Além do Cidadão Kane

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dalai Lama & Obama: O encontro entre dois Prêmios Nobel da mentira

Domenico Losurdo [*]

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A notícia é agora oficial. Dentro em breve o Dalai Lama será recebido por Obama na Casa Branca. O encontro entre estas duas almas gêmeas era inevitável: com vinte anos de separação entre um e outro (1989 e 2009), ambos receberam o Prêmio Nobel da Paz e ambos receberam esta distinção ad maiorem Dei gloriam ou, para mais exatidão, para a maior glória da "nação eleita" por Deus. 1989 foi o ano em que os EUA obtiveram o triunfo na guerra fria e preparavam-se para desmantelar a União Soviética, a Jugoslávia e também – como eles esperavam – a China. Nestas condições, aquele que ia ser coroado campeão da paz não podia ser senão o monge intrigante que desde há trinta anos, encorajado e financiado pela CIA, lutava para destacar da China um quarto do seu território (o Grande Tibete).

Em 2009, a situação havia mudado radicalmente: os dirigentes de Pequim haviam conseguido evitar a tragédia que se queria infligir ao seu país; ao invés de serem remetidos às décadas terríveis da China, oprimida, humilhada e muitas vezes condenada em massa à morte por inanição, à "China crucificada" de que falam os historiadores, um quinto da população mundial havia experimentado um desenvolvimento prodigioso, enquanto se verificava claramente o declínio e o descrédito que afligia a super-potência solitária que em 1989 havia acreditado ter o mundo aos seus pés. Nas condições que emergiram em 2009, o Prêmio Nobel da Paz coroava aquele que, graças à sua habilidade oratória e à sua capacidade de se apresentar como um homem novo e vindo de baixo, estava destinado a recuperar o lustro do imperialismo estadunidense.

Na realidade, o significado autêntico da presidência Obama está presente aos olhos de todos. Não há zona do mundo na qual não se tenha acentuado o militarismo e a política de guerra dos EUA. Ao Golfo Pérsico foi enviada uma f rota, equipada para neutralizar a possível resposta do Irão aos bombardeamentos selvagens que Israel prepara febrilmente graças também às armas fornecidas por Washington. Na América Latina, depois de ter encorajado ou promovido o golpe de estado em Honduras, Obama instala sete bases militares na Colômbia, relança a presença da IV frota, aproveita a urgência humanitária do Haiti (cuja gravidade é também a conseqüência da dominação neocolonial que os EUA ali exercem desde há dois séculos) para ocupar maciçamente o país: com uma deslocação de forças que é também uma forte advertência aos países latino-americanos. Na África, sob o pretexto de combater o "terrorismo", os EUA reforçam o seu dispositivo militar por todos os meios: a sua tarefa real é tornar o mais difícil possível o abastecimento de energia e matérias-primas de que a China tem necessidade, de modo a poder estrangulá-la no momento oportuno. Na própria Europa, Obama não renunciou à expansão da NATO para o Leste, e ao enfraquecimento da Rússia; as concessões são formais e visam apenas isolar a China o mais possível, o país que se arrisca a por em causa a hegemonia planetária de Washington.

Sim, é na Ásia que o caráter agressivo da nova presidência estadunidense emerge com toda clareza. Não se trata apenas do fato de que a guerra no Afeganistão foi estendida ao Paquistão, com o recurso dos aviões sem piloto (e a sua conseqüência de "danos colaterais") claramente mais maciço que na época da administração Bush júnior. É sobretudo no que se refere a Formosa que é significativo. A situação estava a melhorar nitidamente: entre a China continental e a ilha, os contactos e os intercâmbios retomavam-se e desenvolviam-se; as relações entre o Partido Comunista Chinês e o Kuomitang foram restabelecidas. Com a nova venda de armas, Obama quer atingir um objetivo bem preciso: se realmente não se pode desmantelar o grande país asiático, pelo menos é preciso impedir a reunificação pacífica.

