Além do Cidadão Kane

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sábado, 18 de agosto de 2012

Novo recurso legal quer revogar a condenação dos 5 Heróis Cubanos

A defesa de Gerardo Hernández, um dos cinco antiterroristas cubanos sentenciados a longas penas nos Estados Unidos, apresentará na próxima segunda-feira (20) um novo recurso legal para revogar a injusta condenação, informaram nesta sexta (17) ativistas.

O advogado estadunidense Martin Garbus dará entrada na Corte Federal de Distrito em Miami a um affidávit (declaração) que apoia o habeas corpus de Gerardo e a revogação da condenação, esgrimindo a má conduta do governo dos Estados Unidos durante o processo, assinala o Comitê Nacional pela Liberdade dos Cinco, como são conhecidos internacionalmente.

Gerardo (sentenciado a mais duas prisões perpétuas mais 15 anos) foi detido em 1998 junto a René González, Ramón Labañino, Antonio Guerrero e Fernando González por vigiar grupos violentos que a partir de Miami organizavam e executavam ações contra Cuba.

Através do affidávit, texto de 82 páginas, a defesa solicitará à Corte, em nome do antiterrorista, a ordem para a desclassificação por Washington de elementos que demonstram os pagamentos com dinheiro público a jornalistas com o propósito de gerar um ambiente hostil e propiciar o encarceramento dos cinco Heróis Cubanos.

O recurso objetiva também conseguir uma audiência oral a favor de Gerardo, que junto a seus colegas, tentava impedir atos terroristas como os que nos últimos 53 anos deixaram mais de três mil vítimas em Cuba.

A declaração que Garbus, reconhecido jurista, apresentará oferece detalhes da operação secreta montada pelo governo estadunidense com jornalistas, sobretudo em Miami, para gerar um cenário favorável à condenação dos Cinco.

A respeito, adverte sobre o caráter ilegal da conduta de Washington, a qual impediu um julgamento justo e cria um perigoso precedente para a Justiça nos Estados Unidos.

No dia 6 de junho, Garbus e seu colega Tom Goldstein levaram à Corte do Distrito Sul da Flórida um procedimento conhecido como Discovery, destinado a solicitar ao governo a entrega de documentos não divulgados que provam o pagamento a jornalistas.

Um mês depois, a Promotoria da Flórida opôs-se a esse recurso, postura qualificada como manobra evasiva por ativistas e grupos de solidariedade aos cinco.

Gerardo, Ramón, Fernando e Antonio continuam presos, enquanto René cumpre três anos de liberdade supervisionada, o que é considerado um castigo adicional.

Milhares de pessoas no mundo - muitas delas agrupadas em comitês de solidariedade aos antiterroristas -, parlamentares, intelectuais e mais de uma dezena de personalidades com o Prêmio Nobel exigem de Washington o regresso a Cuba dos Cinco.

Fonte: Prensa Latina

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As sanções econômicas a Cuba sob o governo Obama


Salim Lamrani

A chegada ao poder do presidente Obama nos Estados Unidos, em 2008, marcou uma ruptura de estilo frente à administração de Bush em relação a Cuba. No entanto, exceto pela retirada de algumas restrições a viagens, as sanções econômicas ainda são aplicadas, até mesmo fora do território nacional. Eis aqui alguns exemplos recentes.

Durante sua campanha eleitoral em 2007, o então candidato Barack Obama fez uma lúcida observação sobre a ultrapassada política dos EUA em relação a Cuba. Uma vez eleito, declarou sua intenção de buscar “um novo começo com Cuba”. “Acredito que podemos conduzir a relação entre EUA e Cuba por uma nova direção e iniciar um novo capítulo de aproximação que continuará durante o meu mandato”, afirmou. [1].

Obama havia denunciado a política de seu antecessor em relação a Cuba, que havia restringido drasticamente as viagens da comunidade cubana dos EUA. “Trata-se tanto de uma questão estratégica quanto humanitária. Esta decisão (...) teve um impacto profundamente negativo sobre o bem-estar da população cubana. Vou conceder aos cubano-americanos direitos ilimitados de visitar seus familiares e enviar dinheiro para a ilha”, assegurou. [2].

Obama manteve sua palavra. Em abril de 2009, anunciou a retirada de algumas restrições que afetam os cubanos residentes nos EUA e que têm familiares na ilha, que entrou em vigor em 3 de setembro de 2009. Desde então, podem viajar ao seu país natal sem nenhum obstáculo (em vez de catorze dias a cada três anos) e enviar remessas ilimitadas para suas famílias (em vez de cem dólares por mês). [3].

Aplicação extraterritorial das sanções econômicas contra Cuba

Néanmoins, Washington n’a pas hésité à appliquer les sanctions économiques, y compris de manière extraterritoriale, contrevenant ainsi gravement au droit international. En effet, celui-ci stipule que les législations nationales ne peuvent pas être extraterritoriales, c’est-à-dire s’appliquer au-delà du territoire national. Ainsi, la loi brésilienne ne peut pas s’appliquer en Argentine. De la même manière, la législation vénézuélienne ne peut pas s’appliquer en Colombie. Or, la loi étasunienne sur les sanctions économiques contre Cuba s’applique à tous les pays du monde.

No entanto, Washington não tem hesitado ao aplicar as sanções econômicas, até mesmo fora do território nacional, violando gravemente o direito internacional. Na verdade, este estipula que as leis nacionais não podem ser extraterritoriais, ou seja, ser aplicadas fora do território nacional. Dessa forma, a lei brasileira não pode ser aplicada na Argentina, assim como a legislação venezuelana não pode ser aplicada na Colômbia. E, no entanto, a lei norte-americana de sanções econômicas contra Cuba é aplicada em todos os países.

Em junho de 2012, o banco holandês ING recebeu a maior punição já proferida desde o início do cerco econômico contra Cuba em 1960. O Escritório para o Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, na sigla em inglês) do Departamento do Tesouro multou a instituição financeira em 619 milhões de dólares por efetuar transações em dólares com Cuba, através do sistema financeiro americano, entre 2002 e 2007. [4].

O Departamento do Tesouro também obrigou o banco holandês a cortar relações comerciais com Cuba e anunciou que o “ING garantiu ao Escritório para o Controle de Ativos Estrangeiros que havia posto fim às práticas que levaram ao acordo atual”. Assim, Washington proibiu um banco europeu de realizar qualquer transação comercial com Cuba. [5].

O governo cubano denunciou esta nova aplicação extraterritorial das sanções econômicas, que, além de impedir qualquer tipo de comércio com EUA (exceto as matérias primas alimentícias), são o principal obstáculo ao desenvolvimento das relações comerciais de Cuba com o resto do mundo. “O governo dos EUA penalizou unilateralmente o banco ING por tramitar, junto com subsidiárias na França, Bélgica, Holanda e Curaçao, transações financeiras e comerciais de entidades cubanas, proibidas pela política de bloqueio contra Cuba”, destacou a nota oficial. [6].

Adam Szunin, diretor da OFAC, aproveitou a ocasião para advertir as empresas estrangeiras que têm relações comerciais com Cuba. Esta penalidade “deveria servir como um aviso claro a qualquer um que considere tirar proveito das sanções dos EUA”, declarou, reafirmando que Washington continuaria aplicando suas medidas extraterritoriais. [7].

Outras empresas estrangeiras também foram penalizadas por suas relações comerciais com Cuba. A multinacional sueca Ericsson, por exemplo, teve de pagar uma multa de 1,75 milhões de dólares por consertar nos EUA, através de sua filial situada no Panamá, equipamentos cubanos por um valor de 320 mil dólares. Três funcionários, envolvidos no caso, foram demitidos. [8].

Em 10 de julho de 2012, o Departamento do Tesouro impôs uma multa de 1,35 milhões de dólares à empresa norte-americana Great Western Malting Co. por vender cevada a Cuba, através de uma de suas filiais estrangeiras, entre agosto de 2006 e março de 2009. No entanto, o direito internacional humanitário proíbe qualquer tipo de embargo sobre as matérias-primas alimentícias e medicamentos, mesmo em tempos de guerra. Isso porque, oficialmente, Cuba e EUA nunca estiveram em conflito. [9].

Na França, Mano Giardini e Valérie Adilly, diretores da agência de viagens norte-americana Carlson Wagonlit Travel (CWT), foram demitidos por vender pacotes turísticos com destino a Cuba. A empresa corre o risco de receber uma multa de 38 mil dólares por pacote vendido, o que suscitou a ira de alguns funcionários que mal compreendem a situação. “Por que a empresa não tirou do sistema de reservas os produtos Cuba que não podíamos vender?”, perguntou um funcionário. [10].

Da mesma forma, é possível que a CWT não tenha permissão para participar das concorrências de viagens do governo norte-americano, que representam uma parcela substancial de seu faturamento. A administração da CWR manifestou-se a respeito: “Nestas condições, devemos aplicar a regra norte-americana que proíbe o envio de passageiros para Cuba, mesmo as filiais”. Assim, uma filial instalada na França é obrigada a aplicar a lei norte-americana de sanções econômicas a Cuba, ridicularizando a legislação interna vigente. [11].

Censura ao Google e um orçamento de 20 milhões de dólares para a “democracia digital” »

Mais raramente, as sanções econômicas proíbem os cubanos de utilizar alguns recursos da ferramenta de buscas Google, como o Google Analytics (que permite calcular o número de visitas a um site, assim como sua origem), Google Earth, Google Destktop Search, Google Toolbar, Google Code Search, Google AdSense e Google AdWords, privando Cuba do acesso a essas novas tecnologias e a vários programas de download. A empresa norte-americana ofereceu uma explicação por meio de sua representante Christine Chen: “Nós tínhamos escrito em nossos termos e condições. Não é possível usar Google Analytics nos países sob embargo”. [12].

Ao mesmo tempo, enquanto Washington exige que a Google limite o uso de seus serviços em Cuba e proíbe que Havana se conecte ao seu cabo de fibra ótica para Internet, o Departamento de Estado anunciou que iria gastar, através da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), a quantia de 20 milhões de dólares a “ativistas de direitos humanos, jornalistas independentes e bibliotecas independentes na ilha”, com o objetivo de difundir a chamada “democracia digital”. [13].

Longe de adotar “um novo começo com Cuba”, a administração Obama continua impondo sanções econômicas que afetam a todas as camadas da população cubana, a começar pelas mais vulneráveis, ou seja, as mulheres, as crianças e os idosos. Não hesita em penalizar empresas estrangeiras, violando o direito internacional ao aplicar medidas extraterritoriais. Também se recusa a ouvir o apelo unânime da comunidade internacional, que condenou, em 2011, pelo vigésimo ano consecutivo, a imposição de um estado de sítio anacrônico, cruel e ineficaz, que consiste no principal obstáculo ao desenvolvimento da nação.

 
[1] The Associated Press, « Obama Seeks ‘New Beginning’ With Cuba », 17 avril 2009.

[2] Barack Obama, « Our Main Goal : Freedom in Cuba », The Miami Herald, 21 août 2007.

