Além do Cidadão Kane

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Reflexões de Fidel

O império e o direito à vida dos seres humanos

(Extraído do CubaDebate)
QUE bárbaros! — exclamei quando li até a última linha as revelações do famoso jornalista Seymour Hersh, publicadas em Democracy Now e consideradas como uma das 25 notícias mais censuradas nos Estados Unidos.
O artigo intitula-se "Os crimes de guerra do general dos Estados Unidos Stanley McChrystal" e foi incluído no Projeto Censurado, elaborado por uma universidade da Califórnia, que inclui os parágrafos essenciais daquelas revelações.
"O tenente-general Stanley McChrystal, nomeado comandante responsável pela guerra no Afeganistão por Obama, em maio de 2009, foi anteriormente chefe do Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC), dependente de Dick Cheney [o vice-presidente de George W. Bush]. A maior parte da carreira militar de 33 anos do general McChrystal se mantém classificada [ou seja, secreta], incluindo seus serviços entre 2003 e 2008, como comandante do JSOC, unidade de elite tão clandestina, que por anos o Pentágono recusou-se a reconhecer sua existência. O JSOC é uma unidade especial de ‘operações negras’ [assassinatos] da Navy Seals (Forças Especiais da Marina de Guerra) e da Delta Force [Força Delta, soldados secretos do exército para operações especiais, que formalmente se chama ‘Destacamento-Delta Operacional de Forças Especiais (SFOD-D), enquanto o Pentágono lhe dá o nome de Grupo de Aplicações de Combate, CAG]".
"O vencedor do prêmio Pulitzer de jornalismo, Seymour Hersh, revelou que a administração Bush montou um esquema executivo de assassinatos que dependia diretamente do vice-presidente Dick Cheney e que o Congresso nunca sentiu nenhuma inquietude por indagar. Equipes do JSOC viajavam a diversos países, sem sequer falar com o embaixador nem com o chefe da Estação CIA, com uma lista de pessoas que procuravam, encontravam, matavam, retornando depois. Havia uma lista vigente de pessoas marcada como alvos, elaborada pelo gabinete do vice-presidente Cheney. [...] Houve assassinatos em dezenas de países do Oriente Médio e na América Latina", afirmou Hersh. ‘Existe um decreto executivo, assinado pelo presidente Ford nos anos 70, proibindo tais ações. Isto não só contraria: é ilegal, é imoral, é contraproducente’, acrescentou.
"O JSOC também esteve envolvido em crimes de guerra, incluindo tortura de presos em locais secretos ‘fantasmas’ (ghost) de detenção. O campo Nama no Iraque, operado pelo JSOC sob McChrystal, foi uma de tais instalações ‘fantasmas’, ocultada ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) e acusada de alguns dos piores atos de tortura".
Oficialmente instalaram o major-general em Fort Braga, Carolina do Norte, mas era "um visitante frequente do Campo Nama e de outras bases das forças especiais no Iraque e no Afeganistão, onde tiveram assento as forças sob seu comando".
A seguir, se aborda um ponto de especial interesse, quando tais fatos entram em conflito com funcionários que, no cumprimento de suas funções, eram obrigados a cometer fatos que os enfrentavam abertamente às leis e implicavam graves delitos.
"Um interrogador do Campo Nama descreveu que encerravam os presos em contêineres de navios por 24 horas, em meio do calor extremo, depois eram expostos ao frio extremo encharcando-os periodicamente com água gelada, eram bombardeados com luzes brilhantes e música ruidosa, eram privados do sono e levavam severas surras".
De imediato, são abordadas as flagrantes violações de princípios internacionais e convênios assinados pelos Estados Unidos. Os leitores cubanos lembrarão a história narrada nos dois textos em que relatei nossas relações com a Cruz Vermelha Internacional, à qual devolvemos o alto número de prisioneiros do exército inimigo que caíram em nossas mãos, durante a defesa da Serra Maestra e a contra-ofensiva estratégica posterior contra o exército de Cuba, treinado e abastecido pelos Estados Unidos. Jamais um prisioneiro foi maltratado e nenhum dos feridos deixou de ser atendido logo. Essa mesma instituição, com sede na Suíça, poderia dar fé daqueles feitos.
"O Comitê Internacional da Cruz Vermelha é o corpo encarregado, pelo Direito Internacional, de supervisionar o cumprimento dos Convênios de Genebra e, portanto, tem direito a examinar todas as instalações onde se mantenham os prisioneiros de qualquer país em guerra ou sob ocupação militar".
"Na explicação do por que nenhum outro meio de imprensa tinha coberto esta história, Hersh expressou: ‘Meus colegas na imprensa credenciada com frequência não a acompanham, não porque não queiram, mas porque não sabem a quem chamar. Se estou escrevendo algo sobre o Comando Conjunto de Operações Especiais, que aparentemente é uma unidade classificada, como vão descobri-lo? O governo lhes dirá que tudo o que escrevo é errado ou que isso não podem comentá-lo. É fácil ficar desempregado por essas histórias. Penso que a relação com o JSOC está mudando sob Obama. Agora há mais controle’".
"... a decisão da administração Obama de designar o general McChrystal como novo comandante responsável pela guerra no Afeganistão e a prolongação da jurisdição militar para os detentos dos EUA em sua guerra ao terrorismo, encerrados na prisão da Baía de Guantánamo, desafortunadamente são exemplos de que a administração Obama continua seguindo os passos da de Bush".
"Rock Creek Free Press divulgou, em junho de 2010, que Seymour Hersh, discursando na Conferência Global de Jornalismo Investigativo em Genebra, criticou em abril de 2010 o presidente Barack Obama e denunciou que as forças dos EUA estão cometendo ‘execuções no campo de batalha’".
"‘Aqueles que capturamos no Afeganistão estão sendo executados no campo de batalha’, afirmou Hersh".
Ao chegar a este ponto, a narração entra em contato com uma realidade sumamente atual: a continuidade duma política pelo presidente que sucedeu ao delirante W. Bush, inventor da guerra desatada para se apoderar dos recursos de gás e petróleo mais importantes do mundo, numa região habitada por mais de 2,5 bilhões de habitantes, em virtude de atos cometidos contra o povo dos Estados Unidos por uma organização de homens, recrutados e armados pela CIA para lutar no Afeganistão contra os soldados soviéticos, e que continua desfrutando do apoio dos mais próximos aliados dos Estados Unidos.
A complexa e imprevisível zona cujos recursos são disputados, vai desde o Iraque e o Oriente Médio até os remotos limites da região chinesa de Xinjiang, passando pelo Iraque, Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, Irã e as antigas repúblicas soviéticas de Turcomenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguízia e Tajiquistão, e é capaz de abastecer de gás e petróleo a crescente economia da República Popular da China e à industrializada Europa. A população do Afeganistão, assim como uma parte da do Paquistão, país de 170 milhões de habitantes e possuidor de armas nucleares, é vítima dos ataques de aviões sem piloto ianques que massacram a população civil.
Entre as 25 notícias mais censuradas pela grande mídia, selecionadas pela Universidade Sonoma State da Califórnia — tal como vem fazendo há 34 anos —uma delas, correspondente ao período 2009-2010, foi "Crimes de guerra do general Stanley McChrystal"; e outras duas se relacionam com nossa Ilha: "Meios ignoraram ajuda médica de Cuba em terremoto do Haiti" e "Ainda brutalizam os presos em Guantánamo". Uma quarta afirma: "Obama reduz o gasto social e aumenta o militar".
Nosso ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, foi responsável político da missão médica cubana enviada ao Paquistão, quando um destruidor terremoto golpeou fortemente a rude natureza do nordeste desse país, onde extensas áreas habitadas pela mesma etnia, com igual cultura e tradições, foram divididas arbitrariamente pelo colonialismo inglês em países que depois caíram sob a proteção ianque.
Em seu discurso de 26 de outubro, no seio da ONU, Bruno demonstrou quão excelentemente bem informado está da situação internacional em nosso complexo mundo.
Sua brilhante alegação de ontem e a Resolução aprovada por essa instituição, por sua transcendência, requerem de uma Reflexão que me proponho elaborar.
Fidel Castro Ruz

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Fidel pede aos jovens lutarem para evitar uma guerra nuclear

O comandante-em-chefe Fidel Castro assegurou hoje, 2 de setembro, que é possível vencer na grande batalha por preservar o mundo duma contenda nuclear que resultaria em seu fim, e defender o direito de todos os seres humanos a viver.

A ponto de completar-se 65 anos de seu ingresso no ensino superior, o líder cubano retornou à Universidade de Havana, onde, como já ele disse outras vezes e reafirmou nesta manhã, tornou-se revolucionário e descobriu seu verdadeiro destino, e dali instou novamente a governos e povos a salvarem a paz, a vida e o futuro.

