Além do Cidadão Kane

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Notícias da resistência iraquiana amordaçadas, mas não o jornalista Al-Zaidi

Imad Khadduri, Free Iraq
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Um oficial do exército no ministério de defesa do Iraque confirmou que a resistência iraquiana continua a atacar soldados americanos e a causar víctimas diárias em Anbar, Bagdad, Mossul, Diyala, Samara, Tikrit, Kirkuk e noutras cidades. Segundo ele, os ataques transformaram-se em “maior devastação e com um calibre mais elevado”. Entretanto, a resistência iraquiana diz que as notícias a relatarem estes ataques são omitidas por completo pelas forças de ocupação americanas e que o governo do Iraque amordaçou os jornalistas iraquianos tomando o controle de suas uniões. O oficial de exército insurgiu-se também contra os meios utilizados na divulgação dos ataques da resistência irquiana, dando como exemplo um videoclip colocado no YouTube de um ataque iraquiano da resistência a um veículo de agentes da Mossad nas ruas de Kirkuk, tendo o videoclip sido removido uns dias depois pelo YouTube.
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Entretanto, o jornalista Al-Zaidi disse em tribunal que “não queria matar o chefe das forças de ocupação no Iraque”, falando clara e vigorosamente dentro duma cela de madeira na sala do tribunal. Disse expressar o que ia dentro de si e dos povos iraquianos do norte ao sul e de este a oeste. Atirar os sapatos ao líder do “mundo livre” não era um crime, disse Zaidi, que é acusado de atacar um chefe de Estado estrangeiro, argumentando que “não se tratava de uma visita oficial de um dignatário extrangeiro porque chegou ao país sem autorização e não saiu da zona verde, sob o controle dos E.U.A. Nós árabes somos famosos por ser generosos com os convidados. Mas Bush e os seus soldados impuseram-se aqui há seis anos. Os convidados devem bater à porta. Aqueles que entram pela casa dentro não são convidados.
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Original em Tribunal Iraque

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quando o Direito Penal é convertido em uma arma do Estado

Júlia Humet
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"A tradição dos oprimidos nos
ensina que a regra é um estado
de emergência em que vivemos"
Walter Benjamin
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14 novembro 2008. O Conselho de Ministros do governo espanhol anunciou a aprovação de uma vigorosa reforma do Código Penal. Dizem que tem de responder às demandas sociais de modo mais duro "contra o crime e o terrorismo".
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Aprovação de reformas sobre a liberdade vigiada, a prescrição, o planejamento, a "nova criminalidade" e dos delitos sexuais... Ou, dito de outro modo, uma legislação mais forte, como disse um ministro da informação (“Caso de Juana, escândalos urbanos, ataques a casas,"caso Mari Luz “)... Segundo a Vice Presidente do Governo, Maria Teresa Fernandez de la Vega, "não haverá nenhuma diferença à impunidade."
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No que diz respeito à condenação por "terrorismo", a reforma prevê a imposição de uma pena acessória de até 20 anos de liberdade vigiada. Isto é, penas de prisão de até 40 anos mais de 20 anos de liberdade vigiada, ou dito de outro modo, a prisão sem grades. A liberdade vigiada significa ser permanentemente monitorado em tudo, notificar o juiz mudanças de endereço ou de emprego, apresentar-se periodicamente ao judiciário... E proibições: de ficar junto ou comunicar-se com as pessoas que o juiz determinou, deixar o local de residência sem autorização do juiz, para ir a determinados locais ou estabelecimentos, de ficar em certos lugares... até 60 anos no total da condenação ... e quem disse que a prisão perpétua não existe na Espanha?
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No quadro da União Européia, vários Estados incluíram na sua legislação penal, a figura de prisão perpétua. Em todos eles, sob a forma denominada "prisão perpétua revisável", que permite a revisão da condenação e da possibilidade de concessão de liberdade vigida ao fim de um determinado tempo: 26 anos na Itália, 20 na Grécia, 15 na França ou Alemanha, 12 na Dinamarca ... Isto significa que, após este tempo, qualquer pessoa condenada à prisão perpétua, pode ver como a sua pena é revista e se será concedida a "liberdade vigiada". As reformas de 2003 conduzida pelo PP e PSOE, no Código Penal espanhol vão estender o tempo máximo de cumprimento efetivo da pena para 40 anos, e agora acabam de aprovar mais 20 anos "de por fora" de liberdade vigiada. Que cada um chegue às suas conclusões.
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Nos últimos anos, e, gradualmente, o Parlamento espanhol aprovou medidas de endurecimento do Código Penal, a ponto de chegar a ter um dos mais duros códigos penais da “democracia", que inclui medidas que nem nos piores dos tempos do regime franquista ele mesmo chegou a propor.
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Desde a reforma de 1995, em que suprimiram a redução de penas pelo trabalho, passando pela reforma de 2003 relativa ao cumprimento integral das penas, que se estende o tempo máximo de encarceramento a 30 anos e impossibilita, na prática, o acesso ao 3 º grau ou à Liberdade Condicional, das pessoas condenadas pelos chamados crimes de "terrorismo", a aplicação da "Doutrina Parot", terminando nesta mais recente reforma. Todos eles colocados à disposição poderiam em conjunto colocar em relevo(e criar) as mais diversas ameaças para, a pretexto de segurança, endurecer o controle social, o sistema penal...
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O jurista alemão Günter Jakobs define o conceito de "Direito Penal do inimigo": o legislador não dialoga com seus cidadãos, se não quando ameaça aos seus inimigos, retirando garantias processuais, endurecendo as penas e ampliando as possibilidades de aplicar sanções pesadas a condutas pouco danosas ao bem comum.
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O Estado espanhol se tornou um dos exemplos mais claros desta teoria. O direito penal é utilizado como uma arma a mais no negado mas existente conflito basco, e, indiretamente,contra toda a dissidência política. O que não pode ser alcançado através da polícia (o desmantelamento de um movimento político e social, a eliminação de algumas convicções ideológicas ...)se tenta através da ameaça. Ameaçados com sanções mais duras, pela tipificação de novos delitos, com a criação dos delitos de opinião...
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Uma vez mais, o Estado espanhol viola os seus próprios princípios e a sua tão supostamente respeitada e intocável Constituição, que propõe, entre coisas, a orientação para a reeducação e o efeito social das penas privativas de liberdade. O ex-ministro da justiça do PSOE, Juan Fernando Lopez Aguilar, afirmou, em 2006, sem qualquer remorso "faremos o que estiver em nossas mãos para evitar que ocorram aquelas libertação”, referindo-se a duas dezenas de presos políticos bascos que, segundo a aplicação ds leis espanholas correspondentes, estavam a ponto de serem libertados... E ele foi muito mais tranqüilo.
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Assim então, esta nova reforma não é mais que um outro de tantos e tantos exemplos de dupla moral, ou duas medidas para mensurar as coisas, a que já estamos acostumadas. Boas palavras, ou bons princípios para um lado... E crua realidade para a outra.
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Como afirma Iñaki Rivera (diretor do Observatório do Sistema Penal e dos Direitos Humanos), “que fragilidade de uma democracia que necessita cada vez mais recorrer à força, — ao sistema penal, nem mais nem menos, — para enfrentar o descontentamento social“.
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Júlia Humet é advogada e militante de Rescat
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Traduzido do Catalão por Rosalvo Maciel
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Original em La Fabrica

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

IMPRENSA MARROM

Folha e os 'cães de guarda' da ditadura

O editorial da Folha de S.Paulo da semana passada, que qualificou a sanguinária ditadura militar brasileira de "ditabranda", foi um tiro no pé. Em pleno carnaval, serviu para tirar sua fantasia de jornal eclético e plural, que até hoje engana alguns ingênuos. A balela publicitária de que a Folha "tem o rabo preso com o leitor" foi para o esgoto. Em poucos dias, quase dois mil intelectuais assinaram um manifesto de repúdio ao jornal. Eduardo Guimarães, do blog Cidadania, já propõe realizar um ato de protesto em frente ao prédio do Grupo Folhas, na Rua Barão de Limeira.

Por Altamiro Borges

Da própria redação, o jornalista Fernando de Barros e Silva resolveu se indignar - infelizmente, a maioria mantém o silêncio cúmplice: "Certamente não é a primeira vez que um colunista da casa diverge da posição expressa pelo jornal em editorial. Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância... O mundo mudou um bocado, mas ‘ditabranda' é demais. O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou ‘níveis baixos de violência política e institucional' parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção". Indignação e silêncio cúmplice "Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante... Se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno e o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido ‘brandos'. Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a ‘ditadura escancarada', para falar como Elio Gaspari", reagiu o editor de política da Folha na sua coluna desta terça-feira, dia 24. É certo que Fernando de Barros dá uma no cravo e outra na ferradura, enfatizando sua concepção liberal. Democracia política sim; democracia social, nem tanto. Como ele registra, o seu protesto se dá "em nome do que aprendi durante 20 anos de Folha". Demarcando com os que aderiram ao manifesto de repúdio, ele ataca gratuitamente Cuba, Venezuela e "os figurões e as figurinhas da esquerda nativa" com a sua "retórica igualitária" - por ironia, o mesmo argumento utilizado pela ditadura para não ser nada branda no Brasil. Apesar deste escorregão liberal, entretanto, ele pelo menos resolveu se indignar com o odioso editorial da Folha. Melhor do que o silêncio cúmplice. "O diário oficial da Oban" Na onda de repúdio à postura fascistóide da Folha também ressurge sua história sinistra. O livro de Beatriz Kushnir, "Cães de guarda", renegado pelos resenhistas quando foi lançado em 2004, agora aparece como uma obra indispensável para se entender as íntimas ligações da mídia com o regime militar. Com 404 páginas, ela é resultado da tese de doutorado da historiadora carioca e foi aprovada com louvor na Unicamp. Com base em documentos oficiais e entrevistas, Kushnir prova o "colaboracionismo" dos veículos privados e de muitos jornalistas, que se tornaram "cães de guarda" da ditadura, encobrindo seus crimes e justificando o seu projeto político-econômico. A autora dedica longo capítulo à Folha de Tarde, o principal jornal da "Famíglia Frias" nos anos de chumbo da repressão. Editado na época por Antonio Aggio, que depois foi assessorar o senador Romeu Tuma, ex-chefe da Polícia Federal, o jornal virou "o diário oficial da Oban" - a Operação Bandeirantes, que torturou e assassinou vários patriotas. Ele desqualificou os que lutaram contra a ditadura - Lamarca era rotulado de "louco" -; ignorou a morte do jornalista Wladimir Herzog; não deu destaque à prisão de Frei Betto, que fora da sua equipe de reportagem; e transmitiu a versão oficial sobre mortos e desaparecidos - como o do ex-metalúrgico Joaquim Seixas. A mudança tática do discurso
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Durante uma década e meia, a Folha ficou sob o comando da direita golpista e muitos dos seus jornalistas ocuparam cargos na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Tanto que passou a ser ironizada como o jornal de "maior tiragem" devido à forte presença de "tiras" (policiais) na redação. Com o fim do regime militar, a Folha da Tarde entrou em declínio e faliu; seu lugar foi ocupado pela Folha de S.Paulo. A "Famíglia Frias" tentou esconder seu passado sujo e reciclar seu discurso. Numa entrevista ao jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Kushnir afirma que esta mudança foi tática - a empresa nunca abandonou suas posições de direita.

