Além do Cidadão Kane

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sábado, 22 de janeiro de 2011

AS DESGRAÇAS DO HAITI

Pobre e infeliz Haiti. Primeiro a longa e feroz ditadura de Duvalier, com os seus sinistros ton-ton macoute. Depois um brevíssimo governo democrático, cujo presidente foi deposto por uma intervenção militar dos EUA & da França. Segue-se uma longa ocupação militar, com a cumplicidade activa de países latino-americanos que se prestaram a enviar tropas para colaborar com o império. Mais recentemente um terramoto gigante que deixou o país destruído. E este foi seguido de imediato por uma invasão em grande escala de tropas estado-unidenses. O estado calamitoso do país, com as infraestruturas de saneamento básico arruinadas, levou à epidemia de cólera iniciada em 2010. E agora, 17 de Janeiro, para culminar, Baby Doc , o filhote do antigo ditador Duvalier, retorna de Paris . Ele volta protegido pelas tropas do imperialismo e dos governos latino-americanos que o servem – como o do Brasil, Chile e Uruguai. Vem tomar posse dos despojos. Tal como os abutres, também quer um naco do moribundo.

Original em Resistir.info

domingo, 2 de janeiro de 2011

HAITI

Médicos cubanos no Haiti deixam o mundo envergonhado

Números divulgados na semana passada mostram que o pessoal médico cubano, trabalhando em 40 centros em todo o Haiti, tem tratado mais de 30.000 doentes de cólera desde outubro. Eles são o maior contingente estrangeiro, tratando cerca de 40% de todos os doentes de cólera. Um outro grupo de médicos da brigada cubana Henry Reeve, uma equipe especializada em desastre e em emergência, chegou recentemente. Uma brigada de 1.200 médicos cubanos está operando em todo o Haiti, destroçado pelo terremoto e pela cólera. Enquanto isso, a ajuda prometida pelos EUA e outros países.O artigo é de Nina Lakhani, do The Independent.

Por Nina Lakhani - The Independent


Eles são os verdadeiros heróis do desastre do terremoto no Haiti, a catástrofe humana na porta da América, a qual Barack Obama prometeu uma monumental missão humanitária dos EUA para aliviar. Esses herois são da nação arqui-inimiga dos Estados Unidos, Cuba, cujos médicos e enfermeiros deixaram os esforços dos EUA envergonhados.

Uma brigada de 1.200 médicos cubanos está operando em todo o Haiti, rasgado por terremotos e infectado com cólera, como parte da missão médica internacional de Fidel Castro, que ganhou muitos amigos para o Estado socialista, mas pouco reconhecimento internacional.

Observadores do terremoto no Haiti poderiam ser perdoados por pensar operações de agências de ajuda internacional e por os deixarem sozinhos na luta contra a devastação que matou 250.000 pessoas e deixou cerca de 1,5 milhões de desabrigados. De fato, trabalhadores da saúde cubanos estão no Haiti desde 1998, quando um forte terremoto atingiu o país. E em meio a fanfarra e publicidade em torno da chegada de ajuda dos EUA e do Reino Unido, centenas de médicos, enfermeiros e terapeutas cubanos chegaram discretamente. A maioria dos países foi embora em dois meses, novamente deixando os cubanos e os Médicos Sem Fronteiras como os principais prestadores de cuidados para a ilha caribenha.

Números divulgados na semana passada mostram que o pessoal médico cubano, trabalhando em 40 centros em todo o Haiti, tem tratado mais de 30.000 doentes de cólera desde outubro. Eles são o maior contingente estrangeiro, tratando cerca de 40% de todos os doentes de cólera. Um outro grupo de médicos da brigada cubana Henry Reeve, uma equipe especializada em desastre e em emergência, chegou recentemente, deixando claro que o Haiti está se esforçando para lidar com a epidemia que já matou centenas de pessoas.

Desde 1998, Cuba treinou 550 médicos haitianos gratuitamente na Escola Latinoamericana de Medicina em Cuba (Elam), um dos programas médicos mais radicais do país. Outros 400 estão sendo treinados na escola, que oferece ensino gratuito - incluindo livros gratuitos e um pouco de dinheiro para gastar - para qualquer pessoa suficientemente qualificada e que não pode pagar para estudar Medicina em seu próprio país.

John Kirk é um professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade Dalhousie, no Canadá, que pesquisa equipes médicas internacionais de Cuba. Ele disse: "A contribuição de Cuba, como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Eles são pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado".

Esta tradição remonta a 1960, quando Cuba enviou um punhado de médicos para o Chile, atingido por um forte terremoto, seguido por uma equipe de 50 a Argélia em 1963. Isso foi apenas quatro anos depois da Revolução.

Os médicos itinerantes têm servido como uma arma extremamente útil da política externa e econômica do governo, gahando amigos e favores em todo o globo. O programa mais conhecido é a "Operação Milagre", que começou com os oftalmologistas tratando os portadores de catarata em aldeias pobres venezuelanos em troca de petróleo. Esta iniciativa tem restaurado a visão de 1,8 milhões de pessoas em 35 países, incluindo o de Mario Terán, o sargento boliviano que matou Che Guevara em 1967.

A Brigada Henry Reeve, rejeitada pelos norteamericanos após o furacão Katrina, foi a primeira equipe a chegar ao Paquistão após o terremoto de 2005, e a última a sair seis meses depois.

A Constituição de Cuba estabelece a obrigação de ajudar os países em pior situação, quando possível, mas a solidariedade internacional não é a única razão, segundo o professor Kirk. "Isso permite que os médicos cubanos, que são terrivelmente mal pagos, possam ganhar dinheiro extra no estrangeiro e aprender mais sobre as doenças e condições que apenas estudaram. É também uma obsessão de Fidel e ele ganha votos na ONU".

Um terço dos 75 mil médicos de Cuba, juntamente com 10.000 trabalhadores de saúde, estão atualmente trabalhando em 77 países pobres, incluindo El Salvador, Mali e Timor Leste. Isso ainda deixa um médico para cada 220 pessoas em casa, uma das mais altas taxas do mundo, em comparação com um para cada 370 na Inglaterra.

Onde quer que sejam convidados, os cubanos implementam o seu modelo de prevenção com foco global, visitando famílias em casa, com monitoração proativa de saúde materna e infantil. Isso produziu "resultados impressionantes" em partes de El Salvador, Honduras e Guatemala, e redução das taxas de mortalidade infantil e materna, redução de doenças infecciosas e deixando para trás uma melhor formação dos trabalhadores de saúde locais, de acordo com a pesquisa do professor Kirk.

