Além do Cidadão Kane

sábado, 20 de dezembro de 2008

Que venha o jornalismo

Elaine Tavares *

O Jornalismo no Brasil é uma vergonha. Quase tudo o que se vê na TV ou se lê nos jornais e revistas semanais pouco tem a ver com a vida das gentes. As fontes são as oficiais e raros são os que se aventuram pelas estradas vicinais, poeirentas, da vida real. Melhor é ficar no gabinete, nas salas acarpetadas, com ar condicionado, a sorver cafezinho e ouvir, reverente, a voz do poder. Isso dá muito mais lucro. Pode colocar um jornalista nas graças dos que mandam. Isso significa verbas adicionais e fama. Quem não quer?
O ser humano normal sonha com isso. Trabalhar na Globo, aparecer em rede nacional, ser reconhecido no supermercado. E, de quebra, ainda ter uma boa poupança para os tempos difíceis. Para isso, só vale uma regra: não brigar com o poder. Servilismo, servidão. Dar murro em ponta de faca pra quê? Bobagens de quem não tem família para sustentar.
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Pois o jornalista iraquiano Muntadar al-Zeidi fez o improvável. Ele não escreveu qualquer matéria, não ficou perdido entre anotações, não usou câmera escondida, não foi para frente de batalha, não mergulhou em documentos, sequer narrou a vida desgraçada dos seus compatriotas, acossados pela ganância estadunidense. Ele apenas arremessou um sapato contra o rei. Numa situação absolutamente normótica, quando os jornalistas se aglomeram para fazer perguntas idiotas a um energúmeno completo como é o presidente estadunidense, sem que absolutamente seja aventada qualquer possibilidade de um questionamento embaraçoso paro o poder, o homem, jornalista, explodiu.
Não era terrorista, nem homem-bomba, nem nada. Só uma pessoa, cansada de servir àquele que nada mais era do que um gangster de terceira classe. Mas que, por tanto tempo nos píncaros da gloria, comandando o exército mais poderoso da terra, havia de ser temido. E assim, não bastando ter destruído toda a cultura do Iraque, matado sua gente, destruído sua auto-estima, massacrado sua honra, ainda se deu ao luxo de ir dizer "goodbay". Tripudiava, pisoteava, humilhava um pouco mais aquele povo que até hoje, passados cinco anos, ainda morre pelo simples fato de ser o que é.
O jornalista não ouviu os dois lados, não contou histórias, não checou informações. Ainda assim merece ganhar todos os prêmios do mundo. E por quê? Porque num tempo em que o normal é servir ao poder ele disse: Não! Sem armas, mas sem medo, ele usou o que mais prosaico se poderia usar, o sapato. E, num ato de digna raiva o arremessou contra o boneco estadunidense, que tal e qual um estúpido, ria sem entender a grandeza do gesto. O jovem iraquiano que aos gritos de "cachorro", tentou atingir o presidente do país mais armado da terra, ficará eterno ao protagonizar uma hora histórica. No lugar improvável, entre os serviçais, ele se levantou e arremessou o sapato. Um gesto pueril, inglório, tolo, mas que redimiu parte da humanidade.
Não é sem razão que pelo mundo todo seu gesto ingênuo esteja sendo saudado como a maravilha das maravilhas. Porque no planeta dos escravos de Jó teve um que decidiu sair da casinha do jornalismo cortesão e dizer ao mundo a palavra aprisionada: "cachorro!", que, pensando bem, é uma ofensa contra esses lindos animais.. Vai-te para o inferno George Bush, porque, como já dizia Ali Primera "hermano de mi pátria usted no es".
Foi bonito, foi redentor, mas, e agora? Será diferente com Obama? É diferente dos demais carrascos? Trará paz ao mundo? Acabará com Guantánamo? Findará a tortura? Deixará de ingerir sobre a vida das gentes nos países que têm riquezas para eles roubarem? Duvido muitíssimo!
O bravo jornalista do Iraque enfrentou a ira dos deuses e está a receber aplausos de todos os cantos do mundo. Legal, isso é bom. Mas, quisera eu que os coleguinhas do mundo todo principiassem a realizar o insólito, tal qual o iraquiano, não atirando sapatos, mas narrando a vida, a vida mesma, essa que escorre pelos dedos da história real e que não encontra espaço para se expressar.
Sim, foi orgástico ver o sapato voando. Talvez fosse tudo o que aquele homem pudesse fazer. Mas nós, aqui na terrinha, podemos mais do que um sapato no ar. Nós podemos contar da vida, dos podres do poder, da dominação. Nós podemos narrar o horror do cotidiano e mais, nós podemos anunciar a boa nova. Outras formas há de se viver no mundo. Boas e bonitas. Os atiradores de sapatos são bem vindos, sim, mas é chegada a hora dos Jeremias a insistir contra todo o bom senso: "ainda hão de nascer flores neste lugar". Viva o jornalista iraquiano que arremessou os sapatos, mas vivam também os loucos que, a despeito de tudo, jogam a merda do capital no ventilador. Eles não aparecem em rede nacional, mas estão aí, insistindo e lutando. Há mais sapatos voando por aí do que pode sonhar nossa vã filosofia!
* Jornalista