É neste ponto que anuncia a sua chegada a Washington um velho conhecido da política de contenção e de desmantelamento da China. Eis que no momento oportuno entra de novo em cena Sua Santidade que, antes mesmo de por os pés nos EUA, benzeu à distância o mercador de canhões que tem sede na Casa Branca. Mas o Dalai Lama não é universalmente conhecido como o campeão da não-violência? Permito-me, a propósito desta manipulação refinada, remeter para um capítulo do meu livro (A não-violência. Uma história afastada do mito), que o editor Laterza (de Bari-Roma) lançará nas livrarias a 4 de Março próximo. Por enquanto limito-me a antecipar um único ponto. Obras que têm como autor ou co-autor ex-funcionários da CIA revelam uma verdade que jamais deve ser perdida de vista: a não-violência é um "écran" (screen) inventado pelo departamento dos serviços secretos estadunidenses empenhados, sobretudo, na "guerra psicológica". Graças a este écran, Sua Santidade foi mergulhado numa aura sagrada, quando desde há muito, após a sua fuga da China em 1959, ele promoveu no Tibete uma revolta armada, alimentado pelos recursos financeiros maciços, pela poderosa máquina organizadora e multi-midiática e pelo imenso arsenal estadunidense; revolta que, entretanto, fracassou por causa da falta de apoio por parte da população tibetana. Tratava-se de uma revolta armada – escrevem ainda os ex-funcionários da CIA – que permitiram aos EUA acumular experiências preciosas para as guerras na Indochina, ou seja, para guerras coloniais – sou eu que acrescento desta vez – que devem ser classificadas dentre as mais bárbaras do século XX.

Agora, o Dalai Lama e Obama encontram-se. Estava na lógica das coisas. Este encontro entre os dois Prêmios Nobel da mentira será tão afetuoso quanto pode ser um encontro entre duas personalidades ligadas entre si por afinidades efetivas. Mas ela não promete nada de bom para a causa da paz.

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[*] Ensina história da filosofia na Universidade de Urbino. Dirige desde 1988 a Internationale Gesellschaft Hegel-Marx für dialektisches Denken, e é membro fundador da l' Associazione Marx XXIesimo secolo "Rievoluzione".

O original encontra-se em
Domenico Losurdo e a versão em francês em Le Grand Soir


Este artigo encontra-se em Resistir

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Colaboração da Associação José Martí - Rio Grande

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Regime dos Lamas submetia povo tibetano às trevas da escravidão

O texto a seguir é parte de um artigo publicado no jornal Revolutionary Wor-ker, nos EUA. O título original do trecho é “A sociedade de classes no velho Tibet”.“Antes das mudanças revolucionárias iniciadas em 1949, o Tibet era uma sociedade feudal. Havia duas classes principais: os servos e os aristocratas proprietários dos servos. O povo vivia como os servos na Europa da “Idade das Trevas”, ou como os escravos e os meeiros africanos no Sul dos EUA.
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“Os servos tibetanos raspavam as colheitas de cevada da terra dura com arados e foices de madeira. Criavam cabras, ovelhas e iaques para obter leite, manteiga, queijo e carne. Os aristocratas e os lamas dos mosteiros eram proprietários das pessoas, da terra e da maioria dos animais. Forçavam os servos a entregar a maioria dos cereais e exigiam todo o tipo de trabalhos forçados (chamados ulag). Entre os servos, tanto os homens como as mulheres participavam no trabalho duro, incluindo o ulag. Os povos nômades dispersos pelas áridas terras altas do Tibet ocidental também eram propriedade dos senhores feudais e dos lamas.
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“O irmão mais velho do Dalai Lama, Thubten Jigme Norbu, alegou que na ordem social lamaísta, “não havia nenhum sistema de classes e a mobilidade de classe para classe tornava impossível qualquer preconceito de classe”. Mas a própria existência dessa ordem religiosa baseava-se num sistema de classes rígido e brutal.
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“Os servos eram tratados como seres ‘inferiores’ menosprezados - tal como eram tratados os negros no sistema Jim Crow do Sul dos EUA. Os servos não podiam sentar-se nos mesmos sítios, usar o mesmo vocabulário ou comer com os mesmos talheres que os seus donos. Tocar num dos pertences dos amos poderia mesmo ser punido com chicotadas. Os amos e os servos estavam tão distante uns dos outros que em muitas partes do Tibet falavam idiomas diferentes.
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“Era costume um servo pôr-se de joelhos e mãos no chão para que o seu amo pudesse usar as suas costas para montar um cavalo. O estudioso do Tibet A. Tom Grunfeld descreveu uma menina da classe dominante que habitualmente fazia com que os criados a levassem escada acima e escada abaixo por pura preguiça. Frequentemente, os amos atravessavam os riachos às costas dos seus servos.
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“No Tibet, a única coisa pior que um servo era um ‘escravo pessoal’ que nem sequer tinha direito a cultivar nenhuma cultura para si próprio. Estes escravos eram frequentemente espancados, obrigados a passar fome e a trabalhar até à morte. Um amo podia transformar um servo em escravo quando quisesse. Na capital do Tibete, Lhasa, havia rotineiramente crianças a ser compradas e vendidas. Cerca de 5% dos tibetanos eram considerados escravos pessoais. E pelo menos outros 10% eram monges pobres que na realidade eram ‘escravos em túnicas’.
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“O sistema lamaísta tentava impedir qualquer fuga. Os escravos foragidos não podiam ir simplesmente estabelecer-se nas vastas terras vazias. Alguns ex-servos explicaram à escritora revolucionária Anna Louise Strong que, antes da libertação, ‘Não se podia viver no Tibet sem um amo. Seríamos apanhados como criminosos a não ser que tivéssemos um dono legal.’
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OPRESSÃO DA MULHER
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"O Dalai Lama escreveu: ‘No Tibet não havia nenhuma discriminação especial contra as mulheres’. O biógrafo autorizado do Dalai Lama, Robert Hicks, alega que as mulheres tibetanas estavam contentes com a sua situação e que ‘influenciavam os seus maridos’. Mas, no Tibet, nascer mulher era considerado um castigo por comportamento ‘ímpio’ (pecador) numa vida anterior. No velho Tibet, a palavra para “mulher”, kiemen, significava “nascimento inferior”. Dizia-se às mulheres que rezassem: ‘Possa eu rejeitar um corpo feminino e renascer homem’.
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Original em Hora do Povo