[3] Office of Foreign Assets Control, « Hoja informativa : Tesoro modifica reglamento para el control de bienes cubanos a fin de implementar el programa del Presidente sobre visitas familiares, remesas y telecomunicaciones », Treasury Department, 3 septembre 2009.

[4] Office of Foreign Assets Control, « Settlement Agreement ING », Department of the Treasury, juin 2012. http://www.treasury.gov/resource-ce... (site consulté le 10 juillet 2012).

[5] Ibid.

[6] Ministry of Foreign Affairs of Cuba, « Statement by the Ministry of foreign Affairs », 20 juin 2012. http://www.cubaminrex.cu/english/St... (site consulté le 10 juillet 2012).

[7] Ibid.

[8] Steve Stecklow & Bail Katz, « U.S. to Fine Ericsson in Panama $1,75 Million Over Cuba Shipments », Reuters, 24 mai 2012.

[9] Office of Foreign Assets Control, « Enforcement Information for July 10, 2012 », Department of the Treasury, 10 juillet 2012. http://www.treasury.gov/resource-ce... (site consulté le 12 juillet 2012)

[10] Jean da Luz, « Carlson Wagonlit Travel : l’embargo cubain fait tomber des têtes en France », Tourmag, 2 juillet 2012 ; Geneviève Bieganowsky. « Licienciements, Carlson redoute la perte des budgets voyages de l’administration US », Tourmag, 3 juillet 2012.

[11] Ibid.

[12] Michael McGuire, « Google responde a denuncias de Cuba », The Miami Herald, 20 juin 2012.

[13] Juan O. Tamayo, « Estados Unidos busca romper censura tecnológica en Cuba », El Nuevo Herald, 23 juin 2012.

Fonte:Voltaire.org Topo

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A SÍRIA NA MIRA DO IMPERIALISMO



Após a conquista da Líbia, e antevendo uma guerra de rapina contra o Irã, o imperialismo mira a Síria



A “primavera árabe” foi um levante popular que questionou profundamente as ditaduras títeres da região num momento de crise econômica, mas, devido aos conflitos religiosos internos e à forte repressão, sem uma organização política forte nestes locais que levasse o movimento às suas últimas conseqüências. Por esta razão, não pode ser confundida com as ações armadas e/ou “manifestações” organizadas por uma oposição diretamente ligada ao capital internacional em países que ainda mantêm uma postura mais independente, como Líbia, Síria ou Irã. Esta oposição apropriou-se de uma conjuntura de levantes autênticos no mundo árabe, que enfraqueceram politicamente o Estado de Israel e fragilizaram seu discurso racista. As recentes “manifestações pró-democracia” na Síria não podem, portanto, ser compreendidas como parte do mesmo fenômeno que estremeceu Tunísia, Egito, Bahrein e Iêmen.

Salim Kheirbek, ativista sírio dos direitos humanos, disse: “com o governo de Gaddafi a ponto de terminar, a OTAN vai provavelmente lançar suas forças contra a Síria. Nosso presidente acredita que eles estão se preparando para um ataque contra nós, o que dificilmente facilitará mudanças democráticas. Eu não faço a mínima idéia do que poderá acontecer com a Síria neste caso”. Com efeito, a retórica contra Assad se assemelha muito à usada contra Gaddafi: o ditador anti-ocidental que tem reprimido protestos pacíficos em seu país e, pela “responsabilidade de proteger”, as potências imperialistas têm o dever humanitário de impor sanções e, caso necessário, preparar uma guerra para a proteção da população. O problema é que o cenário sírio apresenta algumas especificidades que tornam sua abordagem mais complexa do que a da Líbia.

Na Síria, a grande imprensa tem defendido os assim chamados “manifestantes pacíficos” contra o “regime opressor de Assad”. No entanto, há registros de que, ao lado das movimentações pacíficas, há uma insurgência armada no país sobre a qual não se comenta.

O professor Michel Chossudovsky do site canadense GlobalResearch denuncia que “o governo turco do primeiro-ministro Recep Tayyib Erdogan está apoiando grupos de oposição sírios no exílio e ao mesmo tempo também os rebeldes armados da Irmandade Muçulmana no Norte da Síria.”. O governo de Assad também tem acusado a Turquia de apoiar diretamente a incursão de forças rebeldes ao norte e oficiais sírios que conduzem investigações nas áreas de conflito têm constatado que os combatentes estão usando armas e munições turcas. Estes insurgentes são, na verdade, terroristas islâmicos organizados e treinados pela OTAN e pela Turquia, que têm dividido a sociedade síria. Os esquadrões da morte, sob a orientação do general David Petraeus, apontado por Obama como novo chefe da CIA, formaram o chamado Conselho de Salvação Nacional, uma espécie de governo sírio no exílio.

Uma invasão à Síria integraria os separados palcos de guerra dos países árabes, a saber, AfPaq, Iraque, Palestina e Líbia, abarcando toda uma região que se estende do norte da África à Ásia Central. A Síria constitui o único estado independente e secular do mundo árabe, dispondo de uma forte base anti-imperialista, e o objetivo da OTAN é desestruturá-lo para estabelecer um regime títere pró-ocidental.

No caso sírio, porém, a Rússia expressa uma oposição mais contundente a uma eventual saída militar e insiste numa solução negociada de reformas políticas internas. Por isso mesmo, o país euro-asiático e a China vetaram as “medidas dirigidas” contra Damasco do Conselho de Segurança da ONU. O Irã também tem defendido uma retórica considerada mais moderada, referindo-se a “demandas legítimas” dos opositores e advogando também uma reforma política no país.

Deve-se levar em consideração que, diferentemente da Líbia, a existência de um inimigo externo tão agressivo e intransigente como Israel permite uma coesão interna bem mais significativa entre o povo sírio, fator fundamental durante uma guerra. Assad está disposto a realizar as reformas internas indicadas por Rússia e Irã, já tendo se comprometido com uma considerável mudança constitucional, eleições diretas e até um sistema multipartidário. Isso, de fato, não alterará a disposição da OTAN em invadir o país, mas é um elemento retórico a mais ao qual Rússia e China poderão recorrer para a manutenção de seu apoio na ONU. Como a invasão ao Iraque já demonstrou, este veto só será efetivamente respeitado se estes países dispuserem de real capacidade de contenção militar. E, além do mais, a guerra contra a Líbia e a manutenção do conflito em países como Iraque e Afeganistão-Paquistão têm exaurido muito os recursos das grandes potências que compõem a OTAN, as quais estão enfrentando uma crise econômica interna sem precedentes.

Por fim, deve-se atentar que o representante estadunidense na Síria, Robert S. Ford, já tinha trabalhado na embaixada de Bagdá com John D. Negroponte. Este último adquiriu vasta experiência na formação de esquadrões da morte e forças paramilitares para a desestabilização de países. Embaixador em Honduras entre 1981 e 1985, infiltrou e apoiou os “contras” na Nicarágua sandinista e, depois, no Iraque, organizou esquadrões curdos e xiitas para combaterem a resistência. Ford, “discípulo” de Negroponte, mantém seus contatos com grupos opositores na Síria. Neste caso, os EUA podem vislumbrar a lenta desestabilização do governo de Assad por paramilitares até que a potência e seus aliados da OTAN estejam em melhores condições para se lançarem numa ofensiva definitiva.

Pode-se perceber então que, por um lado, a guerra contra pequenos e médios países do mundo árabe apresenta-se como uma forma de movimentar economicamente o poderoso complexo industrial-militar e saquear as reservas de petróleo para solucionar a crise energética. Por outro, os gastos nela implicados aumentam o déficit do governo dos EUA, evidenciam a hipocrisia dos argumentos imperialistas da OTAN para suas agressões e precipitam o sistema capitalista a sua crise inevitável.

Vinicius Cione

Publicado em Inverta

sábado, 5 de novembro de 2011

Represália dos EUA pelo ingresso da Palestina na Unesco: corte de US$ 70 milhões

Ao aceitar a Palestina como membro pleno, a Unesco aceitou o desafio de funcionar com quase um quarto a menos de seu orçamento. Não é a primeira vez que os Estados Unidos chantageiam a Unesco com a retirada de sua contribuição financeira. Entre 1984 e 2003, Washington boicotou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para protestar por sua "péssima administração" e pela "ideologia terceiro-mundista". O artigo é de Eduardo Febbro.

Eduardo Febbro - Correspondente da Carta Maior em Paris

Os palestinos deram um passo firme rumo ao reconhecimento pleno de seu Estado, enquanto a primeira potência mundial, os Estados Unidos, colocou o primeiro obstáculo frente à marcha palestina. Reunida em Paris até dez de novembro, a Conferência Geral da Unesco votou pela adesão da Palestina como Estado membro de pleno direito. O ingresso da Palestina à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura muda radicalmente o regime precedente dos palestinos uma vez que, até segunda-feira, 31 de outubro, a Palestina só tinha um estatuto de missão observadora. A adesão da Palestina como Estado de pleno direito foi aprovada por 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções.

Os Estados Unidos, que se opuseram à medida, decidiram de imediato suspender seu financiamento à Unesco. Tal medida privará a organização de 22% do seu orçamento, em torno de 70 milhões de dólares. Washington aplicou, sem concessões, duas leis que datam dos anos 90 e que proíbem os Estados Unidos de financiarem qualquer agência das Nações Unidas em que a Palestina seja aceita como Estado pleno enquanto não se chegue a um acordo de paz com Israel.

Mas os já claríssimos interesses da administração norte americana e seu favoritismo para com Israel, não são os da maioria dos países da comunidade internacional. A França, a quase totalidade dos países árabes, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), Argentina e, excetuando o México que se absteve e o Panamá que votou contra, os países de América Latina fecharam fileiras a favor dos palestinos. Os Estados Unidos, a Alemanha e o Canadá se opuseram enquanto a Itália e o Reino Unido se abstiveram. Israel também antecipou que retiraria sua contribuição financeira à Unesco.

O embaixador israelense na organização, Nimrod Barkan, disse que o ingresso da Palestina como Estado era una “tragédia para a Unesco”. Barkan tirou do bolso as já desgastadas ameaças contra os países que apoiaram os palestinos. O embaixador israelense advertiu que isso “debilitará” a capacidade desses países de “influenciar a posição israelense”. Barkan qualificou de “ficção científica” o ingresso dos palestinos na Unesco e ressaltou que este era “um dia triste” porque marcava o momento em que “uma organização decide desconectar-se da realidade”.

A disputa de declarações entre os principais atores do conflito israelense palestino permite medir a distância abismal que existe para se chegar a um acordo de paz. Washington, através de seu embaixador na Unesco, David Killion, avaliou que a iniciativa da Unesco era “prematura” e “contraproducente”. Na direção contrária, o Ministro Palestino de Relações Exteriores, Riyad Al-Malki, declarou que estamos vivendo “um momento histórico que devolve à Palestina parte de seus direitos”. Al-Malki refutou o argumento israelense norte americano que consiste em vincular o novo estatuto da palestina com a paz na região.