Original em Adital
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México, América Central e violações de direitos humanos

Tradução: Adital
Por Laura Carlsen - Diretora do Programa das Américas na Cidade do México.

Migração e globalização*

Com a crise econômica global, as premissas da globalização estão na mira de todos. As profundas contradições do modelo de "vantagens comparativas" e exportação como motor de desenvolvimento têm sido expostos por uma das piores crises da história que, segundo os estudiosos, todavia não chegou ao fundo.
Os fatos levam à necessidade de fazer um balanço imparcial deste modelo de globalização. Entre as consequências a ser avaliadas, a migração é um estudo obrigatório a ser feito no México.
O México é o primeiro exemplo de um país pobre que se integrou com um país rico. Os promotores do Tratado de Livre comércio da América do Norte (em inglês, Nafta), asseguraram que o resultado seria um processo gradual de convergência entre as duas economias e uma diminuição da migração do México para os Estados Unidos.
Aconteceu ao contrário. A partir do Nafta, o número de mexicanos buscando trabalho nos EUA disparou. Agora, mais de 10 milhões de migrantes -com e sem documentos- vivem do outro lado da fronteira.
Apesar do marcado incremento no comércio, o acordo comercial não gerou os empregos previstos. E o mais grave, as importações dos EUA provocaram o desemprego de trabalhadores do campo e de pequenas e médias empresas. Calcula-se que uns dois milhões de camponeses deixaram a produção agrícola. Muitos deles migraram.
Migração e movimento da força de trabalho não formaram parte do Nafta. Enquanto o translado transfronteiriço de bens é facilitado, a resposta ao aumento nos fluxos migratórios tem sido a criminalização das/os migrantes e a construção do infame muro fronteiriço. Desde 1994, uns 5 mil migrantes foram mortos na tentativa de cruzar a fronteira.
Nos primeiros dois anos de governo de Felipe Calderón, o México tornou-se um "foco vermelho", por ser um país acostumado a ‘expulsar’ migrantes e devido ao tratamento dado aos migrantes centro-americanos na fronteira sul. As organizações de migrantes mexicanos nos Estados Unidos acusam o governo mexicano de não defender os direitos de seus cidadãos, devido à sua subordinação ao governo estadunidense e pelo alto grau de dependência econômica. Também criticam a falta de programas de geração de trabalho digno.
Quanto à sua fronteira sul, o relator de direitos humanos para a ONU, o mexicano Jorge Bustamante, conclui: "Cometemos violações dos direitos humanos contra os centro-americanos de maneira igual ou pior ao que é dado pelos estadunidenses aos mexicanos".
Na globalização, o número de centro-americanos que migram para os EUA sobe a cada ano e suas economias dependem das remessas que estes enviam a suas famílias. Bustamante informa que, em sua passagem pelo território mexicano, os migrantes são "torturados, humilhados e extorquidos" por uma "rede criminosa" integrada por membros das forças armadas, da polícia e por funcionários corruptos.
As violações dos direitos humanos derivam da adoção de um enfoque de controle fronteiriço na política migratória. O governo de Bush tem pressionado o governo mexicano para parar a migração de centro-americanos que vão para os Estados Unidos, como parte de uma estratégia mais ampla de "empurrar para fora" seu próprio perímetro de segurança - isto é, de impor sua estratégia de segurança nacional a seus sócios norte-americanos.
Esta extensão do Nafta à área de segurança está formalizada pela Aliança para a Seguridade e Prosperidade da América do Norte (ASPAN) e pela Iniciativa Mérida - um pacote de ajuda militar/policial que inclui medidas fronteiriças para controlar "o fluxo de bens e de pessoas ilegais".
O agora desacreditado modelo de globalização considera os migrantes como uma ameaça à segurança nacional, ao mesmo tempo em que suas políticas comerciais atiram milhares de pessoas à travessia mais perigosa de suas vidas. Os milhões de dólares destinados a deter e deportar os migrantes deveriam ser canalizados para uma estratégia regional voltada para a geração de emprego digno. É hora de revisar os Tratados de Livre Comércio que cerram oportunidades de emprego nos países de origem. Se não, a crise de direitos humanos para os migrantes se aprofundará com a crise econômica.

