando os seus agricultores e arruinando a agricultura haitiana. Ao arruinar a agricultura haitiana, os EUA forçaram o Haiti a passar a ser o terceiro maior mercado mundial do arroz americano. Foi bom para os lavradores americanos, mau para o Haiti.

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Em 2002, os EUA suspenderam centenas de milhões de dólares de empréstimos ao Haiti que deviam ser utilizados, entre outros projetos públicos, como a educação, para estradas. São essas as mesmas estradas que as equipEs de salvamento têm tido tanta dificuldade em percorrer atualmente!

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Em 2004, os EUA voltaram a destruir a democracia no Haiti quando apoiou o golpe contra o presidente eleito do Haiti, Aristides.

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O Haiti até é usado para recreação sexual tal como no tempo das antigas plantações. Analisem cuidadosamente as notícias e encontrarão inúmeras histórias de abuso de menores por missionários, soldados e trabalhadores caritativos. Mais ainda, há as freqüentes férias sexuais que americanos e outros estrangeiros passam no Haiti. Quanto se deve por isso? Qual o valor que lhe atribuiriam se fossem os vossos irmãos e irmãs?

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Há anos que empresas americanas têm vindo a conluiar-se com a elite haitiana para dirigir oficinas escravizantes enxameadas de milhares de haitianos que ganham menos de dois dólares por dia.

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O povo haitiano tem resistido ao poder econômico e militar dos EUA e de outros desde a sua independência. Tal como todos nós, os haitianos também cometem os seus erros. Mas o poder americano tem forçado os haitianos a pagar um preço enorme – mortes, dívida e abusos.

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É tempo de a população americana se juntar aos haitianos e inverter o curso das relações EUA-Haiti.

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Esta breve história mostra porque é que os EUA devem ao Haiti milhares de milhões – com Bs maiúsculos. Isto não é uma questão de caridade. É uma questão de justiça. É uma indenização. A atual crise é uma oportunidade para a população americana tomar consciência da história do nosso país no que se refere ao domínio do Haiti e dar uma resposta deveras justa.

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Para saber mais sobre a história da exploração do Haiti pelos EUA ver:


· Paul Farmer, The Uses of Haiti


· Peter Hallward, Damming the Flood


· Randall Robinson, An Unbroken Agony: Haiti, from Revolution to the Kidnapping of a President


O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/quigley170110.htm

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Tradução de Margarida Ferreira.

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

No-B day

Saramago

Se Cícero ainda vivesse entre vós, italianos, não diria “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, mas sim: “Até quando, ó Berlusconi, atentarás contra a nossa democracia?” Disso se trata. Com a sua peculiaríssima ideia sobre a razão de ser e o significado da instituição democrática, Berlusconi transformou em poucos anos a Itália numa sombra grotesca de país e uma grande parte dos italianos numa multidão de títeres que o seguem de rastos sem se aperceberem de que caminham para o abismo da demissão cívica definitiva, para o descrédito internacional, para a irrisão absoluta.

Com a sua história, a sua cultura, a sua inegável grandeza, Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a “coisa” Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos. Ponho em vós toda a minha esperança.

Original em O Caderno de Saramago

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Conheça os inimigos da Reforma Agrária

Do Jornal Sem Terra

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Depois de conseguirem emplacar a CPMI contra a Reforma Agrária, os setores mais conservadores do Congresso Nacional passaram a escalar o seu time de parlamentares. Foram convocados inimigos do povo brasileiro para atuar na CPMI e nos bastidores. Esses parlamentares têm como características o ódio aos movimentos populares e o combate à Reforma Agrária e às lutas sociais no nosso país.

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São fazendeiros e empresários rurais, que foram financiados por grandes empresas da agricultura e colocaram seus mandatos a serviço do latifúndio e do agronegócio. Nas costas, carregam denúncias de roubo de terras, desvio de dinheiro público, rejeição à desapropriação de donos de terras com trabalho escravo, utilização de recursos ilícitos para campanha eleitoral, devastação ambiental e tráfico de influência.

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Essa CPMI faz parte de uma ofensiva desses parlamentares, que tem mais três frentes no Congresso. Até o fechamento desta edição, os nomes dos parlamentares indicados para a CPMI contra a Reforma Agrária já tinham sido lidos, mas os trabalhos não tinham começado. A CPMI pode se arrastar até junho de 2010. O Jornal Sem Terra deste mês de dezembro (nº 299) apresenta os deputados e senadores que estão na linha de frente na defesa dos interesses da classe dominante rural.

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KÁTIA ABREU / Senadora (DEM-TO) / Suplente na CPMI

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• Formada em psicologia.

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• Presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), eleita em 2008 para três anos de mandato. Foi presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (1995-2005).

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• Dona de duas fazendas improdutivas que concentram 2.500 hectares de terras.

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• Apresentou 23 projetos no Senado e apenas três foram aprovados, mas considerados sem relevância para o país, como a garantia de visita dos avós aos netos.

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• Torrou 60% das verbas do seu gabinete com propaganda (R$ 155.307,37).

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• É alvo de ação civil do Ministério Público na Justiça de Tocantins por descumprir o Código Florestal, desrespeitar povos indígenas e violar a Constituição.

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• Integrante de quadrilha que tomou 105 mil hectares de 80 famílias de camponeses no município de Campos Lindos (TO). Ela e o irmão receberam 2,4 mil hectares com o golpe contra camponeses, em que pagaram menos de R$ 8 por hectare.

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• Documentos internos da CNA apontam que a entidade bancou ilegalmente despesas da sua campanha ao Senado. A CNA pagou R$ 650 mil à agência de publicidade da campanha de Kátia Abreu.

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RONALDO CAIADO / Deputado Federal (DEM-GO)

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• Formado em Medicina.

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• Foi fundador e presidente nacional da União Democrática Ruralista (UDR).

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• É latifundiário. Proprietário de mais 7.669 hectares de terras.

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• Dono de uma fortuna avaliada em mais de R$ 3 milhões

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• Não teve nenhum dos seus 19 projetos aprovados no Congresso.

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• É investigado pelo Ministério Público Eleitoral por captação e uso ilícito de recursos para fins eleitorais. Não declarou despesas na prestação de contas e fez vários saques “na boca do caixa” para o pagamento de despesas em dinheiro vivo, num total de quase R$ 332 mil (28,52% do gasto total da campanha).

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• Foi acusado de prática de crimes de racismo, apologia ou instigação ao genocídio por classificar os nordestinos como “superpopulação dos estratos sociais inferiores” e propor um plano para o extermínio: adição à água potável de um remédio que esterilizasse as mulheres.

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ABELARDO LUPION / Deputado federal (DEM-PR) / Titular na CPMI

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• É empresário e dono de diversas fazendas (três delas em São José dos Pinhais).

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• Foi fundador e presidente da União Democrática Ruralista do Paraná.

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• É um dos líderes mais truculentos da bancada ruralista na Câmara dos Deputados.

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• Faz campanha contra a emenda constitucional que propõe a expropriação de fazendas que utilizam trabalho escravo.

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• Apresentou somente cinco projetos no exercício do mandato. Nenhum foi aprovado.

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• Sua fortuna totaliza R$ 3.240.361,21.

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• Fez movimentação ilícita de R$ 4 milhões na conta bancária da mãe do coordenador de campanha. É réu no inquérito nº 1872, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), por crime eleitoral.

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• Sofre duas representações por apresentar - em troca de benefícios financeiros – uma emenda para as transnacionais Nortox e Monsanto na Câmara, liberando o herbicida glifosato.

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• A Nortox e a Monsanto financiaram a sua campanha em 2002. A Nortox contribuiu com R$ 50 mil para o caixa de campanha; já a Monsanto vendeu ao parlamentar uma fazenda de 145 alqueires, por um terço do valor de mercado.

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• Participou de transação econômica fraudulenta e prejudicial ao patrimônio público da União em intermediação junto à Cooperativa Agropecuária Pratudinho, situada na Bahia, para adquirir 88 máquinas pelo valor de R$ 3.146.000, das quais ficou com 24.

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• Deu para parentes a cota da Câmara dos Deputados, paga com dinheiro público, para seis vôos internacionais para Madri e Nova York.

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ONYX LORENZONI / Deputado Federal (DEM-RS) / Titular na CPMI

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• Formado em medicina veterinária. É empresário.

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• Membro da “Bancada da Bala”, defendeu a manutenção da venda de armas de fogo no Brasil durante o referendo do desarmamento.

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• Gastou 64,37% da verba do seu gabinete com propaganda (R$ 230.621

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• Campanha financiada por empresas como a Gerdau, Votorantin Celulose, Aracruz Celulose, Klabin e Celulose Nipo.

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• Teve apenas um projeto aprovado em todo o seu mandato.

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ALVARO DIAS / Senador (PSDB-PR) / Titular na CPMI

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• Formado em história. É proprietário rural.

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• Foi presidente da CPMI da Terra (2003/2005), que classificou ocupações de terra como “crime hediondo” e “ato terrorista”.

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• Não colocou em votação pedidos de quebra de sigilos bancários e fiscais de entidades patronais, que movimentaram mais de R$ 1 bilhão de recursos públicos. Não convocou fazendeiros envolvidos em ações ilegais de proibição de vistorias pelo INCRA.

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• Divulga na imprensa de forma ilegal fatos mentirosos sobre dados sigilosos das entidades de apoio às famílias de trabalhadores rurais para desmoralizar a luta pela Reforma Agrária.

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• Não declarou R$ 6 milhões à Justiça Eleitoral em 2006. O montante é referente à venda de uma fazenda em 2002.

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LUIS CARLOS HEINZE / Deputado Federal (PP-RS)

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• Formado em engenharia agrônoma.

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• É latifundiário. Dono de diversas frações de terras, totalizando 1162 hectares.

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• Fundador e primeiro-vice-presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (1989-1990).

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• Seus bens somam mais de R$ 1 milhão.

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• Nenhum dos seus projetos foi aprovado durante esta legislatura.

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• Campanha foi financiada pela fumageira Alliance One, responsável por diversos arrestos irregulares em propriedades de pequenos agricultores.

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• Defendeu o assassinato de três fiscais do trabalho em Unaí (MG), declarando que “os caras tiveram que matar um fiscal, de tão acuado que estava esse povo...”, justificando a chacina promovida pelo agronegócio (2008).

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• É contra a regularização de terras quilombolas (descendentes de escravos), que representaria, para ele, “mais um entulho para os produtores rurais”.

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VALDIR COLATTO / Deputado Federal (PMDB/SC)

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• Formado em engenharia agrônoma. Proprietário rural.

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• Foi superintendente nacional da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) (2000-2002).

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• Foi superintendente estadual do INCRA em Santa Catarina (1985- 1986) e secretário interino da Agricultura de Santa Catarina (1987).

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• Desapropriou área de 1.000 hectares para fins desconhecidos na mata nativa quando presidiu o INCRA, causando prejuízos de R$ 200 milhões para o poder público.

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• Apresentou projeto que tira do Poder Executivo e do Poder Judiciário e passa para o Congresso a responsabilidade pela desapropriação de terras por descumprimento da função social.

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• É contra a demarcação das terras indígenas e quilombolas.

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• Autor do projeto que transfere da União para estados e municípios a prerrogativa de fixar o tamanho das áreas de proteção permanente nas margens dos rios e córregos. Com isso, interesses econômicos locais terão maior margem para flexibilizar a legislação ambiental e destruir a natureza.

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• É um dos pivôs de supostas irregularidades envolvendo o uso da verba indenizatória na Câmara dos Deputados.

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TEORIA MARXISTA

O Capitalismo e a Natureza

Abordar as «alterações climáticas» deve (…) ser uma tarefa de capital importância desde que desvendemos desde já as «armadilhas ideológicas» que estão montadas na tese catastrofista e da sua origem antropogênica. A encruzilhada em que a Humanidade se encontra é a que resulta das limitações históricas do capitalismo e que serão apenas solucionadas pelo poder criativo dos homens e das mulheres, superando a forma de organização social, econômica e política do capitalismo e capitalizando todos os meios já hoje disponíveis e os que mais possamos desenvolver no caminho da luta para substituir o capitalismo pelo socialismo, rumo ao comunismo”.

Miguel Tiago*

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A Natureza é o substrato do desenvolvimento e o meio em que se desenvolve a luta de classes. É também na relação com os recursos naturais que se trava uma disputa de interesses de classe antagônicos, na medida em que a utilização desses recursos é uma base fundamental da construção da sociedade humana.


A atual fase do capitalismo, de evidente aproximação dos seus limites históricos, tem agravado os impactos da exploração capitalista também no quadro da relação entre as sociedades e a Natureza. A apropriação da produção é acompanhada por uma apropriação direta dos recursos, mercantilizando mesmo os bens ambientais, o que bem demonstra o caráter predatório do sistema capitalista e a urgente necessidade de o ultrapassar, na medida em que a Natureza contém o conjunto de recursos finitos que são fundamentais para o desenvolvimento integrado da Humanidade. O seu esgotamento, ou destruição têm implicações diretas sobretudo nas camadas trabalhadoras, tendo em conta a elitização galopante do acesso à qualidade de vida e ambiental. A luta dos trabalhadores e dos comunistas é, por isso mesmo, também uma luta em defesa da preservação e da gestão racional dos recursos naturais, subordinando a sua gestão aos interesses comuns e não à acumulação de lucros.


A atual campanha mediática e política em torno das preocupações ambientais não deve pois passar ao lado das preocupações do Partido, numa abordagem crítica e transformadora. Um dos eixos principais daquilo a que a Resolução Política do XVIII Congresso do PCP descreve como o «dogma ambientalista» é a campanha política em torno das «alterações climáticas». Significará essa nossa análise uma secundarização das preocupações ambientais? Antes pelo contrário, a desmistificação desse «dogma» é a única forma de intervir realmente sobre os problemas que cada vez mais se agudizam na relação capitalismo – Natureza. Esses problemas, traduzidos na dilapidação dos recursos e no conseqüente empobrecimento das camadas trabalhadoras que deles dependem direta ou indiretamente, são fruto de características intrínsecas ao funcionamento do sistema capitalista. Decorre da lei da baixa tendencial da taxa de lucro e das suas contradições internas, a necessidade de o capital [1] continuar permanentemente o seu esforço de expansão – o que é bem sintetizado por Engels quando afirma «[O capital] tem de permanecer em crescimento e expansão, ou terá de morrer.» [2], permitindo assim a continuidade da sua força motriz: a taxa de lucro. Isso tem implicações muito concretas na gestão de recursos naturais e na sua apropriação, sendo que são, em grande medida, a fonte de toda a matéria-prima ou elementos fundamentais à vida de todos os seres humanos. Nesse caminho de crescimento e acumulação, os bens ambientais tornaram-se mercadorias à luz da perspectiva da classe dominante.

É neste quadro que se torna decisiva a inclusão das questões ambientais na luta de massas e na luta dos trabalhadores. No atual cenário de crise global da economia capitalista, o próprio sistema é confrontado com um momento de decisões críticas em torno dos paradigmas produtivos, econômicos e financeiros que sustentam o capitalismo na sua fase de desenvolvimento atual. Depois de ampla e claramente falhada qualquer conseqüência positiva visível do Protocolo de Quioto, seria de esperar uma reavaliação dos instrumentos de intervenção por parte dos organismos internacionais, nomeadamente da Convenção Quadro para as Alterações Climáticas (UNFCCC), organismo das Nações Unidas. Ao invés disso, a Conferência das Partes dessa Convenção em Copenhagen assume-se como a clara sucessora de Quioto e Bali, mantendo precisamente os mesmos instrumentos, e centrando a intervenção das sociedades humanas nos aspectos meramente financeiros, sem assumir e, mais grave ainda, mascarando a necessidade urgente de proceder a profundas transformações de natureza anticapitalista.


É certo que após a explosão da crise econômica e estrutural do capitalismo, muitos são os que falam de «novo paradigma» e de «maior intervenção e regulação» do Sistema, acompanhados dos que supostamente promovem o «novo paradigma energético». No entanto, é revelador que sejam esses os primeiros a dogmatizar o funcionamento da economia capitalista como ponto de partida para qualquer «novo paradigma». Na esteira dos ensaios em torno de «sustentabilidade», «desenvolvimento sustentável» (ver Relatório Brundtland [3]), surgem as novas diversões ideológicas do sistema capitalista orientadas no essencial sempre pelo mesmo objetivo central: permitir a continuidade e aprofundamento da apropriação de mais-valias através da exploração do Trabalho. O equilíbrio em que o capital vai jogando estes novos «trunfos» da ofensiva ideológica é, porém, cada vez mais instável, tendo em conta as flagrantes assimetrias na distribuição dos benefícios tecnológicos, dos recursos naturais e da riqueza produzida.

Chegados a este ponto da História, dos seres humanos e do planeta, torna-se evidente a necessidade de harmonização entre as atividades humanas e a dinâmica da Natureza mas, ainda assim, muitas dúvidas, nomeadamente científicas, persistem sobre as formas e a extensão das influências de cada uma das atividades humanas na Natureza e, particularmente, no clima, sobre o qual recai grande parte do arsenal ideológico do capitalismo. Nesta sua fase de desenvolvimento, no limiar desse «novo paradigma econômico e energético», importa essencialmente desmontar as suas contradições inerentes.

No seguimento do Protocolo de Quioto, da criação dos mercados de licenças de emissão de Gases com Efeito Estufa (GEE), das negociações internacionais, surgem novas ofensivas globais que visam essencialmente apropriar a Natureza e o Meio Ambiente como mercadoria e filão de negócios absolutamente incomensuráveis, por um lado e servir de argumento para-científico de chantagem e de diversão ideológica, por outro. O sistema capitalista busca agora em cenários de alterações climáticas (depois de «aquecimento global» se ter revelado um termo equívoco) o elemento de distração sobre os reais problemas que se colocam no plano político e econômico-social. A solução para os problemas da relação entre o ser humano e a Natureza não reside em alterações de fachada no sistema, mas sim na ruptura radical com o próprio funcionamento do sistema, superando-o historicamente.


A comunicação social tem desempenhado um papel fundamental na difusão de um dogma ambientalista que, não funcionando como argumento em si mesmo, é revelador das pressões que existem para a criação de uma cultura supostamente científica em torno de um alarmismo e histeria que é contraditada por dúvidas e outros estudos científicos convenientemente escondidos pela comunicação social dominante. É importante ter a consciência de que a Investigação Científica é também um processo social, sujeito a instrumentalização pela classe dominante. Não é descartável o fato de existirem estudos diversos que não reconhecem existência de relação causa-efeito entre a concentração atmosférica de CO2 e a temperatura à superfície da Terra, da mesma forma que devemos ter presente a evidência segura de muitas variações climáticas ao longo da história do planeta, determinadas por fatores muito diversos. No que toca ao Ártico, por exemplo, o atual alarmismo deve ser questionado quando olhamos para a série de dados que retrata os mínimos de área de mar gelado e verificamos que não existe uma tendência tão alarmante quanto isso, sendo que o mínimo de 2007 (cerca de 4.200.000 km2) é bem inferior ao mínimo de 2009 (5.249.844 km2)[4]. Na verdade, muitos outros dados apontam para uma variabilidade climática do planeta muito significativa ao longo da sua história de mais de 4,6 mil milhões de anos, sem qualquer ligação que comprove dependência relativa às concentrações de CO2.


A climatologia e a paleo-climatologia não são propriamente ciências simplistas como se tem vindo a tentar fazer crer e não se compadecem com modelações baseadas em «regras de três simples» tão elementares quanto as que deram origem à tese ultrapassada do aquecimento global em «hockey-stick» (a primeira hipótese de subida de temperatura quase como se fosse diretamente proporcional às concentrações atmosféricas de CO2). É também urgente denunciar que, ao contrário do que se assume muitas vezes publicamente, o IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) – ainda que constituído por uma vasta rede de investigadores – não é um organismo científico, mas político, do qual não resultam necessariamente conclusões científicas na verdadeira acepção do conceito, ou seja, os relatórios finais do IPCC não são alvo de avaliação independente nem sujeitos a confronto em testes experimentais, como se exige a qualquer trabalho científico para ser validado.


A mercantilização dos bens ambientais, a diversão ideológica, o branqueamento das responsabilidades de classe são todos efeitos diretos da histeria de massas que se pretende agudizar com a generalização do «dogma».


