Além do Cidadão Kane

Mostrando postagens com marcador igreja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador igreja. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de agosto de 2010

As preocupações do Senhor Bispo…

Anabela Fino*

Dizer uma coisa e o seu contrário e apresentar a contradição como um mérito da coerência é o maior e o único milagre contínuo em dois mil anos da Igreja Católica: “num parágrafo alimenta-se a sede de justiça dos oprimidos, noutro cuida-se dos interesses dos opressores. Porque isto de pactos entre patrões e sindicatos, exploradores e explorados, direita e esquerda, algozes e vítimas não passa de poeira para os olhos destinada a prevenir o que de fato assusta a Igreja, ou seja o reconhecimento de que «situações extremas de pobreza e de fome podem conduzir à revolta e à violência, numa sociedade de desigualdades»”.

(…) «Basta de gente que ganha num dia aquilo que outros ganham num ano. Tem que haver alguém que ponha cobro a isto e que tenha coragem.» (…) «O investimento deve ser feito em bens verdadeiramente úteis e não em realidades virtuais, que estiveram na base da crise financeira mundial.» (…) «É preciso ultrapassar o capitalismo neoliberal, pois a crise é também uma crise de valores.»

As palavras são do bispo auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, que a semana passada desafiou os políticos portugueses a abdicar de 20 por cento dos seus salários em benefício de um fundo social. A proposta surgiu no seguimento da reunião extraordinária do Conselho Consultivo da Pastoral Social que pediu «mais responsabilidade social e política perante a crise» e «soluções corajosas» para a ultrapassar.

Mesmo considerando, numa leitura mais fina, que o bispo poderia ter ido muito mais longe – e logo aproximar-se muito mais da verdade – se tivesse dito, por exemplo, que «basta de gente que ganha num dia aquilo que muitos e muitos outros Não ganham numa vida inteira de trabalho», há que reconhecer que não é difícil – diria mesmo que é bastante fácil – comungar das opiniões reproduzidas acima. O que é difícil, isso sim, é conjugar estas palavras com o resto do discurso do eclesiástico que atualmente tutela a acção social da Igreja e, sobretudo, conciliá-las com a prática da Igreja católica.

Com efeito, na mesma entrevista em que reconheceu a escandalosa injustiça da repartição da riqueza e invectivou os gestores que ganham ordenados «obscenos» – palavras suas – o bispo Carlos Azevedo também disse que «a crise é tão grave que não poderemos superá-la uns contra os outros: empresários contra sindicatos, sindicatos contra patrões, Governo contra Oposição e Oposição contra Governo.» A solução? Um «pacto social sustentado e justo» entre cidadãos, partidos, sindicatos e empresários. Houve quem, como Mário Soares, se confessasse «impressionado» pela «lucidez e coragem» de D. Carlos Azevedo e, sem rebuços, «aplaudisse». Outros, menos exuberantes, foram dizendo «nim», que isso de fazer caridade pode ser muito católico mas 20 por cento sempre é 20 por cento, mas lá que um pacto dava jeito, isso dava…

Pois é, milênios de vida têm essa vantagem: num parágrafo alimenta-se a sede de justiça dos oprimidos, noutro cuida-se dos interesses dos opressores. Porque isto de pactos entre patrões e sindicatos, exploradores e explorados, direita e esquerda, algozes e vítimas não passa de poeira para os olhos destinada a prevenir o que de fato assusta a Igreja, ou seja o reconhecimento de que «situações extremas de pobreza e de fome podem conduzir à revolta e à violência, numa sociedade de desigualdades», como bem alertou o bispo.

Para a Igreja, o que está em causa não é acabar com a exploração, é torná-la suportável; não é acabar com a miséria, é mantê-la controlada; não é pugnar pela justiça social, é criar mecanismos de escape para aliviar a pressão. Daí a proposta dos 20 por cento, que afinal mais não é do que a reafirmação do princípio de que sempre haverá ricos e pobres ou, dito de outro modo, uma sociedade de classes em que uns vendem a força de trabalho ou estendem a mão à caridade, e outros se apropriam do lucro.

De fato, já basta! Mas esta realidade só a luta a pode alterar.

* Jornalista

Publicado em O Diário

sexta-feira, 19 de março de 2010

Honduras: A Igreja e os Lobos

Gustavo Zelaya

Parece que Bento XVI e seu irmão George estão com problemas, as acusações sobre abuso sexual e pedofilia vão e vem, desde os Estados Unidos até a Holanda, passando pela Alemanha e México e assim, até o infinito. É a cabeça visível da igreja de Roma e chefiada pelo cardeal Rodríguez. Tal quais os anteriores vigários de Cristo na terra seguem demonstrando os problemas que os envolvem para admitir que seu lugar na vida social não é mais que tentar conduzir espiritualmente aos que elegeram certo corpo de idéias religiosas. Antes se considerava que os hierarcas católicos também tutelavam moralmente os seus paroquianos e por aspirações universalistas entendiam esse papel ao resto da sociedade. Tal guia moral é mais duvidosa que nunca e aí estão os processos milionários por abuso sexual, a fila que arrasta o Papa, os casos de mulheres engravidadas por sacerdotes, a forma cínica com que a igreja que dirige o cardeal hondurenho corrige os erros dos padres mudando-os de paróquia, tirando-os do país até que os rumores diminuam e o garotão tenha refletido, mandando-os para estudar na Europa, promovendo-os a cargos de direção, aos que não aceitam os coloca nas paróquias menos expostas e agora, sobre tudo, participando ativamente no maior ato de corrupção realizado na historia nacional: o golpe de estado de 28 de junho contra o governo de Manuel Zelaya.