"O tempo de que dispõe a Humanidade para travar esta batalha é incrivelmente limitado", advertiu o primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, referindo-se ao perigo real e iminente de outra guerra no Oriente Médio, cujas conseqüências para o mundo são imprevisíveis e podem ser catastróficas.

Envergando roupa verde-oliva, aos pés do monumento à Alma Máter e perante uma entusiástica multidão que lotou a histórica escada e suas proximidades, Fidel leu sua mensagem aos estudantes universitários de Cuba, que é também um apelo a lutar contra aqueles que impuseram ao mundo um sistema que ameaça hoje a sobrevivência mesma do planeta e da espécie humana.

"Estamos aqui para convencer, dissuadir e evitar uma guerra que fará finita a esperança, para demonstrar que o amor à vida é devoção de todos", afirmou por seu lado a presidenta da Federação Estudantil Universitária (FEU), de Cuba, Maydel Gómez Lago.

"Até o último minuto estaremos exigindo o direito à vida, não queremos morrer desta maneira absurda, queremos tornar realidade nossos sonhos", enfatizou a jovem. E apelando ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, exigiu-lhe fazer uso da faculdade que tem de impedir que em poucos dias a guerra seja o drama de todos.

Aos universitários do mundo inteiro instou a aderirem a esta luta e expressou: "Temos o direito de lutar por nosso futuro, temos o dever de construí-lo. Ainda estamos a tempo. Lutemos pela paz, a vida não perdoará que façamos menos".

O diretor da revista Alma Máter, voz dos universitários cubanos, Yoerky Sánchez Cuéllar, falou também, mas em versos, para exigir do inquilino da Casa Branca, não só que não puxe o gatilho, mas também a destruição de todas as armas nucleares.

"O senhor deve escutar Fidel, que não está sendo alarmista e tampouco catastrofista, mas que vê que este mundo pode sumir num segundo se a paz não for conquistada", refletiu em décimas o jovem, também deputado à Assembléia Nacional do Poder Popular.

"Cá estamos, comandante cá está sua juventude que sente a gratidão de vê-lo tão saudável, de escutá-lo a cada instante, de ler suas Reflexões, de conhecer as razões pelas quais está preocupado e de tê-lo acompanhado nestas novas missões", concluiu.

Original em Granma
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sábado, 21 de agosto de 2010

A ONU, a impunidade e a guerra

A Resolução 1929 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de 9 de junho de 2010, marcou o destino do imperialismo.

Sei lá quantos terão se apercebido de que, entre outras coisas absurdas, o secretário-geral dessa instituição, Ban Ki-moon, cumprindo ordens superiores, cometeu a gafe de nomear Álvaro Uribe — quando este estava quase concluindo seu mandato — vice-presidente da comissão responsável por investigar o ataque israelense à pequena frota humanitária, que transportava alimentos essenciais para a população sitiada na faixa de Gaza. O ataque ocorreu em águas internacionais, a uma distância considerável da costa.

Essa decisão outorgava impunidade a Uribe, quem é acusado de crimes de guerra, como se um país cheio de valas comuns com cadáveres de pessoas assassinadas, algumas contendo até duas mil vítimas, e sete bases militares ianques, mais o resto das bases militares colombianas a seu serviço, não tivesse nada a ver com o terrorismo e o genocídio.


Por outro lado, em 10 de junho de 2010, o jornalista cubano Randy Alonso, que dirige o programa "Mesa Redonda" da televisão nacional, escreveu no site CubaDebate um artigo intitulado: "O chamado Governo Mundial se reuniu em Barcelona", onde sublinha:

"Chegaram até o confortável hotel Dolce em carros de luxo com vidraças fumadas ou em helicópteros."

"Eram os mais de 100 chefões da economia, das finanças, da política e da mídia da América do Norte e da Europa, que vieram até este lugar para a reunião anual do Clube de Bilderberg, uma espécie de governo mundial à sombra."

Outros jornalistas honestos estavam acompanhando igual do que ele as notícias que conseguiram filtrar-se do esquisito encontro. Alguém muito mais informado do que eles andava no encalço desses eventos havia muitos anos.

"O exclusivo Clube que se reuniu em Sitges nasceu em 1954. Surgiu da idéia do conselheiro e analista político Joseph Retinger. Seus impulsores iniciais foram o magnata norte-americano David Rockefeller, o príncipe Bernardo de Holanda e o primeiro-ministro belga, Paul Van Zeeland. Seus propósitos fundacionais eram combater o crescente ‘anti norte-americanismo’ que existia na Europa da época e contestar a União Soviética e o comunismo que cobrava força no velho continente."

"Sua primeira reunião foi realizada no Hotel Bilderberg, em Osterbeck, Holanda, entre 29 e 30 de maio de 1954. Daí saiu o nome do grupo, que desde então se reúne anualmente, salvo em 1976."


"Há um núcleo de afiliados permanentes que são os 39 membros do Steering Comittee, o resto são convidados."

"… a organização exige que ninguém ‘conceda entrevistas’ nem revele nada do que ‘um participante individual tenha dito’. É requisito imprescindível um domínio excelente da língua inglesa [...] não há tradutores presentes."


"Não se sabe ao certo os alcances reais do grupo. Os estudiosos do ente dizem que não é por acaso que se reúnam sempre pouco antes do que o G-8 (G-7 anteriormente) e que procuram uma nova ordem mundial de governo, exército, economia e ideologia única."


"David Rockefeller disse em uma reportagem à revista ‘Newsweek’: ‘Algo deve substituir os governos e parece-me que o poder privado é a entidade adequada para fazê-lo."


"…o banqueiro James P. Warburg afirmou: ‘Quer gostem quer não, teremos um governo mundial. A única questão é se será por concessão ou por imposição."

"‘Eles sabiam dez meses antes a data exata da invasão ao Iraque; também o que ia acontecer com a bolha imobiliária. Com informação como essa se pode fazer muito dinheiro em toda classe de mercados. E é que falamos de clubes de poder e de saber’.

"Para os estudiosos, um dos temas que mais preocupa o Clube é a ‘ameaça econômica’ que significa a China e a sua repercussão nas sociedades norte-americana e européias.


"A sua influência na elite é demonstrada por alguns com o fato de que Margaret Thatcher, Bill Clinton, Anthony Blair e Barack Obama estiveram entre os convidados ao Clube antes que fossem eleitos à mais alta responsabilidade governamental, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Obama participou da reunião de junho de 2008, em Virgínia, EUA, cinco meses antes de sua vitória eleitoral e seu triunfo se previa já desde a reunião de 2007."


"Entre tanto sigilo, a imprensa foi tirando nomes daqui e dali. Entre os que chegaram a Sitges estavam importantes empresários como os presidentes da Fiat, Coca Cola, France Telecom, Telefônica da Espanha, Suez, Siemens, Shell, Novartis e Airbus.

"Também se reuniram gurus das finanças e da economia como o famoso especulador George Soros, os assessores econômicos de Obama, Paul Volcker e Larry Summers; o flamante secretário do Tesouro Britânico, George Osborne; o ex-presidente da Goldman Sachs e da British Petroleum, Peter Shilton [...] o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellic; o diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn; o diretor da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy; o presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet; o presidente do Banco Europeu de Investimentos, Philippe Maystad."

Sabiam disso nossos leitores? Algum órgão importante da imprensa oral ou escrita disse uma palavra? É essa a liberdade de imprensa que tanto apregoam no Ocidente? Algum deles pode negar que estas reuniões sistemáticas dos mais poderosos financistas do mundo são realizadas todos os anos, à exceção do ano mencionado?


"O poder militar enviou alguns dos seus falcões — continua Randy —: o ex-secretário de Defesa de Bush, Donald Rumsfeld; seu subalterno, Paul Wolfowitz; o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen e seu antecessor no cargo, Jaap de Hoop Scheffer."

"O magnata da era digital Bill Gates, foi o único assistente que falou alguma coisa à imprensa antes do encontro. ‘Sou um dos que estará presente’, disse e anunciou que ‘Sobre a mesa haverá muitos debates financeiros’."

"Os especuladores da notícia falam de que o poder na sombra analisou o futuro do euro e as estratégias para salvá-lo; a situação da economia européia e o rumo da crise. Sob a religião do mercado e o auxílio dos drásticos recortes sociais se deseja continuar prolongando a vida do doente.

"O coordenador da Esquerda Unida da Espanha, Cayo Lara, definiu com clareza o mundo que nos impõem os Bilderberg: ‘Estamos no mundo ao avesso; as democracias controladas, tuteladas e pressionadas pelas ditaduras dos poderes financeiros’."


"O mais perigoso que foi publicado no jornal espanhol Público é o consenso majoritário dos membros do Clube a favor de um ataque norte-americano ao Irã [...] Lembre-se que os membros do Clube sabiam, em 2003, a data exata da invasão ao Iraque, dez meses antes que acontecesse".