*Esse artigo foi publicado originalmente em La Estrella de Panamá


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Trabalhadores reagem contra chantagem patronal

A crise econômica mundial é o pretexto para a nova ofensiva patronal contra os direitos dos trabalhadores. Nos últimos meses, o crescimento econômico favoreceu a luta operária; o desemprego diminuiu e algumas categorias tiveram conquistas, principalmente salariais.

Esse ambiente favorável havia enfraquecido as armas usadas pelos patrões para chantagear os trabalhadores e impor perdas de direitos sociais. Mas a burguesia nunca desistiu de sua ofensiva nem arquivou seus programas de ''flexibilização'' da legislação.

O presidente da Vale, Roger Agnelli, atacou pela imprensa - e, diz ele, em conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - as leis trabalhistas. Ele quer a ''suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução de salário, coisas assim''. ''Seria algo temporário, para ajudar a ganhar tempo enquanto essa fase difícil não passa''.

O governo tucano de José Serra tem pretensões semelhantes, e a Secretaria do Emprego e das Relações do Trabalho divulgou a proposta de criar um programa emergencial de seguro desemprego e suspender temporariamente o contrato de trabalho nas empresas em dificuldades.

Passando das palavras aos fatos, a fabricante de vagões ferroviários Amsted-Maxion demitiu cerca de 1.500 operários nas cidades paulistas de Osasco, Hortolândia e Cruzeiro (nesta, há outros 200 sob ameaça do facão patronal). E infringiu a lei ao incluir entre os demitidos, trabalhadores que têm estabilidade ou que sofreram doenças ocupacionais e acidentes de trabalho.

A chantagem é nítida. No caso da Vale, a empresa teve dois anos de lucros líquidos estratosféricos: 13,4 bilhões de reais em 2006 e 20 bilhões em 2007. Mesmo assim, é ré num crescente número de processos trabalhistas (que já supera oito mil, incluindo as empresas terceirizadas!) na Justiça do Trabalho do Pará.

No caso da Amsted-Maxion, é difícil acreditar que os efeitos da crise já tenham batido à sua porta, justificando ações preventivas contra ela. É sabido, entre os sindicalistas, que fabricantes de bens de capital (como ela) tendem a ser os últimos afetados pela simples razão de que não produzem para o mercado de consumo direto, como as demais empresas, mas sob contratos efetuados com fabricantes de produtos finais, contratos protegidos por pesadas multas.

Além disso, existem as linhas de crédito oferecidas pelo governo justamente para manter a produção e o nível de emprego, que beneficiam as empresas.

Tudo isso fundamenta a forte percepção de que demissões e pretensões de eliminar direitos trabalhistas não passam da costumeira chantagem patronal contra os trabalhadores e o governo - que sinalizou que não vai se envolver nesta questão, mas deixá-la para a negociação entre patrões e operários. ''Quanto mais distância o governo tiver da relação entre capital e trabalho, melhor'', disse Lula. ''Eles sentam à mesa e encontram um acordo''.