Em nosso caso (de Honduras - NT), essa hierarquia, devido ao oportunismo dos políticos que têm governado Honduras desde 1900 até hoje, tem assumido papéis pouco religiosos e se envolvem com os poderes econômicos e políticos pontificando sobre o bem e o mal , colocando-se como uma espécie de juízes que decidem, sugerem, condenam e absolvem sobre todas as coisas terrenas. Das do céu há tempo se esqueceram. É comum encontrar nas hierarquias católicas lúcidas e bem sustentadas reflexões sobre a conservação da vida e os perigos contra ela, a conseqüência dos avanços da ciência e os conflitos bélicos. O mais estranho ocorre quando essa firme defesa e essas obrigações com a vida que se amplia à condenação absoluta do aborto e à proteção das formas embrionárias, não condenem de maneira total a pena de morte já que a aceita para casos de “absoluta necessidade” e não tenham dito uma só palavra de desaprovação contra as mortes ocasionadas pelo golpe de estado. Nem um só documento saiu do palácio episcopal reprovando agressões, torturas, detenções, censuras e perseguições sofridas pela Resistência Popular. É como se estes eventos não estejam ocorrendo. Inclusive, um dos bispos auxiliares está à espera a que haja suficientes mortes para que o conflito desencadeado pelo golpe de estado possa ser classificado de importante. Parece que uma só morte não é suficiente para sacudir a consciência desses personagens.

Todo esse ativismo e compromissos proclamados pela conservação plena da vida caíram em descrédito ao aceitar o fato que alguns seres humanos podem ser privados de sua existência por razões de estado. Podem ser violentados e na prática assim segue ocorrendo para manter a “harmonia” social ao estilo dos católicos e evangelistas fundamentalistas agrupados na Opus Dei e grupos similares. Na boca desse radicalismo religioso a defensa da vida humana não é mais que uma linda expressão que é abandonada quando os interesses empresarial e político que eles representam são ameaçados pelas demandas populares em busca da justiça e da igualdade social.

Por exemplo, a forma obstinada de rechaçar métodos anticonceptivos em defesa da vida e em apego à suposta “lei natural” choca-se com a realidade. Provoca duvidas entre os fiéis que não podem deixar de utilizar esses métodos. Gera conflitos teóricos quando surgem perguntas sobre quê é isso de lei natural, si realmente há leis naturais, até porque o conceito de lei se opõe ao natural; todas as leis são produtos sociais, são históricas, em conseqüência, não são eternas e se modificam segundo transcorre a experiência social. Mas também há inquietudes acerca dessa defesa fundamentalista da vida que dá lugar a crescimentos estadísticos da morte. Isto é muito complexo quando alguém aceita como verdade absoluta que a relação sexual só te, como finalidade a procriação e em nenhuma circunstancia a obtenção de uma forma de prazer. Essas concepções presentes na doutrina da igreja só devem ter validade para os católicos mas a participação eclesiástica em assuntos próprios da atividade política, estatal, legislativa e que afetam à sociedade civil deve ser rechaçada ou, pelo menos, deve discutir-se publicamente e em condições de igualdade.

A história nacional depois de 28 de junho segue pondo em seu lugar pessoas, crenças, instituições e verdades que pareciam absolutas. E delas, princípios e sistemas de valores se quebraram até desmoronar, como se o “prestigio” que supostamente tinham os hierarcas religiosos, e não só católicos, aquela frase repetida de a “reserva moral” manifestada na pessoa do cardeal não era mais que uma flatus vocis, palavras, expressões cujo sentido a dávamos os humanos; um simples convencionalismo sem maior conteúdo e que agora pretende resgatar ao retirar-se desse inútil aparato do Conselho Nacional Anticorrupção. Mas como lavar-se essa face marcada pela mão do golpista cabeça de alho, alias Micheletty? Como desmentir essa cumplicidade com a corrupção desencadeada pelo golpe de estado? Como deixar de lado tantas mortes provocadas e a consolidação do golpe de estado a partir de 27 de janeiro respaldado pela hierarquia religiosa? Não se trata de ocultar-se atrás dos panos para não sair mais na foto. Bem sabemos que têm sido lobos pastoreando ovelhas. Já não lhes serve manter discretos perfis.

Original em Habla Honduras
Tradução Rosalvo Maciel
 
Topo

sábado, 18 de julho de 2009

Ateus, saiam do armário!

Idelber Avelar

Ateísmo e falsas simetrias

O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque ... afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos-- uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.

Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de ... estar querendo evangelizar os outros!

Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?

Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não se soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.

A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.

Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo -- desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.

Entendam o ponto de vista d' O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças , a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".

Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.

As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.

Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.
.
Original em NovaE

domingo, 29 de março de 2009

Como Bento XVI aprofunda a decadência da Igreja Católica

Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, visitou a África de 17 a 23 de março como quem faz questão de ressaltar sua indiferença para com a realidade social e seu descompasso com o mundo laico. Isso depois de forçado ao mea-culpa duas vezes, em rápida sucessão — uma ao admitir estar mal informado ao reabilitar bispos lefebvrianos afins ao negacionismo neonazista no próprio dia internacional em memória das vítimas do Holocausto, outra ao anular a nomeação de um bispo austríaco rejeitado por pares e vigários.