É por acaso uma invenção caprichosa a idéia, quando isto se soma a todas as evidências expostas nas últimas Reflexões? A guerra contra o Irão está já decidida nos altos círculos do império, e apenas um esforço extraordinário da opinião mundial poderia impedir que estoure num prazo de tempo muito breve. Quem oculta a verdade? Quem é que engana? Quem é que mente? Alguma coisa do que aqui é afirmado pode ser desmentida?

Fidel Castro

Original em Granma
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sábado, 17 de julho de 2010

A origem das guerras

Fidel Castro Ruz

NO dia 14 de julho afirmei que nem os Estados Unidos nem o Irã cederiam; "um pelo orgulho dos poderosos e o outro pela resistência ao jugo e a capacidade para combater, como ocorreu tantas vezes na história..."

Em quase todas as guerras uma das partes deseja evitá-la, e às vezes, as duas. Nesta ocasião teria lugar, embora uma das partes não o desejasse, mesmo como aconteceu nas duas guerras mundiais de 1914 e 1939, com apenas 25 anos de distância entre a primeira e a segunda conflagração.

As chacinas foram horrendas, não se teriam desatado sem erros prévios de cálculo. As duas defendiam interesses imperialistas e achavam que atingiriam seus objetivos sem o custo terrível que implicaram.

No caso que nos ocupa, uma das partes defende interesses nacionais, totalmente justos. A outra tem como objetivo propósitos bastardos e grosseiros interesses materiais.

Fazendo uma análise de todas as guerras que tiveram lugar, partindo da história conhecida de nossa espécie, uma delas procurou esses objetivos.

São absolutamente vãs as ilusões de que, nesta ocasião, esses objetivos serão atingidos sem a mais terrível de todas as guerras.

Em um dos melhores artigos publicados no site Web Global Research, quinta-feira, 1º de julho, assinado por Rick Rozoff, ele utiliza abundantes e inapeláveis elementos de juízo acerca dos propósitos dos Estados Unidos, que toda pessoa bem informada deve conhecer.

"... Pode-se vencer se um adversário sabe que é vulnerável a um ataque instantâneo e indetectável, abrumador e devastador, sem a possibilidade de se defender ou de exercer retaliações", é o que os Estados Unidos pensam, segundo o autor.

"... Um país que aspira a seguir sendo o único Estado na história que exerce a dominação militar de espectro completo na terra, no ar, nos mares e no espaço."

"Que mantém e estende bases militares e tropas, grupos de combate de porta-aviões e bombardeiros estratégicos sobre e em quase cada latitude e longitude. Que o faz com um orçamento de guerra recorde posterior à Segunda Guerra Mundial de US$ 708 trilhões para o próximo ano."

Foi “...o primeiro país que desenvolveu e utilizou armas atômicas..."

"... os Estados Unidos conservam 1.550 ogivas nucleares desdobradas e mais 2.200 (outras estimativas falam em 3.500) armazenadas, e uma tríade de veículos de lançamento terrestres, aéreos e submarinos."

"O arsenal não nuclear utilizado para neutralizar e destruir as defesas aéreas e estratégicas, potencialmente todas as forças militares importantes de outras nações, consistirá em mísseis balísticos intercontinentais, mísseis balísticos adaptados para o lançamento desde submarinos, mísseis cruzeiro e bombardeiros hipersônicos, e bombardeiros estratégicos ‘super-stealth’ capazes de driblarem a detecção por radar e assim evitarem as defesas de terra e ar."

Rozoff enumera as abundantes entrevistas coletivas, reuniões e declarações, nos últimos meses, dos chefes do Estado Major Conjunto e de oficiais executivos de alta patente do governo dos Estados Unidos.

Explica os compromissos com a OTAN, e a cooperação reforçada dos parceiros do Oriente Próximo, leia-se em primeiro lugar Israel. Ele diz que: "os Estados Unidos também intensificam os programas de guerra espacial e cibernética, com o objetivo de paralisar os sistemas de vigilância e comando militar, de controle, das comunicações, informáticos e de inteligência de outras nações, levando-as a ficarem indefesas em todos os âmbitos, fora do fator tático mais básico."

Fala da assinatura em Praga, no dia 8 de abril deste ano, do novo Tratado START entre e Rússia e os Estados Unidos, que "’... não contém nenhuma restrição quanto ao potencial atual ou planejado de ataque global imediato convencional dos Estados Unidos. ‘"

Comenta inúmeras notícias relacionadas com o tema, e demonstra com um exemplo desconcertante os propósitos dos Estados Unidos.

Assinala que "... ‘O Departamento da Defesa explora atualmente toda a gama de tecnologias e sistemas para adquirir a capacidade de Ataque Global Imediato Convencional que poderia oferecer ao presidente opções mais verossímeis e tecnicamente adequadas para encarar ameaças novas e em desenvolvimento."

Sustento o critério de que nenhum presidente, nem sequer o mais experiente chefe militar, teria um minuto para saber o que deverá ser feito se não estiver já programado nos computadores.

Rozoff, imperturbável, relata o que afirma a Global Security Network, numa análise intitulada: "’O custo de ensaiar um míssil estadunidense de ataque global poderia atingir os 500 milhões de dólares"’ de Elaine Grossman.

"‘O governo de Obama solicitou US$ 239.9 bilhões para pesquisa e desenvolvimento do ataque global imediato por parte dos serviços militares, no ano fiscal 2011... Se os níveis de financiamento se mantiverem como foram antecipados nos próximos anos, o Pentágono terá gastado US$ 2 bilhões no ataque global imediato para o fim do ano fiscal 2015, segundo documentos orçamentários apresentados no mês passado ao Congresso’."

"Uma situação hipotética horrenda, comparável aos efeitos de um ataque de PGS, da versão baseada no mar, apareceu descrita, há três anos, na revista Mecânica Popular:

"No Pacífico, emerge um submarino nuclear da classe Ohio, pronto para a ordem de lançamento do presidente. Quando chega a ordem, o submarino dispara um míssil Trident II de 65 toneladas. Depois de 2 minutos, o míssil voa a mais de 22.000 quilômetros por hora. Acima dos oceanos e fora da atmosfera acelera durante milhares de quilômetros.

"’ Na cúspide da parábola, no espaço, as quatro ogivas do Trident se separam e começam a descer rumo ao planeta.

"’ Voando a 21.000 km/h, as ogivas vão repletas de barras de tungstênio com o dobro da resistência do aço.

"’ Já sobre o alvo, as ogivas explodem, fazendo chover na área milhares de barras — cada uma com 12 vezes a força destruidora de uma bala de calibre 50. Tudo o que se encontra na área de 279 metros quadrados dessa vertiginosa tormenta metálica é aniquilado. ’"

A seguir, Rozoff comenta a declaração feita no dia 7 de abril deste ano pelo chefe do Estado Maior conjunto das forças armadas russas, general Leonid Ivashov, em um artigo intitulado "’A surpresa nuclear de Obama’ "

Nele faz referência ao discurso do presidente dos Estados Unidos em Praga, no ano passado, com as palavras seguintes: "A existência de milhares de armas nucleares é o legado mais perigoso da Guerra Fria’ — e a assinatura do acordo START II, na mesma cidade, em 8 de abril, o autor disse:

"Não se pode descobrir na história dos Estados Unidos, durante o século passado, um só exemplo de serviço sacrificador das elites estadunidenses para a humanidade ou para os povos de outros países. Seria realista esperar que a chegada de um presidente afro-estadunidense à Casa Branca mude a filosofia política do país, norteada tradicionalmente a conseguir a dominação global? Os que acreditam que algo semelhante seja possível deveriam tentar compreender por que os Estados Unidos — o país com um orçamento militar maior do que os de todos os demais países do mundo em seu conjunto — continuam gastando avultadas somas de dinheiro em preparativos para a guerra’."

"... ‘O conceito de Ataque Global Imediato prevê um ataque concentrado utilizando vários milhares de armas convencionais de precisão, entre duas e quatro horas, que destruiria a infra-estrutura crítica do país alvo e assim o obrigaria a capitular’."

"’O conceito do Ataque Global Imediato tem o propósito de assegurar o monopólio dos Estados Unidos no campo militar e ampliar a fenda entre esse país e o resto do mundo. Em combinação com o desdobramento de mísseis de defesa, os quais, supostamente, deveriam manter os Estados Unidos imunes contra retaliações da Rússia e da China, a iniciativa de Ataque Global Imediato converterá Washington num ditador global da era moderna’."

"’Essencialmente, a nova doutrina nuclear dos Estados Unidos é um elemento da nova estratégia de segurança dos Estados Unidos, que seria descrita de modo mais adequado como a estratégia da impunidade total. Os Estados Unidos aumentam seu orçamento militar, deixam a OTAN de mãos livres, como gendarme global, e planejam exercícios numa situação real no Irã para testar, na prática, a eficiência da iniciativa de Ataque Global Imediato. Ao mesmo tempo, Washington fala de um mundo totalmente livre de armas nucleares’."