A Palestina se converteu no Estado número 195 da UNESCO graças aos estatutos que regem essa organização dependente da ONU. Diferentemente do que acontece no Conselho de Segurança onde cinco países (Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Rússia e China) têm direito de veto e podem bloquear, entre outras coisas, a adesão de um novo Estado, na Unesco só se requer dois terços dos votos da Conferência Geral para adquirir o estatuto de Estado de pleno direito. O novo regime permitirá aos palestinos que alguns dos territórios ocupados por Israel, entre eles Belém, Hebrón e Jericó, sejam reconhecidos como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Para o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, trata-se de um êxito diplomático de grande alcance que torna um pouco mais tangível o reconhecimento da Palestina como Estado. No dia 23 de setembro passado, Abbas propôs oficialmente a aceitação da Palestina como Estado membro da ONU. O Conselho de Segurança examinará a solicitação no próximo dia 11 de novembro, mas ela tem poucas possibilidades de ser aceita uma vez que Washington já adiantou que exerceria seu direito de veto.

Por enquanto, a Unesco aceitou em Paris o desafio de funcionar com quase um quarto a menos de seu orçamento. Não é a primeira vez que os Estados Unidos chantageiam a Unesco com a retirada de sua contribuição financeira. Entre 1984 e 2003, Washington boicotou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para protestar por sua péssima administração e pela ideologia terceiro-mundista que imperava na Unesco. A Diretora Geral da organização, Irina Bokova, admitiu que de agora em diante terá que “cortar programas e reajustar o equilíbrio do nosso orçamento”.

Entretanto, para a responsável da organização, já não se trata de um “problema financeiro”, mas de um “problema que concerne à universalidade da nossa organização”. Como já se pôde corroborar no conflito israelense palestino e tantos outros dramas que sacodem o mundo, as grandes potências mundiais têm uma visão variável da “universalidade” dos direitos. Estes são “universais” segundo o peso dos interesses e não como valor supremo da humanidade.

Tradução: Libório Junior

Publicado em Carta Maior
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Grupo terrorista criado pela CIA celebra abertamente em Miami seu 50º aniversário

 Jean-Guy Allard

Com um comunicado difundido amplamente em Miami entre os partidários do uso do terror contra Cuba, o chefe do grupo terrorista Alpha 66 anuncia que sua organização criminosa, protegida pelo FBI, celebrará seu 50º aniversário “como organização com estratégia de combate frontal”. Isto no país que publica uma controvertida lista de “países patrocinadores do terrorismo”.

Ernesto Díaz Rodríguez assinala que desde sua fundação “em setembro de 1961” o grupo tem sido consequente com seu firme propósito de manter uma independência total de governos e ingerências externas e lutar sob o lema de “sem pedir permissão nem esperar por ninguém”.

Os arquivos revelam, no entanto, tudo ao contrário.

Alpha 66 é uma fachada criada pela CIA precisamente nesse ano onde ia estimulando a custo de milhões as chamadas "operações autônomas" desde sua estação em Miami JM/WAVE, então a maior do mundo.

O conceito era organizar grupos supostamente surgidos “espontaneamente” entre os exilados de Miami que haviam fugido a Ilha por sua cumplicidade criminosa com a sangrenta ditadura de Fulgêncio Batista, com o propósito de multiplicar os atentados e negar logo qualquer relação com esses fatos.

Entre as ações criminosas do grupo se encontram inumeráveis planos de assassinato contra o Presidente de Cuba; ataques piratas a embarcações pesqueiras; ameaças de morte a pessoas vinculadas com Cuba no México, Estados Unidos, Equador, Brasil, Canadá e Porto Rico.

"UMA DAS MAIS PERIGOSAS ORGANIZAÇÕES” TERRORISTAS

Documentos da inteligência da polícia de Miami classificaram, naqueles anos, Alpha 66 como "uma das mais perigosas organizações e das mais ativas" na Miami terrorista.

Desde a morte de seu ex-líder Nazário Sargen, Alpha 66 é dirigida por Ernesto Díaz Rodríguez, de 66 anos de idade, este mesmo signatário da declaração citada.

Treinado pela CIA na República Dominicana, Díaz foi capturado em Pinar del Río em 4 de dezembro de1968, em uma fracassada infiltração armada e foi condenado pela comissão de atos terroristas. Liberado, regressou aos Estados Unidos e se ligou a vários extremistas conhecidos, como Eusébio de Jesus Peñalver Mazorra, René Cruz Cruz ye Mario Chanes de Armas, desenvolvendo planos de ações criminosas. Em 1999, esteve emvolvido, com este mesmo grupo, em um plano de atentado ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Seu braço direito, Osiel González Rodríguez, foi treinado pela CIA em Fort Benning, onde estudou técnicas de sabotagem junto com Posada, Félix Rodríguez Mendigutía, Jorge Mas Canosa e outros personagens que formaram a máfia terrorista de Miami.

CONVITADO POR BUSH À CASA BRANCA

Em 20 de maio de 2003, o presidente norte-americano George W. Bush convidava à Casa Branca a Rodríguez, assim como seu sócio Eusébio de Jesus Peñalver Mazorra, preso em 12 de dezembro de 1995, na Califórnia, com um arsenal quando participava de preparativos para realizar um ataque terrorista em Cuba com outro conhecido terrorista, Angel Francisco D'fana Serrano.

Em 2 de junho de 2005, o Presidente norte-americano dirigiu uma carta de agradecimento por seu "apoio" a Alpha 66, na qual dizia que "apreciava conhecer" as ideias de grupo paramilitar.

Luís Posada Carriles participou em numerosas oportunidades de atividades, inclusive públicas, da Alpha 66, antes e depois de seu “julgamento” em El Paso, com o qual Washington pretende presenteá-lo com a imunidade.

Reinol Rodríguez, associado aos crimes de Posada e cúmplice do assassinato em Porto Rico de Carlos Muñiz Varela, é o autodenominado chefe militar do grupo terrorista Alpha 66.

Alpha 66 segue promovendo abertamente o terrorismo desde seus escritórios em 2250 S.W. da rua 8, em Miami enquanto o Departamento de Estado mantem a absurda publicação de sua lista de "países patrocinadores do terrorismo" com o propósito evidente de caluniar, difamar e satanizar às nações que repudiam seu domínio.

Publicado em Hablahonduras
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terça-feira, 14 de junho de 2011

Os EUA fornecem bombas aos aliados para a guerra na Líbia

Manlio Dinucci


Os estoques de munições da força aérea aliada estão esgotados. Mas para continuar a destruição da Líbia, o pentágono aprovisiona a NATO. A guerra é assim um negócio rentável.
Em 60 dias de « Proteção unificada » os aviões da NATO efeuaram, segundo dados oficiais, mais de 9.000 missões na Líbia, entre as quais 3.500 ataques com bombas e mísseis. A maior parte é levada a cabo pela força aérea dos EUA, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá. Aviões italianos (Tornado, Eurofighter 2000, F-16 e outros) efetuaram, segundo uma estimativa, cerca de 900 missões. Com eles participam igualmente Suécia, Espanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Qatar e Turquia.

No total, mais de 300 aviões estão envolvidos, isto porque esta guerra permite igualmente testar em condições reais, novas armas, como o caça francês Rafale. A aeronáutica italiana está experimentando o avião Boeing KC767-A, que acabou de receber e que efetua operações de aprovisionamento em pleno voo de caças-bombardeiros e também transportes aéreos estratégicos. No seu batismo no aeroporto de Pratica di Mare, este foi apresentado como «o pilar para uma única e excepcional capacidade de projeção da componente aérea não só a nível nacional mas também de toda a NATO». Assim, um novo sistema de armas é testado na guerra da Líbia para potencializar a capacidade d NATO na projeção de forças aéreas e terrestres noutras guerras.

A operação « Proteção unificada » revela no entanto algumas deficiências. Com o incessante bombardeamento, as bombas esgotam-se. No entanto não há problema, sendo que o Pentágono continua a fornecer. O coronel Dave Lapan, porta-voz do departamento de Defesa afirma que «Desde que a ANTO tem liderado a campanha aérea, temos fornecido um apoio material, munições inclusive, aos aliados e aos parceiros participantes nas operações na Líbia». Lapan precisa que este fornecimento, cujo valor ascende agora a 24,3 milhões de dólares, inclui «bombas inteligentes teleguiadas de extrema precisão». Na Itália, estas bombas estão estocadas em enormes quantidades em Camp Darby, a base logística (estadunidense, NdT) que aprovisiona as forças aéreas dos EUA na zona mediterrânea e africana.

De Camp Darby as bombas e outros materiais de guerra podem depois ser enviados nas zonas de ação através do aeroporto de Pisa. A nossa situação, declara um dos comandantes dessa base EUA, oferece-nos «capacidades logísticas únicas porque o nosso depósito está a 30 minutos do aeroporto (italiano NdT)». Este aeroporto de onde surgirá o Hub aéreo nacional (italiano, NdT), a interligação aeroportuária de todas as missões militares no estrangeiro, será «colocado á disposição da NATO». Desde que a guerra na Líbia começou, C-130’s e outros aviões, com certeza carregados de bombas e mísseis fornecidos por Camp Darby, têm sobrevoado Pisa a baixas altitudes. Á cerca de um ano e meio atrás, um C-130 despenhou-se depois de descolagem, sem provocar nenhuma tragédia, por suposta sorte. As autoridades estabeleceram então uma «zona de segurança» quando, durante obras a decorrer no aeroporto fora encontrado uma bomba não explodida datando da Segunda Guerra mundial. Depois de ter desarmado o engenho, tudo voltou á normalidade : aviões militares retomaram os voos por cima da cidade, carregados de bombas made in USA que aliados irão largar sobre a Líbia.

Tradução David Lopes
Fonte Il Manifesto (Itália)

Publicado em Voltairenet

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Matar Bin Laden, ressuscitar a Al-Qaida

Santiago Alba Rico

Uma das grandes surpresas que haviam deparado os levantes populares no mundo árabe é que haviam deixado momentaneamente fora de jogo todas as forças islâmicas e muito especialmente, claro, a mais suspeita e extremista, Al-Qaida, marca comercial de obscuro conteúdo largamente instrumentalizada para sustentar ditadores, reprimir toda classe de dissidência e desviar a atenção para longe dos verdadeiros campos de batalha. Com indicações de amplo espectro, como a aspirina, Bin Laden reaparecia cada vez que fazia falta atiçar a “guerra contra o terrorismo”; mantinham-no com vida para agitar seu espantalho em encruzilhadas eleitorais ou para justificar leis de exceção. Esta vez a situação era demasiado grave como para não usá-lo pela última vez, em uma orgia midiática que eclipsa inclusive o casamento do príncipe Guilherme e introduz efeitos muito inquietantes no mundo.