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, na CartaCapital
.
No único continente onde o catolicismo cresce de maneira significativa, Camarões e Angola são países com grande proporção de católicos. Perdido o contato com os costumes e relações sociais nas quais se baseavam seus cultos tradicionais, as populações que o êxodo rural arrancou de suas raízes tribais e jogou nas favelas procuram comunidades religiosas mais adaptadas a uma cultura urbana parcialmente ocidentalizada. A Igreja Católica continua a se beneficiar dessa desestruturação, embora seja crescente a concorrência do Islã, das igrejas evangélicas e de novos cultos sincréticos africanos.

O papa pareceu, porém, decidido a mostrar aos convertidos reais ou potenciais que o catolicismo não atenderá às necessidades sociais e espirituais da África moderna. Ainda no avião, condenou os preservativos em uma região que registra mais de 70% dos óbitos por aids no mundo, onde 20 milhões já morreram e outra vida é perdida para a doença a cada 15 segundos.

Caso se limitasse a objeções teológicas, pouco haveria a dizer. Mas Ratzinger contrariou a ciência e o bom senso, insistindo em que a distribuição de preservativos agrava a epidemia. Ministros europeus, inclusive de países católicos, tomaram a iniciativa incomum de censurar o papa. O chanceler francês o acusou de “pôr em perigo a política de saúde pública em relação à proteção da vida humana”. A ministra da Saúde belga chamou sua posição de “perigosamente doutrinária”. Os ministros do Desenvolvimento e da Saúde alemães condenaram a afirmação do compatriota como “irresponsável”.

Não foi a única mostra de insensibilidade, desinformação ou ambas as coisas por parte do papa. Enquanto ele se preparava para falar de solidariedade e condenar a ganância, a violência e a corrupção, a Igreja fechava os olhos aos preparativos do corrupto e violento governo camaronês para a visita. Incluíram demolir com escavadeiras todas as casas e lojinhas que prejudicassem esteticamente o caminho entre o aeroporto e o centro da capital, Yaundé, sem perguntar como seus donos iriam trabalhar, dormir e comer nos dias seguintes.

Ali, o papa proclamou que “a África está em perigo devido a imorais sem escrúpulos que tentam impor o reino do dinheiro desprezando os mais miseráveis”, antes de viajar para Angola. O governo desse país empobrecido e devastado por décadas de guerra civil também fez gastos milionários para receber o pontífice. Além disso, em Luanda, a Igreja organizou dois jantares de gala a US$ 500 por cabeça, arrecadando cerca de US$ 270 mil para receber “mais dignamente” a passagem do pontífice.

Os responsáveis pelos caros e cuidadosos preparativos, que incluíram a mobilização de 12 mil policiais para cuidar da segurança do papa e de sua comitiva, não deram igual peso à segurança dos humildes. Na confusa abertura dos portões do Estádio Municipal dos Coqueiros, em Luanda, onde o papa encontraria a juventude angolana, um tumulto matou duas moças por esmagamento e mandou 89 jovens a hospitais.

Alheio ao drama, o papa assistiu à coreografia dos jovens que conseguiram entrar e os convidou a não ter medo de ousar “decisões irreversíveis” do casamento da ordenação sacerdotal. Só no dia seguinte, quando o desastre — ignorado pela cobertura oficial — foi divulgado na imprensa internacional, a Igreja e o governo angolano enviaram representantes ao hospital para visitar os feridos e levar seus pêsames à família de uma das mortas, uma catequista de 22 anos. A outra, não identificada, foi levada ao necrotério como indigente.

Trata-se de um papa muito mal informado? Em 12 de março, o papa queixou-se por carta ao episcopado da “hostilidade” com que foi recebida sua anulação da excomunhão do bispo Richard Williamson, após este negar o Holocausto, mas admitiu a má condução do caso. “Foi-me dito que consultar a informação disponível na internet teria possibilitado perceber o problema no início. Aprendi que a Santa Sé terá de prestar mais atenção a essa fonte de notícias.”

Para um não-católico, acreditar que nenhum dos secretários e assessores de Ratzinger tinha acesso a essas informações ao preparar uma decisão tão importante em relação a quatro bispos bem conhecidos é quase tão difícil quanto crer na infalibilidade papal ou na Assunção da Virgem. Principalmente tratando-se de um pontífice que liderou a Congregação para a Doutrina da Fé (sucessora da Inquisição e do Santo Ofício) e perseguiu as mais obscuras manifestações de inconformismo teológico nos cinco continentes.

Leonardo Boff, por exemplo, foi castigado com o confinamento definitivo em um convento — ao qual não se submeteu, preferindo romper com o Vaticano —, após uma palestra na Eco 92 (anterior ao Google, vale lembrar), na qual responsabilizou a Igreja pela morte de milhares de índios na América Latina.
.