Na essência, Obama pretende enganar o mundo falando de uma humanidade livre de armas nucleares, que seriam substituídas por outras muito mais destruidoras, porém idôneas para aterrorizar os que dirigem os Estados e atingir a nova estratégia de impunidade total.

Os ianques acham que a rendição do Irã será em breve. Espera-se que a União Européia informe sobre um pacote de sanções próprias, a ser assinado em 26 de julho.

O último encontro de 5+1 teve lugar no dia 2 de julho, depois que o presidente iraniano Mahmud Ahmadineyad afirmasse que "seu país voltará às conversações no final de agosto, com a participação do Brasil e da Turquia".

Um alto funcionário da UE "advertiu que nem o Brasil nem a Turquia serão convidados para participarem nas conversações, pelo menos não nesta altura."

"O chanceler iraniano Manouchehr Mottaki, declarou-se ser a favor do desafio às sanções internacionais e continuar o enriquecimento de urânio."

Desde terça-feira 5 de julho alegam, perante a reiteração européia, que promoverão medidas adicionais contra o Irã; mas esse país respondeu que não negociará até setembro.

Cada dia diminuem mais as possibilidades de ultrapassar o insuperável obstáculo.

O que acontecerá é tão evidente que pode ser previsto de maneira quase exata.

Da minha parte, devo fazer-me uma autocrítica, errei ao afirmar na Reflexão de 27 de junho que na quinta-feira, na sexta ou a mais tardar o sábado se desencadearia o conflito. Era bem conhecido que navios de guerra israelenses navegavam rumo a esse objetivo, juntamente com as forças navais ianques. A ordem de revisar os navios mercantes iranianos já tinha sido dada.

Não reparei, contudo, que havia um passo prévio: a constância da negação da licença para a inspeção dos navios mercantes por parte do Irã. Na análise da tortuosa linguagem do Conselho de Segurança, impondo sanções contra esse país, não percebi esse detalhe para que a ordem de inspeção adquirisse total vigência. Era o único que faltava.

No dia 8 de agosto cumpre-se o prazo de 60 dias, dado pelo Conselho de Segurança em 9 de junho, para receber a informação sobre o cumprimento da Resolução.

Mas aconteceria algo mais lamentável. Eu trabalhava com o último material elaborado sobre o delicado tema pelo Ministério das Relações Exteriores de Cuba e o citado documento não continha dois parágrafos chaves que eram os últimos dessa resolução e expressam na íntegra:

"Solicita que, num prazo de 90 dias, o diretor-geral da OIEA apresente à Junta de Governadores da OIEA e, paralelamente, ao Conselho de Segurança, para ser examinado, um relatório no qual fique demonstrado que o Irã suspendeu total e categoricamente todas as atividades mencionadas na resolução 1737 (2006), e que esteja aplicando todas as medidas que exige a Junta de Governadores da OIEA e cumprindo as outras disposições das resoluções 1737, 1747, 1803 e da presente resolução;

"Afirma que examinará as ações do Irã à luz do relatório mencionado no parágrafo 36, a ser apresentado em 90 dias, e que: a) suspenderá a implementação das medidas se o Irã cessar todas as atividades relacionadas com o enriquecimento e o reprocessamento, inclusive a pesquisa e o desenvolvimento, e enquanto durar a suspensão, que verificará a OIEA, de forma a possibilitar negociações de boa fé, a fim de chegar a um resultado em breve e mutuamente aceitável;

b) deixará de aplicar as medidas especificadas nos parágrafos 3, 4, 5, 6, 7 e 12 da resolução 1737, bem como nos parágrafos 2, 4, 5, 6, e 7 da resolução 1747, nos parágrafos 3, 5, 7, 8, 9, 10 e 11 da resolução 1803 e nos parágrafos 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 22, 23 e 24 da presente resolução, logo que o determinar, após receber o relatório mencionado no parágrafo anterior, que o Irã cumpriu totalmente suas obrigações em virtude das resoluções do Conselho de Segurança e as exigências da Junta de Governadores da OIEA, quando confirmado pela própria Junta; e c) caso o relatório indicar que o Irã descumpriu o disposto nas resoluções 1737, 1747, 1803 e na presente Resolução, adotará segundo o Artigo 41 do Capítulo VII da Carta das Nações Unidas outras medidas para persuadir o Irã a cumprir o disposto nessas resoluções e as exigências da OIEA, e sublinha que deverão ser adotadas outras decisões, caso tais medidas adicionais forem necessárias..."

Algum companheiro do Ministério, após o trabalho esgotante de muitas horas na máquina tirando cópias de todos os documentos, dormiu. Meu afã de buscar informação e trocar pontos de vista sobre estes delicados temas permitiu-me descobrir esta omissão.

Acho que os Estados Unidos e seus aliados da OTAN disseram a última palavra. Dois estados poderosos com autoridade e prestígio não exerceram seu direito de vetar a pérfida resolução da ONU.

Era a única possibilidade de ganhar tempo para buscar alguma fórmula para salvar a paz, objetivo que lhes proporcionaria maior autoridade para continuar lutando em favor dela.

Hoje todo está suspenso de um tênue fio.

Meu propósito principal foi advertir a opinião pública internacional do que estava acontecendo.

Consegui-o em parte observando o que acontecia, como dirigente político que fui durante longos anos enfrentando o império, seu bloqueio e seus crimes inqualificáveis. Mas, não o faço por vingança.

Não hesito em correr os riscos de comprometer minha modesta autoridade moral.

Continuarei escrevendo Reflexões sobre o tema. Serão várias mais depois desta, para continuar aprofundando, em julho e agosto, salvo se ocorresse algum incidente que ponha em funcionamento as mortíferas armas que hoje estão apontando umas às outras.

Desfrutei muito os jogos finais da Copa Mundial de Futebol e a de vôlei, onde nossa valente seleção lidera seu grupo na Liga Mundial desse esporte.

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Fidel diz que Israel se compara aos nazistas com seu ódio aos palestinos

O ex-presidente de Cuba Fidel Castro disse que "a suástica do Führer (Hitler) parece com a bandeira de Israel hoje" na sua tradicional coluna "Reflexões", divulgada nesta sexta-feira pelos meios de comunicação oficiais da ilha.

"O ódio do Estado de Israel contra os palestinos é tal que não vacilariam em enviar o milhão e meio de homens, mulheres e crianças desse país aos crematórios nos quais milhões de judeus de todas as idades foram exterminados pelos nazistas", afirma Fidel em sua última coluna.

O comandante escreve assim a propósito do ataque "brutal", nas suas palavras, de forças de elite israelenses a uma frota que tentava romper o cerco de Israel a Gaza para levar ajuda humanitária aos habitantes do território palestino.

Fidel assegura que estas opiniões sobre Israel não nascem do ódio, mas "do sentimento de um país que se solidarizou e prestou auxílio aos judeus nos duros dias da Segunda Guerra Mundial quando o Governo pró-americano de Batista tratou de enviar de volta de Cuba uma embarcação carregada deles, que escapavam da França, Bélgica e Holanda por causa da perseguição nazista".

No artigo, o ex-presidente também se refere às novas sanções ao Irã impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas devido ao programa nuclear de Teerã e, na linha das últimas colunas, afirma que "uma nova e tenebrosa etapa se abre para o mundo".

O líder cubano responsabiliza os Estados Unidos pela "idéia aventureira" de criar em Israel, na década de 50, "um germe no Oriente Médio que hoje ameaça uma parte considerável da população mundial e é capaz de atuar com a independência e o fanatismo que o caracterizam".

Fidel, aos 83 anos, está afastado da vida pública desde 2006 por causa de uma doença que o levou a ceder o poder a seu irmão Raúl, embora ainda seja secretário do governista Partido Comunista.


Esta é a quinta coluna "Reflexão" do líder cubano publicada em menos de 15 dias.


Publicado em Solidários

quarta-feira, 31 de março de 2010

Depoimento de um brasileiro que viveu três anos em Cuba

Guilherme Soares Silveira Bueno

Eu gostaria de me expressar um pouco aqui sobre os comentários desta recém famosa blogueira cubana (Yioani Sánchez). Eu sou saxofonista, morei três anos na ilha, sem visitar o Brasil neste período, estudei música no ISA (Instituto Superior de Arte de Havana), antigo clube de campo dos turistas norte-americanos antes de 1959.

Fiquei a maioria do tempo em Havana, onde eu estudava, mas em um dos períodos de férias, com a mochila nas costas e pedindo carona, atravessei durante quase dois meses a ilha inteira, de ponta a ponta, passando por todas as capitais e outros lugares, como Placetas, Puerto Padre, Mayarí e Chivirico.