Quando parecia relegada ao esquecimento, definitivamente desprezada pelos próprios povos que deviam apoiá-la, reaparece Al-Qaida. Um desconhecido grupo, em nome dessa organização, assassina Arrigoni na Palestina; dias depois, em plena efervescência dos protestos antimonárquicos no Marrocos, uma bomba explode na praça Yamaa Fna de Marrakech; agora reaparece Bin Laden, não vivo e ameaçador, mas em toda a gloria de um martírio protelado, estudado, cuidadosamente encenado, um pouco inverossímil. “Se fez justiça”, disse Obama, mas a justiça exige tribunais e juizes, procedimentos judiciais, uma sentença independente. Mais sincero foi George Bush: “É a vingança dos EEUU”, disse. “É a vingança da democracia”, acrescentou, e milhares de democratas estadunidenses dançaram de alegria diante da Casa Branca, saltando com bárbara euforia sobre tíbias e caveiras. Mas democracia e vingança são tão incompatíveis como a pedagogia e o infanticídio, como o alfabeto e o solipsismo, como o xadrez e o jogo de azar. Aos EEUU agradam os linchamentos, sobre tudo desde o ar, porque sabe que são mais poderosos que os princípios. “O mundo sente alivio”, afirma Obama, mas ao mesmo tempo alerta sobre “ataques violentos em todo o mundo apos a morte de Bin Laden”. Alerta? Avisa? Promete? Quê alivio pode produzir um assassinato que - se diz ao mesmo tempo - põe em perigo àqueles a quem presumivelmente se quer salvar?

Este era o momento. Al-Qaida volta a dominar a cena; Al-Qaida volta a saturar o imaginário ocidental. Enquanto o presumido cadáver de Bin Laden se lança ao mar, Bin Laden se apodera fantasmagoricamente de todas as lutas e de todos os desejos de justiça. Cumprir-se-á o vaticínio de Obama: haverá ataques violentos por todas as partes e o mundo árabe-muçulmano voltará a ser uma confusão de fanatismos e decapitações, queiram ou não queiram suas populações. Entre democracia e barbárie, é evidente, os EEUU não têm duvida: a barbárie se ajusta muito mais ao “sonho americano” (e, é claro, ao delírio israelense).

Não sabemos se realmente mataram Bin laden; o que está claro é que o esforço para ressuscitar a todo custa a Al-Qaida pretende matar os processos de mudanças começados faz quatro meses no mundo árabe.

Original em Rebelión
Traduzido por Rosalvo Maciel
 
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domingo, 10 de abril de 2011

Petição pró Bradley Manning

Agora mesmo Bradley Manning, o delator do Wikileaks, está sendo torturado em uma prisão militar nos Estados Unidos. O Manning está sendo sujeitado ao isolamento absoluto, tática que pode enlouquecer a pessoa, com curtos períodos por dia onde ele é totalmente despido e abusado verbalmente pelos outros presos.

O Manning está aguardando julgamento por liberar documentos militares secretos ao Wikileaks, incluindo o vídeo dos soldados americanos massacrando civis iraquianos. Este tratamento brutal parece ser parte de uma campanha de intimidação para silenciar qualquer delator e derrubar o Wikileaks. O governo dos EUA está dividido sobre este assunto com diplomatas criticando publicamente o exército pelo tratamento do Manning, mas com o Presidente Obama ainda alheio ao caso.

O Obama se preocupa com a reputação global dos EUA -- nós precisamos mostrar para ele o que está em jogo. Vamos gerar um chamado global massivo ao governo dos EUA pedindo o fim da tortura de Manning e observação da lei. Assine a petição abaixo -- a nossa mensagem será entregue através de anúncios ousados e atos públicos em Washington DC assim que conseguirmos 250.000 assinaturas:


No papel, os EUA são contra a tortura. A constituição do país proíbe “punições cruéis e incomuns”. E junto com outras centenas de países, os EUA assinaram a convenção internacional que promete tratar todos os prisioneiros “com humanidade e respeito pela dignidade inerente da pessoa humana”. Mas hoje o Bradley Manning está completamente isolado na sua cela, sem lençóis, sem poder se exercitar e sendo sujeito à humilhação brutal que está causando danos psicológicos sérios. Isso viola a lei internacional e dos Estados Unidos.

Bradley está sendo mantido sob o status de “prevenção de danos” apesar de 16 relatos de profissionais de saúde mental do exército declararem que ele deve ser removido destas condições severas. Os seus advogados estão tentando garantir os seus direitos humanos e constitucionais básicos nos tribunais, mas por enquanto o tribunal militar responsável pelo destino do Bradley ignorou o seu sofrimento.

Desde as revelações explosivas dos crimes militares dos EUA no Afeganistão e Iraque, e outros numerosos cabos diplomáticos, houve uma perseguição ao Wikileaks. Muitos especulam que esta pressão brutal sobre o Bradley tem a intenção de forçá-lo a comprometer o fundador do Wikileaks Julian Assange. Porém, o Obama prometeu ao mundo e aos EUA que ele iria proteger e não perseguir delatores:

"Geralmente a melhor fonte de informação sobre desperdício, fraúde e abuso nos governos vem de um funcionário do governo comprometido com a integridade pública que está disposto a fazer uma denúncia. Estes atos de coragem e patriotismo, que às vezes salvam vidas e geralmente economizam verbas públicas, deverão ser incentivados e não amordaçados.”

O tratamento cruel do Bradley é o contrário, ele manda uma mensagem tenebrosa a outros que queiram expor informações importantes. Vamos agir rapidamente para colocar pressão internacional sobre os Estados Unidos, para eles honrarem o seu compromisso com os direitos humanos e a proteção de delatores, acabando com este tratamento cruel e chocante de seu próprio cidadão. Assine a petição agora:


O Bradley Manning diz que é um patriota e admite ter liberado informações que ele sentiu que o mundo tinha o direito de saber. Mesmo para as pessoas que discordam com o Wikileaks e os méritos ou deméritos daqueles que entregam informações para eles, a tortura ilegal do Bradley Manning, que ainda não foi a julgamento nem foi condenado por nenhum crime, é uma violação vergonhosa dos direitos e dignidade humana.

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O prisioneiro Bradley Manning

Ivan Lessa

Soldado americano. Pai, idem. Mãe do País de Gales. 23 anos. 1,57 de altura. Fosse na Brasil teria o apelido de "Tampinha". Mas é e foi nos Estados Unidos da América do Norte.

Vocês conhecem. Aquele do Obama no Municipal no Rio, no Iraque, no Afeganistão e na prisão de Guantánamo, que ele prometeu fechar e não fechou. Obama não é uma pessoa coerente. Obama nesses seus anos de mandato não tem uma única frase ou feito memorável. O mesmo não acontece com o soldado Bradley Manning.

Bradley Manning está preso desde maio do ano passado em condições dignas daquilo que eles mesmos, americanos, chamavam de Terceiro Mundo. Por que Bradley Manning está detido no que é chamado lá por eles de "prisão provisória"? Porque foi o homem que passou para o messiânico "demônio louro" (se não for uma contradição em termos) Julian Assange 250 mil comunicados diplomáticos contando, entre eles, com o notório, e mais que divulgado (conferir no YouTube), vídeo da - não há outra palavra - execução de oito civis iraquianos, entre os quais duas crianças, por soldados americanos sob instruções de um helicóptero. Foram-se oito iraquianos de maior idade ao todo.

A cena, com legendas, foi mostrada pela televisão britânica num documentário da televisão comercial, a ITV, preparado pelo esplêndido jornalista e escritor australiano John Pilger. A horripilante sequência abria o filme. Legendas nas cenas de "combate", para ficar bem claro. Lá estão aqueles maneirismos militares a que estamos acostumados, graças ao cinema e à televisão. Tudo em meio a muita galhofa. Roger, over, out, copy that e, na ordem vital, ou letal, a sentença vinda dos ares : "Light 'em all up. Shoot." (Mais ou menos, "Acendam eles todos. Atirem.") Atiraram. Foram acesos os iraquianos e as duas crianças.

Bradley Manning não negou ter sido a fonte do vazamento. Sofreu a tal sentença provisória que já dura bom tempo. Não sem antes o porta-voz P.J. Crowley, da secretária de Estado, Hillary Clinton, ter declarado sabiamente que Manning não fora declarado culpado de crime algum e que sua prisão era "contraprodutiva e estúpida". Crowley foi forçado a se demitir. Claro. Bradley Manning está preso em condições mais que divulgadas, todas dignas da mais cruenta das ditaduras.

Abaixo, a frio e a seco, o seu dia a dia. Sublinho que, se alguém conferir no YouTube, verá nos comentários uma vasta proporção a favor do regime de prisão imposto a Manning.

O soldado americano Bradley Manning, detido em Quantico, onde está situado também o FBI, sem julgamento ou condenação, não tem permissão para se exercitar em sua cela durante o dia. Não tem o direito à posse de coisa alguma.

É proibido de conversar com os guardas seus carcereiros. A cada cinco minutos, é obrigado a responder se se encontra bem e em forma. Se voltar a face para a parede durante o sono é prontamente acordado.

Bradley Manning, que, incrivelmente, ainda mantém um senso de humor, apontou para o fato de que ele poderia, se quisesse, se injuriar com suas cuecas, no que estas foram de imediato retiradas.

Só lhe são permitidas, por uns poucos minutos, visitas aos sábados e domingos. O resto da semana são 23 horas por dia de cela. Recebe ainda uma dose diária de antidepressivos.

O presidente Barack Obama não visitou qualquer delegacia ou prisão no Rio ou em Brasília. Sua senhora, a primeira-dama Michelle Obama, lidera uma campanha contra a obesidade entre crianças.

Publicado no Estado de São Paulo
BBC
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Mídia esconde revoltas em Honduras

Na quarta-feira passada, 30 de março, milhares de trabalhadores de Honduras aderiram ao “paro cívico”, convocado pela Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP).

A mídia nativa, porém, não deu destaque ao protesto ou a repressão. Desde o golpe que derrubou o presidente Manoel Zelaya, em junho de 2009, ela continua torcendo pelos golpistas, serviçais dos EUA.

Segundo Giorgio Trucchi, em artigo publicado no sítio independente da Agência Latinoamericana de Informação (Alai), a violência policial não conseguiu inibir a mobilização, “mas deixou como saldo o ataque as sedes de sindicatos e disparos que mataram um grevista no povoado de Bajo Aguán e feriram dezenas de manifestantes em todo o território”. O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Bebidas e a Universidade Autônoma de Honduras foram invadidos com brutalidade e vários grevistas foram presos.

Golpistas apoiados pelos EUA

Em Tegucigalpa, capital de Honduras, a greve paralisou o setor de transportes. “A população ocupou vários pontos da capital e promoveu manifestações nas principais artérias... Centenas de professores, que lutam para que não se privatize a educação, se concentraram em frente a Corte Suprema da Justiça, exigindo a libertação de 20 colegas acusados por ‘protestos ilícitos’”.

Diante da expressiva adesão, o golpista Porfírio Lobo esbanjou truculência. “O regime sucedâneo do golpe de Estado demonstrou novamente a sua verdadeira cara, ao reprimir pela segunda semana consecutiva o povo em resistência”, aponta Giorgio Trucchi.

Segundo Bertha Cáceres, coordenadora do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (Copinh), a greve da semana passada confirma o avanço da consciência e da mobilização no país. “Hoje é maior a nossa capacidade de resposta”.

“Estamos defendendo nossos direitos, nossa territorialidade e nossas conquistas. Estamos convencidos de que esta mobilização permanente não vai parar”, garante Cáceres. Para ela, o regime autoritário de Porfírio Lobo se mantém graças ao apoio dos EUA, que segue financiando e treinando as forças repressivas do Estado e conta com tropas próprias nas bases militares em Honduras.