É, por exemplo, paradoxal que mesmo quando os custos de produção energética são menores cresçam os seus custos finais. Essa relação entre custos de produção e preço revela bem o inquantificável aumento de lucro que as companhias de produção energética obtêm da chantagem ambientalista, importante componente desse aumento de preço, aliada obviamente à pressão especulativa que controla todo o mercado dos combustíveis fósseis com repercussões nos custos da produção e distribuição de energia final. A alteração de «paradigma econômico e energético» de que a classe dominante tanto fala é, no essencial, resumida a um conjunto de alterações na produção, mas mantendo perfeitamente intocada a matriz que reside, não na produção mas na organização e posse dos meios de produção, ou seja, no modo de produção. O que está hoje em causa é mais do que saber se a energia pode ou não ser obtida de fontes renováveis e limpas, mas sim até que ponto o capital se apropria da produção energética proveniente dessas fontes. O grau de apropriação capitalista determinará o grau de utilização dessas fontes e dessas tecnologias e é essa barreira que os trabalhadores de todo o mundo devem vencer, sob pena de subsistir, não apenas a injustiça inerente à exploração capitalista, mas também a dilapidação da Natureza e dos seus recursos na medida em que constituem, não recursos econômicos comuns, mas apenas mercadorias a valorizar e a gerar lucro.


O mecanismo subjacente ao Protocolo de Quioto e, ao que tudo indica, ao futuro de Copenhagen está longe de ser uma solução para a diminuição da emissão de GEE, mas poderá vir a ser, sem dúvida, um dos mais importantes mercados da atualidade, na medida em que a bolsa de carbono poderá representar a curto prazo um mercado de mais de 700 mil milhões de dólares. Não podemos ignorar que a constituição de uma bolsa de licenças de emissão significa a transferência de riqueza entre diferentes sectores sociais e produtivos, bem como o aumento dos custos do consumo da energia, através da transferência de custos em torno de mecanismos não produtivos (como a transação em bolsa de licenças de emissões) para o consumidor.


Com esta política, não só se escamoteiam as reais responsabilidades de classe, como se dão os primeiros passos para a privatização dos recursos atmosféricos, como é o ar que respiramos. É absolutamente inaceitável que a resposta a uma hipotética influência antropogênica no clima seja resolvida com a privatização da atmosfera. Com essa estratégia o capital também encobre os mais graves impactos da poluição atmosférica, que são bastante mais vastos que os que se crêem existir sobre o clima, nomeadamente no que toca à saúde, aos equilíbrios ecológicos, à qualidade das águas e do ar. Pretende a classe dominante que se ignore que o uso dos solos, as impermeabilizações, os desmatamentos, a desertificação, são causas muito significativas no que toca às transferências de calor entre atmosfera, geosfera e Sol, assim contribuindo também para a agudização de fenômenos climáticos extremos.


Abordar as «alterações climáticas» deve, da nossa parte, ser uma tarefa de capital importância desde que desvendemos desde já as «armadilhas ideológicas» que estão montadas na tese catastrofista e da sua origem antropogênica.


A encruzilhada em que a Humanidade se encontra é a que resulta das limitações históricas do capitalismo e que serão apenas solucionadas pelo poder criativo dos homens e das mulheres, superando a forma de organização social, econômica e política do capitalismo e capitalizando todos os meios já hoje disponíveis e os que mais possamos desenvolver no caminho da luta para substituir o capitalismo pelo socialismo, rumo ao comunismo. Não será outra senão essa a resposta que os trabalhadores poderão dar aos grandes problemas que hoje se nos colocam. É essencial, pois, colocar a discussão da relação da Humanidade com a Natureza no espaço a que pertence: no espaço da luta de classes e da disputa do poder político e da posse dos bens e recursos naturais, com a plena consciência de que só o socialismo poderá criar as condições para a construção de uma relação harmoniosa entre a Humanidade e a Natureza.



Notas:
(1) Marx, Karl – O Capital, Vol. III, Livro III, Capítulo XV.

(2) Engels, Friederich - Prefácio à Segunda Edição Alemã (1892) de «A situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra» (1845).

(3) Relatório da ONU, sob o título «O Nosso Futuro Comum, onde se define pela primeira vez o conceito de «desenvolvimento sustentável».

(4) De acordo com os dados IARC (International Arctic Research Center) - JAXA (Japanese Aeorospace Exploration Agency), com análise de dados no IJIS (sistema de computação da IARC-JAXA), disponíveis em e

http://www.ijis.iarc.uaf.edu/en/home/seaice_extent.htm


* Membro da Comissão Política da Direção Nacional da JCP e deputado do PCP à Assembléia da República


Este texto foi publicado em “O Militante” nº 304 de Janeiro-Fevereiro de 2010.

O Haiti e a maldição branca

No primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém.

Eduardo Galeano*

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O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.


Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria "confinar a peste nessa ilha". Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações.


Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.


O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.


Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.


Da maldição branca não se falou.


A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:


- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?


- O anterior.


- Pois, que seja restabelecido.


E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.


Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram "a dívida francesa". A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro.


O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final.



Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.


Nem Bolívar


Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda.


O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.


Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.


Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York.


O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.


E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.


A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.



E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.


Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.


Náufragos anônimos


Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.


Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.


Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.


Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…


Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.


O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.

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* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

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Publicado em Vermelho

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Forças israelenses retiram órgãos dos haitianos para transplantes

VÍDEO: os haitianos são alertados sobre a retirada de órgãos pelas
Forças de Defesa de Israel


Mr. T. West, presidente da AfriSynergy Productions e respeitado líder do Movimento Negro de Solidariedade, enviou avisos urgentes para o povo do Haiti para se proteja dos médicos das Forças de Defesa de Israel, que montaram um hospital de campanha improvisado em um campo de futebol em Port-au-Prince. Mr. West apresentou provas de que as FDI têm feito o mesmo com os jovens palestinos que capturam e matam a fim de extrair seus rins, fígados, córneas e outros importantes órgãos e tecidos para transplante. Mr. West passou a ser vítima de ataques brutais pelos sionistas com o objetivo de silenciá-lo, de acordo com o seguinte vídeo que a AfriSynergy Productions produziu e divulgou na World Wide Web:


A retirada de órgãos humanos pela FDI e Israel tem sido bem documentada por organizações internacionais de direitos humanos. Além disso, Israel admitiu que os seus patologistas forenses têm retirado órgãos dos palestinos mortos, sem permissão de suas famílias. A questão veio à tona com a confissão do ex-chefe do Instituto de Medicina Legal de Israel, Dr. Jehuda Hiss.

Existem hoje questões legítimas sobre os verdadeiros motivos por trás da presença das Forças de Defesa de Israel no Haiti. Parece que as FDI estão em conluio com as tropas dos Estados Unidos para algum propósito sinistro desconhecido. Ambas estabeleceram completo controle sobre o único aeroporto em Port-au-Prince e tem negado os desembarques de grupos de ajuda médica de outros países, incluindo a recusa de permissão de pouso para aviões de carga pertencentes aos "Médicos Sem Fronteiras". Além disso, as FDI e as tropas estadunidenses já obrigaram repórteres da América Latina a deixar o aeroporto. Agências de notícias do México e da Venezuela foram particularmente visados. Há algo que está ocorrendo no aeroporto e que Israel e os EUA não querem informar. Já um repórter disse que um médico com um recipiente com córneas humanas foi observado no hospital de campanha das FDI.

Original em A Vóz de Aztlan

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Direita usa extradição de Battisti para atingir Lula

Conservadores procuram usar o caso para "enquadrar" o presidente nas vésperas das eleições deste ano


Achille Lollo


Nunca a direita brasileira havia explorado uma questão jurídica Para alcançar dois objetivos eleitorais. O primeiro é a Possibilidade de desqualificar uma Autoridade do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e conseqüentemente retirar-lhe parte do poder que a própria Constituição Determinou. Por isso, a Legislação do Supremo Tribunal Federal (STF), invocada "ad hoc" pelo seu presidente, Gilmar Mendes, é utilizada para desarmar Lula de seu poder político de impedir uma extradição de Cesare Battisti, apesar deste reclamar ser perseguido pelo governo italiano Em função de sua militância política revolucionária. Para concretizar esse paradoxo de Jurisprudência, Gilmar Mendes, em conúbio com os jurídicos Representantes do governo italiano, inventou outro julgamento para retirar ao presidente o poder constitucional de abrigar Battisti não políticos capítulo dos "perseguidos".


Uma espécie de mini-golpe branco que pode até ser considerado um crime contra uma soberania brasileira, uma vez que o STF, com sua segunda sentença, apenas os satisfazer Pretende Interesses políticos de um Estado estrangeiro que já ameaçou represalias caso suas Exigências não FOREM garantidas pelo governo brasileiro.


É evidente que o Esforço de Gilmar Mendes em desqualificar Lula foi muito bem visto pela oposição tucana e os alemães, que pretendem usar uma extradição de Battisti para "Lula" enquadrar na véspera das campanhas eleitorais deste ano. E o segundo alvo da direita brasileira é provocar uma quebra de confiança não seio do governo Lula com um dos Procedimentos deslegitimação do ministro da Justiça, Tarso Genro, que, com base nos poderes constitucionais conferidos na pasta da Justiça, concedeu o asilo político
um Battisti. É bom lembrar que Tarso Genro é o candidato do PT mais Apropriado para derrotar a atual governadora tucana Yeda Crusius (PSDB colocar) e, de novo, uma bandeira petista não Palácio Piratini.


A ajuda de Carta Capital


É imperativo que dizer, quando Battisti foi preso no Rio de Janeiro, a direita brasileira eo próprio Gilmar Mendes nunca planejavam transformar esse processo em um grande "caso nacional", já que o próprio STF, anteriormente, havia criado uma jurisprudência específica sobre o crime político ao Rejeitar os quatro processos de extradição que o governo italiano intentou contra militantes revolucionários italianos refugiados no Brasil. Na realidade, os estrategistas da oposição admitiram que uma Possibilidade de desqualificar uma Autoridade política do presidente em um período pré-eleitoral surgiu quando a revista Carta Capital (notoriamente Aliada do governo Lula) negociava com o governo italiano de Romano Prodi (centro-esquerda) O Empenho dessa revista - sempre premiada com muita publicidade do governo federal - na campanha pela extradição de Cesare Battisti. Assim, depois da visita em São Paulo do ex-Subsecretário de Relações
Exteriores italiano, Donato Di Santo, uma Edição n º 453 de Carta Capital, excepcionalmente, dedicava seis páginas para justificar uma extradição de Battisti, começando, também, um daqueles virtual alimentar um expurgo ideológico setores do PT ainda libertários demasiado e pouco entrosados com os Interesses políticos do governo Prodi.

A ênfase manipuladora de Carta Capital foi tanta que chegou a coroar com uma foto de meia página o então ministro da Justiça italiano, Clemente Mastella, apresentando-o aos seus leitores como principal representante o "progressista" do Estado de direito italiano quando, na realidade, naquela redação era sabido que Mastella principal era o político corrupto da cidade de Caserta e que o jornal La Republica já havia DENUNCIADO por fazer negócios com os diferentes clãs da máfia napolitana (Camorra). Para finalizar o quadro, é bom lembrar que Clemente Mastella foi o responsável pela queda do governo Prodi, em 2008, no momento em que "vendeu" Toda a bancada da sua UDC um Berlusconi, aliado de quem continua.


"Estratégia da Tensão"


Em 1996, Giorgio Napolitano (ex-comunista do PCI e hoje presidente da República Italiana) assumia o Ministério do Interior no governo de centro-esquerda de Romano Prodi, visando, antes de tudo, deslegitimar uma campanha pela anistia política lançada por Toni Negri e , conseqüentemente aprofundar, um caça "no exterior aos ex-guerrilheiros comunistas dos anos 70 que", desde 1980, era o cavalo de batalha da direita italiana.


Para o ex-democrata-cristão Prodi e seus aliados do Partido da Esquerda Democrática (ex-comunistas que haviam renegado o socialismo), um caça não exterior aos ex-guerrilheiros das Brigadas Vermelhas e de outros grupos armados foi uma opção política obrigatória para ganhar uma sustentação dos eleitores moderados ea confiança política do empresariado italiano, que pressionavam para que o governo Prodi programasse como neoliberais "reformas" - em particular, uma desregulamentação do contrato de trabalho, conquistado em 1972 pelo movimento operário após intensas lutas.


Praticamente, foi a partir de 1996 que todos os Governos que permitiram italianos alimentasse uma mídia - direta ou indiretamente - uma perigosa "guerra permanente" contra os ex-guerrilheiros refugiados vermelhos na França, na Nicarágua ou no DA, Brasil com o objetivo de apagar Memória dos italianos como responsabilidades políticas e jurídicas do
Partido que hegemonizou uma política dos anos de 1970 - A Democracia Cristã de Clemente Mastella - e que manobrou silenciosamente uma "Estratégia da Tensão" eo relacionamento com a máfia siciliana "Cosa Nostra". De fato, os Governos liderados por Romano Prodi e também por enterrar conseguiram Berlusconi não da história lodo uma responsabilidade do Estado de Direito que, na década de 1980, específico Criou um "Direito do Estado" para JAF seus serviços secretos, policiais, seus, seus tribunais e os neofascistas na continuação da chamada "Estratégia da Tensão".


Um conceito de luta política e militar apto um impedir o avanço das Organizações da esquerda revolucionária e, assim, Garantir uma tranqüila Implementação do processo de reestruturação industrial. Foi nesse âmbito que o povo italiano Sofreu autênticos massacres, tais como o atentado na Estação Ferroviária de Bolonha, que, em 1980, foi
planejado pelos serviços secretos e realizado pelos neofascistas, matando
85 italianos.


Atentados Destinados a Criar um clima de pânico generalizado que vários setores da mídia para Promover exploravam uma militarização do Estado ea afirmação do pensamento conservador e sobretudo anticomunista. Um contexto que contribuiu bastante para que uma proposta de anistia, apresentada no Parlamento em 1993, fosse congelada em 1996 pelo próprio governo "progressista" de Romano Prodi. Aliás, foi a centro-esquerda que Introduziu No cenário político italiano uma "ausência de excessos na luta contra o terrorismo por parte dos carabineiros, polícia, exército, juízes e serviços secretos".


Dessa forma a história dos anos de chumbo foi manipulada um ponto de conseguir Apresentar os grupos da esquerda armada como os únicos Responsáveis pelos 20 anos de instabilidade econômica e política e imortalizar os militantes da luta armada como desprezíveis Criminosos comuns. Foi nesse cenário que se iniciou o drama de Battisti, tornando-se alvo de "colaboradores que" Arrependidos, em troca de bombásticas Acusações contra o escritor, ganharam do Ministério do Interior, salários polpudos, nova
Identidade, Passaportes e residências na Alemanha e na Inglaterra. Não foi por acaso que o ex-ministro do Interior e depois presidente da República, Francesco Cossiga, escreveu uma carta a Battisti, explicando que ele foi um dos tantos "excessos Judiciários".


Justiça?


Quando o réu é um revolucionário comunista ou anarquista, o Estado de direito italiano utiliza a mão forte dos Tribunais ea retórica demagogia de seus jornais para Governos Pressionar e Opinião Pública um Fim de Obter uma extradição a todo custo. Porém, quando o réu é um dos tantos membros de grupos neofascistas ou agentes secretos ou políticos que cumpriram Tarefas nos anos da "Estratégia da Tensão", então o Estado italiano perde por completo a façanha de heróico e justiceiro silencioso vira um "direito de
Estado "que oculta tudo para não abrir Brechas com o passado comprometer POSSAM que uma política nova nomenclatura.


Parece ficção, mas, na Itália, os 20 anos de história política (1969/1989) nos Quais se registraram cerca de 8 mil Operações de guerrilha urbana, com um saldo de quase 450 mortos, mil feridos, 25 mil Procedimentos Judiciários, 4.500 presos políticos, 1.500 exilados políticos, na prática não existem,.


Os únicos retalhos dessa memória histórica são usados para celebrar uma vitória militar de um Estado de Direito Imaculado "e, também, para manter vivo nos italianos um forte sentimento de ódio e de vingança contra todos Aqueles que se atreveram a sonhar com uma utopia revolucionária . Por isso tudo a extradição de Battisti não é mais uma Necessidade da Justiça. É, antes de tudo, uma "questão de Estado", pela qual é a soberania do Brasil não vale nada.


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Achille Lollo é jornalista italiano, autor do documentário "Palestina, Nossa Luta, Nossa Terra".

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Haiti e a militarização nossa de cada dia

Colômbia com mais sete bases militares. Honduras sob um golpe militar legitimado por uma eleição sem legalidade. A Quarta Frota reativada em 1° de julho de 2008 -depois de mais de 50 anos desativada- e cuja função é patrulhar o Atlântico Sul. E agora o processo crescente de militarização da ajuda humanitária no Haiti.

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No último dia 13 de janeiro, o mundo acordou com uma calamidade de dimensões assustadoras: um terço da população de um país, três milhões de pessoas desabrigadas, mais de 100 mil mortos, cerca de 40 mil mulheres grávidas sem a menor perspectiva de um teto para abrigar seus filhos e filhas. A comunidade internacional se movimenta a passos lentos no sentido de responder o quanto antes a essa tragédia: o terremoto do dia 12 de janeiro no Haiti.

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Como explicar que a longínqua China envie alimentos que chegam mais rápido que os dos EUA, que está a menos de uma hora de vôo de Porto Príncipe? Como explicar que os mais de dois mil fuzileiros navais sejam os primeiros “bens” dos EUA a aportarem nesta ilha caribenha?

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Cuba, Venezuela e a própria Comunidade do Caribe (Caricom) imediatamente enviaram seus médicos, pessoal qualificado para desastres dessa dimensão. O avião da Caricom não pôde aterrissar no aeroporto Toussaint Louverture, assim como o avião da Força Aérea Brasileira. Tiveram que aportar em Santo Domingo, na República Dominicana, uma vez que os fuzileiros navais dos EUA tomaram o controle do aeroporto e dos portos haitianos.

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Cabe a pergunta: como se fecha portos e aeroportos logo após uma tragédia dessa dimensão em que a comunidade internacional está se mobilizando para o envio de medicamentos, comida e roupas? Fechar portos e aeroportos não compõe uma estratégia de guerra? Assim sempre soubemos.

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Desde 2004, o Haiti está ocupado pelas tropas militares da ONU através da Missão de Estabilização do Haiti – Minustah. Desde então, várias organizações nacionais e internacionais têm se posicionado pela retirada das tropas. Após seis anos de permanência no país, pouquíssimo fizeram para a reconstrução do Haiti.

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Sabemos que o comando militar dessa missão está sob responsabilidade do Brasil. Por depoimentos já veiculados na mídia, soubemos que as tropas brasileiras estão fazendo do Haiti um campo de treinamento.

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Como já escrevemos em outros artigos, esses treinamentos servem ao processo de militarização de diversas periferias urbanas. Não é a toa que há treinamentos dessas tropas em favelas do Rio de Janeiro. Elas vão ao Haiti e depois retornam à cidade carioca, como foi o caso da ocupação do Morro da Providência pela Guarda Nacional, em 2008.

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Nesse momento de catástrofe, nos perguntamos: que papel está tendo a Minustah? Onde estavam seus soldados nos primeiros dias da tragédia? Os relatos que nos chegam do Haiti são de que a população pobre ficou absolutamente abandonada.

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Com o crescente papel dos EUA no processo de militarização da ajuda humanitária no Haiti, nos perguntamos o que faz o Presidente Obama, achando pouco enviar soldados que podem chegar ao número de 14 mil, mobilizar Bill Clinton e George W. Bush para serem os coordenadores do esforço de reconstrução do Haiti.

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Como explicar que em um país tão pequeno e tão pobre do Caribe, dois ex-presidentes da maior potência de guerra do mundo – os EUA – sejam designados a cuidar de sua reconstrução? O que está por trás de tudo isso? Em nossa opinião, são estratégias de vários tipos de militarização de nossos países da América. Estamos vendo, ao vivo e em cores, em nome da ajuda humanitária, um país ser ocupado militarmente após uma catástrofe monumental.

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Assim, temos que fortalecer o grito de retirada das tropas militares do Haiti. Não se faz ajuda humanitária com tropas militares. O povo haitiano, através de suas organizações e movimentos sociais, precisa ser apoiado para que sua voz fale mais alto no processo de reconstrução do país.

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Desde última segunda- feira, (18/01) foi constituída no Brasil a Frente Nacional de Solidariedade ao povo haitiano formada por movimentos sociais do campo e da cidade, por centrais sindicais, pastorais sociais, movimento negro, de mulheres, enfim, um espectro amplo de organizações da esquerda brasileira. A tarefa central é trabalhar a ajuda direta junto a organizações sociais haitianas e pela retirada das tropas militares. Muito trabalho existe pela frente. A reconstrução do Haiti vai ser lenta. Mas, não esqueçamos a dívida histórica que todos temos com este país. O Haiti foi a primeira nação do mundo a abolir a escravidão. Será que é esse o seu pecado?

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Sandra Quintela, economista, é integrante do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)/ Rede Jubileu Sul.

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A quem interessa manter o esquecimento?