"Em 1977, o Boris Casoy assumiu a redação da Folha. São tirados todos os nomes dos Frias do expediente, que só vão ser recolocados no jornal em 1984, na época das Diretas. É toda uma jogada de marketing da Folha. Se você repensar hoje o Projeto Folha, ela está muito longe de qualquer análise que diga: ali tínhamos uma redação neutra. Mas as pessoas continuam lendo o projeto Folha como isso. Como um momento em que a Folha vai sair de tudo isso como se nada desse passado tivesse a ver com a família Frias, e vai entrar limpar para a história nesse momento de redemocratização do país, o que não é verdade".

Agora, com o editorial da "ditabranda", a Folha retoma sua verdadeira história e tira a máscara!
Original em Vermelho

Espanha: 70 anos de franquismo e monarquia franquista; Cuba: 50 anos de resistência democrática

Carlos Tena
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Milhões de pessoas ao longo destes cinquenta anos de assedio e bloqueio por parte dos diferentes governos norte-americanos (e Barak Obama, com seu apoio implícito ao sionismo, não será exceção), tem observado Cuba com admiração dissimulada, e às vezes a própria esquerda, injustamente, citando frases que encerravam certa decepção, como se fosse simples manter o equilíbrio perfeito quando te estão chicoteando pelos quatro pontos caldeais. Recordo um magnífico desenho de Miguel Gila, em que um energúmeno matava com uma enorme faca a uma mulher caída ao solo. Um cidadão que observava o crime disse com certa precaução ao agressor: “Tenha cuidado, homem, que podes causar algum dano”. O homicida lhe responde: “Pois que deixe de me chamar de assassino”.
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Como o pensador Alba (singular nome o de Santiago nesta Latinoamérica que luta contra a ALCA, e onde algumas nações, orgulhosas de sua independência, combatem ao neoliberalismo que hoje faz água por todas as partes), sigo apoiando-me na Revolução cubana por uma simples razão: a sobrevivência.
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É de uma hipocrisia que raia a paranóia (a noiva eterna de personagens como Esperanza Aguirre) exigir que “Cuba deve mudar”, enquanto os demais países do chamado primeiro mundo devem seguir como estão, isto é, maltratando à ilha mais democrática do globo terráqueo, minimizando ou mentindo sobre seus ganhos sociais, seu pacifismo insólito, sua não ingerência em assuntos internos de outras nações ou manipulando ações de puro terrorismo, para apresentá-las ante a hipnotizada sociedade consumista como atos de dissidência. A única coisa que demonstra essa constante inclinação ao libelo e ao satânico ataque gratuito, é a debilidade ideológica dos que assim agem, aproveitando inclusive momentos duríssimos para o governo revolucionário, como foram os furacões que no ano passado arrasaram noventa por cento do território.
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O sarcasmo dessa pretendida mudança, que a Falsimedia [1] proclama como transição forçada, poderia ter, no entanto, resultados não tão patéticos como na Espanha. Quero dizer que (esboço um sorriso maquiavélico), me divirto imaginando que se Cuba se lançasse em uma aventura desse calibre, à espanhola, resultaria que o castrismo iria continuar muitos anos. É óbvio que a mil vezes alardeada transição em meu país natal, só tem servido para que o franquismo do rei Bourbon siga lacerando as liberdades, a democracia e a dignidade dos que deram sua vida em favor delas. Ergo, se Cuba se utilizasse de tão sutil manobra, o socialismo seguiria seu curso. Me agrada, me agrada a ideia….
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Na tarde da última quarta-feira, na Casa de América de Madrid, enquanto saudava a dezenas de amigos, atores, cantores, companheiros e felicitava ao embaixador de Cuba na Espanha, os cidadãos que ali nos encontrávamos, entre os quais havia cubanos, argentinos, uruguaios, espanhóis, etc., festejamos esse 50° Aniversario da Revolução, recordamos os cinco heróis presos nos Estados Unidos por defender as liberdades e a vida, inclusive dos próprios cidadãos norte-americanos, desfrutamos de ótimas apresentações musicais e brindamos pelo fim do bloqueio, a paz e a defesa da humanidade. Justo o contrario do que sonha José María Aznar.
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[1] Não existe ainda um termo em português que represente exatamente a ideia proposta para “falsimedia”. O mais próximo talvez seja “imprensa golpista”, mas ainda me parece fraco. (N.P.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Esquerda

José Saramago

Temos razão, a razão que assiste a quem propõe que se construa um mundo melhor antes que seja demasiado tarde, porém, ou não sabemos transmitir às pessoas o que é substantivo nas nossas ideias, ou chocamos com um muro de desconfianças, de preconceitos ideológicos ou de classe que, se não conseguem paralisar-nos completamente, acabam, no pior dos casos, por suscitar em muitos de nós dúvidas, perplexidades, essas sim paralisadoras. Se o mundo alguma vez conseguir ser melhor, só o terá sido por nós e connosco. Sejamos mais conscientes e orgulhemo-nos do nosso papel na História. Há casos em que a humildade não é boa conselheira. Que se pronuncie bem alto a palavra Esquerda. Para que se ouça e para que conste.

Escrevi estas reflexões para um folheto eleitoral de Esquerda Unida de Euzkadi, mas escrevi-as pensando também na esquerda do meu país, na esquerda em geral. Que, apesar do que está passando no mundo, continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão.
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A direitização da imprensa em marcha