Original em Hora do Povo
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AS "REVOLUÇÕES" ÁRABES

Texto de A. V. Kharlámenko do Partido Comunista (bolchevique) de Toda a União sobre a ofensiva imperialista sendo preparada na Líbia para saquear seus recursos e recrudescer a onda reacionária no mundo

Chove sobre Trípoli


Realmente chove na capital da Líbia, como sempre nesta estação do ano. Ainda mais se formos acreditar nos meios massivos de comunicação mundiais e russos. Aí então teremos uma verdadeira chuva de balas e granizo de bombas. Bombas lançadas pela aeronáutica da “ditadura sangrenta" em cima do "povo insurreto". Bala que os "mercenários africanos" atiram nos "democratas pacíficos". Como é que a "comunidade internacional" pode não intervir pela salvação de tão infeliz povo? O negócio é claro: para o "ditador" - a Corte de Haia. Para os "democratas" - o poder.

Para os meios de comunicação em massa "livres" tudo é muito claro: é exatamente assim que pretendem "esclarecer" a situação em qualquer país ao qual as riquezas atraiam a atenção de seus senhores. O que é realmente estranho é a posição de muitos que se consideram de esquerda, e mesmo de alguns que se consideram revolucionários. Uns apenas calam e esperam para ver quem vai ganhar e para onde vai caminhar a situação. Outros explodem em euforias de vitória, dizendo: "os povos se levantam uns atrás dos outros - primeiro a Tunísia, Egito, Iêmen, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Algéria, Irã e agora a Líbia! Sem tirar nem por, se trata da revolução democrática mundial! Fim a todos os ditadores! Claro, aqui o critério para "ditador" é muito mais simples do que dois mais dois são quatro - depende apenas de quantos anos o tal passou no poder, ou seja: exatamente como nos meios massivos de comunicação da burguesia. Ou ainda como disse Zhirinóvski, chamando os acontecimentos atuais de "levante contra os Brêzhnevs árabes". Para ele, o sangue nas ruas seria a evidência incontestável dos "crimes da ditadura". No entanto, a maioria dos analistas não diz uma só palavra sobre a situação real do país, sobre a essência das forças em conflito, suas relações internacionais e sobre quais as prováveis perspectivas para a região. E os que falam sobre isso certamente não extraem suas informações dos videoclipes divulgados pela grande imprensa.

Mas vejam que qualquer um que acompanhe os fatos, que se lembre da história recente e não se encontre sob a hipnose da propaganda burguesa não pode deixar de levar em conta o fato de que a Líbia se diferencia enormemente dos países realmente tomados por protestos populares.

A Líbia é muito mais rica em petróleo e gás do que seus vizinhos, e a população de seu país majoritariamente desértico é algumas vezes menor - 6 milhões.

Com os preços atuais do petróleo, os líbios, mesmo se supuséssemos uma situação similar a dos países vizinhos, viveriam em condições um tanto melhores e dificilmente teriam motivos para se lançar à morte pela "liberdade". Sob o "ditador Kaddafi" realmente se vivia melhor do que nos países vizinhos. E antes se vivia bem pior. E não apenas sob o comando dos colonizadores italianos ou dos ocupadores franco-britânicos, mas mesmo quando a primeira colônia africana adquiriu a independência, por iniciativa da URSS. Em fuga, os colonizadores deram o poder nas mãos do rei Idris, cabeça da ordem dos dervishes-sinuístas, há muito tempo governantes da parte leste do país, em Cirenaica. Claro que não incomodava nem um pouco aos ex-colonizadores o fato de que tal ordem ficara em ambas as Guerras Mundiais não do lado deles, mas sim do lado dos agentes turco-alemães. Até a chegada ao poder da "ditadura de Kaddafi" um certo "veterano da SS" ficava escondido no sul da Cirenaica, num castelo nas montanhas, como um "barão sem sua coroa", controlando com suas próprias mãos a exportação de petróleo para a Arábia Saudita (a história ainda cala sobre o que mais ele fazia). E hoje vemos por todas as telas de televisão e de computador como o "povo insurreto" levanta sobre as "cidades libertas" da Cirenaica a bandeira da monarquia derrubada há quarenta e dois anos e mostra aos telespectadores ocidentais faixas escritas em inglês: "Libertar a Líbia!" e "Petróleo para o Ocidente!"

Obviamente: sob o regime monárquico o petróleo pertencia ao Ocidente. A renda advinda de sua exportação era obtida majoritariamente pelos monopólios estrangeiros, sendo que alguma coisa ficava com a família real e a nobreza palaciana, com os compradores-burgueses e altos-funcionários e, para o povo, não sobrava absolutamente nada. Os líbios pobres morriam de tuberculose, ficavam cegos de catarata (no interior do país ela atingia a 100% dos habitantes), e o analfabetismo chegava a 87%. Com as liberdades políticas também havia confusão: partidos eram proibidos, sindicatos não tinham direito à greve. Será mesmo que o povo está se lançando assim à morte pela "Líbia perdida"?

Diferentemente da ordem burocrático-burguesa da Tunísia, do Egito e do Iêmen, ou mesmo dos semi-absolutistas Marrocos, Jordânia e Bahrein, a construção social e política da Líbia tem sua base na revolução antiimperialista e anti-monárquica de 1o de setembro de 1969, realizada pela organização dos "Oficiais unionistas-socialistas livres". Os jovens revolucionários então (Muammar Kaddafi tinha 27 anos) recusaram o caminho do capitalismo e levantaram a bandeira do "estado de bem-estar e de justiça", sob os princípios da "liberdade, do socialismo islâmico, da unidade e da justiça social". Já no primeiro ano da revolução foram nacionalizadas sem indenização as propriedades dos antigos colonizadores e as da família real, a maioria dos bancos e em seguida a maior riqueza - o petróleo e todos os recursos naturais. Naqueles tempos de igualdade de forças entre os dois sistemas mundiais, mesmo um país pequeno e atrasado podia forçar os neocolonizadores a devolverem o roubado sem que ninguém ousasse ocupar ou bombardear suas cidades, ou mesmo apenas aplicar "sanções" econômicas.

O poder revolucionário não apenas ampliou a renda conseguida pelo país do petróleo, mas também a aplicou no desenvolvimento do país e no bem-estar do povo. Sobre a base do setor estatal desenvolveu-se a industrialização do país, criaram-se refinarias de petróleo, metalúrgicas, indústrias eletrônicas e outras. Os camponeses receberam a terra, criaram-se cooperativas e plantações estatais. Sob o deserto foi colocada uma grande linha de tubos e condutores, que irrigam com água a todo o país. Os líbios pela primeira vez conseguiram saúde pública e educação gratuitas e a expectativa média de vida passou de 50 para 75 anos. O grau de alfabetização passou de 13% para 70%.

A renda média per capita na Líbia contemporânea é maior do que no Brasil. São coisas que os habitantes dos países vizinhos poderiam vislumbrar apenas nos seus mais doces sonhos. Por que é que o povo se levantaria?

Os meios de comunicação burgueses e alguns de esquerda respondem (se é que respondem): o homem não vive apenas de pão, e mesmo que na Líbia a qualidade de vida seja mediana, não existe nenhuma democracia, o que há é uma cruel ditadura familiar e a repressão à qualquer oposição. Bem, em primeiro lugar, como bem lembrou Fidel Castro alguns dias atrás, o povo não se atira na frente de balas apenas pela liberdade e pelos direitos formais. Ele se levanta quando a vida real se torna impossível e consegue a melhora das condições da vida real - fator ao qual vêm em auxílio às liberdades e à democracia.

Em segundo lugar, mesmo com a democracia a coisa é bem diferente do que representam os meios massivos burgueses e seus arautos. No começo da revolução deste país, seguindo o exemplo da República de Nasser, a Líbia foi proclamada República Árabe, tendo como organização dirigente a União Árabe Socialista. Quando no Egito o capitalismo burocrata-comprador tomou as instâncias superiores, os revolucionários líbios responderam com o desenvolvimento "incondicional da democracia". Em 1977 foi criado um novo órgão dirigente do Estado com a participação coletiva dos sindicatos e das organizações camponesas - o Congresso Geral Popular. Este órgão elegeu um dirigente - o Secretário geral. Nas localidades se instituíram as assembléias populares que formam os órgãos executivos do governo - os comitês populares. O país se proclama então Jamairia Popular Socialista da Líbia (Jamairia significa literalmente "poder das massas populares"). Kaddafi é escolhido secretário geral do Congresso, mas recusa a todos os cargos oficiais, permanecendo o "líder informal da revolução". Na condição de reserva, diz que não assume nenhum posto com o qual possa ter de entrar na reserva. Será que só resta ao povo se levantar para melhorar suas condições de vida diante de uma ditadura dessas? Mesmo olhando para o "florescimento" dos vizinhos que se encontram sob condições políticas e sociais completamente diferentes?

Mais uma diferença radical. Os regimes na maioria dos países árabes conduziram, especialmente durante a última década, uma política externa benéfica aos EUA e a seus aliados na OTAN. A Líbia, durante o primeiro ano de sua revolução conseguiu a retirada das bases militares da Grã-Bretanha e dos EUA de seu território. Já por isso Washington e Londres não gostaram de Kaddafi. Depois da nacionalização do petróleo então, ele se tornou para os imperialistas "persona non grata". Ainda mais pelo fato de que a nova Líbia se associou durante décadas com o movimento antiimperialista mundial. A Líbia desenvolveu uma relação de amizade com a URSS e com outros países socialistas. A primeira sessão do Congresso Geral Popular contou com Fidel Castro como convidado. A Jamairia conseguiu consolidar a integração política e econômica do mundo árabe e ativamente ajudava aos palestinos e aos combatentes anti-apartheid da África do Sul, aos guerrilheiros latino-americanos e à Nicarágua sandinista. Por tudo isso é que na Líbia não existe o catalisador de ódio popular que são o sentimento de humilhação nacional e o esmagamento da soberania. E por isso mesmo entre os monopólios do imperialismo e seus governos se nota um seríssimo desejo à liquidação do "regime de Kaddafi".

Não se pode, no entanto, considerar a Líbia o paraíso e seu líder o líder popular ideal. Até o boom do petróleo, a Líbia era um dos países mais atrasados da região e, até hoje, são fortes as rivalidades tribais, que não conseguiram se transformar em contradições de classe mais desenvolvidas. Daí advém a rarefação da base social da revolução, a falta de uma cultura política madura, e as concepções meio patriarcais e meio anarquistas sobre a democracia direta, à qual seria oposto o conceito de partido político como tal. Daí também a tentativa de substituir a vanguarda pela autoridade pessoal do líder e a constituição - o "Livro Verde", ideologia científica - por improvisações utópicas. Daí o compromisso com a religião ao nível da proclamação da Sharia como legislação fundamental e a adoção da bandeira verde do Islã como bandeira estatal (ainda que o regime líbio tenha sempre se posicionado contra o fundamentalismo como movimento político). A democracia revolucionária líbia ainda olhava com inimizade para o movimento comunista nos países árabes, criando obstáculos para sua criação em seu território e ajudando a sua repressão nos países vizinhos. Assim, graças a esta limitação histórica, refletida pelo atraso da sociedade líbia,a Jamairia e seu povo se viram obrigados a pagar um preço demasiado cruel com a entrada em crise dos recursos propiciados pelo socialismo real.