Para Dalai Lama, o Tibet sem servos e escravos é um verdadeiro “inferno”

“O Dalai Lama e todos os seus predecessores representam os aristocratas e proprietários de servos do velho Tibet. Assim, quando ocorreu a reforma democrática, todos os servos se levantaram para obter acesso à terra e se transformarem em seres humanos dignos. O Tibet se converteu em um ‘inferno” para o Dalai Lama e seus seguidores”, afirmou a agência de notícias chinesa Xinhua, em editorial, referindo-se às declarações feitas pelo Dalai Lama de que o Tibet se transformou num “inferno” após o fim do regime de servidão, do qual foi representante. A reclamação foi feita no dia 10 de março, data em que do derrotado levante separatista preparado e fianciado pela CIA em 1959 fez 50 anos.
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Para a agência Xinhua, “se o Dalai Lama realmente deseja fazer algo benéfico pelos tibetanos, deve deixar de mentir”. O censo populacional do Tibet registrou que a população cresceu de 1,2 milhão de pessoas em 1959, para 2,87 milhões em 2008. O produto interno bruto saltou de 174 milhões de yuan (US$ 25,4 milhões) em 1959 para 39.591 bilhões de yuan ( US$ 5,78 bilhões) em 2008. Uma taxa de crescimento de 8,9%. A renda camponesa tibetana per capta subiu 45% nos últimos seis anos, 13,7% só no ano passado.
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Nos últimos 60 anos, os separatistas do Dalai Lama embolsaram US$ 1,7 milhão por ano da CIA, como consta nos documentos liberados pelo próprio Departamento de Estado dos EUA em 1998. Depois que este fato ficou público, o Dalai Lama emitiu declaração admitindo que tinha recebido milhões de dólares da CIA no período com o objetivo de enviar pelotões armados para o Tibete para minar a revolução socialista.
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O pagamento anual pessoal do Dalai Lama reconhecido pela CIA era de US$186.000, como informou Tom Grunfeld, em seu livro The Making of Modern Tibet. Atualmente, através do National Endowment for Democracy [Fundo Nacional para a Democracia] e outros canais que servem de fachada para a CIA, o governo dos EUA continua a destinar US$ 2 milhões anuais para os separatistas tibetanos que atuam na Índia. Ma Zhaoxu, porta-voz do Ministério do Exterior chinês, afirmou que “o problema mais importante está no fato de que o grupo do Dalai Lama tenta de forma consistente o caminho do separatismo”.
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Original em Hora do Povo

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