Por Celso Lungaretti

Os últimos acontecimentos arrancaram a máscara de dois veículos da grande imprensa que, até há pouco, eram tidos como exceções no quadro desolador da mídia patronal: a Folha de S. Paulo, reputada como neutra por ora sintonizar-se com posições de esquerda, ora com as de direita, aparentemente querendo mesmo é provocar polêmicas que se travassem em suas páginas, para despertar interesse e vender um punhado de jornais a mais; e a ex-CartaCapital, agora CartaPenaCapital, cujo esquerdismo light parece não ter sido rentável, tanto que acaba de ser trocado pelo reacionarismo exacerbado.
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A Folha de S. Paulo, cúmplice da ditadura militar de 1964/85, não só sintonizava seu conteúdo com os interesses do regime totalitário, como chegava a facilitar a prisão dos profissionais da casa, que eram chamados à portaria para atender visitantes e encontravam à sua espera as equipes do Deops ou do DOI-Codi.
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Uma atitude diametralmente oposta à do Grupo Estado, cuja família proprietária, embora participante civil do complô para usurpação do poder em 1964, preservava, pelo menos, sua dignidade pessoal. Ninguém esquece a frase de um dos Mesquitas, após ordenar à segurança que impedisse a entrada da repressão no saudoso prédio da rua Major Quedinho: "Ele pode ser subversivo lá fora, mas aqui dentro é meu jornalista".
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Dizimados os efetivos da luta armada, Ernesto Geisel assumiu o poder em março/1974 e começou a implementar sua abertura lenta, gradual e progressiva, desmantelando aos poucos a engrenagem de terrorismo de estado que se tornara dispensável.
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Os Frias perceberam que, surfando nessa onda, poderiam não só limpar sua barra pelo colaboracionismo anterior, como tornar a Folha de S. Paulo um jornal atraente para a classe média cada vez mais insatisfeita com o regime militar. Um ovo de Colombo que lhe garantiria, a médio prazo, a liderança do mercado brasileiro.
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Deram carta branca para o grande Cláudio Abramo, diretor de redação, recrutar alguns dos maiores talentos do jornalismo brasileiro, oferecendo-lhes um porto seguro numa época em que tantos veículos temiam acolhê-los ou impunham-lhes restrições castradoras.
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Então, os textos da Folha passaram a ostentar assinaturas vistosas como as de Alberto Dines, Gerardo Mello Mourão, Glauber Rocha, João Batista Natali, Lourenço Diaféria, Luiz Alberto Bahia, Newton Rodrigues, Osvaldo Peralva, Paulo Francis, Perseu Abramo, Plínio Marcos, Tarso de Castro, etc., todos escolhendo suas abordagens sem restrições editoriais (apenas não podiam ir além do que a ditadura conseguia digerir) e desfrutando de espaços generosos.
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Além disto, formou uma valorosa equipe de repórteres especiais, com destaque para Ricardo Kotscho, passando a desenvolver um apreciável jornalismo investigativo.
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Em setembro de 1977, uma crônica infeliz de Diaféria serviu como pretexto para o II Exército exigir a destituição de Cláudio Abramo, pondo um fim à primavera da Folha. Parte da equipe se dispersou, parte permaneceu fazendo textos mais comedidos. De qualquer forma, o jornal já dera a arrancada decisiva, conquistando uma imagem de originalidade e independência que conseguiu manter mais ou menos até meados da década atual.
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A partir do desgaste sofrido por alguns expoentes da esquerda do PT no escândalo do mensalão e da exploração exaustiva e tendenciosa desses acontecimentos por parte da extrema-direita (tentando fazer crer que o envolvimento de uns poucos ex-militantes da luta armada em episódios ocorridos 30 anos depois seria suficiente para desqualificar todos os resistentes que pegaram em armas contra a ditadura), a Folha deu nova guinada, desta vez reacionária.
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Como pano de fundo há uma classe média insatisfeita com o Governo Lula, de quem esperava benefícios que não recebeu, ao contrário dos pobres e dos paupérrimos. Míope, essa classe média não percebe que caiu em desgraça muito mais devido ao aviltamento de suas profissões sob o capitalismo putrefato da atualidade do que à ação governamental. E a Folha, em vez de esclarecê-la, prefere oferecer catarse para seu rancor desatinado.
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Assim, todas as questões envolvendo a memória da luta armada e dos resistentes dela participantes passaram a ter tratamento odioso na Folha, como se verificou, por exemplo, quando dos ataques histéricos à decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça beneficiando os herdeiros de Carlos Lamarca; da ridícula polêmica algoz-e-vítima, durante a qual Élio Gaspari avalizou como informação histórica aceitável o que não passava do lixo ensanguentado da ditadura (as conclusões de IPM's contaminados pela prática generalizada da tortura); e, agora, do caso do perseguido político Cesare Battisti, vítima de noticiário adverso, editoriais com viés negativo e da descabida adjetivação de "terrorista", até em títulos de matéria, como se não estivesse levando desde 1981 uma existência resumida a trabalho honesto e fugas da caçada implacável que lhe movem os fascistas italianos.
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A página de Opinião da Folha se abriu para personagens altamente questionáveis como Jarbas Passarinho, Reinaldo Azevedo, Ali Kamel e Wálter Fanganniello Maierovitch. Só está faltando o Brilhante Ustra...
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Finalmente, na tentativa de defender o inqualificável editorial no qual se referiu ao extinto regime militar como uma "ditabranda", a Folha chegou ao cúmulo de publicar o seguinte (Painel do Leitor, 20/02), ao comentar as manifestações de repúdio por ela recebidas: "Quanto aos professores [Fábio Konder] Comparato e [Maria Vitória] Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua 'indignação' é obviamente cínica e mentirosa".
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Declarou guerra à inteligentsia, fazendo-me lembrar uma frase célebre de Oscar Wilde: “A aversão do século XIX pelo realismo é a cólera de Calibã por ver seu rosto num espelho.” A Folha agora reage com extrema deselegância a quem lhe mostra seu horrível rosto num espelho.
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Cidadão Mino
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Quanto à CartaPenaCapital, tornou-se um samba de uma nota só: a sua única bandeira neste início de 2009 é atirar Cesare Battisti numa masmorra italiana pelo resto da vida. Editoriais, colunas e notícias têm ido todos na mesma direção, sem dar espaço ao "outro lado" ou sepultando-o sob uma avalanche de textos contrários (caso de uma carta do ministro Tarso Genro que se tornou, absurdamente, matéria-de-capa).
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Martelar o mesmo assunto, com o mesmo enfoque, em várias edições consecutivas, nada mais é do que uma campanha midiática para influenciar acontecimentos e decisões. A CartaPenaCapital segue fielmente os passos da Veja, que utilizou o mesmíssimo expediente quando tentava derrubar o presidente Lula. A pergunta que não quer calar é: por que uma revista que até então enganava bem, expôs-se a tamanho desgaste num episódio secundário?
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Apesar de ciente dos métodos e recursos utilizados pela Itália para fazer a França renegar a Doutrina Mitterrand, que garantia abrigo eterno aos perseguidos políticos italianos, não disponho de evidências no sentido de que a sanha persecutória da CartaPenaCapital teria explicação semelhante.
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Então, até prova em contrário, só nos resta supor que o diretor de redação Mino Carta erige suas idiossincrasias em (im)posição editorial.
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Simpatizante declarado do PCI, deve conviver muito mal com a traição às bandeiras históricas que o partido cometeu ao aliar-se à democracia-cristã (máfia e remanescentes do fascismo inclusos) para gerir o Estado burguês e "salvá-lo" da revolução.
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O PCI avalizou as torturas, assassinatos e aberrações jurídicas com que a Itália sufocou a reação, desatinada mas compreensível, dos verdadeiros revolucionários, ultrajados por essa aliança insólita entre ditos comunistas e seus inimigos de sempre, bem como pela impunidade com que os extremistas de direita praticavam seus massacres.
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É por estar, como escritor, trazendo à tona o passado que a Itália tenta esquecer, que Cesare Battisti sofre perseguição tão exagerada, encarniçada e onerosa. E o cidadão Mino age exatamente como o magnata da imprensa William Randolph Hearst que, inconformado com aquilo que Cidadão Kane trazia à tona a seu respeito, pressionou fortemente os cinemas dos EUA a não exibirem o filme.
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Mino, da mesma forma, mobiliza todo seu poder de fogo para amordaçar Cesare Battisti, fazendo-o entregar à retaliação italiana, como Getúlio Vargas entregou Olga Benário aos carrascos nazistas.
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Não conseguirá.
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Original em Via Política

Tem bispo que diz que não houve Holocausto. Tem jornal que diz que não houve Ditadura.

Postado originalmente no blog do IZB

A Folha de S. Paulo de hoje, domingo (22 de fevereiro), tenta ignorar o absurdo cometido pela direção do jornal no editorial publicado quatro dias atrás, quando denominou a ditadura militar (1964 a 1985) de ditabranda, num claro desrespeito à memória histórica do povo brasileiro. Nenhuma carta publicada na seção de cartas (painel do leitor) do jornal a respeito do tema, apesar de ter sido o que mais recebeu cartas durante a semana, 105 mensagens, segundo o próprio painel.

Sobre o assunto, apenas um parágrafo na coluna do Ombudsman na qual ele escreve que a folha faltou com a cordialidade que se deve ter no trato com os leitores. Referia-se a forma grosseira e arrogante, de um primarismo ideológico de fazer inveja a um Reinaldo Azevedo, com a qual a Redação da folha tratou os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides.

Por outro lado, se o jornal parece querer colocar uma pedra sobre o assunto, as manifestações pela internet, blogues e sites parecem dizer o contrário. O editorial da folha e o tratamento desqualificado dado aos professores geraram uma justa indignação em amplos setores que já começam a se manifestar e tudo indica que a movimentação de repúdio à folha deva crescer. Óbvio que também geram o que de pior existe na nossa sociedade, e infelizmente não são poucos, os sentimentos proto-fascistas, daqueles que querem passar uma borracha na história, negar a verdade e principalmente, esconder os crimes de muita gente que ainda anda por aí, livres, mas que torturam e mataram nos porões da ditadura com a anuência dos líderes do regime.

Vários intelectuais lançaram um manifesto em repúdio à folha e em solidariedade aos professores (reproduzimos abaixo). Esse manifesto pode ser assinado eletronicamente, é possível também deixar uma mensagem e registrar sua indignação contra o jornal.
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Reproduzimos abaixo algumas dessas mensagens dos signatários do manifesto, reveladoras do papel que a folha cumpriu no apoio à ditadura militar e outras questões mais; muitas escritas por pessoas que sofreram na pele a repressão, foram vítimas das vacas fardadas e civis e como diz o Celso Lungaretti, nunca foram apresentadas a essa ditabranda. Ao final reproduzimos um post do blog Vi o Mundo, do Azenha, uma prova inconteste do que foi a ditadura brasileira.
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Divulgue o manifesto, ajude crescer o coro das manifestações contrárias a essa tentativa absurda de burlar a história, de enganar o povo, de negar a verdade, de acobertar criminosos.
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A questão central que se coloca é saber se restará alguma dignidade ao jornal e sua direção voltará atrás se retratando num editorial que peça desculpas ao povo brasileiro e às vítimas da ditadura ou o caminho será o mesmo da nota da redação que agrediu Comparato e Benevides, ou seja, pisar no acelerador, se aliar ao pensamento mais torpe, fazer companhia à Veja como um panfleto reacionário e negar a história.
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Ao menos resta a esperança, afinal se até mesmo o Vaticano, liderado por um Papa conservador, quando pressionado, agiu com firmeza e exigiu que o bispo britânico Richard Williamson se desculpasse publicamente por ter negado o Holocausto, quem sabe reste à folha algum pudor.
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(Redação do Blog do IZB).
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(íntegra do manifesto)
REPÚDIO E SOLIDARIEDADE

Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio a arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S.Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do pais. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história polí­tica brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pos-1964.

Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de redação, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta as cartas enviadas a Painel do Leitor pelos professores Maria Victória de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S.Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis a atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.

Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.

Assinam:
Antonio Candido, professor aposentado da USP
Margarida Genevois. Fundadora da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos
Goffredo da Silva Telles Júnior, professor emérito da USP
Maria Eugenia Raposo da Silva Telles, advogada
Andréia Galvão, professora da Unifesp
Antonio Carlos Mazzeo, professor da Unesp
Augusto Buonicore, doutorando da Unicamp
Caio N. de Toledo, professor da Unicamp
Cláudio Batalha, professor da Unicamp
Eleonora Albano, professora do IEL, Unicamp
Emir Sader, professor da USP
Fernando Ponte de Souza, professor da UFSC
Heloisa Fernandes, socióloga
Ivana Jinkings, editora
Marcos Silva, professor titular da USP
Sérgio Silva, professor da Unicamp
Patricia Vieira Tropia, Universidade Federal de Uberlandia
Paulo Silveira, sociólogo
Clique aqui para assinar o manifesto
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Febraban propõe que governo assuma risco dos empréstimos

Fundo com 100% de dinheiro público para garantir lucro fabuloso aos bancos privados

A Febraban propôs ao governo que este assuma os possíveis prejuízos dos bancos privados que concederem empréstimos a empresas.