Nos anos 1980, Washington e seus aliados acusaram a Líbia (sem provas) de ligação com o "terrorismo internacional". Durante muitos anos impuseram-se ao país sanções econômicas cruéis e, em 1986, houve uma agressão direta dos EUA. A residência de Kaddafi foi bombardeada por mísseis e sua filha adotiva foi morta; ele mesmo escapou apenas pelo fato de que, segundo as tradições beduínas, não vivia em casa, mas numa tenda no quintal. Mas na época ainda existiam a URSS e o Pacto de Varsóvia, e o agressor teve de recuar.

Assim como aconteceu com Cuba, a Jamairia viu-se momentaneamente sob bloqueio após a destruição da URSS e do Campo Socialista. E claro, isto teve influência na vida de seu povo e em sua economia. O governo revolucionário, ao contrário daquilo que ocorreu na Ilha da Liberdade, não possuía uma envergadura de classe, e a partir dos anos 1990, teve que fazer uma série de concessões. Em 1999, depois das agressões da OTAN aos Balcãs, obviamente fugindo da mesma sorte para a Líbia, Kaddafi assumiu a culpa pela explosão de um avião na Escócia, sob acusações da justiça britânica. Aceitou entregar a esta mesma justiça dois dos acusados e levou um sério golpe em sua autoridade aos olhos de seus compatriotas, especialmente dos beduínos, que tradicionalmente consideram ações deste tipo como traição. Em 2001, após as provocações de 11 de setembro, Kaddafi, tentando mais uma vez escapar de ser colocado no mesmo saco, entra em aliança com os EUA e seus aliados na "luta contra o terrorismo internacional". As estruturas de força da Líbia começaram então a lutar junto com os colegas dos países da União Européia contra a imigração ilegal da África para a Europa. Os vizinhos nórdicos se alegraram com o fato de que a Líbia não deixava que passassem através de seu território pessoas desnecessárias, mas em momento algum deixaram de notar o quão cruel era o "ditador Kaddafi"com tais pessoas.

Em 2005, as sanções foram oficialmente removidas. A direção líbia acabou com a maioria das barreiras aos investimentos estrangeiros e realizou uma aproximação com os países capitalistas, especialmente com os da Europa Ocidental. As riquezas petrolíferas da Líbia, a grande necessidade de obras e de construção de fábricas e estradas despertaram o maior interesse dos gerentes das corporações transnacionais destas áreas e todos se puseram em fila para realizar negócios com Kaddafi. Nem Aznar, nem Blair e muito menos Berlusconi se envergonharam de manter diálogo com o "ditador". No entanto, a saída do isolamento mostrou-se uma faca de dois gumes: começou a crescer na Líbia uma camada da burguesia burocrática ligada ao capital transnacional. Tal camada, sabemos, é o berçário da corrupção e da restauração política, é a fonte da crise social e do descontentamento popular: é a base em potencial da contrarrevolução.

E mesmo com todas as mudanças de caráter econômico, a estrutura política identificada pelo líder da Revolução manteve uma forte tendência antiimperialista. Kaddafi mantinha uma crítica aguda ao imperialismo internacional, o que se pôde verificar em parte na Cúpula de Copenhague de dezembro de 2009. Conseguiu criar para os países do "terceiro mundo" um precedente importante e ao mesmo tempo completamente indesejável para as potências imperialistas - compensações da Itália pelos danos causados à Líbia nos anos em que era colônia (o então presidente do Haiti, Aristide, apresentou o mesmo tipo de reivindicações à França, que então passou a desempenhar um papel significativo na sua derrubada). Foi Kaddafi também o iniciador da reformulação da Organização da Unidade Africana numa união para a integração - a União Africana.

Nos últimos anos, o líder da Jamairia começou a diversificar as ligações da economia exterior. Rússia e China fizeram enormes investimentos na Líbia. Em outubro, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi à Jamairia imediatamente depois de ter visitado a Rússia, Belarus, a Ucrânia, o Irã e a Síria. Ambos os líderes falaram publicamente sobre a luta conjunta contra o imperialismo e concordaram com um programa massivo de cooperação. Um pouco antes do "levante", o presidente da Federação Russa assinou na Itália um contrato de investimentos conjuntos na Líbia. Também o Brasil realizou projetos imensos na Líbia. A força principal, criada por iniciativa de Kaddafi, a nova União das Repúblicas Africanas entrou por esses dias para o grupo dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). A Líbia havia começado a construir um sistema de relações internacionais que seria capaz de limitar seriamente a liberdade de ação da reação imperialista. E, em caso de mudanças revolucionárias no mundo árabe, capaz de disseminar o "levante de esquerda" para além das fronteiras da América Latina.

E eis que aparece o contra-golpe. Exatamente no momento em que começam as revoluções egípcia e tunisiana. Exatamente quando a bandeira do protesto popular se aproxima da principal bacia petrolífera da região - a Arábia Saudita. Exatamente quando os palestinos conseguem o reconhecimento diplomático de por muitos países, em sua maioria latino-americanos. Quando os Estados Unidos são obrigados a lançarem sozinhos o veto na resolução da ONU que condena a construção de assentamentos israelenses em terras palestinas, aprovada por mais de 100 países. Quando o maior país da União Africana, o Sudão foi levado à divisão em dois Estados, quando o país mais populoso da África, a Nigéria, se aproxima de suas eleições presidenciais. A pergunta dos juristas romanos "Quo bono?" (“Quem se beneficia?”) se faz, diante de tal situação, meramente retórica.

O desenvolvimento da tragédia na Líbia se diferencia bastante dos acontecimentos nos países vizinhos. Na Tunísia e no Egito, assim como em outros países, houve muitas vítimas, mas os manifestantes continuaram os protestos pacíficos, ocupando as praças centrais das capitais e se relacionando com a sociedade nacional e internacional. Na Líbia, se formos acreditar no "ódio justo" dos políticos burgueses e dos meios massivos de comunicação, o regime de Kaddafi ordenou às forças de segurança e ao exército que atirassem contra os "manifestantes pacíficos", que, em resposta, pegaram em armas. Ora, se tratassem mesmo de manifestantes pacíficos tal ordem de atirar, ou mesmo de bombardear numa situação similar poderia ser fruto apenas de um louco doente ou de um provocador, cujo objetivo fosse levantar o povo contra o governo. A repentina mudança de lado do ex-ministro do interior levanta algumas suspeitas: não foi ele mesmo quem ordenou atirar - se é que atiraram mesmo - nos manifestantes? As mesmas suspeitas podem ser levantadas a respeito dos vôos sobre Malta realizados pelos pilotos da aeronáutica, como se se recusassem a bombardear as "cidades pacíficas" - não foram eles mesmos quem soltaram as primeiras bombas, numa imitação dos trânsfugas-"gusanos" ante a derrota dos contrarrevolucionários em Playa Girón? E se realmente se tivesse utilizado o bombardeio aéreo contra as cidades insurretas, como fizeram na Nicarágua em 1978-79, não chegariam os alvos nas casas dos milhares ao invés de ficar apenas nas dezenas e centenas que se contam até agora?

Acreditaremos em tal "história da carochinha"? Dificilmente manifestantes pacíficos conseguiriam tão facilmente ter acesso a armas, quanto mais tanques, e dificilmente os recrutas do exército passariam tão rápido para o seu lado - isto não aconteceu em nenhum outro dos países tomados recentemente por ondas de protesto. Antes de mais nada, estamos lidando não com manifestantes, mas sim com soldados muito bem armados e preparados, enviados pelas fronteiras abertas, assim como num motim militar igualmente bem preparado.

A quinta coluna na Líbia, especialmente em Cirenaica foi preparada não há um ou dois anos. Sua atuação foi preparada ainda em 1986, ano em que se precisou recuar pois a intervenção fracassou. No início dos recentes acontecimentos, a agência líbia comunicou a prisão de cidadãos estrangeiros que estavam no país para dirigir os atos da "oposição".

Seguem o mesmo esquema muitas contrarrevoluções e levantes, que vão da Guatemala de 1954 à Romênia de 1989, de Moscou em 1991 e 1993 à Belgrado no ano 2000, da Venezuela em 2002 à Bolívia em 2008. Mesmo nos quadros filmados pelos próprios "manifestantes" líbios se vê que estes se parecem muito mais com soldados do que com cidadãos pacíficos. O método de "soldados pela democracia" é o mesmo de Kishniev e Teerã em 2009, o mesmo do Equador em setembro e de Belarus em dezembro de 2010. Destruição e incêndio de prédios públicos, a invasão de comitês populares, de meios de comunicação e - muito sintomaticamente - de empresas chinesas. Há um terrorismo aberto: certo pregador islâmico do canal "Al-Jazeera" já conclama "cada muçulmano capaz de apertar um gatilho" a matar o líder líbio.

Quem faz os protestos pacíficos são os aliados da Jamairia. Já se viu coisa parecida durante a história do mundo árabe. Em junho de 1967, a República Árabe Unida - hoje em dia, Egito - foi submetida à agressão de Israel. A quinta coluna estava pronta para jogar o país aos pés do inimigo, se apenas conseguissem derrubar Nasser. E ele realmente renunciou. Mas o povo não aceitou a renúncia, foi às ruas e levou seu líder de volta ao poder. Os líderes da quinta coluna foram presos e começou a radicalização da revolução, interrompida apenas pela morte antecipada de Nasser sob circunstâncias duvidosas.

Depois que Kaddafi se voltou ao povo conclamando à resistência e anunciou precisamente que não deixará seu país, o apoio do povo, pelo visto, tende para seu lado. Mesmo o "New York Times" escreve que no lado oeste do país os aliados da Jamairia ganham posições. Mas o país corre o risco de uma separação nos moldes do Sudão. Oficiais e burocratas compõem o campo da "revolução" de bandeira monarquista, assim como os chefes tribais e o alto clero, os comandantes da polícia e os diplomatas de carreira. Na linha de frente, encontram-se os embaixadores em Londres (!), em Washington (!!), em Pequim (?!) e o representante da Líbia da ONU. Este último inclusive pediu que o Conselho de Segurança desta organização se pronunciasse sobre a questão líbia, dando sinal verde para a intromissão nos assuntos internos de seu próprio país.

Põe-se a nu também a "oposição" emigrante - a "Frente para a Salvação Nacional" de Londres (se alguém esqueceu, assim se chamava o grupelho que chegou ao poder na Romênia após a derrubada e o assassinato de N. Ceausescu, aliás, amigo e aliado de Kaddafi), e o "Partido do Renascimento Islâmico". E ambos imediatamente pediram aos governantes dos países da OTAN que aplicassem sanções fortes. Kaddafi avisa que ante uma ameaça de invasão serão queimados os poços de petróleo, o mesmo aviso feito pelo general Candido Aguilar no México em 1916, futuro ministro de relações exteriores, acabando com a intenção dos interventores de capturar as fontes de petróleo de seu país.