No dia 15 de janeiro último, no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, no centro do Rio de Janeiro, foi realizado um ato em homenagem ao militante político, Carlos Marighella, além de outros brasileiros que morreram resistindo à ditadura civil-militar.
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O evento foi organizado pelos grupos Tortura Nunca Mais/RJ, Marighella Vive e Exposição Marighella. Cerca de 150 pessoas compareceram.
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O ato teve início com a exibição do filme "O Retrato Falado do Guerrilheiro" sobre a vida de Carlos Marighella, dirigido pelo cineasta Sylvio Tendler, seguido de debate. Quase ao final da primeira parte do evento o coordenador da mesa, Carlos Fayal, foi informado pela gerência do Centro Cultural de que através de um telefonema anônimo uma bomba teria sido colocada no prédio. Rapidamente homenagearam-se outros militantes mortos, sendo que a determinação dos responsáveis era deixar o edifício vazio o mais rápido possível.
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Estávamos atônitos e perplexos e nos perguntávamos: de onde essas vêm as ameaças de bombas? Quem tem medo dessas homenagens? Quem tem medo da verdade? A quem interessa manter o esquecimento?
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O episódio, sem dúvida, foi uma tentativa de intimidar os movimentos que constantemente se manifestam contra as violações dos direitos humanos e tentam trazer para sociedade brasileira o que foi o terrorismo de Estado implantado em nosso país de 1964 a 1985.
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Não podemos aceitar estes fatos em um país que se diz democrático e de direito.
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Não serão tais ameaças e intimidações fascistas que nos farão desistir da nossa luta pela verdade e pela justiça!
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Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2010
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Pela Vida, Pela Paz! Tortura Nunca Mais!
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Grupo Tortura Nunca Mais/RJ
Marighella Vive/RJ

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APELO AO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: NÃO ANISTIE OS TORTURADORES!

Exmo. Sr. Dr. Presidente do

Supremo Tribunal Federal

Ministro Gilmar Mendes

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......................Eminentes Ministros do STF: está nas mãos dos senhores um julgamento de importância histórica para o futuro do Brasil como Estado Democrático de Direito, tendo em vista o julgamento da ADPF (Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 153, proposta em outubro de 2008 pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, que requer que a Corte Suprema interprete o artigo 1º da Lei da Anistia e declare que ela não se aplica aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão contra os seus opositores políticos, durante o regime militar, pois eles não cometeram crimes políticos e nem conexos.

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....................Tortura, assassinato e desaparecimento forçado são crimes de lesa-humanidade, portanto não podem ser objeto de anistia ou auto-anistia.

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....................O Brasil é o único país da América Latina que ainda não julgou criminalmente os carrascos da ditadura militar e é de rigor que seja realizada a interpretação do referido artigo para que possamos instituir o primado da dignidade humana em nosso país.

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....................A banalização da tortura é uma triste herança da ditadura civil militar que tem incidência direta na sociedade brasileira atual.

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....................Estudos científicos e nossa observação demonstram que a impunidade desses crimes de ontem favorece a continuidade da violência atual dos agentes do Estado, que continuam praticando tortura e execuções extrajudiciais contra as populações pobres.

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....................Afastando a incidência da anistia aos torturadores, o Supremo Tribunal Federal fará cessar a degradação social, de parte considerável da população brasileira, que não tem acesso aos direitos essenciais da democracia e nesta medida, o Brasil deixará de ser o país da América Latina que ainda aceita que a prática dos atos inumanos durante a ditadura militar possa ser beneficiada por anistia política.

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....................Estamos certos que o Supremo Tribunal Federal dará a interpretação que fortalecerá a democracia no Brasil, pois Verdade e Justiça são imperativos éticos com os quais o Brasil tem compromissos, na ordem interna, regional e internacional.

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....................Os Ministros do STF têm a nobre missão de fortalecer a democracia e dar aos familiares, vítimas e ao povo brasileiro a resposta necessária para a construção da paz.

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....................Não à anistia para os torturadores, seqüestradores e assassinos dos opositores à ditadura militar.

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Comitê Contra a Anistia aos Torturadores

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Para assinar:

http://www.ajd.org.br/contraanistia_port.php

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Paulo Rogério Ferreira

pela coordenação da ASCJM RG/RS

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O perdão dos criminosos da ditadura é irreversível

Por Mário Maestri, de Porto Alegre

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Na Argentina, Chile e Peru, a Justiça alcança criminosos dos regimes ditatoriais. No Brasil,considera-se que crimes políticos de morte, tortura e seqüestro podem ser esquecidos e perdoados para sempre.

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Do alto dos seus 62 anos como advogado, evocando mestres falecidos mas não esquecidos, colegas, juízes e desembargadores exemplares com quem conviveu, Paulo Brossard pontificou, na Zero Hora (4/1/2010), com a gravidade do patriarca entre os senadores, ao pronunciar-se já mais para a história do que para seus pares e ouvintes: “A anistia é irreversível”. O ex-ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal referia-se, é claro, à Lei nº 6.683, apresentada e sancionada pelo general em turno, em agosto de 1979, anistiando parcialmente os atos de resistência à ditadura e, em forma plena, total e irrestrita, os crimes por ela cometidos contra a população brasileira.

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Literalmente liquidando a proposta de violação da anistia, “concebida nos altos escalões do governo federal ou quem sabe dos baixos [sic]”, invocou seu mestre José Frederico Marques que “ensina o que é corrente entre tratadistas”, – a anistia é “ato legislativo em que o Estado renuncia ao direito de punir”. Uma “verdadeira revogação parcial, hic et nunc, de lei penal”. Competindo ao Legislativo a concessão da anistia, após a promulgação, nem por ele pode ser revogada, sob pena de inconstitucionalidade. Interdição que eleva a “dogma” jurídico, pois a “lei penal só retroage quando benéfica ao acusado [...]”. Daí a “irrevogabilidade”. Apagado para sempre, o delito não será restabelecido, sob pena de “retroatividade”.

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Não haveria dúvidas. O constitucionalista lembra que a norma jurídica não se regeria-imporia por sua justiça, mas por sua vigência. Propõe até mesmo que a “anistia pode ser mais ou menos justa” e, portanto, até mesmo injusta. Definitivamente, o “expediente articulado nos meandros [sic] do Planalto”, constituiria, para ele, o que em Direito denomina-se de inépcia. Coisa, folga dizer, de ineptos. Porém, para Brossard, a justiça não seria o “caráter marcante” da anistia, o qual se encontraria na obtenção da “paz” – um efeito que escaparia, assim, da esfera jurídica para se realizar na esfera social. Lembra que a versão da anistia aprovada em 1979, proposta sobretudo pela oposição consentida, defendia “anistia recíproca” para, segundo ele, pacificar as “duas partes em que o país fora dividido”.

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Destaque-se a contradição dessa última leitura: uma anistia, apesar de irrevogável, caso comprometesse a “paz social”, perderia sua principal razão de ser! E, desnecessário dizer, se concordamos com o juridicismo geral de Brossard, teríamos que aceitar que, após uma hipotética vitória ou empate do nazismo na IIª Guerra Mundial, uma auto-anistia, através de ato legislativo, asseguraria para Hitler, Goebbels, Himmler e caterva o direito, sob a proteção da lei, devido à extinção dos crimes para todo o sempre, de morrerem em suas camas, após gozarem de polpudas aposentadorias de ex-dirigentes do Estado. E sem sequer a obrigação de indicar onde enterraram as cinzas dos milhões de martirizados!

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Justiça e Injustiça

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Erra Paulo Brossard, no geral e particular. Não há normas e dogmas jurídicos por sobre os direitos dos homens e mulheres, reconhecidos e materializados na e através da história.. Exemplifico com realidades conhecidas até mesmo pelos não “tratadistas”. No Brasil, o direito do negreiro sobre o cativo foi a base objetiva do estatuto da propriedade, reafirmado pelos costumes e disposições jurídicas e constitucionais. Nos tribunais do Rio Grande do Sul, por ofensas à ordem escravista, trabalhadores escravizados eram condenados a 1.500 chicotadas e lanhados como uma peça de charque até a morte. Apesar de atos jurídicos perfeitos, aquela propriedade e aquelas penas terroristas eram social e moralmente ilegais, crimes cometidos sob a vigência das leis de então.

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Apoiados na lei, os escravizadores lembraram que o fruto da propriedade não podia ser expropriado sem indenização. Que lhes foi concedida, parcialmente, quando a lei de 1871 determinou a liberdade condicional dos filhos das cativas nascidas após aquele ato. Em 1888, os escravistas não discutiam a moralidade da propriedade sobre o cativo, lembrando apenas, com razão, que era preceito legal e constitucional, portanto, necessariamente indenizável, no caso de extinção. Naquela vez não levaram nada – governantes e forças mais “vivas da nação” preocupavam-se já com o financiamento da vinda dos novos negros, os imigrantes, e despreocupavam-se com a indenização legal da “lavoura andrajosa”.

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Naqueles tempos, o negro Luís Gama, após fugir ao cativeiro ilegal, cursou parcialmente como ouvinte a Escola de Direito do Largo de São Francisco e, já advogado provisionado, libertou talvez um milhar de cativos. Ele defendia que o "escravo que” matasse o “senhor” praticava “ato de legítima defesa". À margem de todas as normas jurídicas de então – e atuais –, apenas reafirmava o direito social e histórico do homem de lutar por sua liberdade essencialmente violada, com as armas de que dispuser e crer necessárias.

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Em 1888, devido à nova correlação social de forças, a propriedade sobre o trabalhador, ato legal e constitucional perfeito, foi violada e enterrada inapelavelmente, aflorando em maior grau, ainda que imperfeito, a justiça social e histórica, própria aos homens. Abandonemos, portanto, o filisteísmo e fetichismo da lei petrificada por sobre os direitos dos povos à justiça.

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Ato imperfeito

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Porém, Brossard erra em forma mais substancial. A anistia de 1979 constituiu um ato imperfeito, nascido e corrompido pela situação de exceção, em que a ordem militar mantinha-se pela força da violência e do apoio dos grandes proprietários do país e do mundo. Ela foi apenas uma iniciativa parida pela necessidade de garantir, ainda que em forma limitada, os direitos violados de milhares de homens e mulheres.

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Em um sentido essencial, estes últimos não foram perdoados e não tiveram ações criminosas e delitivas extintas. Não havia o que perdoar, extinguir ou esquecer, ao não terem cometido qualquer crime e delito. Haviam sido e eram perseguidos por ações legítimas, necessárias, morais e ética de oposição aos agressores dos direitos da população brasileira. Tinham exercido o direito e o dever inarredável do oprimido de levantar-se, de todas as formas, contra a opressão grave, referido por Luís Gama. Ato de anistia ao quais os responsáveis máximos pela violação dos direitos cidadãos e nacionais tentaram astutamente enganchar o perdão das ações suas e de seus agentes, essas sim social e historicamente criminosas.

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O preclaro Paulo Brossard certamente escutou, ainda adolescente, nos bancos ginasiais, quando das aulas de religião, a lição de que o sacerdote não pode absolver a si e a quem com ele peca. Não podiam absolver nem que fosse por tabela, através do parlamento concedido, emasculado e moldado pela ditadura, em 1979. Não há auto-anistia, ainda mais quando se trata de atos cometidos à sombra da proteção do Estado, de tal gravidade que já são considerados pelo pensamento jurídico internacional como imprescritíveis e não anistiáveis, em uma indiscutível procura de adequação aos direitos sociais e históricos dos povos.

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Um crime sem fim

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O princípio da imprescritibilidade e inextinguibilidade de crimes de Estado – genocídio, tortura, assassinato, desaparecimento, etc. – tem sido materializado, ali onde a população mobilizada alcança fazer valer em forma mais perfeita a punição de seus ofensores. Nos últimos anos, têm sido anuladas anistias de crimes de Estados concedidas pelos próprios governos criminosos ou por administrações e parlamentos democraticamente eleitos, lançando-se na lixeira das justificativas jurídico-ideológicas os casuísmos com os quais se pretende defender aqueles crimes e criminosos.

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É o caso da Argentina, onde ditadores, militares e policiais são levados à Justiça, devido à anulação de leis de anistia como a da “Obediência devida”, do “Ponto Final” e os indultos de Carlos Menem (1989-1999). A mesma responsabilização judicial de criminosos de Estado se procede, ainda em forma mais parcial, no Chile e Peru, onde o ex-presidente Fujimori encontra-se já condenado e preso.

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Paulo Brossard não se engana apenas por defender casuisticamente a vigência e inarredabilidade de lei imperfeita, que agride a essência da justiça e a legalidade. Erra, sobretudo, por tentar resgatar indiretamente a ação da ditadura. O que registra, em forma clara e explícita, ao propor que aquele diploma legal buscasse a paz, ao enterrar as divergências e os eventuais excessos das “duas partes em que o país foi dividido”.

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Identifica, em forma inaceitável, a vítima ao vitimador, o violentador ao violentado, como na Europa atual procura-se confundir os partigiani aos fascistas italianos; os maquisards aos vichistas franceses; os republicanos aos falangistas espanhóis. Procura-se resgatar, desse modo, lá e aqui, a ação e os atos dos criminosos de Estado, preservando seus quadros, ainda vivos e, em especial, suas memórias, com as decorrências políticas e sociais inevitáveis para o presente e futuro.

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As propostas de revisão da anistia do Plano Nacional dos Direitos Humanos, apenas apresentado, quanto aos crimes e criminosos da ditadura militar (1964-1985), são atrozmente limitadas, principalmente em relação aos avanços realizados em alguns países da América Latina. Não almejam mais do que a revelação dos destinos dos desaparecidos pela ditadura e eventual nominação dos responsáveis diretos.

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Em parte, a enorme resistência que enfrentam essas tímidas respostas deve-se às posições institucionais que ocupam ainda responsáveis diretos e indiretos por aqueles atos. Sobretudo, ela nasce da vontade dos núcleos centrais das grandes classes proprietárias de manter intocado o direito de impor a exceção e a violência direta e geral sobre a população, quando seus privilégios estejam ameaçados ou assim o exijam. Razão que explica o amplo esforço de apoio à impunidade de oficiais e policiais torturadores, estupradores e assassinos, em alguns casos, confessos.

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Fonte: ViaPolítica/O autor

Mário Maestri, 61, rio-grandense, historiador, é doutor em História pela Université Catholique de Louvain (UCL), Bélgica, e professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Passo Fundo (UPF). Participou, como estudante, da resistência contra a ditadura. Foi preso em 1969, e viveu no exílio, de 1971 a 1977.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quem é o terrorista?

Estados Unidos aproveitam a desgraça do Haiti para uma nova ocupação militar

Patrício Montesinos

Enquanto Cuba envia mais médicos para o Haiti para tentar minorar a desgraça desse país depois do terremoto que sofreu no passado fim-de-semana, os Estados Unidos reforçam os seus efetivos militares numa nova tentativa de ocupar a nação mais pobre da América Latina e Caraíbas, mas que nunca deixou de ser estratégica para os interesses castrenses de Washington.

Informações oficiais revelaram nas últimas horas que 5800 novos soldados norte-americanos chegarão nesta terça-feira [19 de Janeiro] ao Haiti, que se juntarão a outros 7500 que já lá estão em “trabalhos humanitários”, segundo o Pentágono.

A conduta da Casa Branca, contrasta com a da maioria dos países que ofereceram ou materializaram a sua ajuda ao povo desse estado caribenho, que se encontra numa das piores desgraças da sua história, que por certo não têm sido poucas.

Cuba, por exemplo, tem desde há 11 anos mais de 400 cooperantes de medicina no Haiti e reforçou os seus médicos e pessoal paramédico, para além de enviar hospitais de campanha, com o propósito de dar assistência à maior quantidade de pessoas afetadas pelo forte sismo que devastou essa pequena nação.

Para cúmulo dos cúmulos, o ex-presidente norte-americano George W. Bush, o mais guerreirista e sanguinário da história dos Estados Unidos, foi “designado” um dos coordenadores de um suposto fundo para reconstruir o Haiti.

A “nomeação” de W. Bush, com o aval do atual inquilino da Casa Branca, Barack Obama, levantou ainda mais suspeitas de que o Pentágono tem intenções de se apoderar militarmente do país caribenho. Conhecendo a recente história macabra de W. Bush, a sua paixão perversa pelas guerras, as suas invasões do Iraque e Afeganistão, as horrendas torturas a prisioneiros nas prisões de Abu Ghraib e Guantánamo, e as prisões secretas na Europa da norte-americana Agência Central de Inteligência (CIA), ninguém pode acreditar que a atual presença dos Estados Unidos hoje no Haiti seja humanitária.

Seria muito absurdo e ingênuo pensar que esse outrora chefe do regime de Washington pudesse fazer algo para ajudar o povo haitiano, ou qualquer outro povo, e muito menos impulsionar a reconstrução dessa nação.

Fonte: Cuba Debate

Publicado em Informação Alternativa

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No Haiti, miséria da disputa pelo poder sobre os miseráveis

O terremoto que arrasou a capital do Haiti não pôs abaixo apenas prédios e casas, ceifando a vida de dezenas de milhares de haitianos. Ele ruiu as já frágeis instituições de um Estado em permanente crise, corroído pelas dificuldades históricas de constituição de uma nação que emergiu de uma revolução escrava, com população negra e explorada por países ricos.

As imagens de destruição, dor e revolta que vemos na televisão são o ápice de uma situação que já era deplorável, mas ignorada pelo mundo. A catástrofe que atingiu Porto Príncipe colocou o Haiti, seus problemas e seu povo no centro das atenções deste mundo guiado pelo instantâneo.

Antes da tragédia, poucos tinham interesse no futuro do Haiti. A Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti - Minustah - criada pela ONU em 2004 e comandada pelo Brasil, cumpria importante papel na reconstrução desse Estado, como ficou evidente nas últimas eleições legislativas realizadas no país, em 2009.

Agora, com os holofotes voltados para o desastre, outros países saíram da sombra em busca de maior protagonismo no processo de reconstrução do país. Ajuda humanitária, sensibilização diante do sofrimento e da dor, senso de responsabilidade e solidariedade. Pode ser. Mas há também uma profunda disputa política internacional por poder, visibilidade e ascendência no mundo.

Os Estados Unidos são uma peça chave nesse tabuleiro. Já ocuparam e assumiram o controle sobre o aeroporto da capital haitiana, que neste momento é o centro nervoso do poder no país. Isto porque quem controla o aeroporto, controla quem entra e sai do Haiti. Determina quais ajudas receber e quais não receber. Controla o espaço aéreo, comando estratégico para qualquer nação.

O Ministério da Justiça prontamente se pronunciou sobre essa “intervenção” estadunidense. Nelson Jobim fez sua queixa diretamente à secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Sob a tutela dos EUA, o aeroporto já impediu a aterrissagem de aeronaves brasileiras e francesas.

Nunca é demais lembrar que o plano de constituição de bases militares dos Estados Unidos na América Latina vai de vento e popa e, nessa geografia, o Haiti pode ser mais um estratégico ponto de apoio.

Para não dizer que com uma intervenção mais direta os Estados Unidos lustram sua imagem internacional, desgastada por ocupações de destruição. Em particular, ganha Barack Obama que pode, com a missão no Haiti, criar um contraponto à política de seus antecessores e aparecer como o homem da paz – e, quem sabe, fazer jus ao prêmio Nobel recebido.

No próximo domingo, uma teleconferência no Canadá organizada pela ONU vai debater a situação do Haiti e o papel dos países no processo de ajuda humanitária e reconstrução. Não há como deixar de lado os objetivos políticos que cada nação tem nesse processo; seria inocente pensar assim. Mas esses objetivos não podem, de maneira nenhuma, se sobrepor ao objetivo central e número um que é resgatar a dignidade do povo haitiano.

Original em Vermelho

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Pobreza no novo Iraque

Layla Anwar

Fonte: Uruknet

Tradução de Francisca Macias

É sempre assim. Quando eu vou começar a escrever sobre alguma coisa bastante importante, outra coisa com maior importância se sobrepõe, e como aprendi a definir as minhas prioridades na Vida, a minha prioridade foi e continua a ser o Iraque.

Ocupado, devastado, destruído, o Iraque continua a ser uma prioridade, ainda mais assim, quando não vemos qualquer notícia dele, nem nos media convencionais nem nos ‘alternativos’. Mas este é outro assunto que terei de aprofundar com maior detalhe numa próxima carta, porque este SILÊNCIO à volta da causa do Iraque é em si mesmo criminoso.

Deixem-me não perder o fio dos meus pensamentos sobre este assunto, e sabendo que a maioria de vocês, de fora, lhe presta apenas a mesma atenção que uma criança de dez anos, eu vou ser breve e doce. Bem, doce talvez não… mas tão breve e directo quanto possível, exactamente como vocês gostam.