A formação médica em Cuba dura seis anos - um ano mais do que no Reino Unido - após o qual todos trabalham após a graduação como um médico de família por três anos no mínimo. Trabalhando ao lado de uma enfermeira, o médico de família cuida de 150 a 200 famílias na comunidade em que vive.

Este modelo ajudou Cuba a alcançar alguns índices invejáveis de melhoria em saúde no mundo, apesar de gastar apenas $ 400 (£ 260) por pessoa no ano passado em comparação com $ 3.000 (£ 1.950) no Reino Unido e $ 7.500 (£ 4,900) nos EUA, de acordo com Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento.

A taxa de mortalidade infantil, um dos índices mais confiáveis da saúde de uma nação, é de 4,8 por mil nascidos vivos - comparável com a Grã-Bretanha e menor do que os EUA. Apenas 5% dos bebês nascem com baixo peso ao nascer, um fator crucial para a saúde a longo prazo, e a mortalidade materna é a mais baixa da América Latina, mostram os números da Organização Mundial de Saúde.

As policlínicas de Cuba, abertas 24 horas por dia para emergências e cuidados especializados, são um degrau a partir do médico de família. Cada uma prevê 15.000 a 35.000 pacientes por meio de um grupo de consultores em tempo integral, assim como os médicos de visita, garantindo que a maioria dos cuidados médicos são prestados na comunidade.

Imti Choonara, um pediatra de Derby, lidera uma delegação de profissionais de saúde internacionais, em oficinas anuais na terceira maior cidade de Cuba, Camagüey. "A saúde em Cuba é fenomenal, e a chave é o médico de família, que é muito mais pró-ativo, e cujo foco é a prevenção. A ironia é que os cubanos vieram ao Reino Unido após a revolução para ver como o HNS [Serviço Nacional de Saúde] funcionava. Eles levaram de volta o que viram, refinaram e desenvolveram ainda mais, enquanto isso estamos nos movendo em direção ao modelo dos EUA ", disse o professor Choonara.

A política, inevitavelmente, penetra muitos aspectos da saúde cubana. Todos os anos os hospitais produzem uma lista de medicamentos e equipamentos que têm sido incapazes de acesso por causa do embargo americano, o qual que muitas empresas dos EUA de negociar com Cuba, e convence outros países a seguir o exemplo. O relatório 2009/10 inclui medicamentos para o câncer infantil, HIV e artrite, alguns anestésicos, bem como produtos químicos necessários para o diagnóstico de infecções e órgãos da loja. Farmácias em Cuba são caracterizados por longas filas e estantes com muitos vazios. Em parte, isso se deve ao fato de que eles estocam apenas marcas genéricas.

Antonio Fernandez, do Ministério da Saúde Pública, disse: "Nós fazemos 80% dos medicamentos que usamos. O resto nós importamos da China, da antiga União Soviética, da Europa - de quem vender para nós - mas isso é muito caro por causa das distâncias."

Em geral, os cubanos são imensamente orgulhosos e apoiam a contribuição no Haiti e outros países pobres, encantados por conquistar mais espaço no cenário internacional. No entanto, algumas pessoas queixam-se da espera para ver o seu médico, pois muitos estão trabalhando no exterior. E, como todas as commodities em Cuba, os medicamentos estão disponíveis no mercado negro para aqueles dispostos a arriscar grandes multas se forem pegos comprando ou vendendo.

As viagens internacionais estão além do alcance da maioria dos cubanos, mas os médicos e enfermeiros qualificados estão entre os proibidos de deixar o país por cinco anos após a graduação, salvo como parte de uma equipe médica oficial.

Como todo mundo, os profissionais de saúde ganham salários miseráveis em torno de 20 dólares (£ 13) por mês. Assim, contrariamente às contas oficiais, a corrupção existe no sistema hospitalar, o que significa que alguns médicos e até hospitais, estão fora dos limites a menos que o paciente possa oferecer alguma coisa, talvez almoçar ou alguns pesos, para tratamento preferencial.

Empresas internacionais de Cuba na área da saúde estão se tornando cada vez mais estratégicas. No mês passado, funcionários mantiveram conversações com o Brasil sobre o desenvolvimento do sistema de saúde pública no Haiti, que o Brasil e a Venezuela concordaram em ajudar a financiar.

A formação médica é outro exemplo. Existem atualmente 8.281 alunos de mais de 30 países matriculados na Elam, que no mês passado comemorou o seu 11 º aniversário. O governo espera transmitir um senso de responsabilidade social para os alunos, na esperança de que eles vão trabalhar dentro de suas próprias comunidades pobres pelo menos cinco anos.

Damien Joel Soares, 27 anos, estudante de segundo ano de New Jersey, é um dos 171 estudantes norte-americanos; 47 já se formaram. Ele rejeita as alegações de que Elam é parte da máquina de propaganda cubana. "É claro que Che é um herói, mas aqui isso não é forçado garganta abaixo."

Outros 49.000 alunos estão matriculados no "Novo Programa de Formação de Médicos Latino-americanos", a ideia de Fidel Castro e Hugo Chávez, que prometeu em 2005 formar 100 mil médicos para o continente. O curso é muito mais prático, e os críticos questionam a qualidade da formação.

O professor Kirk discorda: "A abordagem high-tech para as necessidades de saúde em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se você está vivendo em algum lugar sem médicos, ficaria feliz quando chegasse algum."

Há nove milhões de haitianos que provavelmente concordariam.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O seqüestro do Haiti

John Pilger

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O roubo do Haiti foi ágil e brutal. A 22 de Janeiro, os Estados Unidos asseguraram "aprovação formal" das Nações Unidas para ocupar todos os portos aéreos e marítimos do Haiti e para "assegurar" as estradas. Nenhum haitiano assinou o acordo, o qual não tem base legal. A potência impera com um bloqueio naval americano e a chegada de 13 mil fuzileiros navais, forças especiais, espiões e mercenários, nenhum deles com treino para ajuda humanitária.

O aeroporto na capital, Port-au-Prince, é agora uma base militar americana e vôos de socorro foram redirecionados para a República Dominicana. Todos os vôos cessaram durante três horas para a chegada de Hillary Clinton. Haitianos criticamente feridos esperaram sem ajuda enquanto 800 americanos residentes no Haiti eram alimentados, lavados e evacuados. Passaram-se seis dias antes de a U.S. Air Force lançar água engarrafada para pessoas a sofrerem de sede e de desidratação.