Antes que o leitor pense que nós ficamos malucos – e, realmente, trata-se de um negócio de doido – vamos ao fato:

O presidente da Febraban, Fábio Barbosa, um funcionário do ABN Amro (que é uma sociedade entre o Banco da Escócia, o Santander e, a partir de 28 de dezembro último, o governo holandês, que nacionalizou o terceiro sócio, a filial do Fortis, um banco belga), propôs na quarta-feira ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, que o governo forme um fundo, através do BNDES, com 100% de recursos públicos, para bancar a inadimplência nos empréstimos concedidos pelos bancos privados.
Em troca, desde que o governo pague pelos inadimplentes, os bancos aumentariam o crédito para as pequenas e médias empresas. Assim, os bancos não teriam prejuízos e poderiam diminuir o “spread” (a diferença entre a taxa que os bancos pagam pelo dinheiro que captam e a taxa que cobram dos seus clientes). Isto porque o “risco”, dizem eles, é um dos componentes do “spread”. Se os bancos não tiverem riscos, então poderiam reduzir o “spread”.

Como pode ser isso? - diria o leitor, e tem razão em estranhar. O banco empresta o dinheiro. Se o cliente pagar, o lucro é seu. Se ele não pagar, o prejuízo é do governo, isto é, da sociedade, do povo, que paga os impostos. Como é que pode?

Porém, segundo o economista-chefe da Febraban, Rubens Sardenberg, a proposta é ótima para todos, inclusive para o governo e a sociedade, pois, “só vai ter problema se tiver inadimplência” (e nós aqui pensando que o problema dos bancos fosse aquele pessoal chato que paga tudo em dia!). Mas, continua Sardenberg, não cabe dizer que “os bancos querem passar o risco para o governo”. Portanto, conclui-se, na divisão dos riscos, os bancos vão arcar com o terrível risco de lucrar. Não é uma gracinha?

Bem, se é assim, se o spread é alto em função do risco alto, por que os bancos não propõem cobrar zero de spread, se não vão correr risco algum de ter prejuízo? Ora, leitor, porque senão eles não vão lucrar. Eles não querem ter prejuízos. Quanto a não ter lucros, aí, não, que isso fere as leis de mercado...

No entanto, o colossal “spread” em nosso país é uma medida da falta de riscos dos banqueiros e não do excesso de riscos.

Os bancos privados no Brasil não emprestam a quase ninguém. Não correm risco algum, exceto o de sua irresponsabilidade nos cassinos em que se divide o chamado “mercado financeiro”. Mais de 50% do crédito do país está hoje em mãos dos bancos estatais, apesar de sua participação no setor bancário, em depósitos e ativos, não ser proporcional ao que oferecem de crédito.

TÍTULOS

Por que os bancos não emprestam? Porque seus lucros são fabulosos com as taxas que o Banco Central estabelece sobre os títulos públicos. Portanto, os bancos privados não precisam emprestar – que é a sua função mais elementar – para encherem seus cofres. Se podem lucrar sem riscos, com os juros sobre a dívida pública, por que iriam emprestar a empresas ou pessoas? Daí os “spreads” alucinados que os bancos cobram nos empréstimos a empresas e pessoas. Simplesmente, eles não precisam e não querem emprestar porque têm uma cornucópia de lucros sem riscos.

Certamente, a proposta que apresentaram ao governo é outro sinal disso. Aliás, ela já tinha sido recusada, quando apresentada pela primeira vez.

Há muito é sabido que as crises são momentos onde os campos político e ideológico ficam mais nítidos, onde as forças políticas e sociais apresentam-se com seu real perfil, e as personalidades revelam seu verdadeiro caráter. Resta acrescentar que é o momento em que a pouca vergonha – para quem normalmente já não a tem em quantidade suficiente – aparece em todo o seu esplendor, porque a crise é também o momento em que aparecem os manipuladores da crise, até quando ainda não há crise.

Assim, a GM acha que os governos – tanto o dos EUA quanto os de outros países - têm de sustentá-la como certos potentados sustentam, a um preço muito menor e com direito a maior prazer, as suas concubinas. A CSN acha que o governo deve pagar o salário de seus funcionários, e ainda receber um troco do BNDES. As montadoras de automóveis acham que podem não pagar impostos - e o governo ainda deve agradecer pela benesse. O Votorantim acha que o governo deve cobrir o rombo da sua especulação com derivativos e ainda receber a Aracruz Celulose de presente do BNDES. Em suma, todos os ladrões acham que devem roubar mais o Estado – e todos têm de ficar muito gratos por serem mais roubados.

Devemos convir que os bancos excedem nesse capítulo.

CARLOS LOPES
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Original em Hora do Povo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Reeleições boas e más

A pesar de amplamente escrutinado por cerca de 350 observadores internacionais e da vitória do sim com mais 40% dos votos expressos o recente referendo constitucional realizado na Bolívia foi classificado pelo líder fascista de Santa Cruz, Branco Marinkovic, com uma fraude. Apesar de estar de saída sem honra nem glória, Condoleezza Rice logo secundou o grito fascista. Hillary Clinton ainda não a desmentiu…
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Atílio Boron*
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É significativo (e cúmplice) o silêncio de Washington em relação à dilatada permanência no poder de uma série de mandatários amigos, aliados incondicionais do império.
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O rotundo triunfo de Evo Morales, o terceiro consecutivo desde 2005, dificilmente servirá para abafar as críticas dos que viram neste referendo constitucional apenas um estratagema do líder boliviano para se perpetuar no poder. Faz-se caso omisso do denso articulado da nova Constituição boliviana que, nos seus 411 artigos, estabelece um quadro normativo protetor das grandes maiorias populares, há séculos oprimidas pelos diferentes governos da Bolívia, ao mesmo tempo em que reafirma os direitos dos povos indígenas, garante o controle público dos principais recursos naturais e aperfeiçoa a qualidade das instituições republicanas.
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Apesar de cerca de 350 observadores internacionais de organismos como a OEA, a UNASUR, a União Européia e o Centro Carter terem declarado que as eleições se desenrolaram de forma inatacável, o líder da direita fascista de Santa Cruz, Branco Marinkovic, manifestou a sua impotência lançando uma ridícula acusação de fraude, preparando o terreno para uma nova ofensiva sediciosa contra a nova Constituição.
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Uma das críticas mais freqüentes, escutada também por estes dias a propósito da proposta de emenda da Constituição da República Bolivariana da Venezuela possibilitando a reeleição indefinida do Presidente Hugo Chávez, é que tal cláusula revela uma vocação totalitária que deve ser rejeitada a qualquer preço. A secretária de Estado de George W. Bush, Condoleezza Rice, não se cansou de predicar esta tese, repetida ad nauseam pelos principais meios de comunicação, jornalistas e analistas «independentes» da América Latina. Todavia, não se conhecem comentários da sua sucessora, Hillary Clinton, mas a julgar pelas suas muito infelizes declarações na audiência confirmatória havida no Senado dos EUA, não será de estranhar que nos próximos dias apareça um comunicado oficial deplorando o que seria visto como uma sinuosa manobra de Evo Morales para se eternizar no Palácio Quemado.
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Perante isto, convém recordar que a reeleição em sucessivos mandatos é uma norma na maioria dos países europeus: foi por isso que Helmutt Kohl pôde ser chanceler, primeiro da República Federal Alemã e depois da Alemanha unificada durante dezesseis anos, desde 1982 a 1998, sem que em momento algum a opinião «bem pensante» e a imprensa «independente» (muito menos o Departamento de Estado) gritaram aos céus perante tão prolongado monopólio do poder político. E podia ter continuado ao leme da chancelaria, não fosse o rebentar de um escândalo que o obrigou a renunciar. Em Espanha, o principal lobista mundial das transnacionais espanholas e sedento guardião dos valores democráticos, Felipe Gonzalez, foi presidente do governo desde 1982 a 1996, um total de 14 anos, sem despertar preocupação alguma à Casa Branca e aos governos «democráticos» do mundo desenvolvido. No Reino Unido, Margaret Thatcher foi primeira-ministra durante 11 anos. Nada a impedia de ter prosseguido no poder, mas a sua força política perdeu peso eleitoral e teve de sair. Há vários casos idênticos na Europa. A França, para não ir mais longe, autoriza uma reeleição presidencial para um mandato de sete anos cada um. Todos os últimos presidentes duraram 14 anos no poder.
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Porém, mais interessante é o significativo ( e cúmplice) silêncio de Washington perante a dilatada permanência no poder de uma série de mandatários amigos, aliados incondicionais do império: no Egito, o atual presidente Mohamed Hosni Mubarak exerce o cargo desde Outubro de 1981, o que não obsta a receba toda a espécie de elogios pela «estabilidade política» conseguida nesse país e os generosos apoios financeiros e militares por parte da Casa Branca, Total: 28 anos ininterruptos no governo. Em Camarões, o presidente Paul Biya governa com poderes ilimitados desde 1982: 27 anos. No pequeno enclave petrolífero do Gabão, outro aliado dos Estados Unidos, o presidente Omar Bongo Ondimba preserva a ordem com mão-de-ferro desde 1967: 42 anos. Em Angola, o governo pró americano de José Eduardo dos Santos encontra-se no poder desde 1979: 30 anos. Por último, um dos aliados fundamentais dos Estados Unidos, a Arábia Saudita, é um país em que impera o mais primitivo e brutal despotismo: ali reina uma monarquia hereditária que nunca convocou eleições de qualquer tipo, nem sequer para uma câmara legislativa, cujos membros são designados «a dedo» pelo rei Abdallah, entre o seu séquito de familiares e favoritos.
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Jamais o Departamento de Estado disse uma palavra sobre as ameaças que a perpetuação destes regimes coloca para o futuro da democracia no mundo. O problema são casos como Fidel, Evo e Chávez, não aqueles acima referidos. Se forem úteis aos interesses de Washington poderão permanecer no poder o tempo que queiram e, além disso, serem apoiados por todos os meios imagináveis. Se se rebelam contra o império denunciam-se como déspotas ou tiranos. Enfim, amigos são amigos.
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Este texto foi publicado no jornal argentino Pagina 12* Atílio Boron é Professor Titular de Teoria Política na Universidade de Buenos Aires e Investigador Superior do CONICET.
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Tradução de José Paulo Gascão
Adaptação para o Brasil: V.Malleiro
Original em Pagina 12