Neste jogo a luta dos trabalhadores é central. A resposta para a chantagem patronal foi rápida: na Amsted-Maxion, no dia 15, cruzaram os braços pela reintegração dos trabalhadores dispensados.

A greve, disse o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves (Juruna), ''é uma importante demonstração de força para os trabalhadores verem que é possível resistir'', que ''é possível levantar a cabeça''. A orientação é clara: onde houver demissões, ''toda a categoria vai entrar em greve'', disse. ''Os trabalhadores não vão pagar por uma crise econômica que não é sua''.

Esta orientação é partilhada pelas demais centrais, entre elas a CUT e a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) que, no documento entregue ao governo, no início do mês, defenderam a garantia do emprego como condição para as empresas em dificuldades obterem empréstimos de emergência nos bancos oficiais.

Ao contrário do que pretendem Roger Agnelli, os patrões e o governo tucano de São Paulo, os trabalhadores querem manutenção dos empregos e redução da jornada de trabalho sem diminuição dos salários para fortalecer o mercado interno e permitir o enfrentamento da crise avançando, e não andando para trás.

Original em Vermelho


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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Faltou um divã para FHC?

Deve ter sido muito doloroso para o “príncipe uspiano” descobrir que a sociedade nova não só estava com Lula como, após seis anos de governo, continua a apoiá-lo. Como nunca antes na história desse país.
Gilson Caroni Filho

No dia em que saem mais duas pesquisas dando conta da aprovação recorde do governo e do aumento da popularidade do presidente, o que deve calar mais fundo na oposição é a lembrança do passado recente. E o quanto os seis anos de governo petista representaram de ruptura com ele. Das prioridades internas, com ênfase no mercado interno e nas políticas redestributivas, à inserção externa soberana e bem orientada, as mudanças foram por demais substantivas para serem ignoradas. Assim, é hora de, no final de 2008, relembrarmos o ocaso de um governo que levou o país à bancarrota.Vivíamos o ano de 1999. Num quadro de crise de ideologias, de fim de utopias, de aumento de desemprego, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deitava falação sobre as mudanças ocorridas no Brasil. Detectava o surgimento de uma nova sociedade e acreditava que a parte moderna dela iria aderir ao projeto neoliberal. Aquele em que a arquitetura política era vista como defeituosa e as virtudes deveriam ser creditadas aos agentes do mercado, os empreendedores, “heróis” do capitalismo de massa, que deixariam perplexos tanto a esquerda quanto a direita conservadora. Seriam eles "os heróis de nossa gente", filhos do "silêncio" e do "medo da noite".Correto ao diagnosticar as transformações em curso no país, FHC se equivocava em acreditar que os novos e emergentes setores da sociedade, quando se organizassem efetivamente, apoiariam seu projeto de reformas. Como bem destacou, na época, a cientista política Maria Vitória Benevides, as afirmações de que a crise de representação era algo novo no país e a de que os movimentos sociais, em especial o MST, estavamenfraquecidos eram falácias tão gritantes que deixavam no ar uma impressão de bonapartismo sugerido. O que o ex-presidente insinuava era que o velho não estava com ele, mas o novo só não o apoiava por falta de organicidade. A incapacidade de pensar o país foi a marca do governo tucano.O cenário era desolador. O ambiente pós-desvalorização ficou confuso. Sem crescimento, não se recuperava o nível de emprego. O desemprego que explodiu em janeiro de 1998 por causa da crise asiática, não dava sinais de reversão. A combinação de queda na renda e desemprego atingia o setor produtivo. O comércio registrava perdas expressivas durante 18 meses. Com vendas fracas, indústria e comércio tendiam a segurar os preços, deixando claro que só com ambiente recessivo o governo tucano conseguia reduzir a taxa de inflação. Diante disso, é possível falar em continuidade de modelo?Nesse quadro, os partidos de apoio ao Governo-PSDB, PFL (DEM) e parte expressiva do PMDB - atribuíam à falta de comando do então presidente as disputas e brigas na base aliada. O distanciamento de Fernando Henrique do dia-a-dia da política e a crise econômica minaram sua autoridade, e resultado foi um verdadeiro tiroteio entre os principais políticos desses partidos. Aécio Neves, lembram disso?, se dizia inconformado com o processo de privatização de Furnas. No PFL, a comoção se dava por conta da não nomeação do ex-ministro Luiz Carlos Santos para nenhum cargo, depois de lhe terem prometido a presidência da BR Distribuidora. No PMDB, o desconforto foi causado por uma promessa não cumprida de FHC a Michel Temer de nomear um amigo do ex-presidente da Câmara para a direção da Petrobrás. O acúmulo de ressentimentos sinalizava para uma conclusão melancólica de governo.As digressões de Fernando Henrique soavam a alheamento da realidade. Pior, uma fuga dela pelo discurso diletante. A situação se apresentava como nunca antes navegada: a impopularidade do presidente era maior que a do seu Governo, o real se contaminava com tudo isso e a bloco de poder contemplava a rota de afastamento. E nenhum jornal pensou em chamar um psicanalista para analisar um presidente em seu ocaso. Ou ouvir a população que, ao reprová-lo, mostrava não fugir da realidade. Um Jacob Pinheiro Goldberg para falar em “mecanismos de negação freqüente quando se enfrenta uma situação de impotência".Afinal, deve ter sido muito doloroso para o “príncipe uspiano” descobrir que a sociedade nova não só estava com Lula como, após seis anos de governo, continua a apoiá-lo. Como nunca antes na história desse país.