Os primeiros relatos da TV desempenharam um papel crítico, dando a impressão de um caos de crime generalizado. Matt Frei, o repórter da BBC despachado de Washington, parecia ofegante quando zurrava acerca da "violência" e necessidade de "segurança". Apesar da dignidade demonstrada pelas vítimas do terremoto, e da evidência de grupos de cidadãos a trabalhar sem ajuda para resgatar pessoas, e até mesmo da avaliação de um general americano de que a violência no Haiti era consideravelmente menor do que antes do terremoto, Frei berrava que "o saqueio é a única indústria" e que "a dignidade do passado do Haiti está há muito esquecida". Portanto, uma história de implacável violência e exploração estadunidense no Haiti foi atribuída à vítimas. "Não há dúvida", relatava Frei na seqüência da sangrenta invasão do Iraque pelos EUA em 2003, "que o desejo de trazer o bem, de levar os valores americanos ao resto do mundo, e especialmente agora ao Médio Oriente... está agora cada vez mais ligado ao poder militar".

Num certo sentido, ele estava certo. Nunca antes num tempo considerado de paz as relações humanas foram tão militarizadas pela potência predadora. Nunca antes um presidente americano subordinou o seu governo ao establishment militar do seu desacreditado antecessor, como fez Barack Obama. Para prosseguir a política de guerra e dominação de George W. Bush, Obama pediu ao Congresso um orçamento militar sem precedentes de US$700 mil milhões. Ele tornou-se, com efeito, o porta-voz de um golpe militar.

Para o povo do Haiti as implicações são claras, ainda que grotescas. Com tropas estadunidenses no controle do seu país, Obama nomeou George W. Bush para o "esforço de ajuda": uma paródia retirada certamente de The Comedians , de Graham Greene, que se passava no Haiti de Papa Doc. Como presidente, o esforço de Bush a seguir ao Furacão Katrina em 2005 conduziu a uma limpeza étnica de grande parte da população negra de Nova Orleans. Em 2004, ele ordenou o seqüestro do primeiro-ministro eleito democraticamente no Haiti, Jean-Bertrand Aristide, e exilou-o na África. O popular Aristide teve a temeridade de legislar modestas reformas, tais como um salário mínimo para aqueles que labutam em oficinas no Haiti sob condições atrozes.

Da última vez que estive no Haiti, observei muitas meninas recurvadas sobre máquinas de costura zumbidoras e estridentes na Port-au-Prince Superior Baseball Plant. Muitas tinham os olhos inchados e os braços lacerados. Saquei de uma câmara e fui expelido para fora. O Haiti é onde a América faz o equipamento para o seu bendito jogo nacional, quase de graça. O Haiti é onde empreiteiros da Wal Disney fazem pijamas Mickey Mouse, quase de graça. Os EUA controlam o açúcar, a bauxita e o sisal do Haiti. A cultura do arroz foi substituída por arroz americano importado, levando o povo para as cidades e habitações improvisadas. Ano após ano, o Haiti foi invadido pelos US marines, infames pelas atrocidades que têm sido a sua especialidade desde as Filipinas até o Afeganistão.

Bill Clinton é outro comediante, tendo conseguido ser nomeado o homem da ONU no Haiti. Outrora bajulado pela BBC como o "Sr. Belo Tipo... que leva a democracia a uma terra triste e perturbada", Clinton é o mais notório corsário do Haiti, a exigir a desregulamentação da economia em benefício dos barões das fábricas escravizantes (sweatshops). Ultimamente, ele tem estado a promover um negócio de US$ 55 milhões para transformar o Norte do Haiti num "campo turístico" anexado à América.

Não é por causa dos turistas que o edifício da embaixada dos EUA em Port-au-Prince é o quinto maior do mundo. Décadas atrás foi descoberto petróleo no Haiti e os EUA mantiveram-nas em reserva até que o do Médio Oriente começasse a esgotar-se. De modo mais premente, um Haiti ocupado tem uma importância estratégica nos planos de Washington para "reverter" a América Latina. O objetivo é o derrube de democracias populares na Venezuela, Bolívia e Equador, o controle das abundantes reservas petrolíferas da Venezuela e a sabotagem da crescente cooperação regional que deu a milhões o antegosto de uma justiça econômica e social sempre negada pelos regimes patrocinados pelos EUA.

O primeiro êxito da reversão ocorreu no ano passado com o golpe contra o presidente José Manuel Zelaya, que também ousou advogar um salário mínimo e que os ricos pagassem impostos. O apoio secreto de Obama ao regime ilegal de Honduras implica uma advertência clara a governos vulneráveis da América Central. Em Outubro último, o regime na Colômbia, há muito financiado por Washington e apoiado por esquadrões da morte, entregou aos EUA sete bases militares para, segundo documentos da US Air Force, "combater governos anti-EUA na região".

A propaganda dos media preparou o terreno para o que pode vir a ser a próxima guerra de Obama. Em 14 de Dezembro, investigadores na Universidade de West England publicaram as primeiras descobertas de um estudo de dez anos de noticiários da BBC sobre a Venezuela. De 304 reportagens da BBC, apenas três mencionavam algumas das reformas históricas do governo Chávez, ao passo que a maioria difamava o extraordinário registro democrático de Chávez, ao ponto de compará-lo a Hitler.

Tais distorções e o concomitante servilismo ao poder ocidental são predominantes nos media corporativos anglo-saxônicos. Povos que lutam por uma vida melhor, ou pela própria vida, da Venezuela a Honduras e ao Haiti, merecem o nosso apoio.
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O original encontra-se em johnpilger.com
Publicado em Resistir

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O desenho de Kalvellido


Contrastes de classe

O terremoto no Haiti desnudou a indigência a que o capitalismo votou o país. O imperialismo prepara-se agora para o ocupar e fazer milhões com a reconstrução e a exploração dos seus recursos naturais.

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O Haiti revela a impiedosa lógica do sistema. Nem o fato de Port-au-Prince ter ficado em escombros, e três milhões de habitantes se encontrarem imersos em entulho compadece as classes dominantes. As campanhas e as palavras graves escondem a operação em curso: trata-se de uma ocupação cujo resultado será o avolumar da tragédia social que emergiu com a catástrofe, um negócio de milhões e uma manobra do volte-face que o imperialismo procura na América Latina (Honduras, provocações a partir de Curaçao, bases na Colômbia).

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Os EUA tomaram de assalto o aeroporto e o palácio presidencial e enviaram para o território, onde curiosamente já têm a quinta maior embaixada do mundo, um contingente militar multidisciplinar que superava em 30 vezes os profissionais de saúde destacados. Com os dez mil soldados já estacionados no Haiti, antes do terremoto, sob mandato da ONU, o total de tropas estrangeiras per capita supera o do Afeganistão.