Vou apresentar-lhes meros factos – não penso que a quantidade de informação faça a diferença – calmamente, leiam a seguinte e mais recente do “Novo” Iraque.

POBREZA no Iraque desde 2003

Um estudo publicado pela Universidade de Babel, veio divulgar números surpreendentes relativamente aos níveis de Pobreza no Iraque.

Como devem saber, há dois tipos de índices de pobreza : absoluta e relativa. As definições dadas por economistas a estes índices são 1) pobreza absoluta quando alguém vive com menos de US$ 2 por dia, 2) por outro lado o índice de pobreza relativa, é calculado por indicadores de distribuição da riqueza e desigualdades nessa distribuição da riqueza, combinados com outros indicadores como a inflação, taxas de emprego, etc… Não vou debruçar-me agora sobre os processos de avaliação … só pretendo dar uma definição aproximada daquilo que constitui a pobreza.

Dito isto, esta última publicação académica da Universidade de Babel, diz que DEZ MILHÕES de Iraquianos vivem em pobreza absoluta desde 2003. A grande maioria são jovens – isto é, população com idade inferior a 30 anos, ou seja, o segmento da população que é considerado pertencer ao grupo etário mais produtivo, mas tudo isto é indiferente.

10 Milhões de Iraquianos representam mais de 30% do total da população.

São várias as causas deste estado de pobreza abjecta:

1) A ocupação e violência que produzem uma enorme quantidade de gente sem o mínimo necessário para viver – viúvas, órfãos e desalojados que perfazem 2 Milhões de desalojados internos.

2) O fracasso de todos os esforços de reconstrução, ou seja, de criação de empregos através de projectos.

3) A má gestão de recursos devido à corrupção e falta de quadros especializados, dos tecnocratas e profissionais (a falsificação de diplomas universitários para fins sectários dos Xiitas, não são aqui tidos em conta)

4) A privatização de indústrias e empresas do estado, que significa o encerramento e o despedimento de trabalhadores, sem possibilidade de emprego em qualquer outro lugar…

5) Uma consequência da privatização é a pesada dependência da importação de produtos, e por sua vez o estrangulamento da produção interna que leva de novo ao encerramento de mais empresas.

6) Além disso, a corrupção endémica da maioria – Xiitas sectários, Curdos, um governo fantoche, os salários exorbitantes e privilégios dos membros do parlamento fantoche, partidos e milícias têm contribuído grandemente para a desigualdade da distribuição da riqueza combinada com a má gestão dos recursos do país, levaram a uma taxa de inflação que alimenta o ciclo vicioso de pobreza.

7) A taxa de desemprego anda à volta dos 50% (o número oficial é 30%), sem nenhuma possibilidade de se encontrar trabalho, devido a todos os pontos acima referidos, o que faz aumentar a dimensão da pobreza absoluta e economistas iraquianos calculam que esta tendência suba nos próximos anos.

8) Outro factor a considerar é a total ausência desde 2003, das instituições sociais e de seguros e planos de pensões que serviam para garantir um salário mínimo para quem não tem trabalho.

9) Uma coisa a ter em atenção é que os desenvolvimentos acima, tiveram origem num terreno já vulnerável…sobrepondo-se a uma sociedade já massacrada por 13 anos de sanções, por um embargo imposto pelo Ocidente civilizado.

10)O fracasso do sistema de ensino devido à falta de financiamento (corrupção, sectarismo, falta de pessoal competente devido ao exílio, o assassinato de académicos e professores…) a juntar a um estado de insegurança permanente devido à violência e pobreza, significam que a taxa de iliteracia (que tinha sido erradicada no governo de Saddam Hussein) e os baixos níveis de educação vão contribuir para o ciclo desemprego/pobreza, exacerbando-o ainda mais.

As consequências, ou efeitos colaterais se gostam desta espécie de pobreza, deram origem a muito sérios e graves problemas sociais, nomeadamente…

- Crimes – sequestros

- Tráfico de pessoas : mulheres e crianças

- Prostituição

- Toxicodependência

- Tráfico de órgãos

Para só enumerar alguns…

Nota: O Iraque é a segunda maior reserva mundial de petróleo.

Oh Deus, o que fizeram vocês ao Iraque, seus bastardos. O que fizeram vocês ao Iraque!!!

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Publicado em Tribunal Iraque

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

EUA retarda apoio internacional para entupir o Haiti de marines

A secretária de Estado Hillary apareceu em Porto Príncipe e sugeriu, piamente, mais poder ao presidente Préval, citando o poder de decretar toque de recolher. “Um decreto assim lhe daria uma autoridade enorme, que seria delegada para os EUA”

A Sem autorização da ONU, o Pentágono mandou para o Haiti 10 mil soldados e marines, e uma frota capitaneada por um porta-aviões nuclear. Ocupou o aeroporto de Porto Príncipe e impediu o desembarque de médicos, equipes de resgate, hospitais de campanha, remédios e alimentos, provocando a condenação da França, do Brasil e de organizações internacionais, como a Cruz Vermelha e o Programa de Alimentos da ONU. Vôos com médicos e remédios foram desviados para a vizinha República Dominicana, advertiu a Cruz Vermelha Internacional. Também o Programa de Alimentos da ONU denunciou que “a maioria dos vôos são para os militares dos EUA”.

Assim, nos seis dias imediatamente após o terremoto, cruciais para que houvesse, ainda, chances de encontrar sobreviventes sob os escombros, a ação do Pentágono esteve concentrada não em liberar o máximo de recursos para o resgate, mas em estender a ocupação. O porto da capital também foi ocupado. O comandante da força invasora, tenente-general Ken Keen, prometeu que, assim que dispuser de mais material de transporte terrestre, irá “estender nossos tentáculos ao interior”. Das embarcações da 4ª Frota enviadas ao Haiti arrasado pelo terremoto, a última a partir foi o navio-hospital. A parca “ajuda” distribuída pelos marines, uns pacotes de ração com biscoito ressecado, foi lançada sobre uma ou outra multidão, causando tumultos.

TOQUE DE RECOLHER

Só na sexta-feira dia 15 os EUA se deram ao desfrute de oficializar a ocupação do aeroporto com a assinatura do presidente René Préval em um documento redigido em Washington. No sábado dia 16, a secretária de Estado Hillary Clinton apareceu em Porto Príncipe, ao lado do chefe do Pentágono, Robert Gates, para ver de perto como andava a ocupação. Foi logo propondo que o parlamento, aliás destruído, aprovasse “novos poderes” para o presidente Préval, que nem palácio mais tem. Em primeiro de tudo, o poder de decretar toque de recolher. Esses novos poderes deveriam, claro, ser repassados para a tropa invasora. “Um decreto daria ao governo uma autoridade enorme, a qual, na prática, eles delegariam para nós”, afirmou Hillary ao “The New York Times”.

Durante o voo para Porto Príncipe, Hillary asseverou aos jornalistas que o governo do Haiti havia dado aos EUA “liberdade de ação para trabalhar”. Aliás, acrescentou, praticamente “pedira” a ocupação e a “segurança”. Também, pudera: tão gentilmente convidado por 10 mil marines, um porta-aviões nuclear e todo o charme de Obama, um gentleman como Préval – talhado na gelatina - não iria se omitir, ao final da visita, em assinar um “comunicado conjunto”. Mas o “comunicado conjunto” não resolve nada. Sob a pressão dos países que constituem a força de paz, começaram a ser esboçados pontos como o estabelecimento de dois corredores humanitários, para que possa ser distribuída ajuda em larga escala e prestado socorro médico ao grande número de feridos.

Quanto às relações entre os EUA e o Haiti, ninguém melhor que o único militar duas vezes condecorado com a Medalha de Honra do Congresso, o general de marines Smedley Butler. “Eu ajudei a fazer o Haiti e Cuba um lugar decente para os rapazes do National City Bank coletar receitas. Eu ajudei a estuprar meia dúzia de repúblicas centro-americanas em benefício de Wall Street. A lista de extorsões é longa”, afirmou Butler, ao se dar conta de que, diante do ele que havia executado para as corporações dos EUA, Al Capone “era um amador”. Além do Citibank, a outra grande beneficiária da invasão de 1916 – que durou até 1934 – foi a Haitian American Sugar Co. A constituição da invasão revogou artigo em vigor desde a independência, que só permitia a posse de terra aos haitianos.

“LAGO AMERICANO”

Antes, no século XIX, uma intervenção armada após outra. Além da doutrina do “Destino Manifesto”, que pretendia o Caribe como um “lago americano”, o Haiti tinha um significado particular: os escravagistas dos EUA jamais engoliram aquela república negra de escravos libertos. Na origem do estrangulamento sobre a jovem república, a indenização imposta pela França, após bloqueio naval à venda do açúcar haitiano, e cujo pagamento só acabou em 1947. Dívida que abriu caminho ao Citibank no país.

Nos anos 50, os monopólios dos EUA patrocinaram a ditadura de Duvalier – o Papa Doc – e seu rebento, Baby Doc. O regime dos tonton-macoutes desabou em 1986. Em 1994, os planos de “ajuste” do FMI chegaram ao Haiti, embutidos no apoio de Washington a Aristide, que havia sido derrubado por um general golpista. Umas poucas unidades da Disney e a Levis foram instaladas: salários de fome para costurar bolas de beisebol, calças jeans e minnies. Mas a agricultura, num país com 70% de habitantes nas áreas rurais, foi dizimada pelo dumping – um sub-Nafta -, e o Haiti virou importador de alimentos dos EUA, que também controla seu comércio exterior. Para aumentar a desorganização do estado nacional, sob o pretexto de evitar a “corrupção”, Ongs estrangeiras passaram a canalizar as verbas da “ajuda humanitária”.

Como Aristide não aceitou os “ajustes” na íntegra, e já no governo de W. Bush, os EUA financiaram e armaram bandos de neo-macoutes, que serviram de fachada para o seqüestro e expulsão do presidente em 2004, levada a cabo por marines e agentes da CIA. A ação da diplomacia brasileira e francesa, que deu origem a uma força de paz comandada pelo Brasil, esvaziou a invasão e forçou a retirada dos EUA três meses depois. Como se vê, eles tiveram de se retirar, mas teimam em não admitir a derrota.

ANTONIO PIMENTA

Original em Hora do Povo

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Brasil e França reagem ao abuso norte-americano no Haiti

Ministro Celso Amorim pede “respeito claro à Minustah, que é a força oficial da ONU”

O Brasil e a França reagiram à atitude arrogante dos EUA que, desrespeitando a todos, assumiram unilateralmente o controle do aeroporto do Haiti no final da semana passada. Num atropelo à autoridade da ONU na região, os militares americanos impediram o pouso de aeronaves que traziam ajuda de outros países no aeroporto de Porto Príncipe, capital do país. “Temos que coordenar no terreno a ajuda, com respeito claro à Minustah, que é a força oficial da ONU”, protestou o chanceler brasileiro, Celso Amorim. Para ele, esses obstáculos estavam atrapalhando o trabalho de busca e salvamento das vítimas do maior terremoto ocorrido no Haiti nos últimos 200 anos.

Já o ministro do Exterior da França, Bernard Kouchner, afirmou, segundo relato feito pelo embaixador francês no Haiti, Didier Le Bret, que o aeroporto de Porto Príncipe “não está sendo usado para a comunidade internacional, mas como um anexo de Washington”. O secretário de Estado de Cooperação francês, Alain Joyandet, que foi impedido pelas tropas americanas de pousar na cidade a bordo de um vôo que trazia um hospital móvel francês, disse, após o lamentável episódio, em entrevista à radio Europe 1, que “a ONU deve precisar qual é o papel dos EUA”. “Trata-se de ajudar o Haiti e não ocupar o país”, apontou. Joyandet fez questão de ressaltar que este tipo de comportamento está causando uma frustração crescente nas equipes de resgate e socorro, que dependem da única pista em operação no aeroporto para receber suprimentos.

Em telefonema à secretária de Estado americana, Hillary Clinton, o chanceler brasileiro defendeu que a coordenação dos auxílios internacionais ao Haiti seja feita sob a égide da ONU. “Cada um está fazendo o que pode, o importante é coordenar para evitar problemas no terreno. Às vezes, há muita gente querendo ajudar ao mesmo tempo, esbarra um no outro e não dá certo. Então temos que coordenar no terreno, com respeito claro à Minustah, que é a força oficial da ONU”, frisou Amorim.

Ao desembarcar em Brasília, de volta do país caribenho, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, também criticou a ação dos americanos. Segundo ele, a atitude dos EUA ao assumir o controle do aeroporto foi “unilateral”. “Não dá para se pensar em fazer assistencialismo unilateral. Tem que fazer assistencialismo multilateral”, afirmou o ministro, que não descartou o envio de um número ainda maior de militares brasileiros para a missão da ONU no Haiti.

O general brasileiro Floriano Peixoto, que comanda a força de estabilização do Haiti, reprovou a intenção do Comando Militar do Sul, responsável pelas tropas dos EUA direcionadas para as Américas, de enviar uma brigada de paraquedistas para o Haiti. O momento, segundo Peixoto, é de enviar tropas para reconstrução do país, e não treinadas para combate. O general disse que devido à dificuldade de pouso, a chegada do hospital de campanha brasileiro ao Haiti foi adiada em 24 horas.

As críticas crescentes ao controle unilateral do aeroporto estão sendo feitas exatamente por causa das vidas que estão deixando de ser salvas por conta dessa atuação. Várias aeronaves carregadas com equipamentos, remédios, médicos e especialistas estão sendo impedidas de chegar ao país.

Já desde o início das operações de ajuda à população do Haiti, enquanto o Brasil, além de seus efetivos militares atuando no local, mandava junto com outros países recursos, cães farejadores, bombeiros, medicamentos, alimentos, água, etc, o Pentágono estranhamente anunciou seu “socorro” à ilha com o porta-aviões nuclear USS Carl Vinson, o porta-marines USS Bataan, um cruzador porta-mísseis e mais meia dúzia de destróieres. A comunicação foi feita pelo chefe do Comando Sul, o general Douglas Fraser, em uma entrevista em Miami, conforme a “Associated Press”. Mais parecia uma operação de invasão militar e muito pouco de ajuda humanitária ao país caribenho.

Além do mais, segundo a agência de notícias AFP, diversas pessoas que tentavam deixar o Haiti nos últimos dias reclamavam que os EUA estavam dando prioridade para a retirada de seus cidadãos. Segundo ainda a mesma agência, empresas de telecomunicações e especialistas enviados por vários países para tentar restabelecer a comunicação telefônica no Haiti tiveram seus trabalhos atrasados por causa das proibições de pousos. Quatro voos que traziam equipamentos e técnicos foram desviados, enquanto aviões trazendo autoridades americanas eram autorizados a pousar na capital haitiana.

Fruto dos protestos de Brasil, França e outros países, a situação foi ficando cada vez mais insustentável para as autoridades americanas. Algumas soluções já começaram a ser delineadas numa reunião envolvendo 10 países, a ONU e a OEA, realizada na segunda-feira. Por teleconferência, ficou decidido que a definição de prioridades e a coordenação das operações ficará a cargo da ONU, junto com o governo do Haiti. Além disso, ficou estabelecido que, com o aumento da ajuda internacional e o conseqüente crescimento do número de aeronaves que vão se dirigir ao Haiti, uma ponte terrestre com a vizinha República Dominicana será aberta para ajudar no recebimento de apoio internacional. Segundo avaliação da ONU, o porto da capital haitiana não poderá ser usado porque está completamente inoperável.

SÉRGIO CRUZ

Original em Hora do Povo

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Haitianos qualificam de ocupação o desembarque dos fuzileiros ianques

Centenas de haitianos presenciaram na terça-feira, 19 de janeiro, entre a resignação e a ira, a aterrissagem de vários helicópteros das tropas estadunidenses no Palácio Presidencial haitiano, num ato considerado por muitos como uma perda da soberania, informou a AFP.

"Ainda não os vi distribuindo comida no centro da cidade, onde as pessoas precisam urgentemente de água, alimentos e medicamentos. Isto se parece mais com uma ocupação", disse Wilson Guillaume, estudante haitiano de 25 anos.

Pelos menos quatro helicópteros transportaram uma centena de soldados estadunidenses da 82ª Divisão Aerotransportada até o interior do recinto, ante o olhar atônito de centenas de haitianos, que perderam suas moradias com o terremoto e que vivem como refugiados nos jardins do Palácio.

Quando as tropas dos EUA abandonaram o Palácio para custodiar o hospital-geral do Haiti, repleto de feridos, na sua passagem, muitos gritavam: "Vão para casa" "Não ocupem o nosso país".

Uma frota de embarcações anfíbias chegou às costas do Haiti, e espera-se que dela desembarquem 800 fuzileiros nos próximos dias para se unirem aos mais de 2 mil soldados que estão no país.

Entretanto, o Conselho de Segurança da ONU aprovou unanimemente aumentar em 3.500 o número de militares e policiais das forças internacionais no Haiti, com o objetivo de reforçar a vigilância nesse país antilhano.

Entretanto, milhares de vítimas do terremoto tentam pegar os ônibus para fugir da fome e da violência na devastada capital, tendo esperança em conseguir alimentos com maior facilidade no campo, informou a AP.

Original em Granma

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NEM O PIG CONSEGUE ESCONDER (IV)

Lula receberá prêmio inédito de Estadista Global em Davos

Objetivo é destacar um líder político que tenha usado o mandato para melhorar a situação do mundo

Daniela Milanese, da Agência Estado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva receberá o prêmio de Estadista Global do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), no dia 29. Esta é a primeira edição da homenagem, criada para marcar o aniversário de 40 anos do Fórum.

Conforme a organização do evento, o prêmio tem o objetivo de destacar um líder político que tenha usado o mandato para melhorar a situação do mundo. "O presidente do Brasil tem demonstrado verdadeiro compromisso com todas as áreas da sociedade", disse o fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, em nota à Agência Estado.

Segundo ele, esse compromisso tem seguido de mãos dadas com o objetivo de integrar crescimento econômico e justiça social. "O presidente Lula é um exemplo a ser seguido para a liderança global."

A entrega do prêmio será feita pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e está prevista para às 11h30 (horário local; 8h30 de Brasília) do dia 29, quando o presidente brasileiro fará um discurso. Em seguida, terá início um painel de discussão sobre o Brasil. O objetivo é debater os atuais condutores do crescimento do País e os desafios à frente.

Entre os participantes do painel estarão o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o copresidente do conselho de administração da Brasil Foods, Luiz Fernando Furlan, o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young e o vice-presidente do argentino Banco Hipotecario, Mario Blejer. Lula também fará o encerramento do painel sobre o Brasil.

A frase não é minha, mas achei ótima " Lula é estadista global. FHC é estadista da Globo." A oposição está em polvorosa, histérica, vai ter vários chiliques.

Postado por Jussara Seixas no Blog da Dilma

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O insuportável fardo das guerras do capital

O número de suicídios entre soldados e veteranos das Forças Armadas dos EUA registou, em 2009, um número alarmante, admite o Pentágono, cujas estatísticas, são, no entanto, conservadoras.

Apesar de ser o próprio alto comando militar norte-americano a revelar que, o ano passado, cerca de 160 soldados ainda incorporados ou veteranos das guerras do Afeganistão e Iraque cometeram suicídio – face a cerca de 140 ocorrências apuradas oficialmente em 2008 –, e de qualificar 2009 como «um ano cruel», os números apresentados são, no mínimo, muito conservadores.

Estatísticas igualmente oficiais dizem que o total de suicídios entre os veteranos podem ser de 18 por dia. O secretário dos Assuntos dos Veteranos, general Eric Shinseki, diz que nos anos de 2005, 2006 e 2007 a taxa de suicídios entre os homens dos 18 aos 29 anos cresceu, em média, 26 por cento. Dos mais de 30 mil suicídios que ocorrem anualmente no país, 20 por cento acontecem entre ex-integrantes do serviço militar.

A March Forward, por seu lado, fornece indicadores ainda mais trágicos. Segundo a organização de veteranos das forças armadas norte-americanas, o número de suicídios até Novembro de 2009 foi de 334, número que, adverte, apenas inclui os militares ainda em serviço.

A associação acusa os serviços médicos fornecidos pelo Pentágono de estarem mais preocupados em recuperar os soldados para novas missões de guerra além fronteiras do que em tratar os traumas resultantes da participação daqueles homens e mulheres na ocupação e genocídio dos povos do Iraque e Afeganistão.

De acordo com a Rand Corporation, citada pela March Forward, cerca de 300 mil veteranos de duas das guerras que o imperialismo levou a cabo no século XXI sofrem de stress pós-traumático (SPT). Outros 320 mil ficaram com danos cerebrais irreversíveis.