Tentei me manter o mais longe possível dos programas turísticos, pois queria conhecer a Cuba vivida pelos cubanos. Nos três anos em que lá estive minha convivência foi basicamente com os cubanos, no ISA não tem muitos estrangeiros e eu era o único brasileiro.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que considero o conteúdo do blog desta cubana uma piada pra quem já viveu em Cuba. Ela criticou a educação em Cuba? O sistema de saúde cubano? A violência na ilha? Não minha gente, não, isso só pode ser piada. Voltei há sete meses de Havana e ontem estava em um consultório médico quando resolvi folhear a droga da revista da manipuladora VEJA e lá estava a blogueira. Escreveu que foi agredida numa manifestação contra a violência.

Manifestação contra a violência em Cuba? Nossa meus amigos, sinto muito, eu vivi três anos na ilha, sou músico, portanto, freqüentava muito os bares nas noitadas de Havana (sempre regadas de muita música), andando por toda a cidade durante a madrugada: foram três anos, e nesses três anos e eu não vi nem sequer uma briga, nem sequer um tapa, nem sequer um puxão de cabelo, e essa cubana me vem dizer que estava numa manifestação contra a violência? Só pode ser piada mesmo.

Até mesmo os cubanos que são contra o regime (na sua imensa maioria jovens que não viveram o país antes de 1959 e que sonham em ir para os EUA, enriquecer, comprar carros luxuosos, jóias, mansões, roupas de grife, etc.) sempre me diziam nas discussões: "Isso é verdade, aqui não deixam ninguém morrer, se você tem algum problema eles te curam" ou "Aqui não precisa ficar preocupado, se tem alguma coisa de bom em Cuba é que é um lugar seguro, aqui não tem a violência do seu país" ou "É verdade, aqui te dão educação grátis e de excelente qualidade, mas não te deixam prosperar, o que significava ganhar muito dinheiro, enriquecer e consumir. Esse desejo surgiu ou intensificou a partir do contato com os milhares de turistas que a ilha recebe por ano e, como o próprio Fidel Castro diz, o turismo foi um mal necessário. Prosperar para nós não é conhecer, aprender e produzir e sim ganhar mais e mais dinheiro para consumir cada vez mais".

Que tristeza ver no que nos transformamos, estamos perdendo a essência do ser humano para enraizar uma essência de consumo, destruindo cada vez mais o nosso planeta e se importando cada vez menos com as milhares de pessoas que não têm nem um prato de comida na mesa, quando têm mesa.

É triste pensar que tantas pessoas que lutaram muito durante uma época bastante conturbada em nosso país, só estavam lutando contra uma ditadura e não contra a desigualdade social, a exploração das pessoas, a miséria, a falta de moradia, a fome. Já em Cuba é muito fácil perceber que estas lutas são claramente as prioridades do governo cubano, se necessita muita falta de sensibilidade para não enxergar isso. Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção quando cheguei a Havana, foi a aparência das pessoas que encontrava pelas ruas.

Percebi que todos tinham uma boa pele, os dentes brancos e em perfeito estado. Tinham a aparência de pessoas fortes e como são fortes os cubanos. Altos e fortes. Logo pensei: "Ué! cadê a fome? Acredito que gente que passa fome, não cresce tanto. Notei isso em todos os lugares que passei, em muitas outras províncias, e não somente em Havana.

Moro na cidade de São Paulo, já viajei para vários outros Estados, e em todas as capitais vi crianças pedindo esmola no farol, crianças morando em baixo de viaduto, crianças vagando pela cidade em plena madrugada.

Eu andei aquela ilha toda e as crianças que encontrei usavam uniforme, o que significava que eram escolares, e caminhavam acompanhadas pelo pai ou pela mãe ou por ambos. Uma vez, indo para Alamar um cartaz na rodovia exibia o índice mundial de crianças que passavam fome e terminava com a seguinte afirmação: "Nenhuma delas é cubana". Eu não vi fome naquele lugar, não vi ninguém esbanjando comida na geladeira, é verdade, mas fome eu não vi. Gente que não toma café, almoça e janta todos os dias? Isso não existe em Cuba.

Nas vezes em que precisei de atendimento médico em Cuba, fui atendido mais rapidamente e melhor que no hospital São Luiz, mesmo tendo aqui um plano de saúde que não é top de linha, mas está logo abaixo. Lá, não tive que pagar pelo atendimento mesmo sendo estrangeiro.

Um amigo espanhol, que estudou comigo, tratou inclusive dos dentes, já que lá todo tratamento é gratuito e na Espanha, assim como no Brasil, a maioria dos planos de saúde não cobre o tratamento dentário. Eu só queria ver essa blogueira na fila do SUS esperando pra fazer uma cirurgia importante, sem saber quando será realizada.

Uma das acusações mais comuns dirigidas ao governo Cubano, é o cerceamento da liberdade de expressão, a frase "liberdade de expressão" virou um slogan contra o regime cubano. Do meu ponto de vista, nada mais contraditório que um brasileiro criticando a liberdade de expressão em Cuba.

O Brasil atualmente, segundo dados de 2008 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, possui 10,0% (cerca de 19,1 milhões) de analfabetos e 21,0% (cerca de 40 milhões) de analfabetos funcionais (só sabem assinar o nome). O primeiro passo para a extensão da plena liberdade de expressão de toda a população é a educação. Se um País não dá a possibilidade à grande parte da população (os abaixo da linha da pobreza) para aprender a ler, a escrever, a adquirir conhecimento, a fazer esportes, a aprender formas de arte, se um país não oferece condições mínimas de vida a uma grande massa da população obrigando-a a se preocupar, cotidiana e diuturnamente, apenas com o risco de não ter uma ração alimentar mínima, por falta de dinheiro, está CERCEANDO as possibilidades de liberdade de expressão, que passa ser privilégio dos bem aquinhoados.

Além disso, qual liberdade de expressão nós temos no Brasil? Fora poucas revistas que são lidas por uma minoria quase insignificante, qual o grande meio de comunicação que atinge as grandes massas e que divulgam além do que os grandes conglomerados jornalísticos permitem que seja divulgado?

E tudo isso com um agravante, o mundo cerca a ilha e "ninguém" quer que aquilo dê certo. Depois da queda da União Soviética, Cuba, que economicamente era dependente do seu governo (recebia cerca de 4 a 6 bilhões de dólares anuais em 1990), ficou sem nada, em situação social de calamidade, o chamado "Período Especial", de 1990 a 1996. É preciso analisar toda a evolução de um país que não tinha nada naquela época e hoje mantém uma qualidade de vida, em termos de necessidades essenciais como moradia, saúde, educação e cultura que Cuba tem, você vai ver que não existe país no mundo que melhorou tanto e segue melhorando.

Seu PIB é de 51 bilhões de dólares (o do Brasil é de 2 trilhões de dólares) e, mesmo assim, Cuba ostenta um alto Índice de Desenvolvimento Humano (acima de 0,800); em 2007 o IDH de Cuba foi 0,863 (51° lugar ? 44º se ajustado pelo PNB). Com uma renda tão baixa, se o governo fosse corrupto, o país não seguiria nesta direção, nós brasileiros devíamos saber bem disso. Desenvolvimento econômico não está necessariamente ligado ao desenvolvimento social e Cuba provou isso.

A ilha consegue esse alto índice de desenvolvimento humano no seu país sem instalar grandes corporações, como acontece na maioria esmagadora dos países de terceiro mundo, onde podem pagar um salário baixíssimo para seus funcionários, sugar a matéria prima e pagar baixos impostos.

Pelo contrario, Cuba ainda exporta milhares de médicos, que viajam em missões de solidariedade para centenas de lugares do mundo todo, em países onde se o sistema de saúde não é ruim, ele simplesmente não existe. Mas sobre isso a VEJA não faz uma reportagem, também não faz uma reportagem sobre os milhares de estudantes de classes sociais muito baixas, que provêem de todos os países latino-americanos, inclusive brasileiros, que vão para Cuba estudar medicina e outras centenas em outros cursos, todos eles financiados pelo governo cubano, ganhando moradia, salário mensal, café, almoço, jantar e produtos para higiene pessoal.

Todos esses estudantes estão se formando em Cuba sem pagar um centavo. A universidade de medicina de Cuba é uma das mais bem conceituadas no mundo e a sua valorização em âmbitos internacionais é muito maior que as universidades brasileiras, um médico cubano na Europa consegue trabalho sem dificuldades, mesmo nos dias difíceis que vivemos, isso porque o sistema público de saúde cubano é considerado um dos mais eficazes do mundo.