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A prioridade de Washington não foi aterrar ajuda alimentar e equipas de salvamento, mas fazer chegar ao território milhares de soldados, um porta-aviões nuclear, submarinos e outros vasos de guerra. O Comando Sul do Pentágono, cuja função é promover a estratégia de Washington na região, responde pelas movimentações e entregou à USAID – agência com provada cobertura à espionagem da CIA, e destreza na adjudicação de contratos faraônicos de «ajuda humanitária» e reconstrução (Iraque, Afeganistão) – a distribuição de víveres e outros bens fundamentais.

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O navio-hospital dos EUA atendeu 10 pessoas nos primeiros dias após o sismo, mostrando ser apenas retaguarda dos EUA, os quais, disse Hillary Clinton, ficarão no Haiti «hoje, amanhã, e no futuro».

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A França e o Brasil protestaram. O embaixador gaulês referiu-se ao aeroporto como um apêndice de Washington. Paris pediu à ONU a definição do papel dos EUA e lembrou que se trata de «ajudar, não ocupar o Haiti». O chefe da proteção civil italiana acrescentou que os EUA confundem ajuda humanitária com militar, e considerou que na plataforma logística a prioridade, mais que acelerar o auxílio à população, é identificar os pacotes de ajuda com uma chancela que brilhe na televisão.

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Protestos idênticos mais bem contundentes foram feitos por Cuba, Bolívia, Nicarágua e Venezuela.

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Resultado da dependência

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A informação dominante mostra o desespero e a destruição; empola motins, saques e crenças pagãs para justificar a imagem de uma nação arcaica, «naturalmente» caótica, sobre povoada, ingovernável, veiculando teses colonialistas de matiz racista.

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O que fica por descortinar é que as conseqüências do terremoto remontam ao passado. Olhando apenas para os últimos 20 anos, os bairros arrasados já careciam de saneamento básico, eletricidade e água potável. Os milhares de sem-abrigo, famintos, moribundos sem assistência médica já lutavam pela sobrevivência.

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Os números são claros: 80 por cento dos haitianos vivem abaixo do limiar da pobreza e o país é dos últimos no índice de desenvolvimento humano. O analfabetismo rural é de cerca de 70 por cento e o urbano de mais de 50 por cento. A mortalidade infantil supera os 80 por mil.

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Nenhuma catástrofe natural trouxe os haitianos até aqui nestas condições. Foram os dois golpes de Estado promovidos pela Casa Branca - em 1991, nas primeiras eleições livres, e em 2004, no bicentenário da primeira vitória sobre o colonialismo escravagista na América Latina - que derrubaram Jean-Bertrand Aristide colocando no lugar do «padre dos pobres» o atual presidente, René Preval.

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Foi pela cartilha do capital que se arruinou a agricultura de uma nação de solos férteis, que passou a importar arroz, trigo e açúcar, e empurrou milhares de camponeses e assalariados rurais para Port-au-Prince, fazendo crescer as favelas que agora desabaram.

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Foi sob Préval que se privatizaram portos de águas profundas que poderão servir para escoar o petróleo que alguns sustentam existir no Haiti, e os recursos minerais que todos concordam estarem subexplorados; que se vendeu, para logo desmantelar, as empresas estatais de moagem de trigo e produção de cimento, bens essenciais que no actual contexto o Haiti vai importar a elevado preço; que se distribuiu por três empresas os serviços de comunicações que tanta falta fazem às equipas solidárias.

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Foi também o presidente e o «amigo» yankee quem, contra a Constituição do país, impuseram a presença militar estrangeira, da qual não resulta a construção de qualquer infra-estrutura ou sequer a prometida força local de ordem pública (adjudicada mas nunca concretizada à DynCorp, companhia mercenária com serviço nas guerras de ocupação do imperialismo).

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A missão militar da ONU delega apenas um rasto de repressão contra o povo que, bem recentemente, se manifestou contra as eleições, a inflação e o desemprego, e pelo aumento dos salários miseráveis pagos nas fábricas das multinacionais.

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Foi aplicando a receita imperialista que o governo deu às grandes ONG’s serviços públicos, e é para estas, e só para elas, que os EUA já antes canalizavam os milhões de dólares de «ajuda».

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Era bom escrutinar como ficaram os bairros onde habita a elite haitiana. O grau de concentração da riqueza no Haiti é o mais elevado da América Latina, superando inclusivamente o do Brasil, país ao qual nos referimos como de «contrastes». Contrastes de classe que saltam à vista na tragédia haitiana.

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Original em Avante!

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Porque os EUA devem bilhões de dólares ao Haiti

Bill Quigley

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Porque é que os EUA devem bilhões de dólares ao Haiti? Colin Powell, antigo secretário de Estado dos EUA, definiu a sua política externa como a "regra do Pottery Barn". Ou seja – "quem parte, paga".

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Durante 200 anos os EUA fizeram tudo para "partir" o Haiti. Estamos em dívida para com o Haiti. Não é uma questão de caridade. Estamos em dívida para com o Haiti por uma questão de justiça. Indenizações. E não apenas os 100 milhões de dólares prometidos pelo presidente Obama – isso são trocos. Os EUA devem ao Haiti bilhões de dólares – com Bs maiúsculos.

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Há séculos que os EUA têm feito tudo para dar cabo do Haiti. Os EUA usaram o Haiti como uma plantação. Os EUA ajudaram a sangrar o país economicamente desde que ele se tornou independente, invadiu várias vezes o país com forças militarizadas, apoiou ditadores que violentaram a população, utilizaram o país como caixote do lixo para nossa conveniência econômica, arruinaram as suas estradas e a sua agricultura, e derrubaram os eleitos pela população. Os EUA até usaram o Haiti como os antigos proprietários de plantações e esgueiravam-se para ali freqüentemente para recreação sexual.

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Eis a história mais resumida de algumas das principais tentativas dos EUA para dar cabo do Haiti.

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Em 1804, quando o Haiti conquistou a sua independência da França na primeira revolução de escravos bem sucedida a nível mundial, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer o país. Os EUA continuaram a recusar o reconhecimento do Haiti durante mais 60 anos. Por quê? Porque os EUA continuavam a escravizar milhões dos seus próprios cidadãos e receavam que o reconhecimento do Haiti encorajasse a revolução dos escravos nos EUA.

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Depois da revolução de 1804, o Haiti foi sujeito a um debilitante embargo econômico pela França e pelos EUA. As sanções americanas duraram até 1863. A França acabou por usar o seu poderio militar para forçar o Haiti a pagar indenizações pelos escravos que foram libertados. As indenizações foram de 150 milhões de francos. (A França vendeu todo o território da Louisiana aos EUA por 80 milhões de francos!).

