Além do Cidadão Kane

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O Aborto e a Hipocrisia Burguesa

Em nome de uma falsa moral, a burguesia despreocupada se opõe à descriminização do aborto. Para ela é muito simples, em caso de "acidente", procurar uma clínica-spa e com toda segurança se livrar do "aborrecimento". Depois, é só passar alguns meses na Europa e, com o auxílio de um bom analista, esquecer tudo isso. Ocorre que há uma imensa massa de "sem-cultura", de "sem-assistência-médica", de "sem anticoncepcional", de "sem-DIU", de "sem-dinheiro" que, frente ao mesmo "acidente" só lhe resta a comadre, a curiosa ou a auto-agressão para provocar o aborto. E o fazem! E continuarão fazendo seja o aborto considerado crime ou não. A Dep. Solange Almeida (PMDB-RJ) chegou a dizer que apenas trinta e poucas mulheres morreram em decorrência de abortos! É mentira, Deputada, e é mentira porque simplesmente não existe estatística da mortalidade materna nos Estados do norte e nordeste, bem como nos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. essa informação é do Ministério da Saúde. O site onde pode ser verificada essa informação é http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/idb2006/c03.htm. Tivesse sido uma, Deputada, e já estaria justificada a descriminização do aborto. Na verdade foram centenas, talvez milhares de mortes desnecessária e que seriam evitadas se houvesse o entendimento de que, em primeiro lugar, mulher alguma faz um aborto pelo simples prazer de abortar. Todas as vezes que uma mulher decide realizar um aborto o está fazendo ou por pressão social ou por pressão econômica. Eu não conheço em minha vida profissional de quase trinta anos como Médico sequer uma mulher que tenha feito um aborto sem que houvesse um desses dois motivos; em segundo lugar, aquelas que decidiram levar adiante a interrupção da gravidez, o vão fazer com ou sem permissão legal. O oferecimento de apoio médico poderia, por mais estranho que possa parecer, diminuir o número de abortos porque permitiria uma troca de informações aberta entre médico e paciente onde poderia ser colocado o trauma emocional que acompanha a decisão de abortar. Poderia ser oferecida assistência psicológica o que reduziria em muito a procura posterior por atendimento psiquiátrico. Como se pode ver, a questão do aborto é uma questão de saúde pública no momento em que aumenta os índices de mortalidade materna e sua descriminização é um fator importante de liberdade individual. Em última análise, quem achar que é um procedimento que viola leis divinas ou outras, simplesmente não faz aborto, mas permite que outras, com outros pontos de vista, decidam suas vidas sem arriscar suas próprias vidas. Ou será que quem decide abortar deve correr o risco de ser "castigada por Deus" com a própria morte?
Valesca Moroli
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Um comentário:

Marisa disse...

Meu velho,
isso me faz lembrar Galeano:

A autoridade
Por Eduardo Galeano
Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens momtavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo.
Assim era a vida entre os índios Onas e Yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los. Somente as meninas récem-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também suas filhas e as filhas de suas filhas.

bises!!!!!

Printemps

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