Saúde negada

Apesar destas cifras, as centenas de psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde contratados para atender soldados e veteranos resistem em diagnosticar SPT. De acordo com o testemunho de um soldado, um dos médicos que o atendeu explicou (sob reserva de anonimato e advertindo que se as suas declarações fossem tornadas públicas negá-las-ia categoricamente), que essas são as ordens do alto comando.

Os números oficiais e não oficiais concordam apenas que a taxa de suicídios é menor entre os que acedem aos serviços de saúde das forças armadas. A questão é que ainda no passado dia 15 de Janeiro, veteranos das guerras do Iraque e Afeganistão exigiram, num protesto frente a Fort Hood, realizado sob o lema «Fartos de combater as vossas guerras» e acompanhados das respectivas famílias, o fim das criminosas campanhas militares e o direito a um sistema de assistência célere e não manipulado.

O local do protesto não poderia ter sido mais adequado. Fort Hood foi palco, em Novembro, dum massacre perpetrado por um militar que havia recebido há pouco tempo a notícia da sua incorporação num dos contingentes a enviar por Barack Obama para o Afeganistão. A maior base dos EUA é, também, a que regista mais baixas em combate e maior taxa de suicídios.

Cabul sob fogo

O palácio presidencial, os edifícios dos ministérios da Justiça, Finanças e Minas, a sede do Banco Central do Afeganistão e um centro comercial no centro da capital do país foram alvo, segunda-feira, de ataques de grupos armados que se opõem à ocupação do território e ao governo liderado por Hamid Karzai.

Os ataques levados cabo por supostos comandos talibã foram dos mais graves ocorridos em Cabul desde a invasão anglo-norte-americana de 2001 e elucidam o recrudescimento da violência resultante do conflito no país. Para além da explosão de engenhos explosivos por comandos suicidas, na capital ouviram-se disparos de armas pesadas

O representante dos EUA para o Afeganistão qualificou as ousadas investidas em Cabul de «horrorosas» e «desesperadas». Mais tarde, o presidente Karzai apressou-se a dar a situação como serenada, mas o que sobressai é exactamente o contrário. Se até há poucos meses a capital afegã era das poucas regiões do país minimamente controladas pelas autoridades locais e pelos militares estrangeiros, parece que, com o prolongamento da neocolonização, o conflito não só se agudiza como alastra a todas a zonas do país.

Karzai, aliás, não pode dizer sequer que controla os grupos de interesse que circulam no seu círculo de poder. Ainda no sábado o parlamento afegão voltou a rejeitar a maioria dos 17 ministros propostos pelo chefe do executivo, o qual é, atualmente, composto por apenas 14 dos 25 titulares previstos.

Original em Avante!

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A maquinação gripal

Um grupo de 14 parlamentares do Conselho da Europa acusa os monopólios farmacêuticos de terem influenciado setores científicos e as autoridades de saúde com o fim de aconselharem os governos a promover programas de vacinação «ineficazes».

O tema vai ser debatido na próxima sessão da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, que terá lugar entre os dias 25 e 29 deste mês. A iniciativa partiu do deputado alemão Wolfgang Wodarg, médico e epidemiologista, antigo membro do Partido Social-Democrata, e presidente da comissão de Saúde do Conselho da Europa.

No seu país, Wodarg foi uma das poucas vozes que se ergueram no Bundestag para alertar para os perigos para a saúde de uma das vacinas contra a Gripe A. Os seus argumentos levaram o governo germânico a rescindir o contrato com a multinacional fornecedora, e a vacina Optaflu, produzida pela Novartis, não foi administrada na Alemanha por falta de garantia total de inocuidade.

No Conselho da Europa, a exposição de Wodarg revelou-se suficientemente fundamentada para convencer os membros da Comissão de Saúde a aprovar, por unanimidade, a abertura de uma investigação sobre o papel das farmacêuticas, da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos estados na gestão da Gripe A.

Na proposta de recomendação que os parlamentares irão discutir, os 14 subscritores de vários grupos políticos (socialistas, populares e liberais) apontam o dedo aos grupos farmacêuticos, cuja influência «incitou ao desperdício de recursos – já pouco abundantes – destinados aos cuidados de saúde a favor de estratégias de vacinação ineficazes, expondo assim inutilmente milhões de pessoas de boa saúde ao risco de efeitos secundários não conhecidos de vacinas que não foram suficientemente testadas».

O documento faz ainda referência «às campanhas da “gripe aviária” (2005/06) e a seguir da “gripe porcina”», as quais terão «causado numerosos danos, não somente a certos pacientes vacinados e aos orçamentos de saúde pública, mas também à credibilidade e responsabilidade de importantes agências sanitárias internacionais.»

Por último, os subscritores salientam que «a preocupação de definir uma pandemia alarmante não deve estar sujeita à influência de comerciantes de medicamentos», e recomendam a abertura de investigações nacionais e ao nível europeu.

A origem do pânico

Wolfgang Wodarg não nega a existência da chamada «Gripe A», mas sublinha que, tratando-se as gripes de ocorrências sazonais normais, nada justifica do ponto de vista científico toda a campanha alarmista artificialmente criada em torno deste caso.

Em entrevista ao jornal L’Humanité (7.01), o deputado alemão afirma que as suas suspeitas começaram precisamente com a súbita declaração de epidemia pela OMS: «Os números eram muito baixos e o nível de alerta muito elevado. Ainda não havia mil doentes e já se falava da pandemia do século». E a alegação de que se tratava de um vírus novo também não era convincente, já que isso é uma característica das gripes: «Todos os anos aparece um novo tipo “gripal”».

Mas como é que a OMS pôde declarar uma falsa pandemia? Simplesmente alterando a definição de pandemia que vigorou nos seus critérios até Abril de 2009. Ou seja, como explica Wodarg, «antes desta data era preciso não só que a doença eclodisse em vários países ao mesmo tempo mas também que tivesse consequências muito graves, com um número de casos mortais acima da média habitual. Este último aspecto foi eliminado na nova definição de forma a considerar-se apenas o critério do ritmo da difusão da doença».

De fato, segundo o critério anteriormente vigente, a «Gripe A» nunca poderia ser declarada como pandemia uma vez que desde o início se observou um índice de mortalidade muito abaixo do normal. Ou seja, se uma «banal» gripe sazonal provoca normalmente entre 300 mil e 500 mil vítimas em todo o mundo, o diabolizado H1/N1 foi responsável até ao momento por 13 mil mortes no planeta. Como também é normal nas gripes, os casos fatais atingem praticamente em exclusivo grupos de risco, isto é, indivíduos que já anteriormente tinham a saúde fragilizada.

Face aos dados disponíveis, há mesmo quem considere esta epidemia como uma das mais benignas que se conhecem desde que a medicina moderna regista as ondas gripais.

Sem nunca ter explicado as razões da mudança do critério, a OMS teve outras atitudes suspeitas no entender Wodarg: «Por exemplo, a recomendação da OMS de administrar duas injecções de vacinas. Nunca tal aconteceu. Não havia nenhuma justificação científica para isso. Também houve a recomendação de utilizar somente vacinas patenteadas. E no entanto não havia nenhuma razão que impedisse de acrescentar, como se faz todos os anos, certas partículas antivirais específicas deste novo vírus H1N1, “completando” as vacinas utilizadas na gripe sazonal».

As malhas de um negócio

As campanhas planetárias de intoxicação da opinião pública não são novidade para ninguém. Diariamente os órgãos de comunicação bombardeiam-nos com visões catastrofistas do presente e do futuro imediato, parecendo tudo servir para criar o pânico e alimentar um clima permanente de ansiedade e de medo. Essas momentosas campanhas surgem e desaparecem quase sem deixar rasto, e sem que nunca venha a público um balanço sério do que de fato aconteceu ou apuradas responsabilidades pelo fomento do pânico.

Um desses casos foi o da chamada «gripe aviária», descoberta por um reputado «caçador de vírus» holandês, Albert Osterhaus, hoje alvo de acusações no seu país de favorecimento de interesses comerciais, e que é um dos membros do grupo de especialistas conselheiros da OMS designado SAGE (Strategic Advisory Group of Experts).

Para além de virólogo, Osterhaus revelou-se também um criador de mitos, prevendo logo em 2003 a propagação mundial, via excrementos de aves migratórias, do alegadamente mortífero vírus H5N1. Só que em 2006, depois de terem sido destruídos milhões de frangos em vários países, Osterhaus e os seus colegas foram obrigados a reconhecer que em nenhuma das 100 mil amostras fecais recolhidas foi encontrada a menor prova do vírus. E para além da morte de um veterinário holandês, que terá sido provocada pelo H5N1, segundo garantiu o próprio virólogo, não se registou nenhuma outra morte humana. (ver artigo de William Engdahl em odiario.info, de 05.01).

Contudo, a encenação de Osterhaus não foi em vão. A pandemia aviária não se confirmou, mas a histeria criada à sua volta foi bem real, o que permitiu uma intensiva sensibilização dos governos e organismos públicos para a necessidade de ter as coisas preparadas no caso de uma tal eventualidade ocorrer, tanto mais que as políticas reacionárias seguidas nas últimas décadas no domínio da saúde e da investigação privaram os sistemas públicos dos meios necessários para fazer face a uma situação de emergência.

É então que se definem novos planos internacionais de combate a uma pandemia, os quais visam sobretudo assegurar o fabrico rápido de vacinas em caso de alerta, e pressupõem, portanto, uma negociação direta entre os estados e as multinacionais do medicamento. Estas comprometem-se a fornecer uma resposta pronta, em troca os estados garantem-lhes que comprarão os seus preparados.

Este vantajoso «acordo» para a indústria farmacêutica poderia render-lhe milhares de milhões caso fosse declarada uma pandemia. Chamaram-lhe gripe A…

Original em http://www.avante.pt/noticia.asp?id=32142&area=8

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mais de 900 pessoas enfrentam execução iminente no Iraque

Fonte: Amnistia Internacional

As autoridades iraquianas têm de parar imediatamente com as execuções de mais de 900 pessoas que se encontram nafila da morte e que esgotaram os apelos legais, podendo ser mortas a qualquer momento –segundo o mais recente comunicado da Amnistia Internacional.

Os prisioneiros,onde se incluem 17 mulheres,tiveram as suas condenações à morte ratificadas pelo Conselho Presidencial, o passo final antes da execução ser levada a cabo.

No decurso deste ano, pelo menos 120 pessoas já foram reconhecidamente executadas no Iraque.
“Num país com os mais altos números de execuções do mundo, a perspectiva de um acréscimo significativo destas é muito perturbadora”, referiu Philip Luther, director delegado do Programa Médio Oriente e Norte de África da Amnistia Internacional.
Muitos dos presos foram condenados por crimes de assassínio e rapto. Alguns terão sido condenados em julgamentos injustos.
O Governo tem-se mostrado inflexível no combate ao crime e, a todo o transe, procura mostra-se capaz de ultrapassar a difícil situação da segurança do país, antes das eleições nacionais em 2010.
Políticos da oposição expressaram entretanto a preocupação de que as execuções sejam levadas a cabo para permitir que o partido al-Da’wa no poder ganhe vantagem política antes das eleições. Daí os apelos ao governo para a suspensão temporária de todas as execuções.
Uma das mulheres que enfrenta a morte é Samar Sa’ad ‘Abdullah, condenada à pena capital em 15 de Agosto de 2005. Foi considerada culpada da morte do tio, da mulher e de um dos filhos em Bagdade.
Samar Sa’ad ‘Abdullahterá acusado o noivo dos assassínios e que este os teria cometido para roubar o tio.
No julgamento, Samar Sa’ad ‘Abdullah alegou em sua defesa que, depois da sua prisão, a polícia a torturara e submetido a choques eléctricos para fazê-la “confessar”.
O juiz não mandou investigar essas acusações e condenou-a à morte. O pai, Sa’ad ‘AbdelMajid ‘Abd al-Karim, contou à Amnistia Internacional que o julgamento durou menos de dois dias, que não lhe foi permitido entrar na sala de audiências e que Amal ‘Abdel-Amir al-Zubaidi, um dos advogados de Samar, fora expulso da sala de audiências pelo juiz.
A sentença de morte de Samar Sa’ad ‘Abdullah foi confirmada pelo Corte de Cassação a 26 de Fevereiro de 2007.
Desde a reintrodução da pena de morte em Agosto de 2004, pelo menos 1000 pessoas foram sentenciadas à morte e executadas. Não existem dados oficiais para o número de presos que esperam a execução.
Esgotadas todas as vias legais de apelo, as sentenças de morte são apresentadas ao Conselho Presidencial, composto pelo Presidente e os dos Vice-Presidentes, para ratificação, após a qual são levadas a cabo.
O Presidente, Jalal Talabani, opõe-se à pena de morte e delega o seu poder de ratificação nos dois Vice-Presidentes, que não se opõem à sua aplicação.
A Amnistia Internacional instou repetidamente as autoridades iraquianas para estabelecerem uma moratória imediata das execuções.
“O Governo do Iraque deve atenderaos pedidos internacionais para parar as execuções”, insiste Philip Luther.

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Publicado em Tribunal Iraque

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Os aviões da FAB e os ventríloquos da mídia

"As turbulências do presidente"; "Os pés pelas mãos" - por si só os títulos dos editoriais nos quais os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo trataram, neste início de ano, a questão da compra pelo governo brasileiro de um lote de novos caças para a Força Aérea Brasileira, indicam a indisfarçada torcida pela abertura de uma crise no governo federal.

A decisão vem sendo amadurecida há bastante tempo. Além das audiências públicas, consultas, relatórios técnicos e demais providências que uma decisão dessa envergadura envolve (dados seus aspectos políticos, militares e financeiros), há também um pesado jogo de pressões (internas e estrangeiras) que extrapolam os aspectos técnicos e financeiros e revelam o fundamental caráter geopolítico do que está em jogo.

O vazamento de um relatório da FAB, noticiado pela Folha de S. Paulo no dia 4, faz parte desse jogo pesado. E a reação da mídia, com forte eco na oposição neoliberal, revela aspectos dele que se interpõem entre a manifesta preferência de Lula pela oferta francesa e a torcida pela compra do sueco Gripen NG.

Alega-se que o sueco é um avião mais barato. Mas é como comprar um apartamento na planta. É um avião que ainda não está pronto mas só existe em projeto, com limitações importantes. Seu motor, por exemplo, é fabricado nos EUA; outra fragilidade decorre de que, para baratear a produção, ele depende de um sem número de fornecedores de peças espalhados pelo mundo. Quando se lembra que, há poucos anos, a Embraer foi proibida pelo governo de Washington de vender aviões Tucanos para a Venezuela porque tinham componentes fabricados nos EUA esta fragilidade do projeto sueco fica ainda mais evidente - ela não é técnica nem financeira, mas política.

A decisão final pela compra cabe ao presidente Lula que, como chefe da Nação, é o comandante em chefe das Forças Armadas. Não será uma decisão solitária, como insinuam os pregoeiros da crise, mas envolverá o Ministro da Defesa, o Conselho de Defesa, a assessoria técnica da FAB e as necessárias consultas para uma decisão que envolve tamanha responsabilidade. Mas ela é prerrogativa do presidente da República.

Isto é, será uma decisão política, como insistem o próprio Lula, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e outras autoridades do Governo. Este é o coração da polêmica. A decisão final poderá consolidar e fortalecer o caminho autônomo que o Brasil segue desde 2003. É um rumo contra o qual a oposição neoliberal, e as forças sociais que ela representa, mantém o dogma do alinhamento automático entre o Brasil e os EUA, opinião que fundamenta sua torcida por uma escolha para recolocar nosso país numa situação subalterna e dependente.

Mas o governo trabalha com outra opção, a do fortalecimento da autonomia que poderá resultar da consolidação de pactos internacionais múltiplos e soberanos, fora da esfera norte-americana, e que possam aumentar a capacidade de defesa de nosso país sem a dependência de decisões externas.

O embate entre estas duas opções, uma dependente, outra soberana, é o fundamento da torcida da oposição neoliberal por uma crise entre o governo e os militares. Tudo indica que mais uma vez não passará intriga midiática, e que - ao contrário do que querem os ventríloquos da mídia, a soberania nacional saíra fortalecida.

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Original em Vermelho

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Os EUA e a "pacificação presidencial" na América Latina

O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina. Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar, repetindo uma prática dos EUA bem conhecida na América Latina.

Barack Obama é o quarto presidente estadunidense a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, unindo-se a outros dentro de uma longa tradição de pacificação que desde sempre serviu aos interesses dos EUA. Os quatro presidentes deixaram sua marca em nossa “pequena região” ("nosso quintal"), que "nunca incomodou ninguém", como caracterizou o secretário de Guerra, Henry L. Stimson, em 1945. Dada a postura do governo de Obama diante das eleições em Honduras, em novembro último, vale a pena examinar esse histórico.

Theodore Roosevelt
Em seu segundo mandato como presidente, Theodore Roosevelt disse que a expansão de povos de sangue branco ou europeu durante os quatro últimos séculos viu-se ameaçada por benefícios permanentes aos povos que já existiam nas terras onde ocorreu essa expansão (apesar do que possam pensar os africanos nativos, americanos, filipinos e outros supostos beneficiados).

Portanto, era inevitável e, em grande medida, desejável para a humanidade em geral que o povo estadunidense terminasse por ser maioria sobre os mexicanos ao conquistar a metade do México, além do que estava fora de qualquer debate esperar que os (texanos) se submetessem à supremacia de uma raça inferior. Utilizar a diplomacia dos navios de artilharia para roubar o Panamá da Colômbia e construir um canal também foi um presente para a humanidade.

Woodrow Wilson
Woodrow Wilson é o mais honrado dos presidentes premiados com o Nobel e, possivelmente, o pior para a América Latina. Sua invasão do Haiti, em 1915, matou milhares de pessoas, praticamente reinstaurou a escravidão e deixou grande parte do país em ruínas.

Para demonstrar seu amor à democracia, Wilson ordenou a seus mariners que desintegrassem o Parlamento haitiano a ponta de pistola em represália pela não aprovação de uma legislação progressista que permitiria às corporações estadunidenses comprar o país caribenho. O problema foi resolvido quando os haitianos adotaram uma Constituição ditada pelos Estados Unidos e redigida sob as armas dos mariners. Tratava-se de um esforço que resultaria benéfico para o Haiti, assegurou o Departamento de Estado a seus cativos.

Wilson também invadiu a República Dominicana para garantir seu bem-estar. Esta nação e o Haiti ficaram sob o mando de violentos guardas civis. Décadas de tortura, violência e miséria em ambos países foram o legado do idealismo wilsoniano, que se converteu em um princípio da política externa dos EUA.

Jimmy Carter
Para o presidente Jimmy Carter, os direitos humanos eram a alma de nossa política externa. Robert Pastor, assessor de segurança nacional para temas da América Latina, explicou que havia importantes distinções entre direitos e política: lamentavelmente a administração teve que respaldar o regime do ditador nicaragüense Anastásio Somoza, e quando isso se tornou impossível, manteve-se no país uma Guarda Nacional treinada nos EUA, mesmo depois de terem ocorrido massacres contra a população com uma brutalidade que as nações reservam para seus inimigos, segundo assinalou o mesmo funcionário, e onde morreram cerca de 40 mil pessoas.

Para Pastor, a razão era elementar: os EUA não queriam controlar a Nicarágua nem nenhum outro país da região, mas tampouco queria que os acontecimentos saíssem do seu controle. Queria que os nicaragüenses atuassem de forma independente, exceto quando essa independência afetasse os interesses dos Estados Unidos.

Barack Obama
O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. A quartelada refletiu abismais e crescentes divisões políticas e socioeconômicas, segundo o New York Times. Para a reduzida classe social alta, o presidente hondurenho Manuel Zelaya converteu-se em uma ameaça para o que esta classe chama de democracia, que, na verdade, é o governo das forças empresariais e políticas mais fortes do país.

Zelaya adotou medidas tão perigosas como o incremento do salário mínimo em um país onde 60% da população vive na pobreza. Tinha que ir embora. Praticamente sozinho, os EUA reconheceram as eleições de novembro (nas quais saiu vitorioso Pepe Lobo), realizadas sob um governo militar e que foram uma “grande celebração da democracia”, segundo o embaixador de Obama em Honduras, Hugo Llorens. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina.

Depois das eleições, Lewis Anselem, representante de Obama na Organização de Estados Americanos (OEA), aconselhou aos atrasados latino-americanos que aceitassem o golpe militar e seguissem os EUA no mundo real e não no mundo do realismo mágico.

Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar. O governo estadunidense financia o Instituto Internacional Republicano (IRI, na sigla em inglês) e o Instituto Nacional Democrático (NDI) que, supostamente, promovem a democracia. O IRI apóia regularmente golpes militares para derrubar governos eleitos, como ocorreu na Venezuela, em 2002, e no Haiti, em 2004. O NDI tem se contido. Em Honduras, pela primeira vez, esse instituto concordou em observar as eleições realizadas sob um governo militar de fato, ao contrário da OEA e da ONU, que seguiram guiando-se pelo mundo do realismo mágico.