domingo, 22 de fevereiro de 2009

As mentiras de Israel

“O processo de paz do Médio Oriente tem sido sufocado em eufemismos enganadores, por isso deixem-me – diz Henry Siegman ex diretor nacional do Congresso Americano-Judaico e do Conselho de Sinagogas da América – declarar, sem rodeios, que cada uma dessas reivindicações é uma mentira. Israel, não o Hamas, é que violou as tréguas. O Hamas comprometeu-se a parar de disparar foguetes para Israel; como retribuição, Israel iria diminuir o seu apertar de gasganete em Gaza”.
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Henry Siegman*
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Os governos e a maioria da midia ocidentais aceitaram muitas das reivindicações de Israel de justificação do assalto militar a Gaza: que o Hamas, consistentemente, violava o período de seis meses de tréguas que Israel respeitava e que depois se recusava a prolongá-lo; que Israel, por conseguinte, não tinha outro remédio senão destruir a capacidade do Hamas de lançar mísseis para as cidades israelitas; que o Hamas é uma organização terrorista, parte integrante de uma rede de jihad global; e que Israel não só agiu em sua própria defesa mas também em nome de uma luta internacional das democracias ocidentais contra essa rede.
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Não tenho conhecimento de um único jornal americano importante, estação de rádio ou canal de televisão que nas suas coberturas do assalto a Gaza questionasse esta versão dos acontecimentos. Críticas às ações de Israel, se as houve (não houve nenhuma da administração Bush) focaram, em vez disso, se a carnificina feita pela Força de Defesa de Israel (IDF) foi proporcional à ameaça a que Israel procurou fazer frente, e se medidas adequadas foram tomadas para evitar vitimas civis.
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O processo de paz no Oriente Médio tem sido sufocado em eufemismos enganadores, por isso deixem-me declarar, sem rodeios, que cada uma dessas reivindicações é uma mentira. Israel, não o Hamas, é que violou a trégua. O Hamas comprometeu-se a parar de disparar foguetes contra Israel; como retribuição, Israel iria diminuir o seu apertar de gasganete em Gaza. Na realidade, apertou-o ainda mais durante o período das tréguas. Isto foi confirmado, não só por todos os observadores neutros internacionais e Organizações Não Governamentais no loccal, mas também pelo General Shmuel Zakai, um ex-comandante da IDF da Divisão de Gaza. Numa entrevista a Ha’aretz (jornal diário israelita) no dia 22 de Dezembro, acusou o governo de Israel de ter cometido um «erro básico» durante a tahdiyeh, o período de seis meses de tréguas relativas, por falhar a oportunidade da acalmia para melhorar, em vez de piorar acentuadamente, a má situação dos palestinos da Faixa…Quando se cria uma tahdiyeh, e persiste a pressão econômica sobre a Faixa, afirma o general Zakai, «é evidente que o Hamas tentará conseguir um tahdiyeh melhorado, e que a maneira deles para conseguir isso é continuar disparando Qassams. Não se pode desferir golpes, deixar os palestinos em Gaza na amargura econômica em que se encontram e esperar que o Hamas apenas fique parado sem fazer nada».
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As tréguas, iniciadas em Junho do ano passado e que iriam ser renovadas em Dezembro, requeriam que ambas as partes se abstivessem de ações violentas entre eles. O Hamas tinha que parar com os seus assaltos com mísseis e impedir o lançamento de foguetes por outros grupos, tais como a jihad islâmica (mesmo a espionagem israelita reconheceu que isto tinha sido conseguido com surpreendente eficácia), e Israel teria que parar com os seus assassínios seletivos e as suas incursões militares. Este entendimento foi seriamente violado no dia 4 de Novembro, quando a IDF entrou em Gaza e matou seis membros do Hamas. O Hamas respondeu lançando foguetes Qassam e mísseis Grad. Mesmo assim, o Hamas ofereceu-se para prolongar a trégua, mas só sob a condição de Israel terminar o bloqueio. Israel recusou. Podia ter cumprido a obrigação de proteger os seus cidadãos concordando em aliviar o bloqueio, mas nem sequer tentou. Não se pode afirmar que Israel iniciou o assalto a Gaza para proteger os seus cidadãos dos ataques por mísseis. Fê-lo para proteger o seu direito de continuar o estrangulamento da população de Gaza.
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Parece que toda a gente já se esqueceu que o Hamas declarou o fim dos ataques suicidas com bombas e lançamentos de mísseis quando decidiu aderir ao processo político palestiniano, e que o respeitou por mais de um ano. Bush deu publicamente as boas-vindas a essa decisão, citando-a como um exemplo do êxito da sua campanha pela democracia no Oriente Médio. (Não apontou mais nenhum outro êxito seu). Quando, inesperadamente, o Hamas venceu as eleições, Israel e os Estados Unidos procuraram imediatamente tirar a legitimidade do resultado e acolheram Mahmoud Abbas, o chefe da Fatah, que até aí tinha sido rejeitado pelos líderes de Israel como uma «galinha depenada». Armaram e treinaram as suas forças de segurança com o fim do derrubar o Hamas; e quando o Hamas – brutalmente, sem dúvida, pré–esvaziou esta tentativa violenta de reverter o resultado da primeira eleição democrática honesta no Oriente Médio moderno, Israel e a administração Bush impuseram o bloqueio.
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Israel procura contrariar estes indiscutíveis fatos, insistindo que ao retirar os colonos de Gaza em 2005, Ariel Sharon deu a oportunidade ao Hamas de iniciar o caminho para a criação de um estado, uma oportunidade que Hamas recusou e, em vez disso, transformou Gaza numa rampa de lançamento para disparar mísseis contra a população civil de Israel. A acusação é uma dupla mentira.
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Apesar de todos os seus defeitos, o Hamas trouxe um nível de lei e ordem, desconhecido em anos recentes em Gaza, e fê-lo sem as enormes quantias de dinheiro com que alguns doadores inundaram a Autoridade palestina dirigida pela Fatah. As gangues violentas e os senhores da guerra que aterrorizavam Gaza sob o domínio da Fatah foram eliminados. Muçulmanos não-praticantes, cristãos e outras minorias, tinham mais liberdade religiosa sob o governo do Hamas do que teriam tido, por exemplo, na Arábia Saudita, ou sob muitos outros regimes árabes.
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A maior mentira é que a retirada de Gaza de Sharon tinha o propósito de ser um prelúdio de outras retiradas e de um acordo de paz. Foi assim que Dov Weisglass, conselheiro principal de Sharon, também chefe negociador com os americanos, descreveu a retirada de Gaza, numa entrevista ao Há’aretz em Agosto de 2004.
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«O que eu realmente concordei com os americanos foi que uma parte dos colonatos (isto é, os blocos principais na Margem Ocidental) não seriam retirados de nenhuma maneira, e que os restantes só seriam retirados quando os palestinos se tornassem finlandeses…O significado (do acordo com os Estados Unidos) representa o congelamento do processo político. E quando se congela esse processo, impede-se o estabelecimento de um Estado palestino e impede-se a discussão acerca dos refugiados, das fronteiras e de Jerusalém. De fato, todo este pacote que se chama Estado palestino, com tudo que gira à sua volta, foi removido definitivamente da nossa agenda. E tudo isto com a autoridade (do presidente Bush) e a autorização…e a ratificação de ambas as Câmaras do Congresso». Será que os israelitas e os americanos pensam que os palestinos não lêem os jornais israelitas, ou que quando viram o que se estava passando na Margem Ocidental não podiam deduzir o que Sharon tencionava fazer?
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O governo de Israel gostaria que o mundo acreditasse que o Hamas lançava os seus mísseis Qassam porque é isto que os terroristas fazem e o Hamas é um grupo terrorista genérico. Na realidade, Hamas não é mais uma «organização terrorista» (o termo preferido por Israel) do que o movimento sionista era durante a sua luta por uma pátria judia. Nos finais dos anos 30 e 40, os partidos no interior do movimento sionista recorreram a atividades terroristas por razões estratégicas. De acordo com Benny Morris, foi o Irgun que primeiro alvejou civis. Ele escreve em Righteous Victims, que uma «vaga de terrorismo judeu em 1937, lançou uma onda de bombardeamentos do Irgun contra multidões árabes e trens, introduzindo uma dimensão nova ao conflito». Documenta ainda as atrocidades cometidas durante a guerra de 1948-49 pela IDF, admitindo numa entrevista em 2004, publicada no Há’aretz, que as informações emitidas pelo Ministro das Defesa de Israel indicavam que «houve muitos mais atos de massacre por Israel do que teria antecipado…Nos meses de Abril-Maio de 1948, foram dadas ordens operacionais a unidades do Haganah, que estabeleciam explicitamente que elas deviam desenraizar os aldeões, expulsá-los e destruir as próprias aldeias». Em várias aldeias palestinas e cidades, a IDF levou a cabo execuções organizadas de civis. Quando perguntado pelo Há’aretz se condenava a limpeza étnica, Morris respondeu que não. Nunca teria existido um Estado Judaico sem o desenraizamento de 700.000 palestinos. Portanto, foi preciso desenraizá-los. Não havia outra coisa a fazer senão expulsar a população. Foi necessário limpar o interior, as áreas fronteiriças e as estradas principais.
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Foi necessário limpar as aldeias donde partiam disparos contra os nossos transportes e os nossos colonos.
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Por outras palavras, quando os judeus matam civis inocentes para desenvolver a sua luta nacional, são heróis. Quando os adversários o fazem, são terroristas. É muito simples descrever o Hamas, meramente como uma «organização terrorista». É um movimento nacionalista religioso que recorre ao terrorismo, como o movimento sionista fez durante a sua luta por uma nação, no entendimento errado de que é a única forma de acabar com uma ocupação opressiva e criar um Estado palestino. Enquanto a ideologia do Hamas determina formalmente que esse Estado será estabelecido sobre as ruínas do Estado de Israel, isso não determina as políticas atuais do Hamas mais do que a mesma declaração na carta da OLP determinava as ações da Fatah.
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Não são estas as conclusões de um apologista do Hamas mas sim as opiniões do antigo chefe da Mossad, e conselheiro nacional de segurança de Sharon, Ephraim Halevy. A liderança do Hamas passou por uma alteração «mesmo sem darmos por isso», escreveu recentemente Halevy, no Yedioth Ahronoth, reconhecendo que a «a meta ideológica do Hamas não é alcançável e que não o será num futuro previsível». O Hamas está preparado e desejoso de ver o estabelecimento de um Estado palestino dentro das fronteiras temporárias de 1967. Halevy observou, que enquanto o Hamas nada disse sobre quanto tempo essas fronteiras seriam «temporárias», «eles sabem que quando um Estado palestino for estabelecido com a sua cooperação, serão obrigados a alterar as regras do jogo: terão que adotar um caminho que os conduzirá para muito longe dos seus objetivos ideológicos originais». Num artigo anterior, Halevy também observou o absurdo de ligar o Hamas a Al-Qaeda.
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Aos olhos da Al-Qaeda, os membros do Hamas são considerados como heréticos, devido às suas declaradas intenções de participar, mesmo que indiretamente, em processos de alguns entendimentos ou acordos com Israel. A declaração (do chefe do gabinete político do Hamas, Khaled Mashal), contradiz diametralmente a abordagem da Al-Qaeda e permite a Israel ter uma oportunidade, talvez histórica, de ter uma melhor influência.
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Por que será então que os líderes de Israel estão tão determinados em destruir o Hamas? Porque sabem que os líderes do Hamas, diferentemente dos da Fatah, não podem ser intimidados a aceitar um acordo de paz que estabelece um «Estado» palestino formado por entidades territorialmente desligadas, sobre as quais Israel teria a possibilidade de conservar um controle permanente. O controle da Margem Ocidental tem sido o objetivo irreversível das elites militares, de espionagem e políticas, desde o fim da Guerra dos Seis Dias (*). Acreditam que o Hamas não permitiria tal cantonização do território palestino, não importa quanto tempo durasse a ocupação.
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Pode ser que estejam enganados acerca de Abbas e do seu grupo de reformadores mas têm toda a razão acerca do Hamas.
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Observadores do Oriente Médio interrogam-se se o assalto de Israel ao Hamas terá êxito na destruição da organização ou na sua expulsão de Gaza. É uma questão irrelevante. Se Israel planeja manter o controle sobre qualquer futura entidade palestina, nunca encontrará um parceiro palestino, e mesmo que consiga desmantelar o Hamas, o movimento será posteriormente substituído por uma oposição palestina muito mais radical. Se Barack Obama escolher um enviado experiente para o Médio Oriente que seja fiel à ideia de que entidades estranhas não devam apresentar as suas propostas para um acordo de paz sustentável e justo, e muito menos pressionem as partes a aceitá-lo, mas que em vez disso os deixem trabalhar as suas diferenças, ele dará confiança a uma futura resistência palestina, muito mais extrema do que Hamas – uma capaz de se aliar à Al-Qaeda. Para os Estados Unidos, a Europa e para a maioria do resto do mundo, isto seria a pior solução possível. Talvez que alguns israelitas, incluindo os líderes dos colonos, acreditem que isso lhes seria proveitoso, uma vez que daria ao governo um pretexto irresistível para ficar com toda a Palestina. Mas isto seria uma ilusão que provocaria o fim de Israel como Estado judaico e democrático.
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Anthony Cordesman, um dos mais confiáveis analistas militares do Médio Oriente, e um amigo de Israel, afirma num relatório escrito para o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais que as vantagens táticas na continuação da operação em Gaza foram superadas pelo custo estratégico – e que provavelmente não seriam superiores a quaisquer ganhos que Israel pudesse ter recebido no princípio da guerra em ataques seletivos à instalações essenciais do Hamas. E pergunta: «Será que Israel, de certo modo, cometeu uma gafe ao envolver-se numa guerra de escalada progressiva sem um objectivo estratégico claro ou, pelo menos, um que credivelmente pudesse alcançar?» «Acabará Israel por dar plenos poderes em termos políticos a um inimigo que vencera em termos táticos? As ações de Israel prejudicarão seriamente a posição dos Estados Unidos na região, de qualquer esperança de paz, assim como o de regimes de países árabes moderados e de outras sensibilidades no processo? Para ser franco, a resposta até agora parece ser sim.» E Cordesman conclui, que «qualquer líder pode assumir uma posição de dureza e alegar que os ganhos tácticos são vitórias sem significado. Se isto for tudo que Olmert, Livni e Barack dão como resposta, é uma desonra para eles e prejudicam o seu país e os seus amigos».
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Nota[*] Ver o meu artigo de 16 de Agosto de 2007 no London Review of Books
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Henry Siegman é diretor do Projeto Americano para o Médio Oriente em Nova Iorque, é professor convidado de investigação na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres. Foi diretor nacional do Congresso Americano – Judaico e do Conselho de Sinagogas da América.
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Tradução de João Manuel Pinheiro
Adaptação para o Brasil por V.Malleiro
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Tradução original em O Diário