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O Haiti foi forçado a pedir dinheiro emprestado aos bancos da França e dos EUA para pagar as indenizações à França. Por fim, em 1947, foi finalmente feito um enorme empréstimo aos EUA para liquidar a dívida aos franceses. Qual o valor atual do dinheiro que o Haiti foi forçado a pagar aos bancos franceses e americanos? Mais de 20 bilhões de dólares – com Bs maiúsculos.

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Os EUA ocuparam e governaram o Haiti pela força de 1915 a 1934. O presidente Woodrow Wilson enviou tropas para o invadir em 1915. As revoltas dos haitianos foram dominadas pelos militares americanos – que mataram mais de 2000 num só confronto. Durante os dezenove anos que se seguiram, os EUA controlaram as alfândegas no Haiti, cobraram impostos e dirigiram muitas instituições governamentais. Quantos bilhões foram aspirados pelos EUA durante esses 19 anos?

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De 1957 a 1986, o Haiti foi forçado a viver sob as ditaduras de "Papa Doc" e de "Baby Doc" Duvalier, apoiados pelos americanos. Os EUA apoiaram esses ditadores econômica e militarmente porque eles faziam o que os EUA queriam e eram politicamente "anticomunistas" – ou seja, como se traduz hoje, eram contra os direitos humanos das suas populações. Duvalier roubou milhões ao Haiti e contraiu uma dívida de centenas de milhões que o Haiti ainda continua a dever. Dez mil haitianos perderam a vida. As estimativas revelam que o Haiti tem uma dívida externa de 1,3 mil milhões de dólares e que 40% dessa dívida foi contraída pelos Duvaliers apoiados pelos EUA.

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Há trinta anos o Haiti não importava arroz. Hoje o Haiti importa quase todo o seu arroz. Embora o Haiti fosse à capital do açúcar das Caraíbas, hoje também importa açúcar. Por quê? Os EUA e as instituições financeiras mundiais dominadas pelos EUA – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – forçaram o Haiti a abrir os seus mercados ao mundo. Depois os EUA despejaram no Haiti milhões de toneladas de arroz e açúcar subsidiados pelos EUA – arruinando os seus agricultores e arruinando a agricultura haitiana. Ao arruinar a agricultura haitiana, os EUA forçaram o Haiti a passar a ser o terceiro maior mercado mundial do arroz americano. Foi bom para os lavradores americanos, mau para o Haiti.

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Em 2002, os EUA suspenderam centenas de milhões de dólares de empréstimos ao Haiti que deviam ser utilizados, entre outros projetos públicos, como a educação, para estradas. São essas as mesmas estradas que as equipEs de salvamento têm tido tanta dificuldade em percorrer atualmente!

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Em 2004, os EUA voltaram a destruir a democracia no Haiti quando apoiou o golpe contra o presidente eleito do Haiti, Aristides.

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O Haiti até é usado para recreação sexual tal como no tempo das antigas plantações. Analisem cuidadosamente as notícias e encontrarão inúmeras histórias de abuso de menores por missionários, soldados e trabalhadores caritativos. Mais ainda, há as freqüentes férias sexuais que americanos e outros estrangeiros passam no Haiti. Quanto se deve por isso? Qual o valor que lhe atribuiriam se fossem os vossos irmãos e irmãs?

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Há anos que empresas americanas têm vindo a conluiar-se com a elite haitiana para dirigir oficinas escravizantes enxameadas de milhares de haitianos que ganham menos de dois dólares por dia.

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O povo haitiano tem resistido ao poder econômico e militar dos EUA e de outros desde a sua independência. Tal como todos nós, os haitianos também cometem os seus erros. Mas o poder americano tem forçado os haitianos a pagar um preço enorme – mortes, dívida e abusos.

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É tempo de a população americana se juntar aos haitianos e inverter o curso das relações EUA-Haiti.

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Esta breve história mostra porque é que os EUA devem ao Haiti milhares de milhões – com Bs maiúsculos. Isto não é uma questão de caridade. É uma questão de justiça. É uma indenização. A atual crise é uma oportunidade para a população americana tomar consciência da história do nosso país no que se refere ao domínio do Haiti e dar uma resposta deveras justa.

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Para saber mais sobre a história da exploração do Haiti pelos EUA ver:


· Paul Farmer, The Uses of Haiti


· Peter Hallward, Damming the Flood


· Randall Robinson, An Unbroken Agony: Haiti, from Revolution to the Kidnapping of a President


O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/quigley170110.htm

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Tradução de Margarida Ferreira.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Haiti e a maldição branca

No primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém.

Eduardo Galeano*

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O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.


Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria "confinar a peste nessa ilha". Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações.


Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.


O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.


Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.


Da maldição branca não se falou.


A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:


- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?


- O anterior.


- Pois, que seja restabelecido.


E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.


Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram "a dívida francesa". A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro.


O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final.



Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.


Nem Bolívar


Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda.


O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.


Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.


Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York.


O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.


E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.


A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.



E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.


Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.


Náufragos anônimos


Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.


Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.


Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.


Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…


Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.


O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.

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* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

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Publicado em Vermelho

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti e a militarização nossa de cada dia

Colômbia com mais sete bases militares. Honduras sob um golpe militar legitimado por uma eleição sem legalidade. A Quarta Frota reativada em 1° de julho de 2008 -depois de mais de 50 anos desativada- e cuja função é patrulhar o Atlântico Sul. E agora o processo crescente de militarização da ajuda humanitária no Haiti.

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No último dia 13 de janeiro, o mundo acordou com uma calamidade de dimensões assustadoras: um terço da população de um país, três milhões de pessoas desabrigadas, mais de 100 mil mortos, cerca de 40 mil mulheres grávidas sem a menor perspectiva de um teto para abrigar seus filhos e filhas. A comunidade internacional se movimenta a passos lentos no sentido de responder o quanto antes a essa tragédia: o terremoto do dia 12 de janeiro no Haiti.

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Como explicar que a longínqua China envie alimentos que chegam mais rápido que os dos EUA, que está a menos de uma hora de vôo de Porto Príncipe? Como explicar que os mais de dois mil fuzileiros navais sejam os primeiros “bens” dos EUA a aportarem nesta ilha caribenha?

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Cuba, Venezuela e a própria Comunidade do Caribe (Caricom) imediatamente enviaram seus médicos, pessoal qualificado para desastres dessa dimensão. O avião da Caricom não pôde aterrissar no aeroporto Toussaint Louverture, assim como o avião da Força Aérea Brasileira. Tiveram que aportar em Santo Domingo, na República Dominicana, uma vez que os fuzileiros navais dos EUA tomaram o controle do aeroporto e dos portos haitianos.

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Cabe a pergunta: como se fecha portos e aeroportos logo após uma tragédia dessa dimensão em que a comunidade internacional está se mobilizando para o envio de medicamentos, comida e roupas? Fechar portos e aeroportos não compõe uma estratégia de guerra? Assim sempre soubemos.