Os líderes burgueses e seus lacaios esbravejam sobre a necessidade de fechar o espaço aéreo da Líbia, para interromper a chegada de "mercenários". Dizem isso por conta própria. São eles que não possuem outras reservas além dos mercenários, acompanhados das prostitutas políticas e ordinárias de ambos os sexos. Por enquanto ainda não mostraram ao mundo nenhum dos "mercenários de Kaddafi". E é realmente um fato concreto que se possa achar gente na África ou em qualquer outro lugar que vá não por dinheiro, mas motivados por idéias, a lutar pela soberania da Líbia contra a agressão imperialista. A Jamairia ajudou em tempos difíceis, e alguns anos atrás, quando a República Democrática do Congo sofria agressões, vieram em sua ajuda soldados de alguns dos países da União Africana. Por que então agora não ajudariam ao país que iniciou o processo de descolonização e integração do continente?

O mais importante hoje é impedir a intervenção da OTAN na Líbia. O primeiro a se levantar a plenos pulmões sobre esta ameaça foi Fidel Castro. É preciso impedir a intervenção enquanto ela ainda não começou. Trata-se de uma ameaça não apenas à Líbia. Os organizadores do motim e da intervenção têm planos de controlar toda região fervilhante do mundo árabe. Conquistando o petróleo líbio depois do iraquiano, pretendem regular os preços e os consumidores, assim como a produção. Vejam que não é a imprensa marrom, mas sim o próprio ministro de relações exteriores da Grã-Bretanha que deixa escapar o medo de que Kaddafi fuja... para a Venezuela! Não se agüenta e faz uma provocação à República Bolivariana, que detém as maiores reservas de petróleo do mundo. Já mandam sua quinta coluna para as ruas de Teerã, e tentam tomar as ruas chinesas e norte-coreanas. Washington e Seul já alertam para novas manobras nos limites da RPDC.

E a Rússia não está em último lugar na fila. Não parece ser acidental que nestes dias ouvem-se explosões e tiros no Cáucaso e a secretária de Estado dos EUA pela primeira vez anuncia as pretensões do Japão sobre as Ilhas Curilas.

Um dos líderes da oposição de direita brasileira compara os acontecimentos atuais com a queda do muro de Berlim - símbolo da contrarrevolução global dos anos 1990. Trata-se realmente de uma nova tentativa de levantar mais uma onda de contrarrevolução mundial, oprimindo a toda a humanidade. Lembremos: a intervenção fascista na República Espanhola aconteceu com a participação silenciosa de todo o mundo imperialista, e precedeu a Segunda Guerra Mundial. Então, os fascistas se utilizaram de uma senha transmitida por rádio, que avisava a todos sobre o motim franquista que abriu caminho para a intervenção: "Sobre toda a Espanha o céu está sem nuvens".

A destruição da URSS foi precedida por uma operação coordenada pelo imperialismo mundial contra o governo da Unidade Popular no Chile. Há um bom filme sobre isto, que foi nomeado com a senha utilizada pelos amotinados: "Chove sobre Santiago".

Hoje a chuva cai sobre Trípoli e Benghazi. Amanhã, em algum outro lugar provavelmente teremos um dilúvio ou um massacre sangrento sob um céu sem nuvens.

Fiquemos atentos!

A. V. Kharlámenko

Publicado em Inverta

A grande manobra diversionista na Líbia

O conflito líbio deste último mês, olhado em sua totalidade – a guerra civil na Líbia, a ação militar contra Kadafi liderada pelos EUA -, não tem a ver com questões humanitárias nem tampouco com o fornecimento mundial de petróleo na atualidade. O que de fato está acontecendo é uma grande manobra diversionista, incentivada pelos sauditas, que tem como objetivo deixar na penumbra a principal batalha política que está ocorrendo na região: uma série de revoltas que afetam a Arábia Saudita, os países do Golfo e o mundo árabe em seu conjunto. O artigo é de Immanuel Wallerstein.

Immanuel Wallerstein - Znet

O conflito líbio deste último mês, olhado em sua totalidade – a guerra civil na Líbia, a ação militar contra Kadafi liderada pelos EUA -, não tem a ver com questões humanitárias nem tampouco com o fornecimento mundial de petróleo na atualidade. O que de fato está acontecendo é uma grande manobra diversionista – uma distração deliberada – que tem como objetivo deixar na penumbra a principal batalha política que está ocorrendo no mundo árabe. Há algo em torno do que tanto Kadafi como os líderes ocidentais, independentemente de sues pontos de vista políticos, estão totalmente de acordo. Todos querem desacelerar, canalizar, cooptar, limitar a segunda onda revolucionária árabe e evitar que mudem as realidades políticas fundamentais do mundo árabe e seu papel atual no teatro geopolítico do sistema-mundo.

Para ter isso claro, é preciso seguir a sequência cronológica dos acontecimentos. Ainda que os rumores políticos nos Estados árabes e as tentativas por parte de diversas forças externas de apoiar uns ou outros elementos dentro de certos Estados venham de longo tempo, o suicídio de Mohamed Bouazizi, no dia 17 de dezembro de 2010, marcou o início de um processo bem diferente.

Na minha opinião, este processo é a continuação do espírito da revolução mundial de 1968. Em 1968, do mesmo modo que vem ocorrendo no mundo árabe nestes últimos meses o grupo que teve o valor e a vontade para iniciar os protestos contra os poderes estabelecidos foi o dos jovens. Eles eram motivados por várias cosias: a arbitrariedade, a crueldade, a corrupção dos que estão no poder, sua empobrecida situação econômica e, sobretudo, a busca de seu direito moral e político de serem os atores principais de seu próprio destino cultural e político. Além disso, eles protestaram contra a estrutura geral do sistema-mundo e contra o modo pelo qual seus líderes tinham se curvado às pressões externas das grandes potências.

Estes jovens não estavam organizados, ao menos no princípio. E nem sempre foram completamente conscientes de seu entorno político. Mas introduziram valor nele. E, como em 1968, suas ações tiveram um efeito contagiante. Em muito pouco tempo ameaçaram a ordem estabelecida de quase todos os países árabes independentemente de critérios de política externa. Quando mostraram sua força no Egito, ainda o principal país árabe, todo o mundo começou a levá-los a sério. Há duas maneiras de levar estas revoltas a sério: uma é unir-se a elas e tentar controlá-las desde dentro; a outra é tomar as medidas que sejam necessárias para sufocá-las. As duas coisas foram tentadas.

Três grupos se uniram aos protestos, como observa Samir Amin em sua análise sobre o Egito: a ressuscitada esquerda tradicional, os profissionais de classe média e os islamistas. A força e o caráter destes grupos variaram dependendo do país. Amin considera a esquerda e a classe média profissional (na medida em que são nacionalistas e não neoliberais transnacionais) como elementos positivos, e os islamistas, os últimos a subirem no trem, como elementos negativos. E depois ainda temos o exército, bastião permanente da ordem, que se uniu à revolta no último momento, precisamente para limitar seus efeitos.

Assim, quando iniciou o levante na Líbia, ele foi consequência direta do êxito das revoltas nos países vizinhos, Tunísia e Egito. Kadafi é um líder particularmente desapiedado e fez declarações terríveis sobre o que ia fazer com os “traidores”. Se desde cedo se ouviram vozes na França, Inglaterra e nos Estados Unidos defendendo uma intervenção militar, não era porque Kadafi fosse um anti-imperialista infiltrado. Ele vendeu o petróleo líbio para o Ocidente por um bom dinheiro e se jactava de ter ajudado a Itália a conter a maré da imigração ilegal. Além disso, possibilitou acordos lucrativos para as empresas ocidentais.

No campo dos partidários da intervenção podiam se ver dois tipos de atitudes: aqueles para quem todas as intervenções militares do Ocidente são irresistíveis, e os que tratavam o assunto como um caso de intervenção humanitária. Houve uma forte oposição à intervenção por parte do exército estadunidense, que via a guerra na Líbia como algo impossível de ganhar além de trazer mais uma enorme tensão militar para os Estados Unidos. O último grupo parecia estar ganhando quando, de repente, a resolução da Liga Árabe mudou o equilíbrio de forças.

Como isso aconteceu? O governo saudita moveu-se com determinação e eficácia para obter uma resolução favorável ao estabelecimento de uma zona de exclusão aérea. Com o fim de obter a unanimidade entre os estados árabes, os sauditas fizeram duas concessões. A intervenção se limitaria somente ao estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e, em uma segunda resolução, se acordou a oposição unânime à intervenção de forças terrestres ocidentais.

O que levou os sauditas a propor tais resoluções. Alguém telefonou dos Estados Unidos para a Arábia Saudita e solicitou esse movimento? Creio que foi exatamente o contrário. Foram os sauditas que trataram de influenciar a posição estadunidense. E funcionou. A balança se inclinou.

O que os sauditas queriam, e obtiveram, foi uma manobra magistral que distraísse a atenção daquilo que os próprios sauditas consideravam como algo prioritário, algo no que já estavam trabalhando – a repressão da revolta árabe, na medida em que ela está afetando a Arábia Saudita em primeiro lugar, em segundo, aos países do Golfo e, por último, o mundo árabe em seu conjunto.

Do mesmo modo que em 1968, este tipo de rebelião contra a autoridade cria estranhas divisões nos países afetados e cria alianças inesperadas. Particularmente os chamamentos em favor das intervenções humanitárias provocam divisões. O problema que tenho com as intervenções humanitárias é que nunca estou seguro que sejam de fato humanitárias.

Os defensores sempre assinalam os casos onde ela não ocorreu, como Ruanda. Mas nunca levam em conta as ocasiões quando ocorreram. Sim, no curto prazo, pode-se evitar o que de outro modo seria um massacre. Mas no longo prazo é realmente efetiva? Para evitar matanças iminentes de Saddam Hussein, os Estados Unidos invadiram o Iraque. Massacrou-se menos gene nos dez anos transcorridos desde a ocupação? Parece que não.

Os defensores da intervenção humanitária parecem ter um critério quantitativo. Se um governo mata dez manifestantes, isso é “normal” ou, em todo caso, só algo digno de uma declaração de condenação. Se 10 mil pessoas são mortas, isso já é um crime e requer uma intervenção humanitária. Quantas pessoas precisam morrer antes que o normal se converta em criminal? 100, 1000?

Agora, as potências ocidentais estão se lançando em uma guerra na Líbia cujo resultado é incerto. É provável que se converta em um atoleiro. A intervenção teve êxito em distrair o mundo da revolta árabe em curso? Talvez. Não sabemos ainda. Ela terá êxito em derrotar Kadafi. Talvez. Não sabemos ainda. Se Kadafi se for, o que acontecerá depois? Inclusive os porta-vozes estadunidenses estão preocupados com a possibilidade de que seja substituído por um de seus velhos camaradas de armas, pela Al Qaeda, ou por ambos.