Original em Carta Maior



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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Iraquianos festejam nas ruas sapatada em Bush

Com as duas sapatadas desferidas pelo patriota Muntadar Al Zaidi, a encenação de Bush-Maliki foi para o vinagre. Ou, como destacou uma das organizações integrantes da Re- sistência iraquiana, foi um “referendo contra o acordo”.
Manifestações em Bagdá, Najaf, Faluja, Basra e outras cidades iraquianas comemoraram na segunda-feira dia 15 as sapatadas do jornalista Muntadar Al Zaidi no criminoso de guerra George W. Bush, em pleno QG da ocupação, na Zona Verde da capital iraquiana. “Toma o beijo da despedida, seu cachorro”, gritou Al Zaidi ao arremessar o primeiro sapato, que quase atingiu W. Bush, que teve de dar um mergulho, para escapar. Pouco antes, Bush havia enaltecido a escalada da invasão nos últimos meses, e dito que sua viagem era “o beijo de despedida” ao Iraque. Nos países árabes, o arremesso de um sapato é um dos maiores insultos que podem ser feitos.


“PELAS VIÚVAS E ÓRFÃOS”

Logo em seguida, o jornalista arremessou seu segundo sapato, e gritou que esse era “pelas viúvas, pelos órfãos e por aqueles que foram mortos no Iraque”. O sapato passou zunindo pela cabeça de W. Bush - que se abaixou às pressas enquanto o primeiro-fantoche Nuri Al Maliki tentava dar uma de zagueiro -, e ainda pegou em cheio na bandeira dos EUA atrás deles. A motivação de Bush para ir a Bagdá era a aprovação, pelo governo e parlamento fantoche, do acordo, ditado pelo Pentágono, que, em nome de marcar a retirada, “autoriza” presença militar permanente dos EUA no país (um corolário da lei de pilhagem do petróleo).
Mas, com as duas sapatadas desferidas pelo patriota Al Zaidi, a encenação Bush-Maliki foi para o vinagre. Ou, como destacou uma das organizações integrantes da Resistência iraquiana, foi um “referendo contra o acordo”. O vídeo da humilhante situação de Bush se abaixando para escapar dos sapatos correu mundo, e até virou joguinho na internet: acerte uma sapatada nele. Poucas vezes a impotência do invasor e seus lacaios, mesmo dentro da sua fortaleza, a Zona Verde, ficou tão patente. Ergueram muradas e mais muradas, inúmeros postos de checagem, e chega um patriota, com um par de sapatos, e coloca a invasão a nu. A ponto da mídia imperial se ver obrigada a registrar que as sapatadas marcam o melancólico fim do governo Bush.
Na manifestação na capital, um avantajado sapato acompanhava o letreiro: “fora EUA”. Milhares de pessoas, empunhando bandeiras iraquianas – daquelas que invasores e fantoches vivem tentando abolir –, exigiram a retirada imediata das tropas dos EUA e a libertação do jornalista. “Bush, Bush, ouça bem: dois sapatos em sua cabeça”, gritava a multidão. No mundo inteiro, e mais ainda, entre os povos árabes e islâmicos, Al Zaidi foi acolhido como herói. Após seu gesto, o jornalista foi agarrado e espancado ali mesmo por agentes americanos e colaboracionistas, e retirado do local. Há notícias de que foi levado para o campo de concentração dos EUA junto ao Aeroporto de Bagdá. Mais de 200 advogados, inclusive o advogado-chefe de Sadam Hussein, Khalil Al Dulaimi, já se ofereceram para defender Al Zaidi (veja matéria). O canal de TV em que trabalha, a TV Bagdá, com sede no Egito, reiterou pedido de sua pronta libertação e responsabilizou o regime por sua integridade física.