Ainda assim os mais de mil estudantes brasileiros que estão se formando em Cuba estão encontrando dificuldades para validar seus diplomas no Brasil, sob a alegação de que os brasileiros que estudam em instituições cubanas se formam médicos generalistas básicos; todos os que conhecem o curso que eles fazem em Cuba sabem que isso é uma grande mentira, o que ninguém publica é a verdade, a verdade é que medicina no Brasil é coisa para quem tem dinheiro para pagar, a grande minoria. Com a chegada de médicos brasileiros formados em Cuba, com o projeto de suprir cerca de mil vagas de médicos em comunidades indígenas no interior do país, essa tradição começa a ser rompida e aumenta a tendência de um barateamento no sistema médico do país, mas não, para a maioria do congresso é melhor as pessoas continuarem morrendo do que os custos médicos serem mais baratos

Se eu fosse citar todas as vantagens que a ilha tem sobre nós eu teria que parar de tocar saxofone para me dedicar a escrever um livro, descrevendo todos os detalhes que, na verdade, não são tão detalhes assim, mas que passam despercebidos pelos olhares de muitas pessoas que viajam para lá com uma visão preconceituosa, elitista e não percebem coisas simples, como as crianças brincando pelas ruas de Havana, correndo pra cima e pra baixo, sem sequer seus pais se preocuparem; não importa se têm 5, 10 ou 15 anos, nada vai acontecer com eles lá fora, nenhum menino de 9 anos vai fumar crack e muito menos vender quinquilharias nas esquinas: isso não chega lá, as crianças em Cuba estão na escola, onde elas devem estar.

O narcotráfico, um dos maiores problemas mundiais, em Cuba não entra, o tráfico de drogas é praticamente inexistente se comparado com o restante do mundo, não há droga nos bares ou nas festas freqüentadas pelos jovens cubanos, assim como não há as propagandas massivas de bebidas alcoólicas.

Cultura transborda por todos os cantos, teatros, festivais de cinema, poesia, pintura e música estão por todas as partes e os preços dos espetáculos são acessíveis a todos os cidadãos. Tudo isso muita gente não percebe, isso a VEJA não publica, mas quando aparece uma pessoa com afirmações absurdas sobre a ilha, sem nenhuma fonte confiável para provar o que diz, aí sai na primeira pagina em todos os meios de comunicação, essa passa a ser a grande noticia do nosso país, cheio de "liberdade de expressão".

É fácil para um brasileiro que vive em São Paulo, no Morumbi, na Vila Olímpia, em Ipanema ou na Barra da Tijuca sair criticando a ilha e dizendo que aqui está melhor que lá. Claro que sim! Minha família é de classe média e eu também vivo melhor que os cubanos, mas quantos brasileiros vivem como a gente?

Existem milhões e milhões de brasileiros que dariam a vida para ter as oportunidades que o governo cubano dá para seu povo, para ter uma casa como todos os cubanos têm, para ter atendimento médico gratuito de excelente qualidade, para não ter que se preocupar com a escola dos seus filhos, para ter um prato de comida em cima da mesa. Mas não, nós, cegos, preferimos reparar que lá não tem carne de vaca, que só tem carne de frango, peixe e carne porco, que a variedade dos alimentos não é grande como a nossa ou que eles não têm dinheiro pra comprar um Nike, um IPod.

Vocês devem estar se perguntando se eu não tenho nenhuma critica negativa sobre a ilha, eu digo que é obvio que eu tenho varias, com certeza até mesmo o Fidel Castro tem varias criticas negativas ao seu governo.

A questão não são os erros que eles cometeram ou os acertos, a questão é que a luta do governo cubano é pela melhoria na qualidade de vida de todas as pessoas, é um governo que luta pelo seu povo e faz o impossível para manter todas as condições básicas para o ser humano viver com dignidade.

E tudo isso junto com o bloqueio comercial imposto pelos EUA que impede que o avanço na qualidade de vida dos cubanos siga em ritmo mais acelerado. Não é o Fidel que faz mal para a ilha, quem faz mal para a ilha somos todos nós, que a cercamos, a excluímos e seguimos prejudicando-os com nossas políticas internacionais que prejudicam um país que carece de muitos recursos financeiros.

Nós não podemos esquecer de que, antes de fazer criticas sobre a conduta do governo cubano para com seu povo, temos que pensar primeiro no contexto político que viveu e vive a ilha de Cuba; um erro pode significar o fim de mais de cinqüenta anos de luta pela soberania de um povo, o fim de uma população saudável e muito bem educada.

Lembrem-se de que o Haiti já foi o país com a melhor qualidade de vida da América Latina, situação que durou até a política norte-americana "América para os americanos": hoje o Haiti é o país mais pobre da América.

Antes de criticar as limitações impostas pelo governo para a saída dos cubanos do país, informem-se. Em primeiro lugar, os cubanos que tentam visitar familiares nos EUA assim como cubanos que vivem nos EUA e tentam visitar os familiares em Cuba, encontram muito mais resistência por parte do governo norte-americano do que por parte do governo cubano.

Essa resistência se dá pelo fato do governo norte-americano pressionar os cubanos que querem visitar seus familiares a assumir a nacionalidade norte-americana; como muitos só querem ir visitar a família nos EUA e depois voltar acabam tendo muita dificuldade para conseguir o visto. O mesmo acontece com outros países que impõem milhares de restrições para evitar que o cubano consiga o visto para a viagem.

Quem já viveu em Cuba um tempo razoável sabe que isto é verdade, inclusive na televisão cubana passam propagandas insistindo para os norte-americanos liberarem os cubanos que lá vivem para visitar seus familiares em Cuba. Em Cuba existe uma lei que diz que se um cubano sair de Cuba como turista, ele pode ficar, no máximo, onze meses fora do País e, se esse tempo for ultrapassado, ele perde a nacionalidade por um tempo limitado. Muitas pessoas também não compreendem isso.

Lembrem-se que Cuba é um regime Socialista, lá tudo é do Estado e o Estado garante todas as necessidades básicas da população (moradia, comida, educação e saúde); seria injusto que um cubano viajasse, trabalhasse fora, ganhasse bastante dinheiro, e depois voltasse para Cuba usufruir de todas essas vantagens, mas sem contribuir com nada. O Estado é o povo, o povo é o Estado. Com relativa freqüência, muito cubanos que viajam para Espanha ou outros países não voltam mais, pois logo conseguem um bom emprego, graças a excelente educação que tiveram em Cuba, mas os filhos ficam em Cuba.

Quando você pergunta por que eles não foram também, te respondem: "Ah! lá a escola é muito cara, eu não teria condições de pagar". Muitos destes cubanos ainda têm a cara-de-pau de criticar o governo do seu país. Eu acho que não precisa de muito para perceber que isso não está correto.

Eu gostaria de saber quando é que a gente vai parar de aceitar que todos esses meios de comunicação nos manipulem, na defesa dos interesses de uma elite que não se importa com ninguém além dela mesma. Quando vamos parar de prestar atenção nesses canais de televisão, nessas rádios, jornais e revistas que mentiram pra nós o tempo todo, manipulando pesquisas eleitorais, escondendo informações e divulgando calúnias, quando vamos parar de aceitar coisas como "rouba mas faz" ou um presidente que escreve livros e livros e quando assume a presidência diz pra esquecer tudo que ele disse.

Que convicção tem uma pessoa dessas que muda de uma hora para outra? Acho que nunca teve convicção em nada. Hoje vivemos talvez o início de uma era que nunca vivemos, a América Latina está sendo cada vez mais tomada por governos de esquerda que realmente estão se importando com a nossos povos, como o Hugo Chávez na Venezuela, o Evo Morales na Bolívia, o Rafael Correa no Equador, o José Mujica no Uruguai e o Lula no Brasil.

Só resta saber se vai ser apenas uma época ou se realmente vamos mudar. Esses presidentes não podem fazer nada se nós não ajudarmos, talvez se nosso povo se mobilizasse mais, nosso governo poderia realizar os seus projetos sem tantos obstáculos.

Pra essa blogueira eu gostaria de dizer que ela deveria sentir vergonha das injustiças que comete com um país que conquistou tudo que Cuba conquistou mesmo sendo o único país que olha para os EUA e diz NÃO. Como pode ela dizer que todas essas conquistas foram falsas? Como pode ela, na reportagem para a revista VEJA dizer que nenhum estrangeiro que viveu em Cuba pode admirar aquele regime?

Como ela pode falar assim pelos outros? Eu vivi em Cuba e não só admiro o seu regime como acredito nele, acredito que Cuba foi e continua sendo a grande esperança para os povos deste planeta que carecem dos recursos básicos para um ser humano viver. Eu tenho certeza que esses alunos de medicina, muitos oriundos de famílias que não tiveram condições de proporcionar todas as oportunidades que todos os seres humanos deveriam ter por direito, e muitas outras pessoas solidárias a Cuba e que lá viveram, sentem a mesma admiração que eu por tudo de maravilhoso que lá foi construído e pela pouca esperança que nos resta, mas que passa a ser tão grande quando olhamos para nossos queridos irmãos cubanos.