sexta-feira, 13 de março de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

CORDEL: EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA

Por: Miguezinho de Princesa

I

Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

II

Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

III

Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

IV

Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

V

O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

VI

Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

VII

É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

VIII

Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

IX

Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

X

E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

Colaboração: Paulo Timm
.
.(N.P.) - A Literatura de Cordel é talvez a mais autêntica manifestação cultural do povo brasileiro. Tanto isso é verdade, que não se tem notícia da existência de algum desses cantares que fale contra o Presidente Lula...
... Se estiver mentindo, quero que uma das pragas de "domjosé" me caia sobre a cabeça.
.
Topo

terça-feira, 10 de março de 2009

OBSCURANTISMO

O estuprador e o algoz

Mais assustador que o caso de abuso sexual de um padrasto a uma garota de 9 anos no nordeste brasileiro é a posição que toma a igreja católica ao transferir à vítima a culpa pelo “pecado” de cometer o crime de aborto
.
Sílvia Ferabolli, Cláudio César Dutra de Souza
.
Nesses últimos dias, a mídia tem registrado exaustivamente o caso da menina de nove anos que foi abusada sexualmente pelo padrasto e ficou grávida de gêmeos. Uma menina de 1,36m e parcos 33 kg não poderia resistir a um parto no qual haveria riscos até mesmo para uma mulher adulta, conforme afirmaram os médicos responsáveis.
.
De acordo com a lei brasileira, o aborto visava preservar a saúde física e psíquica dessa menina que mal sabia que os seus infortúnios haviam recém começado, graças à polêmica atitude do arcebispo de Olinda e Recife, D. José Cardoso Sobrinho, que excomungou do seio da igreja católica todos aqueles que haviam, de alguma forma, decidido pela interrupção dessa absurda gravidez. Ou seja, a mãe, a equipe médica e inclusive a própria vítima.
.
Nenhuma palavra foi proferida em relação ao homem que praticou tão torpe violência. Ele permanece acolhido como membro da igreja católica e, após uma breve confissão e algumas “Ave Marias”, ele estará com o coração novamente purificado e incluído no rebanho de Cristo, recebendo a comunhão que talvez lhe seja dada pelo próprio D. José Cardoso Sobrinho, o qual afirmou que o padastro “cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão (...) Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto!", completou o Arcebispo. Esse mesmo Arcebispo, que hoje ocupa o posto que já pertenceu ao progressista Dom Helder Câmara, afirma categoricamente que a menina proveniente de Alagoinha, no agreste de Pernambuco, abusada sexualmente pelo padrasto desde a idade de seis anos, essa menina miserável, sofrida e aviltada em sua infância deveria morrer, ou então tornar-se mãe de gêmeos que não desejou e que não teria condições de criar. Dom José condenou-a a morte física e igualmente a uma espécie de morte simbólica todos os que tentaram minimizar os danos sofridos pela menina através da interrupção de sua gravidez.
.
Para alguns, a excomunhão pode não ter grande significado, no entanto, ela pode vir a ser dolorosa em comunidades pequenas e carentes nas quais o pertencimento a um agrupamento religioso ocupa um importante papel agregador, consolador e muitas vezes pragmático. A igreja, não raro, provém ajuda material, na forma de caridade e de mutirões organizados em favor daqueles que se encontram em situação (ainda mais) precária e privados da mão do estado. Ser expulso de uma comunidade organizada pode ser uma forma dolorosa de exclusão social.
.
Coincidência ou não, observamos um curioso cruzamento de fatos relacionados ao tema da excomunhão no que se refere justamente à anulação desta, recentemente anunciada pelo papa Bento XVI, em relação aos quatro bispos ordenados pelo falecido ultraconservador Cardeal francês Marcel Lefebvre, os quais foram excomungados por João Paulo II, em 1988, de acordo com o mesmo código canônico de que se vale o Arcebispo de Recife e Olinda no caso presente. Um dos bispos excomungados, o britânico Richard Williamson, havia declarado a uma emissora de televisão sueca que as câmaras de gás dos campos de concentração nazista jamais teriam existido. Os seguidores de Levebvre se opõem às mudanças ocorridas no Concílio Vaticano II, principalmente no que se refere ao ecumenismo e a adaptação do rito religioso à língua e cultura de cada povo. É um sintoma assaz preocupante quando uma instituição como a igreja católica fecha os olhos para a barbárie da pedofilia e do estupro ao mesmo tempo em que perdoa negacionistas e mantém abusadores sexuais de toda a sorte junto a ela. Igualmente, vale recordar que nenhum clérigo católico acusado de pedofilia tenha sido excomungado até o presente momento, o que nos leva a pensar que a violência sexual contra crianças não é um pecado assim tão grave aos olhos divinos. É tranqüilizador saber que para a lei dos homens, esse não é o caso.
.
Esse debate nos faz pensar sobre a misoginia católica, que sempre optou pela vida do feto em detrimento da vida da mulher que o carrega - e não foram poucas vezes que a vida do filho se sobrepujou à vida da mãe. As mulheres poderiam morrer no parto, porém os seus filhos deveriam ser salvos. Essa lei imperou entre as parteiras e entre os homens quando eram postos frente a esse dilema. No estupro sistemático com fins de limpeza étnica perpetrados durante a guerra na Bósnia, as mulheres grávidas de seus algozes foram conclamadas pelo falecido papa João Paulo II a não fazerem aborto. Nenhuma palavra sobre o sofrimento das próprias, de seus companheiros, parentes e filhos que a tudo presenciaram. Essa é um triste e comum prática de guerra que visa o enfraquecimento da resistência do inimigo e que muitas vezes acarreta uma gravidez indesejada que as vítimas deverão manter até o fim – e depois deverão cuidar e amar os filhos gerados dessa forma abjeta, assim prega o pensamento medieval do Vaticano, cujo sentido e valor de uma vida feminina só se justifica no advento da maternidade, ou ainda, na clausura de um convento. O “Malleus Malleficarum”, manual de caça às bruxas dos inquisidores medievais, continua sendo um exemplo da apreciação do gênero feminino ainda nos dias de hoje por parte da Igreja Católica.
.