Fraude de milhões no Iraque

Autoridades norte-americanas investigam «reconstrução»
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Bilhões de dólares podem ter sido desviados dos fundos de «reconstrução» do Iraque por altas patentes militares. As autoridades dos EUA estão investigando o caso.
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O alegado esquema está sendo alvo de apreciação por parte do Inspetor-Geral Especial dos Estados Unidos para a Reconstrução do Iraque e pode ascender a 128 bilhões de dólares cujo paradeiro ninguém é capaz de indicar, relata o jornal norte-americano The Independent, citado pela Lusa.
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A confirmarem-se as informações dadas pelo periódico, esta fraude de milhões mais que duplica a que tem sido considerada como a maior burla (desvendada e assumida) da história dos EUA, o caso envolvendo o ex-presidente da Nasdaq, Bernard Madoff, que terá lesado em cerca de 50 bilhões de dólares os respectivos clientes.
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«Eu acredito que o verdadeiro saque do Iraque após a invasão foi realizado por responsáveis norte-americanos e empresas contratadas, não pelas pessoas dos bairros pobres de Bagdad», disse ao Independent um empresário norte-americano com negócios no Iraque há seis anos. Obras e infra-estruturas orçadas em milhões de dólares nunca saíram do papel ou a sua conclusão foi adiada até melhores dias.
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Um esquema desta natureza e dimensão não poderá ter ocorrido sem o envolvimento de altas patentes militares dos EUA, acreditam as autoridades norte-americanas, uma vez que a chamada reconstrução do Iraque ficou sob a dependência direta do Pentágono. Conivências políticas e tráfico de influências estão igualmente por apurar. Segundo o The New York Times, que cita documentos oficiais, os primeiros suspeitos da investigação são um coronel e um tenente-coronel.
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Casos conhecidos
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O diário nova-iorquino revela ainda que desde o início da ocupação do Iraque, figuras ligadas ao Partido Republicano granjearam cargos bem remunerados na «reconstrução» do país. Um desses casos, divulgado na peça da Lusa, é o do antigo responsável pelo mercado de valores de Bagdad, um jovem de 24 anos, oriundo de uma família republicana, que encerrou a bolsa de transações iraquiana. Supostamente esqueceu-se de pagar a renda do edifício.
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Já o caso descrito pelo Público, na sua edição de terça-feira, reporta-se ao ex-responsável dos EUA para o Centro e Sul do Iraque, Robert J. Stein Jr.
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Condenado por fraude e lavagem de dinheiro, Stein terá dado sumiço a quase 58 milhões de dólares durante o período em que esteve no Iraque. O responsável chegou a tirar fotografias junto das pilhas de notas de 100 dólares.
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Ainda no que a episódios já conhecidos diz respeito, em 2004 e 2005 o orçamento do Ministério da Defesa iraquiano, 1,3 mil milhões de dólares, foi gasto na aquisição de helicópteros com quase 30 anos que nunca chegaram a voar e carros blindados facilmente penetráveis por um tiro de espingarda.
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Os iraquianos que à época estavam à frente do departamento governamental foram considerados culpados pela fraude, mas era o exército dos EUA quem na prática controlava o ministério, faltando, por isso, apurar os demais envolvidos e os responsáveis políticos.
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Blackwater muda nome
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A maior empresa de segurança privada a operar no Iraque anunciou, a semana passada, que deixou de se chamar Blackwater passando a designar-se por Xe, noticiou o Wall Street Journal que cita informações baseadas numa circular interna da empresa.
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A alteração, ainda não assumida publicamente pelos responsáveis da companhia, foi conhecida após o Ministério do Interior iraquiano ter anunciado que não renovaria os contratos de segurança com a Blackwater. Na base da renúncia dos serviços por parte do governo do Iraque está o assassinato de 17 civis, em Setembro de 2007, em Bagdad.
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A Blackwater garante a segurança da embaixada norte-americana na capital iraquiana.
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No total, estima-se que as empresas privadas de segurança sejam responsáveis por 100 mil mercenários a operarem no território.
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Original em Avante!

Conselho de Direitos Humano alerta para gravidade da situação de trabalhadores imigrantes

Os pacotes governamentais de estímulo econômico precisam incluir medidas para ajudar trabalhadores imigrantes, que podem ser os mais duramente atingidos numa recessão, disse a comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay.