Eu acredito que num futuro distante o Fidel Castro Ruz não somente será lembrado como um grande homem, mas sim como um ícone da luta pela justiça e pela igualdade social em nosso planeta, um ícone ainda maior que nosso querido comandante Che Guevara. Bom seria se o mundo não esperasse sua morte, como aconteceu com o Che, para reconhecermos isso. Eu espero estar vivo para ver isso e espero que até lá o governo cubano se mantenha forte e resistente para que, no futuro, não precisemos olhar para trás arrependidos e dizer: "Que pena, naquela época a situação podia ter mudado, mas não mudou", como já vimos acontecer muitas vezes na nossa historia.


fonte: PCB
Colaboração: Associação José Martí - Rio Grande
 

sábado, 12 de dezembro de 2009

Obama não era obrigado a atuar cinicamente

(Extraído do CubaDebate)

• NOS últimos parágrafos de uma Reflexão intitulada "Os sinos dobram pelo dólar", redigida há dois meses, no dia 9 de outubro de 2009, fiz referência ao problema da mudança climática aonde o capitalismo imperialista tem conduzido a humanidade.

"Os Estados Unidos — disse, fazendo alusão às emissões de carbono — não fazem nenhum esforço real. Só aceitam 4% de redução com respeito ao ano 1990." Nesse momento os cientistas exigiam um mínimo que flutuava entre 25 e 40% para o ano 2020.

Acrescentei logo: Hoje sexta-feira 9, de manhã, o mundo acordou com a notícia de que "o Obama bom" do enigma, explicado pelo Presidente Bolivariano Hugo Chávez nas Nações Unidas, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Nem sempre compartilho as opiniões dessa instituição, mas estou obrigado a reconhecer que nestes instantes foi, segundo a minha opinião, uma medida positiva. Compensa o revés que sofreu Obama em Copenhague ao ser eleita Rio de Janeiro e não Chicago sede das Olimpíadas de 2016, o que provocou irados ataques de seus adversários de extrema direita.

"Muitos serão da opinião de que não ganhou ainda o direito a receber essa distinção. Desejamos ver na decisão, mais do que um prêmio ao Presidente dos Estados Unidos, uma crítica à política criminosa que seguiram não poucos presidentes desse país, os quais conduziram o mundo à encruzilhada onde hoje se encontra; uma exortação à paz e à busca de soluções que conduzam à sobrevivência da espécie.

Era óbvio que observava cuidadosamente o Presidente negro eleito num país racista que sofria profunda crise econômica, sem prejulgá-lo por algumas das suas declarações de campanha e sua condição de chefe do executivo ianque.

Após quase um mês, noutra Reflexão que intitulei "Uma história de ficção científica", escrevi o seguinte:

"O povo norte-americano não é culpável, senão vítima de um sistema insustentável e o que é pior ainda: incompatível já com a vida da humanidade".

"O Obama inteligente e rebelde que sofreu a humilhação e o racismo durante a infância e a juventude o percebe, mas o Obama educado e engajado com o sistema e com os métodos que o levaram à Presidência dos Estados Unidos não pode resistir a tentação de pressionar, ameaçar, e inclusive enganar os outros."

A seguir acrescento: "É obsessivo em seu trabalho; talvez nenhum outro Presidente dos Estados Unidos seria capaz de se engajar num programa tão intenso como o que se propõe levar à cabo nos próximos oitos dias".

Nessa Reflexão, como pode ser observado, eu faço a análise da complexidade e das contradições de seu longo percurso pelo Sudeste asiático e pergunto:

"O que pensa abordar nosso ilustre amigo na intensa viagem?" Seus assessores tinham declarado que falaria de tudo com a China, a Rússia, o Japão, a Coréia do Sul, et cetera, et cetera.

Já é evidente que Obama preparava o terreno para o discurso que pronunciou em West Point no dia 1 de dezembro de 2009. Esse dia empregou-se a fundo. Elaborou e ordenou cuidadosamente 169 frases destinadas a tocar cada uma das "teclas" que lhe interessavam, para conseguir que a sociedade norte-americana o apoiá-se numa estratégia de guerra. Adotou posições que fizeram com que empalidecessem as Catilinárias de Cícero. Esse dia eu tive a impressão que escutava a George W. Bush; seus argumentos não diferiam em nada da filosofia de seu antecessor, salvo por uma folha de parra: Obama opunha-se às torturas.

O principal chefe da organização à qual é atribuído o ato terrorista de 11 de Setembro foi recrutado e treinado pela Agência Central de Inteligência para combater as tropas soviéticas e nem sequer era afegão.

As opiniões de Cuba condenando aquele fato e outras medidas adicionais foram proclamadas esse mesmo dia. Também advertimos que a guerra não era o caminho para lutar contra o terrorismo.

A organização do Talibã, que significa estudante, surgiu das forças afegãs que lutavam contra a URSS e não eram inimigas dos Estados Unidos. Uma análise honesta conduziria à verdadeira história dos fatos que originaram essa guerra.

Hoje não são os soldados soviéticos, senão as tropas dos Estados Unidos e da NATO as quais a sangue e fogo ocupam esse país. A política que é oferecida ao povo dos Estados Unidos pela nova administração é a mesma de Bush, quem ordenou a invasão do Iraque, que nada tinha a ver com o ataque às Torres Gêmeas.

O Presidente dos Estados Unidos não diz uma palavra a respeito das centenas de milhares de pessoas, incluídas crianças e idosos inocentes, que tem morrido no Iraque e no Afeganistão e os milhões de iraquianos e afegãos que sofrem as conseqüências da guerra, sem nenhuma responsabilidade com os fatos que aconteceram em Nova Iorque. A frase com a qual conclui seu discurso: "Deus abençoe os Estados Unidos", mais do que um desejo, parecia uma ordem dada ao céu.

Por que Obama aceitou o Prêmio Nobel da Paz quando já tinha decidido levar até as últimas conseqüências a guerra no Afeganistão? Obama não era obrigado atuar cinicamente.

Depois anunciou que receberia o Prêmio no dia 11 na capital de Noruega e viajaria a Cimeira de Copenhague no dia 18.

Agora há que esperar outro discurso teatral em Oslo, um novo compêndio de frases que ocultam a existência real de uma superpotência imperial com centenas de bases militares espalhadas pelo mundo, duzentos anos de intervenções militares em nosso hemisfério, e mais de um século de ações criminosas em países como o Vietnã, o Laos ou outros da Ásia, da África, do Oriente Médio, dos Bálcãs e em qualquer parte do mundo.

Agora o problema de Obama e de seus aliados mais ricos, é que o planeta que dominam com punho de ferro se desfaz em suas mãos.

É bem conhecido o crime cometido por Bush contra a humanidade ao não reconhecer o Protocolo de Kyoto e não fazer durante 10 anos o que deveu ter sido feito desde muito antes. Obama não é ignorante; conhece mesmo como conhecia Gore, o grave perigo que ameaça todos, mas vacila e mostra-se débil perante a oligarquia irresponsável e cega desse país. Não atua como Lincoln, para resolver o problema da escravidão e manter a integridade nacional em 1861, ou como Roosevelt, perante a crise econômica e o fascismo. Na terça-feira atirou uma tímida pedra nas agitadas águas da opinião internacional: a administradora da EPA (Agência de Proteção Ambiental) Lisa Jackson, declarou que as ameaças para a saúde pública e o bem-estar do povo dos Estados Unidos que significa o aquecimento global, permitem a Obama adotar medidas sem contar com o Congresso.

Nenhuma das guerras que têm tido lugar na história, significam um perigo maior.

As nações mais ricas tentarão jogar sobre as mais pobres o peso da carga para salvar a espécie humana. Deve ser exigido aos mais ricos o máximo de sacrifício, a máxima racionalidade no uso dos recursos, a máxima justiça para a espécie humana.

É possível que, em Copenhague, o mais que possa ser conseguido seja um mínimo de tempo para atingir um acordo vinculador que sirva realmente para buscar soluções. Se isso é conseguido, a Cimeira significaria pelo menos, um modesto avanço.

Vamos ver o que acontece!



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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Uma vitória do Terceiro Mundo

• PODEROSAS potências econômicas competiram para ganhar a sede das Olimpíadas em 2016, entre as quais, as duas mais industrializadas do planeta: Estados Unidos e Japão. Ganhou, contudo, o Rio de Janeiro, uma cidade do Brasil.
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Que agora não digam que foi generosidade das nações ricas com o Brasil, um país do Terceiro Mundo.

A vitória dessa cidade brasileira é uma prova da crescente influência dos países que lutam pelo seu desenvolvimento. Com certeza, nos povos da América Latina, da África e da Ásia, a eleição do Rio de Janeiro será recebida com satisfação em meio à crise econômica e à incerteza atual com a mudança climática.

