Além do Cidadão Kane

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Cinco motivos para a soberania argentina sobre as Malvinas

O anúncio dos trabalhos de prospecção petrolífera inglesa na placa continental das Ilhas Malvinas reacendeu o debate sobre a posse do arquipélago. O Reino Unido recusa-se a negociar com os argentinos e, apesar de descartar um conflito armado, a presidente argentina Cristina Kirchner busca o apoio internacional para pressionar a Grã-Bretanha.

Cláudia Macedo, em Opera Mundi

1 – É inadmissível haver, nos dias de hoje, um território colonial. O arquipélago malvino, chamado pelos ingleses de Falkland Islands, não é mais do que a negação do direito soberano de um povo. Quando a Inglaterra se apossou das ilhas, em 1833, a Argentina era um país recém-independente. Não tinha como enfrentar um Estado tão poderoso, ainda mais por haver uma dependência econômica em relação a ele. Contudo, desde a ocupação inglesa, o vizinho sul-americano, sistematicamente, reivindicou seus direitos sobre o território.

Alega-se que, devido ao princípio de autodeterminação dos povos, os habitantes do local deveriam escolher a que país ficar atrelados. Tenta-se demonstrar que a Inglaterra está no seu direito, apoiado pelo povo, e a Argentina tem pretensões expansionistas. Contudo, os ingleses, desde a ocupação à força, enviaram colonos para povoar as terras, negaram-se ao longo dos anos a dialogar e, dessa forma, puderam cada vez mais utilizar o argumento que compete a eles governar a região, visto que os habitantes assim o querem. É uma inversão de papéis.

Com todos os avanços promovidos na década de 1960, como os movimentos de independência das nações africanas, a consolidação internacional do princípio da não intervenção e o crescimento da participação das nações menos desenvolvidas nas instituições internacionais, como é possível ainda existirem colônias no mundo?

2 – O pleito argentino é legítimo e reconhecido pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Na Resolução 1514, de 1960, é definido o status colonial das Malvinas. Cinco anos depois, na resolução 2065, o Reino Unido e a Argentina foram convidados a negociarem sobre a posse do arquipélago. Após três anos de negociações diplomáticas secretas, a Inglaterra concordou em devolver as ilhas. Voltou atrás, entretanto. E, novamente, a Assembléia Geral formulou uma Resolução, 3160 de 1973, convidando os dois países ao diálogo.

Dessa vez, os países da região resolveram, conjuntamente, repudiar a atitude inglesa. Nesta semana, em Cancún, os 32 Estados participantes da Cúpula da Unidade da América Latina e do Caribe entraram em consenso para manifestar apoio oficial à reinvidicação argentina. Pode, por pertencer ao Conselho de Segurança, a Inglaterra negar-se a atender essa idéia aceita internacionalmente? Atitudes como essa apenas reforçam a necessidade de reforma dos organismos internacionais, para que se tornem mais representativos e democráticos.

3 - A situação atual é bastante diferente daquela de 1982, quando a Argentina entrou em guerra com a Grã-Bretanha em disputa pelo arquipélago. Havia um governo militar, opressor, liderado pelo general Leopoldo Fortunato Galdieri, que tentava por meio do conflito desviar a atenção dos problemas políticos internos.

Devido à “tática” de Galtieri, foram mortos 655 soldados argentinos, 255 britânicos e três malvinos. Em um pouco mais de dois meses, as forças militares do governo de Margareth Tatcher recuperaram a capital, Stanley. A presidente argentina, Cristina Kirchner, já descartou a possibilidade de um conflito armado. Continua, entretanto, a pressão para os dois países sentarem à mesa de negociações. Não há mais ameaça de guerras, o que podem os ingleses alegar para não estabelecer diálogo com os argentinos?

4 – É preciso assegurar o direito argentino aos recursos naturais da região. Devido à recusa inglesa de negociar e à falta de entendimento político, a Convenção da ONU sobre Direito do Mar (Convemar) afirmou não poder realizar uma avaliação técnica sobre o território marítimo reivindicado pela Argentina. De acordo com estudos geológicos preliminares recentes, especula-se que há mais de seis bilhões de barris de petróleo na plataforma continental das ilhas. A informação que empresas britânicas vão realizar trabalhos de prospecção no local é preocupante para todos os países sul-americanos.