Pillay avisou que a crise financeira, econômica e industrial mundial exercerá impacto desproporcional sobre a subsistência de grupos vulneráveis e já marginalizados.

Mulheres, crianças, deficientes, refugiados e imigrantes terão a maior dificuldade para encontrar trabalho, alimentação, moradia, água, atendimento médico e educação, disse Pillay numa sessão especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Governos em todo o mundo desenvolvido vêm anunciando pacotes de resgate multibilionários para ajudar indústrias e proteger empregos, à medida que a recessão econômica global, desencadeada pelo derretimento do mercado imobiliário dos EUA, se intensifica.

Os imigrantes são especialmente vulneráveis a abusos e ataques quando falta trabalho, segundo a ex-juíza da Alta Corte da África do Sul, onde no ano passado o desemprego alto desencadeou uma reação contra trabalhadores estrangeiros, dos quais mais de 60 foram mortos.

“Com a redução nas oportunidades de trabalho regularizado para imigrantes, os imigrantes desempregados podem procurar trabalhar sem autorização”, disse ela.

“Isso os tornará ainda mais vulneráveis”, afirmou.

“A proteção dos direitos dos imigrantes, em termos de suas condições de trabalho e de vida, e no caso de perda de emprego, devem ser integradas às respostas à crise. É crucial que não sejam poupados esforços para proteger os imigrantes contra discriminação e xenofobia”, disse.

As economias desenvolvidas como EUA, Grã-Bretanha e Austrália não devem enxugar seus programas de bem-estar social para dar espaço a pacotes de resgate de bancos, disse ela.

A revisão da crise financeira feita pelo Conselho de Direitos Humanos foi convocada a pedido do Brasil e Egito, em nome dos Estados africanos, e com o apoio de dezenas de outros países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Rússia, Arábia Saudita, Chile, Bolívia, Indonésia, Bangladesh e Iêmen.

Em suas declarações, Pillay disse que os governos que querem proteger empregos e indústrias atingidos pela recessão precisam obedecer aos acordos internacionais que assinaram, como os acordos da ONU sobre direitos econômicos e sociais, os direitos da criança e os dos deficientes.
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'BBB-9' emburrece a sociedade brasileira

A nona edição do Big Brother Brasil, que estreou em 13 de janeiro, tem causado calafrios aos mercadores de ilusão da poderosa TV Globo. Ela ainda não superou a média de 36 pontos do Ibope, a terceira posição no ranking das piores audiências do BBB nas suas semanas iniciais. A primeira edição, por exemplo, atingiu 49 pontos; a quinta teve 46 pontos. Diante deste resultado, especialistas já prevêem que o reality show, criado pela firma holandesa Endemol, "não decolará no Ibope" e pode ter o seu futuro ameaçado - o que seria bastante saudável para a sociedade.
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Por Altamiro Borges*

Segundo Ricardo Feltrin, colunista da UOL, o BBB-9 "exibe um viés de baixa na audiência que se intensifica desde 2004. Nas últimas cinco edições, sua média comparada caiu de 47,5 pontos para 32 - uma redução de 33% no número de telespectadores". As inovações, como a "casa de vidro", e os deprimentes paredões ainda não conseguiram reverter a tendência de queda. Mesmo assim, o Big Brother ainda é o líder absoluto de audiência, com o dobro de telespectadores da segunda colocada, a TV Record. Ele também supera o "Domingão do Faustão" e as telenovelas globais, estas sim em acelerado declínio, o que gera uma guerra de bastidores na Rede Globo.

Fábrica de ilusões e de dinheiro

Além disso, o BBB continua sendo uma das principais fontes de lucros da Rede Globo. Segundo o jornalista Daniel Castro, ele nem havia estreado e os seus intervalos comerciais já tinham sido completamente vendidos até o final. Estima-se que o BBB-9 renderá cerca de R$ 110 milhões à emissora - R$ 60 milhões em cotas de patrocínio e outros R$ 50 milhões em merchandising, anúncios extras, espaços vendidos na casa, assinaturas de pacotes na TV paga, etc. Ele hoje seria o produto mais rentável e lucrativo da empresa, superando as receitas com as telenovelas.

Somente com a "Loja do BBB", a emissora já elevou em 70% os seus lucros em relação a 2008. Segundo Bárbara Sacchiello, "através da divisão Globo Marcas, a grupo mantém, há três anos, a loja hospedada no site do programa. Ao todo, são 30 produtos diferentes, entre roupões, bolsas, utensílios domésticos e até edredons com a marca BBB... A cada edição, novas peças chegam para se juntar ao portfólio do site e atrair fãs". A novidade neste ano são os dois robôs RoBBB, que trazem imagens e sons em tempo real. Os "olhinhos" robóticos custam R$ 449,90 e R$ 169,90, respectivamente, e a emissora já teve que encomendar mais peças à fornecedora Yellow.

"Espelho fiel da vida amesquinhada"

Diante do sucesso comercial (e o que importa é lucro, e não a qualidade do produto), a TV Globo já estuda prorrogar BBB-9 de 24 de março para 7 de abril. Mas o que explica este fenômeno da televisão brasileira e mundial? A psicanalista Maria Rita Kehl, no livro Videologias, escrito em conjunto com Eugênio Bucci, dá importantes pistas. "Os reality shows são a forma mais eficiente de ilusão que a cultura de massas já produziu: eles vendem aos espectadores o espelho fiel de sua vida amesquinhada sob a égide severa das 'leis do mercado'. Eles vendem a imagem da selva em que a concorrência transforma as relações humanas. Só que elevados ao estatuto de espetáculo".

Para ela, "o show do BBB é a festa neoliberal do cálculo, o jogo da incansável concorrência com ou sem limites éticos... Os concorrentes ao prêmio final do BBB conspiram, manipulam, traem uns aos outros - esta é a verdadeira dimensão 'obscena' do show - até que o mais esperto, que se apresente como o mais amável ao público, ganhe a bolada prometida. A destruição da dimensão pública da vida humana, a privatização do sentido da vida e a consagração do homem subjetivo em lugar do homem político, como o novo paradigma do melhor que nossa sociedade produziu, são os componentes secretos do sucesso desse tipo de programa".

"Concorrência sem limites éticos"

Noutro texto, ela provoca: "É verdade que os luxuosos 'cativeiros' dos reality shows representam uma invasão, ainda que consentida, da privacidade dos cativos. Mas se ela é consentida, digamos que o exibicionismo dos protagonistas ultrapassa o voyeurismo das câmeras. A imprensa que acompanha o desenvolvimento desses shows afirma que a audiência se sustenta sobre o desejo do público de presenciar escândalos, brigas e cenas de sexo 'reais'. No entanto, os escândalos são escassos, se comparados aos longos períodos em que nada digno de nota acontece".

"Assistimos a um grupo de jovens geneticamente selecionados a gastar o seu tempo ocioso em conversas bobas, fofocas, cuidados corporais, picuinhas. O que interessa ao espectador fiel é a esperança de que a exibição, pela televisão, da banalidade de um cotidiano parecido com o seu, ponha em evidência migalhas de brilho e dê sentido que sua vida, condenada à domesticidade, não tem... A pobreza dos sonhos de fama dos que se candidatam ao cativeiro de luxo do Big Brother espelha a pobreza dos sonhos do espectador cativo, que espera o espetáculo começar".

Em síntese, o BBB incentiva os piores instintos humanos e contribui para a idiotização da nossa pobre sociedade. "Conspirações, traições, armadilhas, estratégias descaradas para passar a perna nos companheiros e garantir a própria permanência: este é o tema do BBB". No afã por lucros, a TV Globo pouco se importa com o conteúdo "sádico" do programa. Para ela, tudo é mercadoria. Como afirma o apresentador Pedro Bial, que renegou seu passado de jornalista sério, "tenho zero de preocupação em dar um aspecto cultural ao programa. Acho que tudo é cultura. Big Brother é tão cultura quanto Guimarães Rosa". Haja cinismo, uma marca registrada do BBB.

* Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, autor do livro Sindicalismo, Resistência e Alternativas
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Original em: Vermelho

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Que fazer com os italianos?

José Saramago
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Reconheço que a pergunta poderá soar de maneira algo ofensiva a um ouvido delicado. Que é isto? Um simples particular a interpelar um povo inteiro, a pedir-lhe contas pelo uso de um voto que, para gáudio de uma maioria de direita cada vez mais insolente, acabou por fazer de Berlusconi amo e senhor absoluto de Itália e da consciência de milhões de italianos? Ainda que, em verdade, quero dizê-lo já, o mais ofendido seja eu. Sim, precisamente eu. Ofendido no meu amor por Itália, pela cultura italiana, pela história italiana, ofendido, inclusive, na minha pertinaz esperança de que o pesadelo venha a ter um fim e de que a Itália possa retomar o exaltador espírito verdiano que foi, durante um tempo, a sua melhor definição. E que não me acusem de estar a misturar gratuitamente música e política, qualquer italiano culto e honrado sabe que tenho razão e porquê.
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Acaba de chegar aqui a notícia da demissão de Walter Veltroni. Bem-vinda seja, o seu Partido Democrático começou como uma caricatura de partido e acabou, sem palavra nem projecto, como um convidado de pedra na cena política. As esperanças que nele depositámos foram defraudadas pela sua indefinição ideológica e pela fragilidade do seu carácter pessoal. Veltroni é responsável, certamente não o único, mas na conjuntura actual, o maior, pelo debilitamento de uma esquerda de que chegou a apresentar-se como salvador. Paz à sua alma.
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Nem tudo foi perdido, porém. É o que nos vêm dizer o escritor Andrea Camilleri e o filósofo Paolo Flores d’Arcais num artigo publicado recentemente em “El País”. Há um trabalho a fazer conjuntamente com os milhões de italianos que já perderam a paciência vendo o seu país a ser arrastado em cada dia que passa à irrisão pública. O pequeno partido de Antonio di Pietro, o ex-magistrado de Mãos Limpas, pode tornar-se no revulsivo de que a Itália necessita para chegar a uma catarse colectiva que desperte para a acção cívica o melhor da sociedade italiana. É a hora. Esperemos que o seja.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