Devido à estreita relação entre o Pentágono e o exército de Honduras e à enorme influência econômica estadunidense no país centro-americano, teria sido muito simples para Obama unir-se aos esforços latino-americanos e europeus para defender a democracia em Honduras. Mas Barack Obama optou pela política tradicional.

Em sua história das relações hemisféricas, o acadêmico britânico Gordon Connell-Smith escreve: "Enquanto fala, da boca para fora, em defesa de uma democracia representativa para a América Latina, os Estados Unidos têm importantes interesses que vão justamente na direção contrária e que exigem um modelo de democracia meramente formal, especialmente com eleições que, com muita freqüência, resultam numa farsa".

Uma democracia funcional pode responder às preocupações do povo, enquanto os EUA estão mais preocupados em construir as condições mais favoráveis para seus investimentos privados no exterior? Requer-se uma grande dose do que às vezes se chama de ignorância intencional para não ver esses fatos. Uma cegueira assim deve ser zelosamente guardada se é que se deseja que a violência de Estado siga seu curso e cumpra sua função. Sempre em favor da humanidade, é claro, como nos lembrou Obama mais uma vez ao receber o Prêmio Nobel.

Tradução: Katarina Peixoto

Publicado em Carta Maior

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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A ópera-bufa da crise militar

É preciso dar um basta aos que, se dizendo ameaçados de revanche, a ela se antecipam vislumbrando nos defensores dos Direitos Humanos uma motivação “terrorista". Essa é a mesma linguagem que os jornais reproduzem docilmente desde os anos mais duros da ditadura.

Por Gilson Caroni Filho*

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A reação dos comandantes do Exército, general Enzo Martins Peri, e da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ameaçando pedir demissão caso o presidente da República não revogue alguns trechos do Plano Nacional de Direitos Humanos 3- que cria a Comissão de Verdade para apurar torturas e desaparecimentos durante o regime militar, revela a triste face de um estamento que ainda não se deu conta que a reconstituição da guerra dos porões é um desafio que não mais comporta tutelas.

O inferno foi aqui, faz parte do domínio da história. É necessário revolvê-la, vasculhá-la pela ótica dos carcereiros, para que a sociedade reencontre sua memória para a desejável consolidação da democracia profunda. É preciso dar um basta aos que, se dizendo ameaçados de revanche, a ela se antecipam vislumbrando nos defensores dos Direitos Humanos uma motivação “terrorista". Sintomático é que essa é a mesma linguagem que os jornais reproduzem docilmente desde os anos mais duros da ditadura.

As palavras do ministro da Justiça, Tarso Genro, em entrevista ao Jornal do Brasil (edição de 3/01/2009) não deixam margem para qualquer dúvida:

"Não se trata de uma prestação de contas das Forças Armadas. Os torturadores são indivíduos que montaram aparatos paralelos e a grande maioria deles era civil. É bom lembrar também para quem os defende que a primeira pessoa que desmontou um aparelho paralelo foi o general Ernesto Geisel ao extinguir a Operação Bandeirantes. Se o chefe de um regime autoritário teve a coragem de fazer, como é que os civis da democracia não têm coragem de prosseguir esse trabalho?"

A tarefa requer apenas vontade política para se resolver um dos vértices da questão da anistia. Por mais ampla e recíproca que ela tenha sido, como afirmam seus defensores, isso não elimina o direito das famílias de saber o que aconteceu com seus desaparecidos- e encaminhar os processos no sentido de identificar os autores dos crimes contra presos políticos, remetendo-os á Justiça. Caberá ao Supremo Tribunal Federal (STF) decidir se pune os responsáveis ou aplica o entendimento inicial da Lei, arquivando os casos - seja por considerar a anistia recíproca em seu sentido mais amplo, seja por classificar tortura e assassinatos cometidos no período como “crime político conexo".

Salvaguardar as Forças Armadas não é acobertar os crimes de uma camarilha fascista que nelas se alojou para saciar suas patologias e as do empresariado que a financiava. Pelo contrário, a forma mais radical de fortalecê-las é reforçar seu papel de guardiãs do Estado Democrático de Direito.

Os comandos militares não podem esquecer os princípios mais elementares de legalidade- ou iludir-se com velhos castelos de sofismas- porque não se suprime por decreto uma consciência histórica construída em tantas crises constitucionais, uma a uma duramente superadas. Do contrário a ordem institucional brasileira forjada pela ditadura não será plenamente substituída, mas readaptada com a conivência inclusive de quem se proclama democrata convicto.

Disso tudo deveria saber, entre outros, o ministro Nelson Jobim, antes de encenar sua última ópera-bufa no governo. Mais uma vez aqui se impõem as lições da história. A crise é o momento de emergência do novo. O que a ele se opõe é da ordem da teratologia política.
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* Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

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Original em Vermelho

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domingo, 3 de janeiro de 2010

NEM O PIG CONSEGUE ESCONDER (III)

Canal árabe transmite especial com elogios a Lula

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TV árabe Al-Jazira chegou a dizem que daqui a cinco anos ele deve retornar à presidência

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A rede de TV árabe Al-Jazira, em seu canal em inglês, exibiu uma reportagem especial com uma série de elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegando a dizer que, daqui a cinco anos, ele deve retornar à presidência para um terceiro mandato. Começando com cenas do filme sobre a vida do líder brasileiro, a repórter afirma que, "com apenas um ano de mandato pela frente, sua história de sucesso político e econômico será difícil de se repetir".

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Segundo a reportagem, problemas como a corrupção, a miséria e a criminalidade urbana continuam graves, mas, "pela primeira vez em 500 anos, o crescimento econômico ocorre ao mesmo tempo em que se reduz a desigualdade social". A jornalista diz que o Brasil tende a crescer nos próximos anos e a Petrobras pode se tornar "a maior do mundo" no setor energético.

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Para a Al-Jazira, "Lula se tornou um porta-voz do Terceiro Mundo, na promoção da democracia, na discussão de mudanças climáticas e das reformas na ONU e no FMI". Principal canal de notícias do Oriente Médio, a Al-Jazira lançou há alguns anos o seu canal em inglês. O canal é exibido em diversos países do mundo e sua audiência é composta especialmente por expatriados residentes no mundo árabe.

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Original em Zero Hora

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sábado, 2 de janeiro de 2010

O BVC agradece e retribui os votos de feliz ano novo

Nas pessoas dos dois trabalhadores, dos quais, infelizmente, não sabemos os nomes, agradecemos e retribuimos os votos de Feliz Ano Novo que recebemos.



Ao mesmo tempo, repudiamos o comentário imoral, preconceituoso e canalha de Boris Casoy, representante da podridão burguesa deste país.




sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

COMPARAÇÃO ENTRE GOVERNOS DO BRASIL

Nós temos o costume de criticar todos os governos como quem critica o time de futebol rival.

A implicância com o time rival é mantido na política.

Mas as opiniões estão vindo de quem antes o PT sempre criticou então alguma coisa esta ocorrendo.

Manter a velha frase se tem governo eu sou contra é um pensamento um tanto quanto perigoso.


O DEM se achava no direito de criticar a prática do mensalão....e agora estão envolvidos até o pescoço e o que é pior ameaçando os próprio colegas de atirar merda no ventilador...

Sobrou para o PMDB e é claro todos , mas todos tem a cola presa.

Como cidadãos nos resta comparar os resultados no momento de escolher...

E não ir nas pilhas das propagandas de quem está na oposição ou seja, dos que não estão mamando na teta da vez...


O Brasil é um foguete, segundo os ingleses


A ascensão econômica do Brasil é o tema da capa, de um editorial e de um especial de 14 páginas da edição desta semana da revista britânica The Economist, divulgada nesta quinta-feira. Intitulado Brazil Takes Off ("O Brasil Decola", em tradução literal), o editorial afirma que o país parece ter feito sua entrada no cenário mundial, marcada simbolicamente pela escolha do Rio como sede olímpica em 2016.
A revista diz que, se em 2003 a inclusão do Brasil no grupo de emergentes Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) surpreendeu muitos, hoje ela se mostrou acertada, já que o país vem apresentando um desempenho econômico invejável.
A The Economist afirma também que o Brasil chega a superar outros Bric. "Ao contrário da China, é uma democracia, ao contrário da Índia, não possui insurgentes, conflitos étnicos, religiosos ou vizinhos hostis. Ao contrário da Rússia, exporta mais que petróleo e armas e trata investidores estrangeiros com respeito."

É interessante comparar o Brasil governado pelo operário "analfabeto e burro" com o que que foi comandado pelo sociólogo "letrado e intelectual".
Isso tudo na visão do The Economist...

Segundo o The Economist

Situação do Brasil antes e depois.


Itens


Nos tempos de FHC


Nos tempos de LULA
Risco Brasil
2.700 pontos
200 pontos
Salário Mínimo
78 dólares
210 dólares
Dólar
Rs$ 3,00
Rs$ 1,78
Dívida FMI
Não mexeu
Pagou
Indústria naval
Não mexeu
Reconstruiu
Universidades Federais Novas
Nenhuma
10
Extensões Universitárias
Nenhuma
45
Escolas Técnicas
Nenhuma
214
Valores e Reservas do Tesouro Nacional
185 Bilhões de Dólares Negativos
160 Bilhões de Dólares Positivos
Créditos para o povo/PIB
14%
34%
Estradas de Ferro
Nenhuma
3 em andamento
Estradas Rodoviárias
90% danificadas
70% recuperadas
Industria Automobilística
Em baixa, 20%
Em alta, 30%
Crises internacionais
4, arrasando o país
Nenhuma, pelas reservas acumuladas
Cambio
Fixo, estourando o Tesouro Nacional
Flutuante: com ligeiras intervenções do Banco Central
Taxas de Juros SELIC
27%
11%
Mobilidade Social
2 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza
23 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza
Empregos
780 mil
11 milhões
Investimentos em infraestrutura
Nenhum
504 Bilhões de reais previstos até 2010
Mercado internacional
Brasil sem crédito
Brasil reconhecido como investment grade

NEM O PIG CONSEGUE ESCONDER (II):

Dilma leva vantagem sobre Serra na espontânea, segundo DataFolha

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A pesquisa Data-Folha divulgada domingo (20), quando os entrevistados são indagados a responder de forma espontânea (sem ver uma lista) em quem votariam para presidente da República na eleição de 2010, mostra Lula em primeiro com 20%, Dilma com 8%, Serra 8%, Aécio 3% e o candidato indicado pelo Lula 3. Porém, quando se pergunta “E excluindo Lula, já que ele não será candidato?”, o resultado é a ministra Dilma Rousseff com 10%, Serra 8 % e o “candidato do Lula 8%”. Somando os 10% de Dilma mais os 8% do “Candidato do Lula”, o resultado é 18% contra 8% de Serra.

No levantamento anterior, realizado em agosto, Serra era citado por 6% na espontânea, enquanto Dilma tinha apenas 3%.

No cenário em que uma lista de candidatos é apresentada aos entrevistados, a diferença entre Serra e Dilma caiu para 14 pontos, na comparação com a pesquisa anterior, quando a diferença variava de 19 a 25 pontos, dependendo do cenário. Na sondagem atual, o governador José Serra (PSDB/SP) aparece com 37% e a ministra Dilma Rousseff (PT) com 23% das intenções de voto. O deputado federal Ciro Gomes (PSB) aparece com 13% e a senadora Marina Silva (PV), com 8%.

O DataFolha também detectou que o grau de aprovação ao governo Lula, classificado como ótimo ou bom por 72% dos entrevistados, é um novo recorde – na pesquisa anterior, em agosto, a aprovação do governo alcançava 67%.

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Original em Hora do Povo

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NEM O PIG CONSEGUE ESCONDER:

Lula é o brasileiro mais confiável, segundo pesquisa do Datafolha

Presidente está à frente de William Bonner, Silvio Santos e Roberto Carlos

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a pessoa mais confiável para os brasileiros em um ranking com 27 personalidades elaborado pelo Datafolha, segundo informou a Folha de S. Paulo.

Lula está à frente de apresentadores de TV como William Bonner e Silvio Santos, do padre Marcelo Rossi e de cantores como Roberto Carlos e Chico Buarque.

Foram 11.258 entrevistados, de 14 a 18 de dezembro. Eles deram nota de 0 (menos confiável) a 10 (mais confiável) às personalidades apresentadas. Lula teve nota média de 7,9.

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Original em Zero Hora

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Ucrâniana emociona com arte que retrata segunda Guerra Mundial

A artista ucraniana, Kseniya Simonova, participou de um show de talentos na televisão de seu país. Usando uma caixa de luz, imaginação e cratividade, ela produz animações com areia. De forma emocionante, dramatiza a invasão e ocupação da Ucrânia pela Alemanha, na segunda Guerra Mundial. Veja o vídeo.

Publicado em Vermelho

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009: Desenganos, crise e esperanças

Nidia Díaz

CONCLUIU o ano 2009 e o panorama internacional oferece um interessante leque de conflitos, encruzilhadas, frustrações e situações limites que se misturam com esperanças positivas e desenvolvimentos, tudo em companhia da grave crise econômica global, provocada pelos Estados Unidos, e cujo efeito devastador se espalhou pelo resto do planeta, a partir dos países capitalistas desenvolvidos, causando os maiores estragos nas nações do Terceiro Mundo.

Em meio ao desmoronamento dos indicadores econômicos internacionais e suas conseqüências sociais, que levaram a um crescimento da pobreza, da fome e das doenças — segundo foi confirmado pelos organismos internacionais e pelas agências especializadas das Nações Unidas, — o ano que terminou também esteve marcado pela continuação das guerras de agressão e pela ocupação militar no Iraque e Afeganistão, estendida perigosamente ao Paquistão, pelo golpe de Estado militar-oligárquico contra o governo constitucional de José Manuel Zelaya, em Honduras e pela instalação de sete bases militares estadunidenses na Colômbia.

A maior frustração do ano foi, sem dúvida, a gestão presidencial de Barack Obama, que tomou posse no mês de janeiro, cercado de uma auréola que parecia pressagiar a possibilidade de algumas mudanças, embora mínimas — tal como prometera na sua espetacular campanha — e que em poucos meses, com suas ações, mostrou a verdadeira essência do que será sua administração, confirmando as previsões daqueles que sempre duvidaram dessa eventualidade, levando em conta a natureza inalterável e invariável do fenômeno imperialista e sua necessidade de guerras, agressões, dominação e saque para subsistir e impor-se ao mundo como tal.

A impossibilidade de reverter esses propósitos ficou a nu, em poucos meses, se não bastasse, o novo presidente dos EUA tomou medidas e deu passos agressivos muito similares aos do seu nefasto antecessor.

Se o fez sob brutais pressões, ou como fruto das contradições internas do próprio governo, ou na busca de assegurar uma eventual reeleição, tudo isso, atualmente, é alvo de debate e discussão mundial, mas, que em nada mudam os resultados.

O certo é que os meses decorridos com o novo inquilino da Casa Branca mostram a necessidade de continuar enfrentando com novos brios as políticas do império, particularmente por parte dos países da Ásia, África, América Latina e o Caribe, que continuam sendo o terreno preferido e propício para o exercício do hegemonismo e do saque.

A crise econômica global veio acompanhada de uma crise ambiental, cujo elemento mais visível e ameaçador é a mudança climática, que avança inexorável e que não tem sido possível deter nem sequer com o maltratado Protocolo de Kyoto, nem com as Cúpulas, como a de Copenhague, cujo desenvolvimento e resultados vergonhosos mostraram que os Estados Unidos e o mundo capitalista desenvolvido pouco se importam destes perigos que podem derivar no fim da humanidade.

As nações do Terceiro Mundo pagarão as culpas dos depredadores do capitalismo mundial e os pequenos estados insulares vão desaparecer, aos poucos, não se põe fim à poluição irresponsável do meio ambiente por parte daqueles que hoje a praticam criminosamente para enriquecer seus bolsos, acelerando o degelo e a elevação do nível dos mares, a seca e os desastres naturais.

A crise econômica global também veio acompanhada de uma crise energética, que já se vislumbrava como conseqüência dos altos preços do petróleo e que, estimulada pela voracidade insaciável dos EUA, trouxe em conseqüência o auge indiscriminado dos chamados biocombustíveis, que com o pretexto de substituir o petróleo e evadir os altos preços, provocou uma crise alimentar que também afetou os países mais pobres e as populações mais vulneráveis.

A pandemia da influenza A, conhecida como A H1N1, também atingiu este ano, acrescentando uma calamidade mais para os habitantes da terra, que ainda não se libertaram da AIDS e que lutam contra a dengue nas regiões tropicais. A crise econômica, acompanhada da negligência, da abulia e do desvio de recursos, por parte de governos insensíveis e irresponsáveis, fez com que, nalguns países, os efeitos destes flagelos fossem particularmente graves.

A União Europeia finalmente concordou que entrasse em vigor o chamado Tratado de Lisboa, que substituiu o tratado constitucional que infrutuosamente durante anos tentaram aprovar, e depois das reticências derradeiras da Polônia e da República Tcheca, que deste modo conseguiram algumas concessões, foi assinado este novo tratado jurídico para a União de 27 países.

Contudo, o papel político independente que a União Européia poderia desempenhar no mundo — e dentro da própria Europa — continua sem se manifestar, e em 2009 continuou afastando-se de seus propósitos originais, tornando-se cada vez mais dependente das posições do governo dos EUA, quer Bush quer Obama, às quais praticamente se subordina nas mais importantes conjunturas internacionais. A existência, no seu seio, de uma maioria de governos de direita: as relações que muitos dos integrantes da União são obrigados a manter com Washington, como membros do pacto político-militar da OTAN, bem como o elevado grau de dependência econômica e cultural dos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial e o colapso da URSS e do campo socialista europeu, são fatores que, de uma forma ou outra, se combinam e impedem à União Européia um protagonismo próprio mais relevante.

No Japão, pelo contrário, a chegada ao governo do Partido Democrático e seus aliados, pôs fim a 50 anos quase ininterruptos do Partido Liberal Democrático, estreitamente ligado aos EUA durante esse período, razão dos acordos assinados em matéria de defesa, que tornaram essa nação num porta-aviões asiático das forças armadas norte-americanas. Como anunciou durante sua campanha eleitoral, o novo primeiro-ministro Hatoyama discutirá com Washington outras modalidades que transformem e regulamentem de maneira mais efetiva para o país do Sol Nascente a numerosa presença militar estadunidense.

Durante o ano, continuaram tendo lugar processos iniciados com anterioridade, mas que, em 2009, mereceram destaque e foram fatores de incidência regional e mundial. Um deles foi, apesar da crise mundial, o crescimento da economia da República Popular da China e sua consolidação como grande potência econômica, que leva muitos especialistas a considerá-la a segunda economia do mundo.

Por sua vez, a África continuou se tornando grande fornecedor de petróleo, mediante contratos e acordos de caráter diferente, segundo o país do qual se tratar, aumentando a presença das multinacionais petroleiras e seus lucros, bem como as receitas dos governos locais beneficiados com o auge petroleiro.

Contudo, não se informa que, na mesma medida, se tenha conseguido um notável aumento do nível de vida desses povos e uma constante diminuição da pobreza e do subdesenvolvimento.

Um raio de esperança, junto a múltiplas realidades, continua iluminando a América Latina e o Caribe. Os processos de transformações econômicas, políticas e sociais, que de diversa forma, abrangem numerosos países latino-americanos e caribenhos se consolidaram e, apesar dos efeitos da crise econômica e da política premeditada do governo dos EUA e das oligarquias locais associadas e dependentes para obstaculizá-los e eliminá-los, avançaram em várias esferas de cooperação e integração.

A Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), criada há cinco anos, a partir dos acordos entre Cuba e Venezuela, assinados pelos presidentes Fidel Castro e Hugo Chávez, surgiu como esquema sem precedentes de integração solidária e de benefício recíproco, além dos puramente comerciais que caracterizaram outros esforços integradores na região. Os sucessos da ALBA tornaram-se evidentes com rapidez e isso marcou a extensão da Aliança a outros países como Bolívia, Equador, Nicarágua, Dominica, Antígua e Barbuda, São Vicente e Granadinas e Honduras. Sucessos que foram comemorados, neste ano, com novas metas e aspirações, sob os princípios bolivariano e martiano da construção da Pátria Grande.

O golpe de Estado de 28 de junho, em Honduras, contra o presidente constitucional, José Manuel Zelaya, foi atribuído, entre outras coisas, à decisão do governo de incorporar-se à ALBA e tentar guiar o país pelo caminho da soberania e do desenvolvimento próprios, à margem da oligarquia local e de algumas famílias que exploraram o país durante séculos. Como todos sabemos, este foi um golpe contra a ALBA, ao qual os EUA não são alheios, pois eles sentiam a necessidade de tornar pública sua rejeição a esta Aliança e deixar claro que estavam dispostos a enfrentá-la, no que consideraram seu elo mais fraco.