Suponha-se que a situação envolvesse o Brasil, por exemplo. Em meados do século 19, a Inglaterra ocupou a Ilha da Trindade, no Oceano Sul Atlântico, no paralelo de Vitória, Espírito Santo. Após a ruptura de relações diplomáticas e forte pressão comandada pelo prestigiado imperador D. Pedro II, o Brasil conseguiu o retorno da posse sobre a região. Caso a reivindicação não tivesse sido atendida e, como nas Malvinas, houvesse um processo de ocupação de britânicos da Ilha, estariam agora os ingleses tentado apoderar-se do Pré-Sal?

5 – Inglaterra adota postura incoerente. Levem-se em consideração dois territórios: Gibraltar e Malvinas. Pelos mesmos tratados de Utrecht de 1713, ficaram estabelecidas as posses sobre essas duas regiões. A primeira, uma rocha contígua ao território espanhol, foi concedida à Inglaterra. A segunda, situada no Atlântico Sul, voltou ao domínio espanhol. Esses acordos encerraram o conflito acerca da sucessão espanhola, quando um membro da família dinástica francesa bourbônica assumiu o trono da Espanha.

Gibraltar continua pertencendo à Inglaterra. Houve, inclusive, dois plebiscitos, no qual a população confirmou seu interesse em manter seu status. As Malvinas, entretanto, foram aviltadas do domínio argentino. O que permite aos ingleses manterem apenas parte do pacto? Deve ser admitido que as regras só sejam cumpridas quando de acordo com a vontade dos poderosos?

São por esses motivos que as Ilhas Malvinas devem retornar ao controle da Argentina. Que o direito de explorar as prováveis riquezas petrolíferas deve pertencer aos argentinos. Que os países da região - inclusive o Brasil - negam-se a apoiar um domínio colonial no continente. Que não se pode admitir que continue o predomínio dos interesses de alguns países em detrimento da opinião da maioria dos povos do globo.
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*Cláudia Macedo, jornalista, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-graduada em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Fonte: Opera Mundi.

Publicado em Vermelho

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Os deputados britânicos entregam um relatório demolidor sobre o Afeganistão

“Ao fim de oito anos de presença neste país, as forças internacionais, dirigidas pela NATO desde 2003, estão longe de ter atingido os resultados pretendidos, principalmente por causa da «falta de uma estratégia coerente baseada nas realidades da história, da cultura e da política do Afeganistão», de acordo com esse relato tornado público no domingo, dia 2 de Agosto”.

Le Monde - 17.08.09

Os deputados britânicos acabam de fazer um relatório esmagador sobre a missão militar internacional no Afeganistão. Ao fim de oito anos de presença neste país, as forças internacionais, dirigidas pela NATO desde 2003, estão longe de ter atingido os resultados pretendidos, principalmente por causa da «falta de uma estratégia coerente baseada nas realidades da história, da cultura e da política do Afeganistão», de acordo com esse relato tornado público no domingo, dia 2 de Agosto.
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A comissão dos assuntos externos da câmara dos Comuns põe em causa «a importante falta de sensibilidade cultural» de alguns militares da coligação, cujos danos «serão difíceis de reparar». É de opinião que «os erros evitáveis, assim como as reações impensadas, a dispersão ou os atropelos nas tomadas de decisões tornam atualmente” a tarefa muito mais difícil. Os deputados estão preocupados sobretudo com os problemas suscitados pelo uso da força aérea pelo exército americano, sublinhando que os tiros de mísseis dos aviões telecomandados americanos sobre objetivos situados no Paquistão “comprometeram a reputação dos Estados Unidos”.
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"PLANIFICAÇÃO IRREALISTA"
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O relato lamenta também que o esforço de guerra não esteja mais bem repartido entre os vários países. A reputação da NATO enquanto aliança militar poderá ser “fortemente abalada” se não houver uma repartição mais justa do esforço, acham os seus autores, “A incapacidade de alguns dos países para contribuir para que o fardo seja repartido exerce uma tensão inaceitável sobre uma meia dúzia de países”, insistem.
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Quanto ao posicionamento britânico na província de Helmand, é prejudicado por uma “planificação irrealista ao mais alto nível” e por uma “falta de coordenação entre os serviços de Whitehall (o governo)”. Os soldados britânicos foram enviados para o Iraque para combater o terrorismo internacional, ou dedicam-se presentemente a objetivos como a luta contra o tráfico de drogas e a insurreição, sublinha o relatório que lamenta a ausência de “orientações claras” (ler também o artigo do Guardian sobre este tema).
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Este relatório foi publicado num período difícil para o governo de Gordon Brown, cuja ação no Afeganistão é fortemente criticada por causa da explosão de baixas nas fileiras britânicas. O mês mais mortífero, desde o início do conflito, para o exército britânico foi o mês de Julho, com 22 soldados mortos e numerosos feridos, recorda o site do Times.
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RECEIOS DE VIOLÊNCIAS PÓS-ELEITORAIS
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O Afeganistão assiste a um reacender da violência numa altura em que se perfilam as eleições presidenciais e provinciais a 20 de Agosto. Neste fim-de-semana foram mortos em ataques dos insurrectos, cinco soldados da NATO, dos quais três americanos e um francês. Só no sábado, foram mortos no sul e no norte do país dezenove afegãos, dos quais doze insurrectos, três polícias e quatro soldados.
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E o governo afegão receia presentemente tumultos pós-eleitorais semelhantes aos que ocorreram no Irão. “O ministério do interior reagirá com firmeza contra todos os que tentarem impor a sua vontade pelas armas (…) ao povo do Afeganistão”, foi o anunciado num comunicado difundido no domingo.
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Este texto foi publicado no diário francês Le Monde
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Tradução de Margarida Ferreira
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Publicado em odiário.info