EMBRAER FAZ DEMISSÃO EM MASSA E DISPENSA 4,2 MIL TRABALHADORES

Ameaça de cortes
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A Embraer demitiu nesta quinta-feira (19), 4,2 mil trabalhadores, o equivalente a 20% do efetivo da empresa. Grande parte das demissões aconteceu em sua fábrica de São José dos Campos, em diferentes setores da produção. A Embraer possui hoje cerca de 21 mil trabalhadores, dos quais cerca de 15 mil estão em São José dos Campos.
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Num comunicado interno, o presidente da Embraer, Frederico Curado, confirma os cortes e alega que a empresa perdeu encomendas e, por isso, está reduzindo seu quadro de pessoal.
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É a maior demissão em massa já anunciada pela empresa. Mas a Embraer não comunicou oficialmente o Sindicato dos Metalúrgicos sobre o número de demissões, apesar dos insistentes pedidos da entidade nos últimos meses para que fosse agendada uma reunião para discussão sobre o assunto. O último pedido foi realizado ontem, dia 19, conforme carta protocolada às 18h05. No momento em que a empresa iniciou as demissões, por volta das 15h, o Sindicato realizava panfletagem e assembleia com os trabalhadores justamente sobre os fortes boatos de demissões que já circulava entre os trabalhadores e a necessidade de resistência.
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O Sindicato vinha cobrando uma posição da empresa com o objetivo de discutir a garantia de emprego dos trabalhadores desde o ano passado. Foram enviados também pedidos de audiência com o prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, com o governador José Serra e com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.
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Uma reunião com o prefeito Eduardo Cury estava agendada para amanhã, dia 20, mas foi antecipida para hoje, às 19h, no Paço Municipal.
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“É inadmissível que uma empresa que tanto lucrou e recebe muito dinheiro público faça uma demissão em massa como essa. E com requintes de crueldade, ao fazer isso com os trabalhadores às vésperas do Carnaval. Precisamos repudiar veementemente estas demissões e lutar para que a empresa volte atrás nessa medida", afirma o presidente do Sindicato, Adilson dos Santos, o Índio. "Esperamos também que o prefeito, os governos estadual e federal adotem medidas práticas e urgentes para intervir nessa grave situação. Não adianta vir com propostas irrelevantes de banco de currículos. Essas demissões terão um impacto extremamente negativo em toda a cadeia produtiva da cidade”, disse Índio.
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Reestatização da Embraer
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Entre as alternativas defendidas pelo Sindicato para evitar demissões estão a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e de direitos, já que a Embraer tem a maior jornada entre as empresas aeronáuticas em todo o mundo (43h semanais), bem como estabilidade no emprego e reestatização da empresa. A Embraer é uma das principais beneficiadas por dinheiro público no país através do BNDES. Desde sua privatização, em 1995, a Embraer já recebeu cerca de 7 bilhões de dólares por meio de financiamentos.
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“É inaceitável que uma empresa receba uma quantia tão alta, vinda dos cofres públicos, e demita mais de 4 mil funcionários. Vamos iniciar imediatamente uma intensa campanha pela readmissão dos trabalhadores e reestatização da Embraer”, afirma Índio.
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Coletiva à imprensa
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O Sindicato vai iniciar uma forte ofensiva contra as demissões. Nesta sexta-feira, dia 20, às 11 horas, o Sindicato realizará uma entrevista coletiva na sede da entidade (Rua Maurício Diamante, 65 – Centro – São José dos Campos).
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A entrevista coletiva também será transmitida pela página do Sindicato na internet.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

CPT manifesta indignação contra fechamento de escolas em Acampamentos

Terrorismo cultural no Rio Grande do Sul: fechamento de escolas em Acampamentos
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A Coordenação Nacional da CPT vem a público manifestar sua inconformidade e indignação contra a determinação do Ministério Público Estadual e do Governo do Rio Grande do Sul de fechamento da Escola Itinerante do MST, no acampamento Oziel Alves, município de Sarandi, que atendia 130 crianças. A medida nefasta, a primeira entre outras que se seguirão, é um verdadeiro terrorismo cultural, pois a alternativa que se oferece às crianças é ficarem sem aula ou passarem o dia todo fora de casa, parte nos transportes precários, parte em escolas urbanas estranhas à sua cultura.
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Por trás desta decisão está a ofensiva do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, com o respaldo do Governo de Yeda Crusius, que querem colocar em execução a estratégia de dissolver o MST. Como fartamente foi noticiado em meados do ano passado. O Conselho Superior do Ministério Publico do Estado do Rio Grande do Sul, por unanimidade, aprovou relatório que propunha “ação civil pública com vistas à dissolução do MST e declaração de sua ilegalidade (...)” e ainda “intervenção nas escolas do MST” para sua “readequação à legalidade, tanto no aspecto pedagógico quanto na estrutura de influência externa do MST “ pois “as bases pedagógicas veiculadas nas escolas mantidas ou geridas pelo MST são nitidamente contrárias aos princípios contidos na Constituição Federal”.
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Diante das reações que tamanhas barbaridades provocaram, o Conselho recuou. Nas atas de suas reuniões de 7 de abril e de 30 de junho de 2008 decidiram retificar a famigerada ata de dezembro de 2007 asseverando “que tudo não passou de um equívoco, tudo que constou na ata não foi aprovado”. Contradizendo, porém, estas afirmações, alguns promotores firmaram, em 28 de novembro de 2008, com o governo do Estado, sem conhecimento e participação dos pais, educandos e da escola-base, onde as crianças estão matriculadas, um Termo de Ajustamento de Conduta em que o Estado assume a obrigação de, na prática, acabar com as Escolas Itinerantes dos acampamentos do MST. A concretização disso se iniciou no dia 10 de fevereiro com o fechamento da escola do acampamento Oziel Alves.
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O que são as escolas itinerantes
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As Escolas Itinerantes são uma experiência pioneira do MST para garantir a educação escolar para as crianças e adolescentes dos seus acampamentos, amparada nos direitos sociais inscritos na Constituição Federal de 1988, e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, e nas Diretrizes Operacionais para Escolas do Campo, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação em 2002.
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Em 1996, o Rio Grande do Sul foi o primeiro estado a apoiar tal iniciativa e as aulas, ministradas nos acampamentos, passaram a ter o amparo legal garantindo aos educandos a continuidade dos estudos em qualquer lugar onde ocorressem. Os estudantes são matriculados numa escola-base, e participam das aulas em seu acampamento. A experiência gaúcha se espalhou por diversos estados do Brasil e foi premiada com o Prêmio Educação, do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul.
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Diante de tamanho despudor, hipocrisia e desfaçatez de integrantes do MPE e do governo do Estado nossa indignação não se contém e bem lhe podemos aplicar a indignação do próprio Jesus diante dos doutores da lei e dos fariseus: “Serpentes, raça de víboras” (Mt 23,33) vocês destilam seu veneno contra os indefesos, e se locupletam na mesa dos poderosos. Vocês que, por determinação constitucional, deveriam defender os direitos dos fracos prostituem-se e adulteram com aqueles que secularmente vivem da exploração dos pobres.
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Goiânia, 18 de fevereiro de 2009.
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Dom Xavier Gilles
Bispo de Viana, MA
Presidente da Comissão Pastoral da Terra
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Original em MST

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

SAN REMO: O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA EUROPA?

A abertura do 59º Festival de San Remo no dia de ontem, mostrou, nos detalhes, que a Europa está, de fato, muito preocupada com o rumo político que as coisas estão tomando por lá.

O que sempre foi um oba-oba de futilidades e glamour, abriu espaço para duas coisas que chamaram a atenção dos mais atentos. Primeiro, a entrevista com o Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Miguel d’Escoto que, se pouco acrescentou, serviu para chamar a atenção sobre o fato de que, como disse Vandré, a vida não se resume a festivais.

O segundo fato, esse sim de uma relevância extremamente grande, a presença de Roberto Benigni que, de forma sutil e polida, ironizou a figura bizarra de Berlusconi que hoje ocupa o centro das atenções da porção civilizada da Europa, tanto pelo seu posicionamento retrógrado de extrema direita, como pelas acusações que sofre pelo seu envolvimento em grandes esquemas de corrupção.

Esse espetáculo de fino humor que atingiu em cheio o "stablishiment" italiano já provocou hoje, um dia após a apresentação de Benigni, a manifestação de Maurizio Gasparri, líder do "Popolo della Libertà" (PdL), partido de direita italiano, que diz ter a intenção de ajuizar ação legal contra Claudio Cappon, diretor geral da RAI.

Mas o mais marcou politicamente a participação de Benigni, em um momento em que os movimentos neo nazistas crescem de modo assustador por toda a Europa e agridem violentamente as minorias representadas pelos negros, judeus, estrangeiros e homossexuais, aproveitando as dificuldades criadas pela crise econômica que atinge os países desenvolvidos, foi a alocução dirigida a favor da liberdade de opção sexual.

No texto, o coerente ator italiano faz a explanação didática e poética do que representa o o direito de amar, independente do fato de ser homo ou heterossexual, e finaliza com um dos poemas escritos por Oscar Wilde da prisão para o Lord Alfred Douglas.

A politização, embora tímida, do Festival da Música Italiana é um fato absolutamente inédito dentro de uma sociedade secularmente conservadora e dentro de um evento que sempre se caracterizou por duas coisas: as belas músicas que apresenta e pela não tomada de posições que possam ser consideradas como polêmicas.

Mesmo que se observe apenas as músicas apresentadas ao longo desses 58 anos que precederam o atual festival, vemos que poucas são as canções que foram apresentadas com algum conteúdo social ou de posicionamento definido - uma delas "Ciao, Amore, Ciao" de Luigi Tenco - sem que jamais alguma tenha ocupado, mesmo que fosse o terceiro lugar.

Rosalvo Maciel

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