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Desde 2004, o Haiti está ocupado pelas tropas militares da ONU através da Missão de Estabilização do Haiti – Minustah. Desde então, várias organizações nacionais e internacionais têm se posicionado pela retirada das tropas. Após seis anos de permanência no país, pouquíssimo fizeram para a reconstrução do Haiti.

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Sabemos que o comando militar dessa missão está sob responsabilidade do Brasil. Por depoimentos já veiculados na mídia, soubemos que as tropas brasileiras estão fazendo do Haiti um campo de treinamento.

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Como já escrevemos em outros artigos, esses treinamentos servem ao processo de militarização de diversas periferias urbanas. Não é a toa que há treinamentos dessas tropas em favelas do Rio de Janeiro. Elas vão ao Haiti e depois retornam à cidade carioca, como foi o caso da ocupação do Morro da Providência pela Guarda Nacional, em 2008.

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Nesse momento de catástrofe, nos perguntamos: que papel está tendo a Minustah? Onde estavam seus soldados nos primeiros dias da tragédia? Os relatos que nos chegam do Haiti são de que a população pobre ficou absolutamente abandonada.

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Com o crescente papel dos EUA no processo de militarização da ajuda humanitária no Haiti, nos perguntamos o que faz o Presidente Obama, achando pouco enviar soldados que podem chegar ao número de 14 mil, mobilizar Bill Clinton e George W. Bush para serem os coordenadores do esforço de reconstrução do Haiti.

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Como explicar que em um país tão pequeno e tão pobre do Caribe, dois ex-presidentes da maior potência de guerra do mundo – os EUA – sejam designados a cuidar de sua reconstrução? O que está por trás de tudo isso? Em nossa opinião, são estratégias de vários tipos de militarização de nossos países da América. Estamos vendo, ao vivo e em cores, em nome da ajuda humanitária, um país ser ocupado militarmente após uma catástrofe monumental.

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Assim, temos que fortalecer o grito de retirada das tropas militares do Haiti. Não se faz ajuda humanitária com tropas militares. O povo haitiano, através de suas organizações e movimentos sociais, precisa ser apoiado para que sua voz fale mais alto no processo de reconstrução do país.

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Desde última segunda- feira, (18/01) foi constituída no Brasil a Frente Nacional de Solidariedade ao povo haitiano formada por movimentos sociais do campo e da cidade, por centrais sindicais, pastorais sociais, movimento negro, de mulheres, enfim, um espectro amplo de organizações da esquerda brasileira. A tarefa central é trabalhar a ajuda direta junto a organizações sociais haitianas e pela retirada das tropas militares. Muito trabalho existe pela frente. A reconstrução do Haiti vai ser lenta. Mas, não esqueçamos a dívida histórica que todos temos com este país. O Haiti foi a primeira nação do mundo a abolir a escravidão. Será que é esse o seu pecado?

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Sandra Quintela, economista, é integrante do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)/ Rede Jubileu Sul.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Estados Unidos aproveitam a desgraça do Haiti para uma nova ocupação militar

Patrício Montesinos

Enquanto Cuba envia mais médicos para o Haiti para tentar minorar a desgraça desse país depois do terremoto que sofreu no passado fim-de-semana, os Estados Unidos reforçam os seus efetivos militares numa nova tentativa de ocupar a nação mais pobre da América Latina e Caraíbas, mas que nunca deixou de ser estratégica para os interesses castrenses de Washington.

Informações oficiais revelaram nas últimas horas que 5800 novos soldados norte-americanos chegarão nesta terça-feira [19 de Janeiro] ao Haiti, que se juntarão a outros 7500 que já lá estão em “trabalhos humanitários”, segundo o Pentágono.

A conduta da Casa Branca, contrasta com a da maioria dos países que ofereceram ou materializaram a sua ajuda ao povo desse estado caribenho, que se encontra numa das piores desgraças da sua história, que por certo não têm sido poucas.

Cuba, por exemplo, tem desde há 11 anos mais de 400 cooperantes de medicina no Haiti e reforçou os seus médicos e pessoal paramédico, para além de enviar hospitais de campanha, com o propósito de dar assistência à maior quantidade de pessoas afetadas pelo forte sismo que devastou essa pequena nação.

Para cúmulo dos cúmulos, o ex-presidente norte-americano George W. Bush, o mais guerreirista e sanguinário da história dos Estados Unidos, foi “designado” um dos coordenadores de um suposto fundo para reconstruir o Haiti.

A “nomeação” de W. Bush, com o aval do atual inquilino da Casa Branca, Barack Obama, levantou ainda mais suspeitas de que o Pentágono tem intenções de se apoderar militarmente do país caribenho. Conhecendo a recente história macabra de W. Bush, a sua paixão perversa pelas guerras, as suas invasões do Iraque e Afeganistão, as horrendas torturas a prisioneiros nas prisões de Abu Ghraib e Guantánamo, e as prisões secretas na Europa da norte-americana Agência Central de Inteligência (CIA), ninguém pode acreditar que a atual presença dos Estados Unidos hoje no Haiti seja humanitária.

Seria muito absurdo e ingênuo pensar que esse outrora chefe do regime de Washington pudesse fazer algo para ajudar o povo haitiano, ou qualquer outro povo, e muito menos impulsionar a reconstrução dessa nação.

Fonte: Cuba Debate

Publicado em Informação Alternativa

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No Haiti, miséria da disputa pelo poder sobre os miseráveis

O terremoto que arrasou a capital do Haiti não pôs abaixo apenas prédios e casas, ceifando a vida de dezenas de milhares de haitianos. Ele ruiu as já frágeis instituições de um Estado em permanente crise, corroído pelas dificuldades históricas de constituição de uma nação que emergiu de uma revolução escrava, com população negra e explorada por países ricos.

As imagens de destruição, dor e revolta que vemos na televisão são o ápice de uma situação que já era deplorável, mas ignorada pelo mundo. A catástrofe que atingiu Porto Príncipe colocou o Haiti, seus problemas e seu povo no centro das atenções deste mundo guiado pelo instantâneo.

Antes da tragédia, poucos tinham interesse no futuro do Haiti. A Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti - Minustah - criada pela ONU em 2004 e comandada pelo Brasil, cumpria importante papel na reconstrução desse Estado, como ficou evidente nas últimas eleições legislativas realizadas no país, em 2009.

Agora, com os holofotes voltados para o desastre, outros países saíram da sombra em busca de maior protagonismo no processo de reconstrução do país. Ajuda humanitária, sensibilização diante do sofrimento e da dor, senso de responsabilidade e solidariedade. Pode ser. Mas há também uma profunda disputa política internacional por poder, visibilidade e ascendência no mundo.