domingo, 17 de maio de 2009

Reino Unido

Desigualdades agravadas

Um relatório do Ministério do Trabalho britânico conclui que as desigualdades de rendimento entre os dez por cento mais pobres e os dez por cento mais ricos se aprofundaram no país em 2007-2008.

O fosso das desigualdades sociais no Reino Unido aprofundou-se durante os governos de Margaret Thatcher. Quando o trabalhista Tony Blair chegou ao poder, em 1997, as diferenças de rendimentos entre os mais pobres e os mais ricos eram as maiores desde a criação das estatísticas em 1961.
Apesar da sua retórica social, a verdade é que Tony Blair não só nunca conseguiu reduzir as desigualdades, como estas até aumentaram em termos relativos. Os ricos enriqueciam mais de pressa do que os pobres melhoravam o seu nível de vida. Contudo, aproveitando um período favorável da economia, as camadas mais desfavorecidas registavam um aumento absoluto de rendimentos, o que ajudava à propaganda dos trabalhistas.
Porém, desde 2005, esta tendência alterou-se radicalmente. Em termos reais, isto é, descontada a inflação, os pobres tornaram-se mais pobres, enquanto os ricos acumularam riqueza.
Com os primeiros sinais da crise, a situação agravou-se ainda mais. Segundo indica o relatório anual do Ministério do Trabalho britânico sobre os rendimentos de 2007-2008, divulgado no dia 7, os mais pobres foram afetados não só pelo aumento da inflação mas também por uma diminuição absoluta dos rendimentos.
Assim, se entre 2004-2005 os dez por cento mais pobres auferiam em média 156 libras por semana (cerca de 176 euros), em 2007-2008 o seu rendimento baixou nove libras (cerca de dez euros).
No mesmo período, os dez por cento mais ricos viram o seu rendimento aumentar de 998 libras (1110 euros) para 1033 libras (1149 euros) por semana.
Neste contexto, em 2007-2008 os 20 por cento mais ricos passaram a auferir 43,1 por cento do rendimento disponível contra 40,9 por cento em 1996-97.

Pobreza alastra

Outra consequência desta evolução é o aumento crescente do número de indivíduos a viver abaixo do limiar da pobreza, definido como 60 por cento do rendimento mediano. Em 2007-2008 atingiram os 11 milhões contra 10,7 milhões no ano anterior e 10 milhões entre 2004-2005.
As dificuldades das famílias refletem-se inevitavelmente na infância. Em 1997 havia na Grã-Bretanha 3,4 milhões de crianças que viviam em situação de pobreza. Blair prometeu então que esse número seria reduzido a metade até 2010 e que, em 2020, este flagelo social estaria completamente extinto.
No entanto, o governo trabalhista está muito longe de alcançar tal objetivo. Os dados oficiais mais recentes referem que 2,9 milhões de crianças viviam em situação de pobreza em 2007-2008, número que é semelhante ao do ano anterior, mas representa um acréscimo de 200 mil crianças em relação a 2005.
Com resultados destes, não surpreende que o governo de Gordon Brown continue a afundar-se nas sondagens, cedendo posições à direita conservadora que explora a seu favor a capitulação dos trabalhistas às políticas neoliberais.
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Original em Avante!

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