A longa discussão sobre o aborto, ou sobre quando começa a vida propriamente, é de difícil consenso. Cada um tem o seu livre arbítrio para fazer o que bem entender de sua vida e essa é, inclusive, a proposta de Deus. Se uma mulher adulta decide ter um filho de seu estuprador pelas suas convicções religiosas, ninguém pode lhe obrigar a fazer um aborto. Mas esse caso adquire proporções diferentes no momento em que lidamos com variáveis que colocam em risco a vida de uma criança, já suficientemente aviltada pela miséria e pela violência e que recebe, ao invés de um acolhimento carinhoso por parte dos homens de Deus, uma sentença de morte através de sofismas absolutamente desprovidos de sentido tais como “um erro não justifica o outro”. A realidade é que haverá necessariamente uma morte ou um risco real de que isso aconteça e, para o piedoso Arcebispo, os frutos do estupro são mais sagrados do que a vida de quem sofreu a brutalidade – de alguém que já existe, pensa, sofre e tem sentimentos, mas que no tribunal da consciência de D. Cardoso vale menos do que o vir-a-ser de um processo inicial de gravidez.
.
É lamentável que a igreja católica esteja se tornando uma paródia grotesca de si mesma e que ainda considere possuir o monopólio da fé, tanto quanto acredite ser legítima a sua intervenção em assuntos pertinentes ao estado. A atuação do Arcebispo deveria ser enquadrada na forma da lei e este deveria responder por desobediência civil e por ferir o Estatuto da Criança e do Adolescente – se ele se considera apto a interferir em questões de Estado, é justo que o inverso seja verdadeiro. Por sorte temos um governo que não se curva a esse tipo de chantagem. Na década de 1980, o então Presidente José Sarney, por pressões do clero proibiu o filme de Jean Luc Godard “Je Vous Salue Marie” no Brasil, em uma época em que a censura era ferida aberta na nossa história. Hoje, o Presidente Lula e o ministro José Gomes Temporão respondem à altura esse tipo de provocação obscurantista recordando que o estado laico está acima das querelas religiosas. É tão fácil se chocar com supostas teocracias do Oriente Médio que esquecemos que o irracionalismo religioso, como pensamento e prática, pode estar bem perto de nós, como exemplifica tão bem esse caso. Especificamente no que concerne à separação entre estado e igreja, o Brasil vive a plenitude das luzes renascentistas na América Latina. O estado mostra a sua autoridade através da exigência do respeito à constituição, o que certamente contraria a vontade de coronéis eclesiásticos e populistas de todos os matizes.
.
A descriminalização do aborto será uma realidade muito em breve, apesar dos lobbys contrários. Fazer um aborto não é uma decisão fácil para ninguém e seria de se espantar se assim o fosse. Porém, por vezes é necessário e o caso da menina pernambucana é o mais paradigmático dos últimos tempos nesse sentido. Descriminalizar o aborto não significa aplaudi-lo e muito menos considerá-lo benéfico em qualquer sentido. É uma agressão ao corpo da mulher e envolve uma série de questões inconscientes extremamente difíceis; só quem já passou pela experiência pode supor. Descriminalizar o aborto não significa torná-lo obrigatório, portanto isso não interferirá nas crenças e valores pessoais daqueles que não o admitem. Contudo, se torna necessária a compreensão de que existem outras formas de pensamentos, inclusive religiosos, e que em outras crenças tais como o judaísmo, o budismo, o hinduísmo, o protestantismo e o islamismo admitem formas de interrupção da gravidez mais ou menos flexíveis, em comum entendimento de que sempre que a vida da mãe corre perigo o aborto deve ser feito. Por que apenas a igreja católica trata as suas fiéis com tal desprezo a ponto de serem postas em um plano tão secundário que nem o estupro, o incesto, a barbárie de guerra, enfim, absolutamente nada pode lhes outorgar a piedade divina caso não possam ou não queiram levar adiante a sua gestação?
.
Nesse ano, comemoramos o centenário de D. Helder Câmara, antecessor de D. José Cardoso Sobrinho e que, ao contrário desse, foi um exemplo de humanidade e compreensão para com os miseráveis. Dom Helder, antigo Arcebispo de Olinda e Recife, teve um papel de destaque durante a Ditadura Militar e não raro correu perigo de vida na defesa dos perseguidos e injuriados do regime, colocando a sua autoridade eclesiástica a serviço, e não contra, os necessitados. Seria impossível imaginar D. Helder se prestando a um papel tão ridículo como o de seu sucessor. Ele certamente estaria refletindo e denunciando as condições desumanas que geraram o fato em si e que se tornam cada vez mais tristemente comuns em um Nordeste vendido aos estrangeiros como um paraíso do turismo sexual, onde pais prostituem suas filhas por poucas migalhas que garantam a sua sobrevivência e onde a impunidade é um fato, como foi brilhantemente mostrado por Cláudio Assis no filme “Baixio das Bestas”. O Nordeste que tanto preocupava D. Helder se mostra quase sempre mais vulnerável aos “Coronéis”, que se julgam sempre acima das leis e se acostumaram a fazer interpretações pessoais de justiça sem que uma instância superior lhes julgasse. Não afirmamos de modo algum que tais comportamentos sejam exclusivos da região. Eles se distribuem de forma equânime por todo o território nacional. Mas, pela particularidade do evento, torna-se impossível não recordar da luta e das palavras de D. Helder, quando interpelado maldosamente sobre a questão do “amor livre” em um programa de televisão na década de 1960, respondeu: “Para que falar em amor livre quando o Nordeste passa fome?”. No entanto, isso vem de um tempo em que lideranças religiosas na América Latina se preocupavam menos com a vida privada de seus fiéis e mais com a questão da justiça social e da justa distribuição das riquezas. Um tempo que já passou, infelizmente.
.
“Queira Deus” (!) que os nossos clérigos se ocupem igualmente de outras vidas que diariamente são perdidas mundo afora por arbitrariedades nas quais muitas vezes são coniventes. Excomungue-se àqueles que massacram civis em guerras absurdas, que mantém prisioneiros deprimidos e suicidas em Guantánamo, que abusam da confiança de crianças e adolescentes para destruir-lhes a vida, que recebem genocidas em audiência e que continuam queimando bruxas em pleno século 21. Se um erro não justifica o outro, cabe à igreja a humildade de reconhecer que o erro maior está em suas posições misóginas e desprovidas de compaixão pelo outro, fato que a afasta perigosamente tanto da mensagem de Cristo quanto de seus fiéis. Cabe lembrar que o mesmo Cristo recusou-se a aceitar o apedrejamento da mulher adúltera na famosa passagem do Evangelho, apelando à compaixão e ao bom senso daqueles que se guiavam tão somente pelo irracionalismo religioso daqueles tempos. O incitar à omissão de medidas de saúde necessárias à proteção de mulheres e meninas, sob a bandeira da vontade divina, encontra resposta à altura no brado feminista: “tirem seus rosários de nossos ovários!!!”
.