A ação militar dos Estados Unidos na Líbia é um erro, inclusive desde o estreito ponto de vista dos EUA, e também do ponto de vista humanitário. Não terminará logo. O presidente Obama explicou suas ações de uma maneira complicada e sutil. O que disse, em essência, é que se o presidente dos EUA, após uma avaliação minuciosa da situação, considera que a intervenção serve aos interesses dos Estados Unidos e do mundo, ela pode e deve ser realizada. Não duvido que tenha sido uma decisão dura para ele. Mas isso não é suficiente. É uma decisão terrível, odiosa e, em última instância, contraproducente.

Enquanto isso, a melhor esperança para todos é que a segunda onda de revoltas no mundo árabe recupere força – talvez uma possibilidade muito remota agora – e avance, em primeiro lugar, na direção dos sauditas.

Fonte: Znet

Tradução: Katarina Peixoto

Agencia Carta Maior

Publicado em Pátria Latina

Líbia: Obama e a defesa da 'rebelião'

James Petras [*]

Nas últimas duas semanas a Líbia sofreu o mais brutal ataque imperialista, por ar, por mar e por terra, da sua história moderna. Milhares de bombas e de mísseis, lançados de submarinos, vasos de guerra e aviões de guerra, americanos e europeus, estão a destruir as bases militares líbias, os seus aeroportos, estradas, portos, depósitos petrolíferos, posições de artilharia, tanques, porta-aviões blindados, aviões e concentrações de tropas. Dezenas de forças especiais da CIA e do SAS têm andado a treinar, a aconselhar e a apontar alvos para os chamados 'rebeldes' líbios empenhados numa guerra civil contra o governo de Kadafi, as suas forças armadas, as milícias populares e os apoiantes civis ( NY Times 30/03/11).

Apesar deste enorme apoio militar e do total controlo dos céus e da linha costeira da Líbia pelos seus 'aliados' imperialistas, os 'rebeldes' ainda não foram capazes de mobilizar o apoio de aldeias e cidades e encontram-se em retirada depois de enfrentarem as tropas governamentais da Líbia e as milícias urbanas, fortemente motivadas ( Al Jazeera 30/03/11).

Uma das desculpas mais idiotas para esta inglória retirada dos rebeldes, apresentada pela 'coligação' Cameron-Obama-Sarkozy, e repetida pelos meios de comunicação, é que os seus 'clientes' líbios estão 'menos bem armados' ( Financial Times, 29/3/11). Obviamente, Obama e companhia não contabilizam o grande número de jactos, as dezenas de vasos de guerra e de submarinos, as centenas de ataques diários e os milhares de bombas lançadas sobre o governo líbio desde o início da intervenção imperialista ocidental. A intervenção militar direta de 20 potências militares estrangeiras, grandes e pequenas, flagelando o estado soberano da Líbia, assim como o grande número de cúmplices nas Nações Unidas não contribui com nenhuma vantagem militar para os clientes imperialistas – segundo a propaganda diária a favor dos rebeldes.

Mas o Los Angeles Times (31/Março/2011) descreveu como “… muitos rebeldes em caminhões com metralhadoras deram meia-volta e fugiram… apesar de as suas metralhadoras pesadas e espingardas antiaéreas serem parecidas com qualquer veículo governamental semelhante”. De facto, nenhuma força 'rebelde' na história moderna recebeu um apoio militar tão forte de tantas potências imperialistas na sua confrontação com um regime instituído. Apesar disso, as forças 'rebeldes' nas linhas da frente estão em plena retirada, fugindo desordenadamente e profundamente descontentes com os seus generais e ministros 'rebeldes' lá atrás em Bengazi. Entretanto, os líderes 'rebeldes', de fatos elegantes e de uniformes feitos por medida, respondem à 'chamada para a batalha' assistindo a 'cimeiras' em Londres onde a 'estratégia de libertação' consiste no apelo, perante os meios de comunicação, de tropas terrestres imperialistas ( The Independent, Londres) (31/03/11).

É baixa a moral dos 'rebeldes' na linha da frente: Segundo relatos críveis da frente da batalha em Ajdabiya, “Os rebeldes… queixaram-se de que os seus comandantes iniciais desapareceram. Acusam camaradas de fugirem para a relativa segurança de Bengazi… (queixam-se de que) as forças em Bengazi monopolizaram 400 rádios de campo oferecidos e mais 400… telemóveis destinados ao campo de batalha… (sobretudo) os rebeldes dizem que os comandantes raramente visitam o campo de batalha e exercem pouca autoridade porque muitos combatentes não confiam neles” ( Los Angeles Times , 31/03/2011). Segundo parece, os 'twitters' não funcionam no campo de batalha.

As questões decisivas numa guerra civil não são as armas, o treino ou a chefia, embora evidentemente esses fatores sejam importantes: A principal diferença entre a capacidade militar das forças líbias pró-governo e os 'rebeldes' líbios apoiados por imperialistas ocidentais e por 'progressistas', reside na sua motivação, nos seus valores e nas suas compensações materiais. A intervenção imperialista ocidental exaltou a consciência nacional do povo líbio, que encara agora a sua confrontação com os 'rebeldes' anti-Kadafi como uma luta para defender a sua pátria do poderio estrangeiro aéreo e marítimo e das tropas terrestres fantoches – um poderoso incentivo para qualquer povo ou exército. O oposto também é verdadeiro para os 'rebeldes', cujos líderes abdicaram da sua identidade nacional e dependem inteiramente da intervenção militar imperialista para os levar ao poder. Que soldados rasos 'rebeldes' vão arriscar a vida, a lutar contra os seus compatriotas, só para colocar o seu país sob o domínio imperialista ou neo-colonialista?

Finalmente, as notícias dos jornalistas ocidentais começam a falar das milícias pro-governo das aldeias e cidades que repelem esses 'rebeldes' e até relatam como “um autocarro cheio de mulheres (líbias) surgiu repentinamente (de uma aldeia) … e elas começaram a fingir que aplaudiam e apoiavam os rebeldes…” atraindo os rebeldes apoiados pelo ocidente para uma emboscada mortal montada pelos seus maridos e vizinhos pró-governo ( Globe and Mail, 28/03/11 e McClatchy News Service, 29/03/11).

Os 'rebeldes', que entram nas aldeias, são considerados invasores, que arrombam portas, fazem explodir casas e prendem e acusam os líderes locais de serem 'comunistas da quinta coluna' a favor de Kadafi. A ameaça da ocupação militar 'rebelde', a detenção e a violência sobre as autoridades locais e a destruição das relações de família, de clã e da comunidade local, profundamente valorizadas, levaram as milícias líbias e os combatentes locais a atacar os 'rebeldes' apoiados pelo ocidente. Os 'rebeldes' são considerados 'estranhos' em termos de integração regional e de clã; menosprezando os costumes locais, os 'rebeldes' encontram-se pois em território 'hostil'. Que combatente 'rebelde' estará disposto a morrer em defesa de um território hostil? Esses 'rebeldes' só podem pedir à força aérea estrangeira que lhes 'liberte' a aldeia pró-governo.

Os meios de comunicação ocidentais, incapazes de entender essas compensações materiais por parte das forças pró-governo, atribuem o apoio popular a Kadafi à 'coerção' ou 'cooptação', agarrando-se à afirmação dos 'rebeldes' que 'toda a gente se opõe secretamente ao regime'. Há uma outra realidade material, que muito convenientemente é ignorada: A verdade é que o regime de Kadafi tem utilizado a riqueza petrolífera do país para construir uma ampla rede de escolas, hospitais e clínicas públicas . Os líbios têm o rendimento per capita mais alto de África com 14 900 dólares por ano ( Financial Times, 02/04/11).

Dezenas de milhares de estudantes líbios de baixos rendimentos receberam bolsas para estudar no seu país e no estrangeiro. As infra-estruturas urbanas foram modernizadas, a agricultura é subsidiada e os pequenos produtores e fabricantes recebem crédito do governo. Kadafi promoveu esses programas eficazes, para além de enriquecer a sua própria família/clã. Por outro lado, os rebeldes líbios e os seus mentores imperialistas prejudicaram toda a economia civil, bombardearam cidades líbias, destruíram redes comerciais, bloquearam a entrega de alimentos subsidiados e assistência aos pobres, provocaram o encerramento das escolas e forçaram centenas de milhares de profissionais, professores, médicos e trabalhadores especializados estrangeiros a fugir.

Os líbios, mesmo que não gostem da prolongada estadia autocrática de Kadafi no cargo, encontram-se agora perante a escolha entre apoiar um estado de bem-estar, evoluído e que funciona ou uma conquista militar manobrada por estrangeiros. Muito compreensivelmente, muitos deles escolheram ficar do lado do regime.

O fracasso das forças 'rebeldes' apoiadas pelos imperialistas, apesar da sua enorme vantagem técnico-militar, deve-se a uma liderança traidora, ao seu papel de 'colonialistas internos' que invadem as comunidades locais e, acima de tudo, à destruição insensata de um sistema de bem-estar social que tem beneficiado milhões de líbios vulgares desde há duas gerações. A incapacidade de os 'rebeldes' avançarem, apesar do apoio maciço do poder imperialista aéreo e marítimo, significa que a 'coligação' EUA-França-Inglaterra terá que reforçar a sua intervenção, para além de enviar forças especiais, conselheiros e equipas assassinas da CIA. Perante o objectivo declarado de Obama-Clinton quanto à 'mudança de regime', não haverá outra hipótese senão introduzir tropas imperialistas, enviar carregamentos em grande escala de caminhões e tanques blindados e aumentar a utilização de munições de urânio empobrecido, profundamente destrutivas.

Sem dúvida que Obama, o rosto mais visível da 'intervenção armada humanitária' em África, vai recitar mentiras cada vez maiores e mais grotescas, enquanto os aldeões e os citadinos líbios caem vítimas da sua força destruidora imperialista. O 'primeiro presidente negro' de Washington ganhará a infâmia da história como o presidente americano responsável pelo massacre de centenas de líbios negros e da expulsão em massa de milhões de trabalhadores africanos subsaarianos que trabalham para o atual regime ( Globe and Mail, 28/03/11).

Sem dúvida, os progressistas e esquerdistas anglo-americanos vão continuar a discutir (em tom 'civilizado') os prós e os contras desta 'intervenção', seguindo as pisadas dos seus antecessores, os socialistas franceses e os 'new dealers' americanos dos anos 30, que debateram nessa época os prós e os contras do apoio à Espanha republicana… Enquanto Hitler e Mussolini bombardeavam a república por conta das forças fascistas 'rebeldes' do general Franco que empunhava o estandarte falangista da 'Família, Igreja e Civilização' – um protótipo para a 'intervenção humanitária' de Obama por conta dos seus 'rebeldes'.

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[*] Professor Emérito de Sociologia na Universidade de Binghamton, Nova Iorque. É autor de 64 livros publicados em 29 línguas, e mais de 560 artigos em jornais da especialidade, incluindo o American Sociological Review, British Journal of Sociology, Social Research, Journal of Contemporary Asia, e o Journal of Peasant Studies. Já publicou mais de 2000 artigos. O seu último livro é War Crimes in Gaza and the Zionist Fifth Column in America.

Tradução de Margarida Ferreira.

Publicado em Resistir.info
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