Os Estados Unidos são uma peça chave nesse tabuleiro. Já ocuparam e assumiram o controle sobre o aeroporto da capital haitiana, que neste momento é o centro nervoso do poder no país. Isto porque quem controla o aeroporto, controla quem entra e sai do Haiti. Determina quais ajudas receber e quais não receber. Controla o espaço aéreo, comando estratégico para qualquer nação.

O Ministério da Justiça prontamente se pronunciou sobre essa “intervenção” estadunidense. Nelson Jobim fez sua queixa diretamente à secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Sob a tutela dos EUA, o aeroporto já impediu a aterrissagem de aeronaves brasileiras e francesas.

Nunca é demais lembrar que o plano de constituição de bases militares dos Estados Unidos na América Latina vai de vento e popa e, nessa geografia, o Haiti pode ser mais um estratégico ponto de apoio.

Para não dizer que com uma intervenção mais direta os Estados Unidos lustram sua imagem internacional, desgastada por ocupações de destruição. Em particular, ganha Barack Obama que pode, com a missão no Haiti, criar um contraponto à política de seus antecessores e aparecer como o homem da paz – e, quem sabe, fazer jus ao prêmio Nobel recebido.

No próximo domingo, uma teleconferência no Canadá organizada pela ONU vai debater a situação do Haiti e o papel dos países no processo de ajuda humanitária e reconstrução. Não há como deixar de lado os objetivos políticos que cada nação tem nesse processo; seria inocente pensar assim. Mas esses objetivos não podem, de maneira nenhuma, se sobrepor ao objetivo central e número um que é resgatar a dignidade do povo haitiano.

Original em Vermelho

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

EUA retarda apoio internacional para entupir o Haiti de marines

A secretária de Estado Hillary apareceu em Porto Príncipe e sugeriu, piamente, mais poder ao presidente Préval, citando o poder de decretar toque de recolher. “Um decreto assim lhe daria uma autoridade enorme, que seria delegada para os EUA”

A Sem autorização da ONU, o Pentágono mandou para o Haiti 10 mil soldados e marines, e uma frota capitaneada por um porta-aviões nuclear. Ocupou o aeroporto de Porto Príncipe e impediu o desembarque de médicos, equipes de resgate, hospitais de campanha, remédios e alimentos, provocando a condenação da França, do Brasil e de organizações internacionais, como a Cruz Vermelha e o Programa de Alimentos da ONU. Vôos com médicos e remédios foram desviados para a vizinha República Dominicana, advertiu a Cruz Vermelha Internacional. Também o Programa de Alimentos da ONU denunciou que “a maioria dos vôos são para os militares dos EUA”.

Assim, nos seis dias imediatamente após o terremoto, cruciais para que houvesse, ainda, chances de encontrar sobreviventes sob os escombros, a ação do Pentágono esteve concentrada não em liberar o máximo de recursos para o resgate, mas em estender a ocupação. O porto da capital também foi ocupado. O comandante da força invasora, tenente-general Ken Keen, prometeu que, assim que dispuser de mais material de transporte terrestre, irá “estender nossos tentáculos ao interior”. Das embarcações da 4ª Frota enviadas ao Haiti arrasado pelo terremoto, a última a partir foi o navio-hospital. A parca “ajuda” distribuída pelos marines, uns pacotes de ração com biscoito ressecado, foi lançada sobre uma ou outra multidão, causando tumultos.

TOQUE DE RECOLHER

Só na sexta-feira dia 15 os EUA se deram ao desfrute de oficializar a ocupação do aeroporto com a assinatura do presidente René Préval em um documento redigido em Washington. No sábado dia 16, a secretária de Estado Hillary Clinton apareceu em Porto Príncipe, ao lado do chefe do Pentágono, Robert Gates, para ver de perto como andava a ocupação. Foi logo propondo que o parlamento, aliás destruído, aprovasse “novos poderes” para o presidente Préval, que nem palácio mais tem. Em primeiro de tudo, o poder de decretar toque de recolher. Esses novos poderes deveriam, claro, ser repassados para a tropa invasora. “Um decreto daria ao governo uma autoridade enorme, a qual, na prática, eles delegariam para nós”, afirmou Hillary ao “The New York Times”.

Durante o voo para Porto Príncipe, Hillary asseverou aos jornalistas que o governo do Haiti havia dado aos EUA “liberdade de ação para trabalhar”. Aliás, acrescentou, praticamente “pedira” a ocupação e a “segurança”. Também, pudera: tão gentilmente convidado por 10 mil marines, um porta-aviões nuclear e todo o charme de Obama, um gentleman como Préval – talhado na gelatina - não iria se omitir, ao final da visita, em assinar um “comunicado conjunto”. Mas o “comunicado conjunto” não resolve nada. Sob a pressão dos países que constituem a força de paz, começaram a ser esboçados pontos como o estabelecimento de dois corredores humanitários, para que possa ser distribuída ajuda em larga escala e prestado socorro médico ao grande número de feridos.

Quanto às relações entre os EUA e o Haiti, ninguém melhor que o único militar duas vezes condecorado com a Medalha de Honra do Congresso, o general de marines Smedley Butler. “Eu ajudei a fazer o Haiti e Cuba um lugar decente para os rapazes do National City Bank coletar receitas. Eu ajudei a estuprar meia dúzia de repúblicas centro-americanas em benefício de Wall Street. A lista de extorsões é longa”, afirmou Butler, ao se dar conta de que, diante do ele que havia executado para as corporações dos EUA, Al Capone “era um amador”. Além do Citibank, a outra grande beneficiária da invasão de 1916 – que durou até 1934 – foi a Haitian American Sugar Co. A constituição da invasão revogou artigo em vigor desde a independência, que só permitia a posse de terra aos haitianos.

“LAGO AMERICANO”

Antes, no século XIX, uma intervenção armada após outra. Além da doutrina do “Destino Manifesto”, que pretendia o Caribe como um “lago americano”, o Haiti tinha um significado particular: os escravagistas dos EUA jamais engoliram aquela república negra de escravos libertos. Na origem do estrangulamento sobre a jovem república, a indenização imposta pela França, após bloqueio naval à venda do açúcar haitiano, e cujo pagamento só acabou em 1947. Dívida que abriu caminho ao Citibank no país.