sábado, 7 de março de 2009

Excomunguem-se!

Cristina Moreno de Castro
.

Uma menina de nove anos, baixinha, magrinha, abusada sexualmente pelo padrasto durante três anos.
.
Engravida. Pior: de gêmeos.
.
Os médicos atestam que, se ela não abortar, correrá sérios riscos de morte, inclusive porque seu útero, muito menor que de uma mulher adulta, provavelmente estouraria com o peso dos gêmeos.
.
Ou ela aborta da gravidez criminosamente provocada, ou muito provavelmente morre.
.
A legislação brasileira, ainda atrasada, já prevê abordo em duas circunstâncias:
- se a mãe estiver correndo risco de morte
- se a gravidez for decorrente de estupro.
.
[Estupro, pra quem não se toca, é uma das piores e maiores agressões, físicas e psicológicas, a que uma mulher pode ser submetida. Piora em grau de perversidade se for feito contra uma criança de nove anos, evidentemente sem condições de se defender de seu agressor.]
.
Ou seja, o aborto da menina de nove anos era garantido pelas duas condições legais.
.
Era, antes de tudo, garantido pelo bom senso de se preservar uma vida, já por demais fragilizada.
.
Por isso, autorizados pela mãe da criança, médicos de Pernambuco procederam com a cirurgia e hoje a menina passa bem (fisicamente, é claro. Para curar as feridas psicológicas, ainda é preciso um bom acompanhamento e carinho familiar).
.
Tudo ia bem no desfecho desse conto de fadas cruel da vida real.
.
Até que um arcebispo, saído diretamente da Idade Média, decidiu excomungar médicos e mãe por terem salvado a vida da criança estuprada.
.
Ameaçou até entrar na justiça contra o "crime" cometido por eles.
.
Esqueceu-se que vive num Estado laico, protegido por leis que respeitam a garantia à vida de quem já está vivo.
.
Por outro lado, embora o padrasto estrupador e pedófilo tenha cometido um crime gravíssimo, não pode ser excomungado, pelas regras da Igreja Católica, segundo o mesmo arcebispo.
.
Guardemos o nome do arcebispo: José Cardoso Sobrinho.
.
Ele não fala por todos os católicos. Mas ganha o apoio em sua posição da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (que realiza a elogiável campanha da fraternidade) e de um chefe do Vaticano (Estado hoje regido por um papa conservador, retrógrado e que discorda diametralmente de posições históricas como a do papa João XXIII e do São Tomás de Aquino, que contribuíram para o avanço da humanidade).
.
Minha pergunta é: que igreja é esta e pelas regras de qual deus ela é regida?
.
Ou, muito melhor: quem são os homens da Terra, muito pouco humanos, que decidiram essas regras e esses critérios, os transformaram em política de um Estado chamado Vaticano, e alardearam estarem representando uma entidade divina e benevolente?
.
Encontremos esses homens, mesmo os já defuntos, e julguemo-los por crime contra a vida humana. E que aqueles que, como o médico (católico) que salvou a vida da criança, acreditam em princípios de fé cristã muito diferentes dos dogmas normatizados pelos homens da Igreja, desvencilhem-se da instituição que fala por eles como inquisitores – os mesmos que, lixando-se para a vida das mulheres, queimavam-nas nas fogueiras por crimes sem provas.
.
Excomunguem-se!
.
---------------------------------------------------------
P.S. Corre uma campanha na internet chamada "Eu também quero ser excomungado". Para aderir a ela, basta mandar um e-mail para arcebispo@arquidioceseolindarecife.org.br. E quem não for irônico que me perdoe.
.
Postado em roxo por ser a cor que mais lembra a Idade Média (N.P)
.
Original em NovaE