Apesar de esportes populares, como o beisebol, serem eliminados das competências para dar oportunidade a entretimentos de burgueses e ricos, os povos do Terceiro Mundo compartilham a alegria dos brasileiros e apoiarão o Rio de Janeiro como organizador dos Jogos Olímpicos de 2016.

É um dever apresentar-se em Copenhague com a mesma unidade e lutar para evitar que a mudança climática e as guerras de conquista prevaleçam sobre a vontade de paz, o desenvolvimento e a sobrevivência de todos os povos do mundo.
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.........Fidel Castro Ruz

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ali se gera uma revolução

Fidel Castro

No último 16 de julho disse textualmente que o golpe de Estado em Honduras "foi concebido e organizado por personagens inescrupulosos da extrema direita, que eram funcionários de confiança de George W. Bush e haviam sido promovidos por ele."Citei os nomes de Hugo Llorens, Robert Blau, Stephen McFarland y Robert Callahan, embaixadores yankis em Honduras, El Salvador, Guatemala e Nicarágua, nomeados por Bush nos meses de julho e agosto de 2008 e que os quatro seguiam a linha de John Negroponte e Otto Reich, de tenebrosa historia.

Apontei a base yanki de Soto Cano como ponto de apoio principal do golpe de Estado e que "a idéia de uma iniciativa de paz a partir da Costa Rica foi dada ao Presidente desse país pelo Departamento de Estado quando Obama estava em Moscou e declarava, em uma universidade russa, que o único Presidente de Honduras era Manuel Zelaya". Acrescentei que "com a reunião de Costa Rica se questionava a autoridade da ONU, da OEA e demais instituições que comprometeram seu apoio ao povo de Honduras e a única alternativa era exigir do Governo dos Estados Unidos o fim de sua intervenção em Honduras e a retirada desse país da Força de Tarefa Conjunta."

A resposta dos Estados Unidos, apos o golpe de Estado nesse país da América Central, foi compactuar com o Governo da Colômbia um acordo para criar sete bases militares, como a de Soto Cano, nesse país irmão, que ameaçam a Venezuela, Brasil e todos os demais povos da America do Sul.

Em um momento crítico, quando se discute em uma reunião de Chefes de Estado nas Nações Unidas a tragédia da mudança climática e a crise econômica internacional, os golpistas em Honduras ameaçam violar a imunidade da Embaixada do Brasil, onde se encontra o presidente Manuel Zelaya, sua família e um grupo de seus seguidores que foram obrigados a proteger-se nesse recinto.

Está provado que o governo do Brasil não teve absolutamente nada que ver com a situação que ali se criou.É por tanto inadmissível, mais ainda inconcebível, que a Embaixada brasileira seja assaltada pelo governo fascista, a não ser que pretenda instrumentar seu próprio suicídio, arrastando o país a uma intervenção direta de forças estrangeiras como ocorreu no Haiti, o que significaria a intervenção de tropas yankis sob a bandeira das Nações Unidas. Honduras não é um país distante e isolado no Caribe. Uma intervenção de forças estrangeiras em Honduras desataria um conflito na América Central e criaria um caos político em toda a América Latina.

A heróica luta do povo hondurenho, depois de quase 90 dias de incessante batalhar, pôs em crise o governo fascista e pró yanki que reprime a homens e mulheres desarmados.

Temos visto surgir uma nova consciência no povo hondurenho. Toda uma legião de lutadores sociais se moldou nessa batalha. Zelaya cumpriu sua promessa de regressar. Tem direito a que se lhe recoloquem no Governo e realize as eleições. Dos combativos movimentos sociais estão se destacando novos e admiráveis quadros, capazes de conduzir a esse povo pelos difíceis caminhos que esperam aos povos de Nossa América. Ali se gera uma Revolução.

A Assembléia das Nações Unidas pode ser histórica na dependência de seus acertos ou erros.

Os líderes mundiais expuseram temas de grande interesse e complexidade. Eles refletiram a magnitude das tarefas que a humanidade tem por diante e quão escasso é o tempo disponível.
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Publicado em TeleSUR
Traduzido por Rosalvo Maciel
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Obama sério

Fidel Castro Ruiz

• O presidente bolivariano Hugo Chávez foi realmente original quando falou do "enigma dos dois Obama".
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Hoje falou o Obama sério. Há pouco reconheci dois aspectos positivos de sua conduta: a intenção de levar a saúde a 47 milhões de norte-americanos que carecem dela e sua preocupação pela mudança climática.

O que ontem expressei sobre a ameaça iminente que paira sobre a espécie humana, poderia parecer pessimista, mas não se afasta da realidade. Agora resta conhecer a opinião de muitos chefes de Estado sobre o tema ignorado e esquecido da mudança climática.

Obama foi o primeiro a emitir sua opinião como país sede da Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre esse tema.

O que ele disse? Transcrevo as palavras essenciais dos pronunciamentos dele:

"Reconhecemos que a ameaça contra o planeta é séria e crescente."

"A resposta a este desafio ambiental será julgada pela história."

"Nenhuma nação, por grande ou pequena que for, poderá escapar do impacto da mudança climática."

"A cada dia, aumentam as marés altas que açoitam as costas, tormentas e inundações mais fortes ameaçam nossos continentes."

"A segurança e estabilidade de todas nossas nações estão em perigo."

"Colocamos o clima no topo das prioridades de nossa agenda internacional, da China ao Brasil, da Índia ao México, África e Europa."

"Juntando-nos, esses passos são significativos."

"Entendemos a gravidade da situação e estamos determinados a agirmos."

"Mas hoje não viemos aqui para celebrar progressos."

"Resta muito trabalho por fazer."

"E esse trabalho não será fácil."

"Notamos que a parte mais difícil do percurso está em frente de nós."

"Isto acontece no momento em que a prioridade para muitos é reviver as economias."

"Todos nós temos dúvidas quanto ao desafio climático."

"As dificuldades e as dúvidas não são pretextos para não agir."

"Cada um de nós deve fazer sua parte para que nossas economias cresçam sem pôr em perigo o planeta."

"Devemos fazer de Copenhague um passo significativo de avanço no tocante ao debate climático."

"Também não devemos permitir que velhas divisões obstaculizem a busca de soluções, unidos."

"As nações desenvolvidas causaram a maior parte do prejuízo e devem assumir sua responsabilidade."

"Não ultrapassaremos este desafio a não ser que nos unamos."

"Sabemos que essas nações, especialmente as mais vulneráveis, não têm os mesmos recursos para combater os desafios climáticos."

"O futuro não é uma opção entre crescimento econômico e planeta limpo, porque a sobrevivência depende dos dois."

"Temos a responsabilidade de dar ajuda financeira e técnica a essas nações."

"Procuramos um pacto que permita aumentar a qualidade de vida dos povos, sem afetar o planeta."
"Sabemos que o futuro depende de um compromisso global."

"Mas, o caminho é longo e duro e não temos tempo para fazer o percurso."

O problema agora é que tudo o que afirma está em contradição com o que os Estados Unidos vêm fazendo há 150 anos, particularmente, desde que, no fim da Segunda Guerra Mundial, impôs ao mundo o acordo de Bretton Woods e se tornou amo da economia mundial.

As centenas de bases militares instaladas em dezenas de países de todos os continentes, seus porta-aviões e suas frotas navais, seus milhares de armas nucleares, suas guerras de conquista, seu complexo militar-industrial e seu comércio de armas, são incompatíveis com a sobrevivência de nossa espécie. As sociedades de consumo e a dilapidação dos recursos materiais são igualmente incompatíveis com a idéia do crescimento econômico e um planeta limpo. O esbanjamento ilimitado de recursos naturais não-renováveis, especialmente o petróleo e o gás, acumulado durante centenas de milhões de anos e que, em apenas dois séculos, se esgotarão ao ritmo atual de consumo, é a causa fundamental da mudança climática. Mesmo quando sejam reduzidos os gases poluentes nos países industrializados — o que seria louvável — não é menos certo que 5,2 bilhões de habitantes do planeta Terra, isto é, as três quartas partes da população, vivem nos países que em maior ou menor grau estão por se desenvolver, os quais exigirão enormes consumos de carvão, petróleo, gás natural e outros recursos não renováveis que, de acordo com padrões de consumo criados pela economia capitalista, são incompatíveis com o objetivo de salvar a espécie humana.

Não seria justo culpar o Obama sério do referido enigma pelo acontecido até hoje, mas é menos justo ainda que o outro Obama nos fizesse acreditar que a humanidade se pode preservar sob as normas que hoje prevalecem na economia mundial.

O presidente dos Estados Unidos admitiu que os países desenvolvidas ocasionaram a maior parte do dano e devem assumir a responsabilidade. Foi, sem dúvida, um gesto valente.

Seria justo reconhecer também que nenhum outro presidente dos Estados Unidos teria tido o valor de dizer o que ele disse.
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