Nos anos 50, os monopólios dos EUA patrocinaram a ditadura de Duvalier – o Papa Doc – e seu rebento, Baby Doc. O regime dos tonton-macoutes desabou em 1986. Em 1994, os planos de “ajuste” do FMI chegaram ao Haiti, embutidos no apoio de Washington a Aristide, que havia sido derrubado por um general golpista. Umas poucas unidades da Disney e a Levis foram instaladas: salários de fome para costurar bolas de beisebol, calças jeans e minnies. Mas a agricultura, num país com 70% de habitantes nas áreas rurais, foi dizimada pelo dumping – um sub-Nafta -, e o Haiti virou importador de alimentos dos EUA, que também controla seu comércio exterior. Para aumentar a desorganização do estado nacional, sob o pretexto de evitar a “corrupção”, Ongs estrangeiras passaram a canalizar as verbas da “ajuda humanitária”.

Como Aristide não aceitou os “ajustes” na íntegra, e já no governo de W. Bush, os EUA financiaram e armaram bandos de neo-macoutes, que serviram de fachada para o seqüestro e expulsão do presidente em 2004, levada a cabo por marines e agentes da CIA. A ação da diplomacia brasileira e francesa, que deu origem a uma força de paz comandada pelo Brasil, esvaziou a invasão e forçou a retirada dos EUA três meses depois. Como se vê, eles tiveram de se retirar, mas teimam em não admitir a derrota.

ANTONIO PIMENTA

Original em Hora do Povo

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Brasil e França reagem ao abuso norte-americano no Haiti

Ministro Celso Amorim pede “respeito claro à Minustah, que é a força oficial da ONU”

O Brasil e a França reagiram à atitude arrogante dos EUA que, desrespeitando a todos, assumiram unilateralmente o controle do aeroporto do Haiti no final da semana passada. Num atropelo à autoridade da ONU na região, os militares americanos impediram o pouso de aeronaves que traziam ajuda de outros países no aeroporto de Porto Príncipe, capital do país. “Temos que coordenar no terreno a ajuda, com respeito claro à Minustah, que é a força oficial da ONU”, protestou o chanceler brasileiro, Celso Amorim. Para ele, esses obstáculos estavam atrapalhando o trabalho de busca e salvamento das vítimas do maior terremoto ocorrido no Haiti nos últimos 200 anos.

Já o ministro do Exterior da França, Bernard Kouchner, afirmou, segundo relato feito pelo embaixador francês no Haiti, Didier Le Bret, que o aeroporto de Porto Príncipe “não está sendo usado para a comunidade internacional, mas como um anexo de Washington”. O secretário de Estado de Cooperação francês, Alain Joyandet, que foi impedido pelas tropas americanas de pousar na cidade a bordo de um vôo que trazia um hospital móvel francês, disse, após o lamentável episódio, em entrevista à radio Europe 1, que “a ONU deve precisar qual é o papel dos EUA”. “Trata-se de ajudar o Haiti e não ocupar o país”, apontou. Joyandet fez questão de ressaltar que este tipo de comportamento está causando uma frustração crescente nas equipes de resgate e socorro, que dependem da única pista em operação no aeroporto para receber suprimentos.

Em telefonema à secretária de Estado americana, Hillary Clinton, o chanceler brasileiro defendeu que a coordenação dos auxílios internacionais ao Haiti seja feita sob a égide da ONU. “Cada um está fazendo o que pode, o importante é coordenar para evitar problemas no terreno. Às vezes, há muita gente querendo ajudar ao mesmo tempo, esbarra um no outro e não dá certo. Então temos que coordenar no terreno, com respeito claro à Minustah, que é a força oficial da ONU”, frisou Amorim.

Ao desembarcar em Brasília, de volta do país caribenho, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, também criticou a ação dos americanos. Segundo ele, a atitude dos EUA ao assumir o controle do aeroporto foi “unilateral”. “Não dá para se pensar em fazer assistencialismo unilateral. Tem que fazer assistencialismo multilateral”, afirmou o ministro, que não descartou o envio de um número ainda maior de militares brasileiros para a missão da ONU no Haiti.

O general brasileiro Floriano Peixoto, que comanda a força de estabilização do Haiti, reprovou a intenção do Comando Militar do Sul, responsável pelas tropas dos EUA direcionadas para as Américas, de enviar uma brigada de paraquedistas para o Haiti. O momento, segundo Peixoto, é de enviar tropas para reconstrução do país, e não treinadas para combate. O general disse que devido à dificuldade de pouso, a chegada do hospital de campanha brasileiro ao Haiti foi adiada em 24 horas.

As críticas crescentes ao controle unilateral do aeroporto estão sendo feitas exatamente por causa das vidas que estão deixando de ser salvas por conta dessa atuação. Várias aeronaves carregadas com equipamentos, remédios, médicos e especialistas estão sendo impedidas de chegar ao país.

Já desde o início das operações de ajuda à população do Haiti, enquanto o Brasil, além de seus efetivos militares atuando no local, mandava junto com outros países recursos, cães farejadores, bombeiros, medicamentos, alimentos, água, etc, o Pentágono estranhamente anunciou seu “socorro” à ilha com o porta-aviões nuclear USS Carl Vinson, o porta-marines USS Bataan, um cruzador porta-mísseis e mais meia dúzia de destróieres. A comunicação foi feita pelo chefe do Comando Sul, o general Douglas Fraser, em uma entrevista em Miami, conforme a “Associated Press”. Mais parecia uma operação de invasão militar e muito pouco de ajuda humanitária ao país caribenho.

Além do mais, segundo a agência de notícias AFP, diversas pessoas que tentavam deixar o Haiti nos últimos dias reclamavam que os EUA estavam dando prioridade para a retirada de seus cidadãos. Segundo ainda a mesma agência, empresas de telecomunicações e especialistas enviados por vários países para tentar restabelecer a comunicação telefônica no Haiti tiveram seus trabalhos atrasados por causa das proibições de pousos. Quatro voos que traziam equipamentos e técnicos foram desviados, enquanto aviões trazendo autoridades americanas eram autorizados a pousar na capital haitiana.

Fruto dos protestos de Brasil, França e outros países, a situação foi ficando cada vez mais insustentável para as autoridades americanas. Algumas soluções já começaram a ser delineadas numa reunião envolvendo 10 países, a ONU e a OEA, realizada na segunda-feira. Por teleconferência, ficou decidido que a definição de prioridades e a coordenação das operações ficará a cargo da ONU, junto com o governo do Haiti. Além disso, ficou estabelecido que, com o aumento da ajuda internacional e o conseqüente crescimento do número de aeronaves que vão se dirigir ao Haiti, uma ponte terrestre com a vizinha República Dominicana será aberta para ajudar no recebimento de apoio internacional. Segundo avaliação da ONU, o porto da capital haitiana não poderá ser usado porque está completamente inoperável.

SÉRGIO CRUZ

Original em Hora do Povo

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