sábado, 24 de janeiro de 2009

A reconstrução do Reino

“…Ocultando a sua presença poderosa, a igreja desenvolve e gere capitais astronômicos, nas bolsas, nos grupos financeiros e confessionais que lhe pertencem ou nas «holdings» em que ela possui posições acionistas majoritárias. Ainda recentemente, como se sabe, quando já não era possível ocultar a recessão generalizada, vieram à superfície caudais de escândalos financeiros. Pois em quase todos eles foram citados grupos bancários e grandes investidores ligados aos capitais da igreja.”
Jorge Messias
.
Olhando a ruína dos seus sonhos maus temos ouvido alguns homens da globalização dos mercados dizer acerca da atual crise: «As crises têm aspectos positivos. São terapêuticas. Permitem localizar os focos da infecção e desenhar uma nova economia e um novo mundo». É uma reflexão fria e brutal que despreza cinicamente os infernos do sofrimento causado pelo desemprego e pelo empobrecimento dos trabalhadores e das famílias. Mas compreende-se a lógica do raciocínio. A situação é dramática. E entre os ricos, tal como entre os pobres, a esperança é a última a morrer. Depois renasce. E mesmo quando a esperança se opõe à razão, basta muitas vezes reinventá-la para se criar uma nova realidade virtual.
.
Assim o entendem Blair, Gordon Brwon e um punhado de altas patentes do grande capital. Reuniram-se, meditaram no assunto e concluíram, finalmente, que o capitalismo clássico estava esgotado, sem pernas para andar. Mas que não se entendesse, no entanto, que o quadro assim criado assinalava a sua morte. A presente crise apenas vinha revelar que o modelo de capitalismo até aqui proposto se esgotara. É preciso portanto reinventar o sistema dando-lhe uma face humanizada que atraia a confiança dos povos. Um capitalismo novo que ocupe um espaço social vazio, abandonado pelos poderes do Estado. Enfim, uma nova face do dinheiro a que se poderia chamar, por absurdo, Capitalismo Social. Os capitalistas reivindicariam a defesa dos interesses dos trabalhadores que o capital explora, nos mais diferentes planos: segurança social, saúde, educação, proteção da família, tempos livres, emprego, etc., etc. Seriam eles, os grandes empresários, a dirigir essas lutas. Os custos dessa mudança estratégica seriam, naturalmente, em grande parte subsidiados pelo orçamento do Estado, embora o novo mercado ficasse também aberto aos capitais privados das ONG, IPSS, Misericórdias, Sociedades Civis, Fundações Filantrópicas e outras formações que mantivessem as aparências dos fins não lucrativos. À margem dos aspectos de solidariedade social postos em evidência, o processo de acumulação de capitais e de valorização dos lucros continuaria a ser praticado pelos grupos econômicos, tal como até aqui. O Estado seria o banqueiro desta gigantesca operação e cederia ao mundo empresarial e à igreja os poderes de decisão nas áreas político-sociais.
.
O novo capitalismo em construção caracterizar-se-ia pois pelas dimensões gigantescas dos capitais investidos nas suas empresas «holding», pelo esmagamento da classe média baixa e pela entrega de toda a área da acção social do Estado a parcerias público/privadas. Em traços gerais, é este o plano que o grande capital defende para inverter, com lucro, o perigoso sentido tomado pela crise econômica e financeira do sistema. Por isso dizem haver potenciais «virtudes terapêuticas» nesta convulsão mundial.
.
“Revolução“ ou nem tanto?
.
Os comentadores afetos ao capitalismo consideram a proposta salutar e verdadeiramente «revolucionária», visto ser reação pronta e original aos riscos evidentes desta crise imprevista. No entanto, o seu otimismo aparente mal pode disfarçar o pânico e a estupefação que reinam nas fileiras dos mais ricos. Os banqueiros bem sabem que a crise profunda – que tão grandes estragos já causou – ainda mal começou a fazer-se sentir. E também estão conscientes da sua incapacidade para conceber do pé para a mão uma fórmula mágica que lhes permita travar a implosão do seu mundo doirado. Por isso, são obrigados a recorrer a receitas já conhecidas e de há muito praticadas que recortam dos compêndios e colam umas às outras. A fórmula proposta não é nova e na realidade as operações agora anunciadas há muito que se preparam. Nada têm a ver com a crise econômica e representam, na realidade, um projeto de subversão do Estado social e constitucional. Envolvem forças poderosas e poderes ocultos. A Igreja Católica é sua parceira insubstituível. Não é por acaso que as constituições da igreja atribuem à instituição três missões centrais: a de ensinar, a de governar e a de santificar. E são exatamente estas linhas de força que estão patentes no projeto apadrinhado por Tony Blair. Poder capitalista e poder religioso encaixam-se perfeitamente um no outro.
.
A rede católica é vastíssima. Em todo o mundo há perto de 220.000 paróquias, 2.300 centros pastorais, 4.100 bispos, cerca de 400.000 sacerdotes, perto de 1 milhão de professores e professoras, 365.000 catequistas e aproximadamente 4.300 padres diocesanos. A chamada sociedade civil é formada por uma panóplia de milhares e milhares de ONGs, IPSS, Fundações filantrópicas e de desenvolvimento local, ordens religiosas ou laicais, hospitais ou centros assistenciais, missões, movimentos juvenis e de mulheres, catequeses, creches, assistência aos emigrantes, colégios, universidades, etc. São pontas de lança da igreja católica servidas por milhares de voluntários.
.
Também o poder financeiro do Vaticano não deve ser esquecido. Anonimamente, ocultando a sua presença poderosa, a igreja desenvolve e gere capitais astronômicos, nas bolsas, nos grupos financeiros e confessionais que lhe pertencem ou nas «holdings» em que ela possui posições de acionista majoritárias. Ainda recentemente, como se sabe, quando já não era possível ocultar a recessão generalizada, vieram à superfície caudais de escândalos financeiros. Pois em quase todos eles foram citados grupos bancários e grandes investidores ligados aos capitais da igreja. Recordem-se, ao acaso, os exemplos muito referidos dos grupos Bilbao e Viscaya, do Popular, do Hispano-Americano, do Benedetti, do Santander, do Deutsch Bank, do J.P. Morgan, do Chase Manhattan Bank, além de uma interminável lista de outras potências financeiras. Todas elas têm firmes ligações ao Vaticano, como em escândalos anteriores ficou provado, nomeadamente no rescaldo do «Caso Marcinkus», nas revelações da Loja Maçônica P2 ou nas fraudes de Ruiz Mateos. Bom será notar-se que o «milagre» da multiplicação dos capitais da igreja se verificou entre as duas grandes guerras mundiais, em época de recessão, quando uma operação financeira gigantesca do Vaticano, com a assistência da banca transnacional, fez converter em dinheiro e investimentos os verdadeiros impérios fundiários detidos pelas grandes ordens religiosas, como a Dominicana, a Salesiana ou a Companhia de Jesus. Numa grande operação de características muito semelhantes àquela que agora se prepara, a igreja soube adaptar-se à evolução dos mercados e afirmar-se como grande força financeira.
.
Em conclusão, não pode deixar de citar-se o testemunho recente de dois destacados universitários católicos, os professores Joaquim Azevedo e o investigador Luís Imaginário. Disseram eles, a propósito do ensino profissional em Portugal: «O Ministério da Educação devia estar a formar profissionais para os novos territórios em termos de oportunidade de trabalho. Em vez de continuar a formar serralheiros devia estar a abrir cursos profissionais no terceiro sector, onde atuam as organizações não governamentais e as instituições particulares de solidariedade social... Não se trata de produzir assistentes sociais de segunda classe, mas de procurar responder às necessidades evidenciadas por uma população envelhecida e, ao mesmo tempo, garantir um horizonte de esperança aos jovens que ingressam nos cursos profissionais... a lógica das organizações já não é o emprego tradicional mas formas alternativas de trabalho. Hoje, a economia não precisa que todos trabalhem, precisa é que todos consumam... ».
.
Os mestres da «Católica» acrescentaram depois o que entendem por objetivos da educação: «A formação profissional devia se apresentada como um valor em si e não como uma via para a obtenção de um emprego a curto prazo... estão-se a criar as condições para que, daqui a poucos anos, haja tensões sociais muito fortes !».
.
Somadas estas abalizadas perspectivas do presente e do próximo futuro, ficamos informados acerca dos valores da sociedade que a banca e a igreja propõem e pretendem construir: lateralização do papel do Estado, insegurança no emprego, privatização da segurança social, reforço da divisão em classes, promoção do recurso ao crédito e apoio ao consumismo, crise econômica permanente, como motor de formação da riqueza privada, aprofundamento do fosso entre ricos e pobres.
.
Todas estas ostentações dos mais ricos assentam, no entanto em pilares intensamente minados. Eles sabem que todo o sistema em que gravitam pode ruir, de um momento para o outro, como um «castelo de cartas». E temem as «tensões sociais muito fortes». Também estão conscientes das fraudes em que colaboram e da crescente dificuldade em continuar a fazer passar para a opinião pública a imagem favorável de um capitalismo utópico - convertido, solidário, filantrópico e generoso.
.
Os tempos são outros. No quadro das realidades, a luta, a afirmação dos ideais, a mudança efetiva do país e do mundo.
.
Original em O Diario.info
.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Fúria do Opus Dei na América Latina