Na contramão das suas aspirações, o ano que termina viu renascer um movimento de resistência popular, disposto a converter este revés em vitória, e para isso contam com a firme decisão de não desmobilizar-se e continuar lutando, como dignos herdeiros de Francisco Morazán.

Com certeza, a América Latina e o Caribe vivem momentos de mudanças, onde nada é nem será como antes. O fracasso de Washington em impor a chamada Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) marcou uma guinada definitiva da situação, acompanhada de sucessivas tomadas de poder de diversas forças progressistas, nacionalistas, populares e, inclusive, antiimperialistas de diferentes signos e composição, mas unidas em um denominador comum que as integra e as aproxima.

A entrada de Cuba no Grupo de Rio e o cessar das sanções que os Estados Unidos lhe impunham no seio da OEA, expressaram a decadência do poder do império e a perda de sua influência abrangente em seu outrora "quintal".

O ano novo não chega exatamente igual a todas as regiões do planeta, embora problemas globais como a mudança climática e a crise econômica pareçam não admitir testemunhas e nelas todos somos protagonistas. Desenganos, crise e esperanças poderão continuar caracterizando o sucessor deste convulso 2009.
Original em Granma

Um ano do massacre de Gaza

Há um ano, Israel começava um dos mais bárbaros massacres contemporâneos. Ingressou, com todo seu poder de fogo, em uma região já cercada, que não dava possibilidade de fuga à sua população. O Exército que, há décadas, mais recursos recebe da maior potência bélica da história da humanidade, os EUA, descarregava todo seu poderio sobre uma população indefesa, acusada de colocar em risco, com pífios foguetes domésticos (a tal ponto, que Israel não conseguiu descobrir nenhuma das supostas bases de lançamento, nem lugares de sua fabricação) que não tinham provocado nenhuma vitima no seu território. Israel utilizou inclusive armas proibidas, como fósforo branco, sobre a população palestina, encerrada na área mais densamente povoada do mundo.

Os ataques, que não encontraram nenhuma resistência militar, apenas moral, duraram 22 dias, chegando a provocar 225 mortos em um único dia. 1450 palestinos morreram, dos quais 439 menores de 16 anos e 127 mulheres. 4100 edifícios foram destruídos e outros 1 mil foram danificados. A missão de investigação da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas caracterizou os ataques como “crimes de guerra” e “crimes contra a humanidade”.

Foram destruídas milhares de casas, comércios, além de plantações, hospitais, escolas, universidades, clínicas – tudo que os tanques israelenses encontravam pela frente. Gaza se transformou numa terra arrasada. Quem a visitou depois daqueles terríveis 22 dias, relata que nada tinha ficado de pé, como conseqüência da orientação do Exército israelense, de que “ninguém é inocente em Gaza”.

Um ano depois da agressão, os corredores de entrada para Gaza continuam fechados, nada foi reconstruído, caminhões com alimentos e remédios apodrecem no deserto, às portas de Gaza, enquanto todo tipo de doença afeta a população, indefesa, diante do brutal cerco israelense e a impotência cúmplice da comunidade internacional. Dos 4 bilhões, 481 milhões de dólares arrecadados por mais de 70 países em conferência realizada em março no Egito, para a reconstrução, nada chegou a Gaza, fazendo com que a paisagem seja a mesma – ou pior, sobretudo pelas doenças – de quando os israelenses, impotentes para derrotar a resistência civil dos palestinos, se retiraram de Gaza.

O Egito colabora com esse cerco criminoso, ao deixar fechado o corredor a que tem acesso e ao construir agora um muro que tenta impedir a precária circulação por túneis clandestinos, por onde os palestinos fazem chegar os alimentos mínimos para impedir que morra de fome a população de Gaza. O relator especial da ONU para os territórios palestinos, Richard Falk, conclamou a que todos os países do mundo coloquem em prática sanções econômicas e de outra ordem contra Israel, pelas responsabilidades deste país no massacre e no cerco que mantêm contra Gaza.

Os 700 mil habitantes de Gaza desapareceram dos noticiários internacionais, assim que as tropas israelenses se retiraram. O governo de Israel busca desviar a atenção sobre a ocupação dos territórios palestinos e o cerco a Gaza, aumentando ainda mais a instalação de assentamentos judeus em pleno coração das cidades e dos campos da Cisjordânia, de onde saem regularmente jovens judeus, protegidos por tropas israelenses, para atacar casas, comércios, queimar plantações centenárias de azeitonas das indefesas famílias palestinas.

Israel se tornou um país odioso, racista, agente de um novo holocausto – segundo as palavras do próprio Jimmy Carter -, acobertado e armado pela maior potência militar da história, os EUA, que promove a guerra e pretende ser agente de negociações de paz. Nem sequer consegue deter a instalação de novos assentamentos – se é que pretende detê-los. Israel, um país que detêm, confessadamente, armamentos nucleares, ocupa territórios de outro país, impedindo que ele exerça os mesmos direitos que Israel goza, por resoluções das próprias Nações Unidas, tornando-se um Estado pária da legalidade internacional.

A posição do governo brasileiro de que somente incorporando outros governos – não comprometidos com os genocídios cometidos por Israel, que na semana passada assassinou mais 6 palestinos e continua suas detenções arbitrárias, como a de Jamal Juma, dirigente do movimento Stop the Wall – é que o processo de paz pode abrir horizontes reais de cumprimento das decisões da ONU, que garante a Palestina os mesmos direitos que os israelenses gozam há mais de 60 anos – o direito de ter um Estado palestino, soberano, com fronteiras delimitadas, com direito de regresso dos imigrantes, é a posição correta, que deve ser apoiada e incentivada por todos os desejam um mundo de paz, solidariedade e fraternidade e não o mundo das “guerras infinitas” de Bush, que Israel continua a colocar em prática, um ano depois do massacre de Gaza, contra os palestinos.

Emir Sader

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Norte-americanos pagam crise

Governo dá milhões ao capital

O governo norte-americano anunciou a cobertura dos prejuízos acumulados pelos bancos Fannie Mae e Freddie Mac. A medida contrasta com a austeridade aplicada aos trabalhadores e os cortes nos programas públicos.

As instituições financeiras que garantem, conjuntamente, mais de 40 por cento do crédito à habitação, tinham um limite de «ajudas» fixado pela administração de Barack Obama em 400 mil milhões de dólares. Ambas, já receberam do Estado cerca de 110 mil milhões de dólares - 60 mil milhões a Fannie Mae e 51 mil milhões a Freddie Mac.
Com esta medida – aprovada no mesmo dia em que os deputados dos EUA ratificaram o aumento do déficit público em mais 290 mil milhões de dólares - o Estado passa a poder injetar nas empresas, a cada três meses e durante os próximos três anos, montantes de capital idênticos às perdas líquidas registradas, cobrindo, na prática, o resultado de qualquer operação realizada até ao final de 2012.
A decisão, tomada a poucos dias do fim do ano, visa evitar o escrutínio do Congresso (obrigatório caso a proposta avançasse em 2010) e, sobretudo, o debate público da medida, cujo fim é garantir as perdas da Fannie Mae e da Freddie Mac, avaliadas no Orçamento de 2010 em 170 mil milhões de dólares nos próximos 10 anos.

Bônus milionários

Paralelamente, informações veiculadas pela BBC garantem que os presidentes executivos de ambas as entidades receberam durante o ano de 2009 remunerações na ordem dos 6 milhões de dólares. Informações da Agência Federal de Financiamento da Habitação revelam que as remunerações deste ano foram em média 40 por cento inferiores às anteriores, no entanto aquele organismo justifica que os 6 milhões de dólares pagos visam «reter e atrair o talento [dos gestores] para que os objetivos [das empresas] sejam alcançados»
Em informações prestadas à Comissão de Valores, a Fannie Mãe e a Freddie Mac alegam que os respectivos presidentes, Michael Williams e Charles Haldeman, receberam 900 mil dólares de salário base, mais 3,1 milhões de dólares diferidos caso sejam alcançados determinados objetivos e outros 2 milhões de dólares se a sua performance individual se ajustar aos resultados propostos.
Mas os casos de dilapidação do erário público, divulgados na semana passada nos EUA, não se resumem às garantias estatais e aos prêmios na Fannie Mãe e Freddie Mac. No mesmo período, Kenneth Feinberg, o administrador delegado pelo executivo Obama para controlar sete empresas intervencionadas na seqüência da crise capitalista, autorizou a American International Group (AIG) a aumentar em cerca de 4,2 milhões de dólares a remuneração de um dos seus principais executivos, cujo nome não foi revelado.
Esta medida surge na seqüência de outra semelhante que, no ano passado, aumentou em 10,5 milhões de dólares o pecúlio recebido pelo presidente da AIG, Robert Benmosche, acréscimo à remuneração justificado por Kenneth como um «oportuno incentivo de longo prazo para garantir que o trabalhador contribui para o sucesso da AIG».
A AIG é a única das companhias sob intervenção que se mantém sob controle estatal e recebeu até à data 182 mil milhões de dólares do governo. Em Março, a AIG já esteve envolta num escândalo devido aos prêmios pagos aos seus executivos, obrigando a empresa a anunciar que os seus quadros de topo iriam devolver 45 dos 165 milhões de dólares concedidos a título de bônus. A verdade é que, segundo o Washington Post, que cita dados oficiais, apenas 19 milhões foram devolvidos.

Lucros recorde

Mas o resultado das políticas do governo norte-americano face à crise capitalista vão bem mais longe que os cerca de 30 mil milhões de dólares que a burguesia e seus lacaios se preparam para amealhar no final do corrente exercício a título de prêmios, bônus e similares. De acordo com o Wall Street Journal, a política federal de manter as taxas de juro para o crédito de curto prazo próximas do zero está a financiar os grandes grupos nos investimentos em novas operações especulativas.
Neste contexto, não é de estranhar que os lucros do capital batam recordes dos últimos cinco anos. Segundo o Departamento do Comércio, os lucros das empresas deverão subir este ano 10,8 por cento. A contribuir para o sucesso do capital, está, igualmente, a pressão sobre os salários dos trabalhadores e o aumento da exploração. Estimativas oficiais asseguram que o custo do fator trabalho diminuiu, em média, 2,5 por cento em 2009, ao passo que a produtividade cresceu 8,1 por cento.

Trabalhadores suportam fardo

A contrastar com o apoio que a grande burguesia tem recebido da Casa Branca, as condições de vida dos trabalhadores e do povo norte-americano são cada vez piores.
Dados oficiais citados pelo Workers World indicam que quase oito milhões de famílias foram incapazes de pagar as prestações do crédito à habitação no terceiro trimestre deste ano, isto sem contar com os agregados que, em resultado da perda do posto de trabalho, dos baixos salários e da precariedade, já viram as respectivas hipotecas executadas (estima-se em 13 milhões desde o início da crise). Os mesmos dados afirmam que cerca de 7 milhões de hipotecas serão executadas no futuro. O total de casas à venda em resultado da execução de hipotecas aumentou, até Setembro de 2009, 55 por cento face a 2008.
Neste particular, nem o propagandeado programa de modificação de empréstimos tem valido grande coisa. Dos cerca de 700 mil pedidos efetuados junto do Home Affordable Modification Program, pouco mais de 31 mil estavam ativos em Novembro, muito longe da promessa de 3 a 4 milhões de agregados abrangidos feita por Obama.

Desemprego não pára

A pressionar a falta de pagamento das hipotecas está o desemprego. O Washington Post diz que metade dos estados norte-americanos estão sem dinheiro para os respectivos programas de subsídio de desemprego, tantos são os casos de trabalhadores nessa situação.
O esgotamento dos fundos públicos para esse fim é de tal forma evidente que no Kentucky, por exemplo, o governo local pretende reduzir em 9 por cento o valor do subsídio. Na Virgínia e Maryland, o montante emprestado pelo governo central já ascende a 89 e 85 milhões de dólares, respectivamente, enquanto que a Carolina do Sul bate todos os recordes com 649 milhões de dólares de dívida a Washington.

Cortes nos serviços públicos

Por outro lado, o governo norte-americano tem-se mostrado severo nas transferências de fundos para os programas sociais. Por exemplo, o programa de ajuda às famílias em dificuldade para saldar a fatura energética mantém uma dotação orçamental de 5,1 mil milhões de dólares em 2010, mesmo que em 2009 o número de famílias que se socorreram desta ajuda tenha aumentado em mais de 2,1 milhões, passando o total de beneficiários para a impressionante cifra de 8,2 milhões.
Milhares não tiveram hipótese e, como a Casa Branca não considera uma prioridade o acesso dos trabalhadores a água potável, gás e eletricidade, viram os respectivos fornecimentos interrompidos.
Igualmente dramáticos, mas também por isso elucidativos do que se passa do outro lado do Atlântico, são os cortes nos tratamentos médicos. De acordo com a Sociedade Americana para a Prevenção do Câncer, o Estado Federal e pelo menos 20 estados da União deixaram de financiar exames de rastreamento. Mulheres com menos de 50 anos são enviadas para casa ou colocadas em listas de espera intermináveis sem realizarem exames preventivos, denuncia aquela estrutura.
A austeridade governamental para com os trabalhadores gera protestos. Professores, pais, estudantes, funcionários públicos e trabalhadores de serviços públicos dos transportes têm mostrado a sua revolta.
Em Chicago, os trabalhadores da empresa regional de transportes manifestaram-se contra as possíveis demissões e o lay-off, o corte de 18 por cento das carreiras e de 9 por cento nos serviços ferroviários, e a descida dos salários que deve entrar em vigor a partir de Fevereiro de 2010.
No Estado de Nova Iorque, os cortes nos serviços de transporte – pelo menos 20 carreiras urbanas e suburbanas, supressão de duas linhas férreas e o encurtamento do serviço noutras duas – é o mote da insatisfação de trabalhadores e população. A estas medidas acrescem os aumentos no preço dos bilhetes, 10 por cento este ano e 7,5 no próximo; o fim do serviço de transporte para cidadãos com mobilidade reduzida, que passam a ser levados até à estação de comboio, metro ou autocarro mais próxima da sua casa em vez de serem transportados até ao destino; e o fim do financiamento dos passes escolares, obrigando as famílias a suportarem cerca de mil dólares por ano nos transportes de cada uma das 600 mil crianças e jovens que freqüentam o ensino público.


Original em Avante!

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domingo, 27 de dezembro de 2009

UNICEF confirma: Cuba tem 0% de desnutrição infantil

Segundo a ONU, Cuba é o único país da América Latina e Caribe que eliminou a desnutrição infantil severa, graças aos esforços do governo para melhorar a alimentação da população, especialmente dos grupos mais vulneráveis. As duras realidades do mundo mostram que 852 milhões de pessoas padecem de fome e que 53 milhões delas vivem na América Latina. Só no México há 5,2 milhões de pessoas desnutridas. No Haiti, são 3,8 milhões, enquanto que, em todo o planeta, mais de cinco milhões de crianças morrem de fome todos os anos.

A existência de cerca de 146 milhões de crianças menores de cinco anos abaixo do peso ideal no mundo em desenvolvimento contrasta com a realidade das crianças cubanas que estão livres desta enfermidade social. Essas preocupantes cifras apareceram em um recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), intitulado “Progresso para a Infância, um balanço sobre a nutrição”, divulgado na sede da ONU. Segundo o documento, os índices de crianças abaixo do peso são de 28% na África Subsaariana, 17% no Oriente Médio e África do Norte, 15% na Ásia Oriental e Pacífico, e 7% na América Latina e Caribe. Depois vem a Europa Central e do Leste, com 5%, e outros países em desenvolvimento, com 27%.

Cuba é o único país da América Latina e Caribe que eliminou a desnutrição infantil severa, graças aos esforços do governo para melhorar a alimentação da população, especialmente dos grupos mais vulneráveis. As duras realidades do mundo mostram que 852 milhões de pessoas padecem de fome e que 53 milhões delas vivem na América Latina. Só no México há 5,2 milhões de pessoas desnutridas. No Haiti, são 3,8 milhões, enquanto que, em todo o planeta, mais de cinco milhões de crianças morrem de fome todos os anos.

Segundo estimativas da ONU, não seria muito custoso garantir saúde e nutrição básica para todos os habitantes dos países em desenvolvimento. Para alcançar essa meta, bastariam 13 bilhões de dólares adicionais ao que se destina atualmente, uma cifra que nunca foi atingida e que é exígua se comparada com os bilhões de dólares destinados anualmente à publicidade comercial, os 400 bilhões gastos em medicamentos tranqüilizantes ou mesmo os 8 bilhões de dólares que são gastos em cosméticos nos Estados Unidos.

Para satisfação de Cuba, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) também reconheceu que esta é a nação com os maiores avanços na luta contra a desnutrição na América Latina. O Estado cubano garante uma cesta básica alimentar que permite a alimentação de sua população ao menos em dois níveis básicos, mediante uma rede de distribuição de produtos alimentícios. Além disso, há instrumentos econômicos em outros mercados e serviços locais para melhorar a alimentação do povo cubano e atenuar o déficit alimentar. Especialmente, há uma constante vigilância sobre o sustento das crianças e adolescentes. A nutrição começa com a promoção de uma melhor e mais natural forma de alimentação.

Desde os primeiros dias de nascimento, os incalculáveis benefícios do aleitamento materno justificam todos os esforços realizados em Cuba em favor da saúde e do desenvolvimento de sua infância. Isso tem permitido elevar os índices de recém nascidos que recebem aleitamento materno até o quarto mês de vida e que seguem consumindo esse leite, complementado com outros alimentos, até os seis meses de idade. Atualmente, 99% dos recém nascidos saem das maternidades com aleitamento materno exclusivo, índice superior à meta proposta, que é de 95%, segundo dados oficiais, nos quais se indica que todas as províncias do país cumprem essa meta.

Apesar das difíceis condições econômicas enfrentadas pela ilha, o governo cuida da alimentação e da nutrição das crianças mediante a entrega diária de um litro de leite a todas as crianças até sete anos de idade. Soma-se a isso a entrega de outros alimentos que, dependendo das disponibilidades econômicas do país, são distribuídos eqüitativamente para as idades mais pequenas da infância. Até os 13 anos de idade se prioriza a distribuição subsidiada de produtos complementares como o iogurte de soja e, em situações de desastre, se protege a infância mediante a entrega gratuita de alimentos de primeira necessidade.

As crianças incorporadas aos Círculos Infantis e às escolas primárias com regime de semi-internato recebem, além disso, o benefício do contínuo esforço por melhorar sua alimentação quanto à presença de componentes dietéticos, lácteos e protéicos. Com o apoio da produção agrícola – ainda enfrentando condições de severa seca – e a importação de alimentos, alcança-se um consumo de nutrientes acima das normas estabelecidas pela FAO. Em Cuba, esse indicador não é a média fictícia entre o consumo alimentar dos ricos e dos que passam fome.

Adicionalmente, o consumo social inclui a merenda escolar que é distribuída gratuitamente a centenas de milhares de estudantes e trabalhadores da educação, com cotas especiais de alimentos para crianças até 15 anos e pessoas de mais de 60 anos nas províncias do leste da ilha. Nesta relação, estão contempladas as grávidas, mães lactantes, anciãos e incapacitados, crianças com baixo peso e altura e o fornecimento de alimentos aos municípios de Pinar del Rio e Havana e também para a Ilha da Juventude. Essas regiões foram atingidas no ano passado por furacões, enquanto que as províncias de Holguín, Las Tunas e cinco municípios de Camaguey sofrem atualmente com a seca.

Esse esforço conta com a colaboração do Programa Mundial de Alimentos (PMA), que contribui para a melhoria do estado nutricional da população mais vulnerável da região oriental, beneficiando mais de 631 mil pessoas. A cooperação do PMA com Cuba data de 1963, quando essa agência ofereceu assistência imediata às vítimas do furacão Flora. Até hoje, já foram concretizados no país cinco projetos de desenvolvimento e 14 operações de emergência. Recentemente, Cuba passou de ser um país receptor a um país doador de ajuda.

O tema da desnutrição tem grande importância na campanha da ONU para atingir, em 2015, as Metas de Desenvolvimento do Milênio, adotada em uma cúpula de chefes de Estado em 2000 e que tem entre seus objetivos eliminar a pobreza extrema e a fome. A ONU considera que Cuba está na vanguarda do cumprimento dessas metas em matéria de desenvolvimento humano. Mesmo enfrentando deficiências, dificuldades e sérias limitações pelo bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos EUA há mais de quatro décadas, Cuba não mostra índices alarmantes de desnutrição infatil como ocorre em outros países. Nenhuma das 146 milhões de crianças menores de cinco anos com problemas de baixo peso, que vivem hoje no mundo, é cubana.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Publicado em Carta Maior

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O Caso Battisti e a politização do Judiciário

O governo Berlusconi silenciou quando, muito recentemente, o Presidente francês Sarkozy negou-se a extraditar Marina Petrella, ex-militante das Brigadas Vermelhas. No caso Battisti, exigiu a extradição como se o Brasil fosse uma republiqueta sulamericana.