Altamiro Borges

O jurista Ives Gandra da Silva Martins, principal expoente da seita fascista Opus Dei no Brasil, está preocupado com o avanço das esquerdas na América Latina. Num artigo raivoso na coluna Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, ele destilou ódio e preconceito contra Hugo Chávez, Evo Morales, Fidel Castro e Lula. Ele aproveitou também para criticar a “falta de preparo” de governantes pelo mundo a fora e para oferecer seus cursinhos às novas gerações de dirigentes políticos. “Neste mundo atormentado por falsas lideranças e fantástica mediocridade, creio que valeria a pena a idéia, que propus em meu livro, de uma ‘escola de governo’... financiada pelos governos”. No meio do arrazoado direitista, um merchandising para os seus lucrativos negócios! Na sua ótica elitista, “colhe o mundo, atualmente, uma notável safra de pseudolíderes, populistas e despreparados, que conduzem nações mais ou menos desenvolvidas exclusivamente baseados no poder de comunicação com o povo, principalmente com a parcela menos favorecida”. Nesta safra, segundo o líder da seita, estariam incluídos “o histriônico presidente venezuelano – capaz de criar desnecessárias resistências por ser incapaz de controlar seus repentes e ofensas –, que transforma o narcotráfico colombiano e sua indústria de seqüestros em ‘idealística’ guerrilha... O mesmo se pode dizer de Morales, que também pretende se perpetuar no poder e que começa, com sua enciclopédica e truculenta ignorância, a dividir a nação”. Leia mais...

topo

Copyleft - Nenhum Direito Reservado - O conhecimento humano pertence à Humanidade.