Enquanto Cesare Battisti esteve exilado na França, o governo italiano não ousou pedir sua extradição. Bastou ser detido no Brasil para o governo Berlusconi exigir a extradição, como se o Brasil fosse uma republiqueta sul-americana. Lembremos que o governo Berlusconi silenciou quando, muito recentemente, o Presidente francês Sarkozy negou-se a extraditar Marina Petrella, ex-militante das Brigadas Vermelhas.

As ações atribuídas a Battisti pela delação premiada de um prisioneiro – não há provas além da testemunhal – configuram crime político, anistiável pela lei brasileira, e já prescrito. A pressão do governo italiano, por si só, já mostra que o caso é político, por mais que o chamem de terrorista. Durante a ditadura militar, os exilados brasileiros também foram chamados de terroristas sanguinários.

Em qualquer país civilizado, questões de política internacional, inclusive conceder ou não asilo político, são da alçada do poder Executivo e não do poder Judiciário. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal entendeu que devia antes examinar se havia ou não pressupostos legais para uma possível extradição. Na realidade, parte do STF tentou negar o fundamento da decisão do Ministro da Justiça que concedera refúgio a Battisti, interrompendo, assim, o processo de extradição.

Sem entrar no mérito da distinção técnica entre refúgio e asilo, é importante assinalar que o fato de existir tratado de extradição entre a Itália e o Brasil obriga o governo brasileiro a examinar o pedido de extradição, mas não necessariamente a concedê-la.

O STF concluiu que não havia impedimento legal para uma eventual extradição que, entretanto, só poderia ser decidida pelo Poder Executivo.

Daí a decisão da maioria na segunda votação, que causou celeuma e certa incompreensão, apesar de existir precedentes no próprio STF em relação à extradição de um israelense acusado de maltratar crianças. Naquela ocasião, conforme esclareceu o ministro Ayres Britto, o Supremo Tribunal entendeu que caberia ao presidente da República a decisão final.

Preocupante, na verdade, foi o voto vencido de que o STF poderia decidir a extradição, usurpando prerrogativa constitucional do Executivo. Já são numerosos, no Brasil, os casos de judicialização da política. A parte vencida do Supremo Tribunal queria avançar ainda mais, na direção do que seria um caso flagrante de politização do Judiciário.

Prevaleceu o bom senso e o respeito à Constituição. Cabe ao presidente da República, legitimamente eleito, a decisão de conceder ou não o asilo político. Isso é o que está na Constituição. O resto são lamentações de fundo político ou ideológico.

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Liszt Vieira é antigo exilado político, Professor da PUC-Rio, atualmente Presidente do Jardim Botânico.

Original em Carta Maior

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Venezuela alvo do império

O presidente Hugo Chávez alertou para a preparação de uma agressão norte-americana contra o seu país. As movimentações militares da Colômbia e dos EUA confirmam a ameaça.

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Depois de ter permitido a instalação no seu território de sete bases militares dos EUA, «a Colômbia está a mover unidades terrestres junto à fronteira [com a Venezuela]», disse Chávez no programa semanal «Alô Presidente». Estas manobras, explicou, juntam-se à campanha de identificação da revolução bolivariana com o fornecimento de armas à guerrilha colombiana, às constantes declarações hostis de altos mandatários de Bogotá (ministro da Defesa, vice-presidente e presidente), à entrada de paramilitares colombianos em território da Venezuela, aos exercícios aéreos e navais dos EUA em Aruba e Curaçau (ilhas sob soberania holandesa situadas a 70 quilômetros da Venezuela para onde os norte-americanos deslocaram uma esquadrilha de F-16) e à incursão no país de aviões espiões não-tripulados (drones) enviados pelo Pentágono.

«Temos de estar alerta. Estão preparando o terreno», considerou Chávez, para quem a Colômbia está a ser instrumentalizada pelos EUA como plataforma para a agressão.

No mesmo discurso, citado pela VTV, o presidente venezuelano detalhou que a aeronave comandada à distancia – com capacidade para transportar e lançar mísseis, e cujas operações se têm apurado com sucesso no Iraque, Afeganistão e Paquistão, representando, no orçamento militar dos EUA para o próximo ano, 36 por cento do total das missões aéreas a realizar em 2010 – foi avistada em Fuerte Mara, no Estado de Zulia, e esclareceu já ter dado ordens para que aparelhos deste tipo sejam derrubados.

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Reforço ameaçador

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Os alertas de Hugo Chávez surgem depois de o governo colombiano ter decidido instalar uma nova base militar em Guajira, na fronteira com o Estado venezuelano de Zulia. As instalações vão ser financiadas pelos EUA e construídas com o auxílio logístico daquele país, confirmou o ministro da defesa da Colômbia, Gabriel Silva.

O executivo de Álvaro Uribe também confirmou a ativação de sete novos batalhões das forças armadas, seis dos quais são unidades aéreas, e um de operações especiais. Dois vão ficar estacionados junto à fronteira com a vizinha nação latino-americana, revelam informações divulgadas pela EFE. Dos restantes, um vai ficar acantonado no estado de Guaviare, e quatro integram duas das bases militares norte-americanas usadas pelos EUA.

Este reforço ameaçador – ao qual acresce ainda a transferência de material militar e armamento dos EUA para a Colômbia no âmbito do acordo recentemente assinado entre ambos – é consistente com os tambores de guerra que o imperialismo e os seus Estados vassalos têm vindo a troar contra a Venezuela e os demais países que no subcontinente empreendem processos progressistas, democráticos e de soberania nacional.

Desde 2006, Washington realiza jogos de guerra em Aruba e Curaçau envolvendo centenas de porta-aviões e vasos de guerra, aviões de combate e helicópteros, submarinos nucleares e milhares de soldados. A Venezuela já protestou junto da Holanda e pretende que a UE tome posição.

Em 2008 o Pentágono reativou a IV Frota da Armada, encarregue de defender os interesses norte-americanos na América Latina. A IV Frota foi desativada na década de 50 do século passado e a sua recolocação ao serviço mereceu da parte dos países da América Latina o mais vivo repúdio e veementes pedidos de explicações junto de Washington.

Para mais, a Venezuela tem sido apontada pela Casa Branca como um Estado não-cooperante para com o «combate ao narcotráfico» e o «terrorismo internacional», e só a dependência dos EUA face ao petróleo venezuelano impediu George W. Bush de incluir o país no famoso grupo de nações do «eixo do mal».

Já a semana passada, a secretária de Estado Hillary Clinton fez saber à Venezuela, Bolívia, Brasil, e Nicarágua que «devem pensar nas conseqüências» do estreitamento de laços econômicos com o Irão e «aconselhou» os chefes de Estado respectivos a «pensarem duas vezes antes de o fazerem».

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Original em Avante!

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Círculo de Fogo se fecha sobre a América Latina

Editorial Inverta 440

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A assinatura do acordo entre os Estados Unidos e a Colômbia, de instalação de mais sete bases militares estadunidenses em território colombiano, que segundo os esclarecimentos exigidos pelo presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva aos presidentes Obama e Uribe foram considerados satisfatórios, embora permaneça a demanda de tornar conhecido o conteúdo do mesmo pelos países da Unasul, constitui-se em mais um visível movimento de características geo-estratégicas, que somado às demais bases já existentes no continente, a reativação da IV Frota e o golpe em Honduras, nos levam à confirmação que o Círculo de Fogo em torno da América Latina passa a se fechar, suscitando desdobramentos dramáticos e violentos para os nossos Povos, a propósito do que continua acontecendo no Oriente Médio.

O INVERTA, em seu Editorial de Julho de 2008, intitulado "O Círculo de Fogo sobre a América Latina", esboçou a idéia de que as bases norte-americanas neste continente teriam uma pretensão maior do que aparentemente lhe são atribuídas, que não se tratam de dispositivos que resguardam o poder hegemônico estadunidense sobre o continente, em função da herança da guerra fria ou de controle dos movimentos revolucionários na região.

Segundo este Editorial a idéia tem por objetivo manter o histórico isolamento do Brasil em relação aos demais países do hemisfério, impedindo a unidade latino-americana e bloqueando o desenvolvimento do potencial econômico-social do hemisfério como um todo, dentro das novas circunstâncias da divisão internacional do trabalho e da política internacional. Que a histórica intervenção dos Estados Unidos na região desde as lutas por Independência estão marcadas por este signo, como bem comprova o boicote da delegação brasileira ao Congresso do Panamá, convocado por Bolívar (1824), durante o Movimento de Libertação da América Latina, e que ainda todo esse aparato de divisão, controle e submissão dos Povos de Nossa América nas novas circunstâncias históricas de Crise do Capitalismo, desde o último quartel do século XX ao século XXI, servem à nova estratégia de submissão econômica e política, de globalização neoliberal, dos países latino-americanos, em especial, o Brasil, que isolado dos demais desenvolveu as características subimperialistas, servindo como instrumento de dissuasão repressiva aos processos de unidade política e mudanças revolucionárias.

Quando este Editorial foi publicado as ideias contidas no mesmo pareciam absurdas para alguns, pois o contexto regional, como nos anos 60 e 70 que destacava Cuba na liderança do combate ao imperialismo na defesa da unidade continental sob o paradigma da Revolução Socialista; na atualidade, destaca a Venezuela na defesa desta unidade continental sob os paradigmas da Revolução Bolivariana. Nestes termos é difícil perceber e aceitar que o acordo das bases, a reativação da IV Frota, representasse qualquer perigo ao Brasil, dado seu papel histórico na região e as novas características do desenvolvimento capitalista no país de submissão pelo entrelaçamento subordinado das oligarquias burguesas locais à oligarquia financeira internacional, em especial, sua parcela hegemônica nos EUA; contudo, o desenrolar deste processo e a própria posição do governo brasileiro demonstra que as idéias avançadas deste Editorial já não parecem tão absurdas porque se assim fosse qual o motivo de pedir esclarecimentos a respeito do acordo entre os Estados Unidos e a Colômbia?

Certa vez um sábio visionário afirmou que se a aparência das coisas se confundisse com a sua essência, toda ciência seria supérflua, e, sem dúvida, este sábio aforismo cai como uma luva para os teóricos do Governo Lula, inclusive os ideólogos burgueses que se dizem democráticos, patriotas e nacionalistas. Pois o que justifica a maior potência militar de todos os tempos na história mundial dispor de 7 bases militares para combater o narcotráfico; a luta revolucionária do Povo Colombiano, das FARC-EP e da ELN, a qual denominam de terrorismo; e combater a influência da Revolução Bolivariana na Venezuela? O que poderia justificar um movimento desta ordem?

A História mostra que quando Hitler iniciou a guerra, cujo objetivo geral era o domínio sobre o continente europeu, elegeu como alvo de suas operações iniciais a Áustria, que o movimento de anexação daquele país se deu sem nenhuma resistência, que as tropas de Hitler através de núcleos já estavam presentes naquele país há bastante tempo, portanto, quando da entrada de suas tropas, ao contrário de uma recepção hostil, o que obteve foi a saudação clamorosa do povo. Mas a Áustria era apenas a cabeça de ponte para a passagem das hostes nazistas, em sua estratégia de domínio continental. Hitler enunciou como alvo segundo a jovem Revolução Russa, levando a Europa, em especial a Inglaterra e França, temerosos da Revolução Comunista, a uma aceitação silenciosa da anexação austríaca. E este comportamento político do velho continente europeu levou à histórica destruição e barbárie de vidas a partir de 1939 até 1945. Hitler fez um deslocamento estratégico de seus exércitos, anexando país por país em torno da URSS, mas o seu foco principal era o coração do continente europeu, econômico e político de então: a Inglaterra e a França. A questão que se coloca no momento é que dado o desenvolvimento tecnológico, torna-se impossível o deslocamento de forças que não denunciem o objetivo estratégico. Então, é necessário perguntar: Quem é o coração da América Latina, que numa nova visão estratégica e de um novo regime social, de unidade, integração, solidariedade e soberania dos Povos em Nossa América, poderia ser decisivo para o sonho Bolivariano e Martiano, pelo qual se batem Cuba e agora, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua? Não há como negar que este país é o Brasil.

E quanto mais cresce o seu desenvolvimento econômico e tecnológico, mais sua capacidade de conhecer as riquezas naturais (pré sal, água potável, biodiversidade) e possibilidades sociais, mais sua importância se mostra decisiva no contexto histórico atual; por outro lado, quanto mais aprofunda a crise do imperialismo no plano internacional, em especial, no centro principal desta crise, os EUA, revelando suas debilidades, ameaçando a hegemonia econômica e monetária, política, resta a herança que ele logrou conquistar no curso das duas guerras mundiais e da guerra fria até os dias atuais: seu complexo industrial militar, arsenal nuclear e demais tecnologias de guerra, espionagem e manipulação que corporificam-se em fatores objetivos e subjetivos, em suas forças armadas e indústria de guerra, e esta situação ainda é mais perigosa quando se vê ameaçado de desintegração interna, convulsão social, ameaça de desabastecimento de cereais para a população e de matérias-primas para sua indústria e vê crescer como na época da grande depressão, os milhões de desempregados, famintos, sem-tetos em suas ruas e principais cidades, vendo crescer a violência a cada dia. O reflexo de toda ideologia de superioridade racial e imperial sobre o mundo posta-se como ferida interna e câncer, que corrói toda a sociedade, atingindo os ícones de sua exuberância irracional: Wall Street, a GM, a Chrysler, a Lehman Brothers, Freddie Mac e Fannie Mae, entre outras; a ponto de após 390 anos de opressão sobre a população negra e 144 anos da libertação da escravatura(*) e das lutas contra o apartheid social, como forma de dupla exploração em cima das populações de etnias distintas, indígenas, latinas, negros, asiáticos, eleger um presidente que expressasse essas "minorias", oprimidas secularmente pela idéia da eugenia racial. Tudo isto se processa nas correntes sanguíneas da sociedade estadunidense. Quando a Alemanha passou a viver a situação de humilhação, após a derrota na I Guerra Mundial, que a crise econômica levou ao desespero o seu povo, vivendo em situação similar ao que vive os EUA hoje, o povo construiu como solução a República de Weimar contra o bolchevismo da Revolução Russa e o canto da vontade nacional da eugenia ariana e assim concentrou a vontade da maioria da população e a esperança de sair da humilhação e do desespero econômico e da submissão em que vivia. Mas a crise de 1929 levou de roldão a República de Weimar, afogada pelo discurso estridente de Hitler, evocando as potências do país. Eis o desfecho que levou ao cataclisma da II Guerra Mundial. O que isto tem a ver com as possibilidades da conjuntura que se forma em Nossa América, impulsionada pela Crise do Capital e a singularidade com os EUA a protagonizem? O desfecho deprimente de sua guerra de ocupação e rapina contra o Afeganistão e o Iraque; a submissão das superestruturas políticas condensadas no Governo Obama, alterando todo o metabolismo social dominado pelo ódio racial e humilhação das vacas sagradas da Ku Klux Khan, na explosão de ódio, torna-se uma variável bastante previsível que poderia unir-se ao complexo industrial-militar em nova estratégia desesperada de afogar as contradições internas pelas contradições externas numa guerra pela recolonização da América Latina. Fidel Castro recentemente afirmou que o acordo entre os Estados Unidos e a Colômbia representa a anexação desta pelos EUA, com o objetivo de destruir a Revolução Bolivariana e a esperança de unidade no continente.

Então, nós do INVERTA, entendemos que o Círculo de Fogo fecha o seu cerco sobre Nossa América, exigindo de todo patriota, democrata, nacionalista, e das forças revolucionárias no continente, a Unidade e a Defesa da Soberania de seus Povos e países. Além disso, que as situações de Honduras, a exemplo do Haiti, são apenas escaramuças, mensurações da capacidade de resposta da AL a um cenário de guerra de ocupação do imperialismo ianque na região: o conflito na Colômbia, o golpe em Honduras, a ocupação do Haiti, o bloqueio à Cuba, a anexação da Colômbia e a ameaça de invasão da Venezuela e sufocamento da Revolução Bolivariana são eixos concretos para a unidade tática e estratégica das forças revolucionárias do continente. O III Congresso da Coordenadora Continental Bolivariana tem a responsabilidade de posicionar-se sobre este eixo e de ter a sensibilidade e sabedoria de confluir as forças revolucionárias no continente para esta luta sem quartéis contra o imperialismo estadunidense. Neste particular, não poderá esquecer a importância do Brasil nem o significado da divisão entre as reais forças revolucionárias no país e os farsantes de ontem e de hoje, que impediram a delegação brasileira de estar presente no Congresso convocado por Bolívar e os que impediram a unidade revolucionária na Tricontinental, expulsando Marighela e isolando as forças revolucionárias dentro do próprio país: a História é pródiga em ironias.


Contra a anexação da Colômbia pelos EUA!
Fora com todas as bases militares norte-americanas do Continente!
Em defesa da Revolução Bolivariana!
Contra o Golpe em Honduras!
Contra a intervenção militar do Brasil no Haiti!
Pela Defesa da Unidade e Soberania Continental!
Pela Revolução Brasileira!


Aluisio Bevilaqua

Editor de INVERTA, membro da Presidência Coletiva da Coordenadora Continental Bolivariana, presidente do Capítulo Brasil da CCB – Luiz Carlos Prestes
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Consolida-se o processo progressista na Bolívia

Vitória sobre o domínio imperialista

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O triunfo eleitoral de Evo Morales e do Movimento para o Socialismo (MAS) nas eleições bolivianas representa a vitória das forças progressistas e soberanas sobre a dominação imperialista que condenava o país ao subdesenvolvimento e o povo à exclusão, injustiça e miséria.

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No sufrágio do passado dia 6, Evo Morales e o MAS quebraram o recorde de votação em todas as anteriores consultas e referendos, alcançando, respectivamente, 63 por cento para a presidência da República - garantindo, assim, a recondução de Morales no cargo -, e uma maioria de mais de dois terços, 110 deputados num total de 166, no parlamento do país. Acresce o fato de terem derrotado a oposição conservadora e golpista, os sectores da direita mais reacionária, em sete das nove províncias do território.

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Os números não são novos e foram, aliás, publicados anteriormente pelo Avante!. Mas a vitória das forças que defendem os interesses populares, a soberania e a democracia na Bolívia representa mais que uma esmagadora tradução em votos do apoio popular a Evo Morales e ao MAS. Significa, sobretudo, o reforço da base social e política do projeto de refundação nacional levado a cabo nos últimos anos, e a expressão, em sufrágio universal, da defesa das propostas que o presidente e as forças progressistas, democráticas e revolucionárias que o sustentam procuram concretizar.

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Propostas que ficaram claras no período da campanha eleitoral e que Evo Morales veio reiterar depois da ida às urnas – consolidação do Estado plurinacional e da participação do povo nas decisões estratégicas; reforma dos sistemas jurídico, de educação, de saúde e de previdência; combate à pobreza, à exclusão social, à corrupção e ao crescimento das grandes fortunas acumuladas pela oligarquia que controla alguns poderes locais e atividades produtivas; impulso decisivo à economia com o setor público e a exploração das riquezas naturais - gás, petróleo e minério - a serem os motores do desenvolvimento dos demais sectores e da industrialização do país, orientação vital para que a Bolívia deixe de ser, fundamentalmente, um exportador de matérias-primas.

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Caminho percorrido

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O triunfo eleitoral apresenta-se, simultaneamente, no quadro do reconhecimento por parte do povo do trabalho realizado pelo governo. A nacionalização dos hidrocarbonetos, os avanços na democratização do acesso à terra, o combate ao analfabetismo e a aposta na formação de quatros técnicos e superiores, medidas de âmbito social como o apoio às crianças e os idosos foram concretizadas.

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Da mesma forma, a ação do executivo permitiu tirar a Bolívia do triste lugar de nação mais pobre da América Latina. O PIB mais que duplicou em quatro anos e o rendimento

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Tudo isto foi amplamente ratificado pelo povo. E ainda que os EUA ameacem - como fez a semana passada a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, considerando que a aproximação da Bolívia (e da Venezuela) ao Irã registra o estabelecimento de laços com «um dos maiores promotores do terrorismo» -, a verdade é que os bolivianos, a imensa maioria dos bolivianos, estão, livre e conscientemente ao lado das orientações anti-imperialistas e antimonopolistas.

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Original em Avante!

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