E a ação de Al Zaidi vai fazendo escola: em Najaf, um comboio militar norte-americano foi repelido a sapatadas.

ANTONIO PIMENTA
Original em Hora do Povo

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Fantasma das rebeliões

"O mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em "zonas de fratura [1]"
José Luís Fiori

Não existe uma teoria da revolução, existem várias. Mas quase todas reconhecem a existência de um denominador comum. Na experiência revolucionária dos séculos 19 e 20, as revoltas acontecem - quase sempre - em sociedades fraturadas, com estados enfraquecidos pelas guerras e por grandes crises econômicas, e situados em "zonas de fratura", onde se concentra a pressão geopolítica da disputa entre as grandes potências. São nestes territórios, que costumam nascer e multiplicar as rebeliões mais importantes e resistentes. Sempre violentas, não tem homogeneidade ideológica e não produzem grandes mudanças estruturais imediatas, como costuma acontecer no caso das revoluções sociais e políticas bem sucedidas. Pois bem, se esta tese for correta, não é difícil de prever o novo mapa mundial das rebeliões, deste início do século 21. Basta seguir os passos da competição geopolítica e econômica das grandes potências, depois do fim da Guerra Fria, e localizar os seus pontos de maior pressão competitiva, onde estas potências exercem de forma mais direta sua capacidade de dividir e mobilizar as forças locais, umas contra as outras, dentro dos estados situados nestes "tabuleiros geopolíticos" mais disputados. Alguns destes pontos são mais visíveis, e de explosividade imediata. Outros, são menos visíveis e de combustão mais lenta.
Tudo começou em 1991, com a desintegração da União Soviética e a entrada das forças OTAN ou dos EUA, na Europa Central, nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central - região mundial de maior complexidade geopolítica, envolvendo os territórios do Afeganistão, Paquistão, Norte da Índia, Cashemira e Tibet. Não havia nenhuma grande potência que não estivesse envolvida em alguma destas áreas e na disputas pelo seu controle. Utilizavam ou incentivavam grupos e organizações locais, de todo tipo, numa sucessão de revoltas, rebeliões, atentados terroristas e guerras civis que não tinham como parar, a menos de um acordo multilateral improvável, ou de uma retirada de todas as grandes potencias envolvidas, o que é rigorosamente impossível do ponto de vista da lógica do sistema e dos interesses e posições que já tinham sido ocupadas pelos participantes daquele novo "grande jogo". Alfred Mackinder e Nicholas Spykman - os dois maiores teóricos geopolíticos anglo-americanos - definiram esta faixa de terra que vai do Báltico até a China, como uma fronteira decisiva para o controle do poder mundial, situada entre as "potências marítimas" e as "grandes potências terrestres", ou seja, entre a Grã Bretanha e os Estados Unidos, de um lado, e do outro, sobretudo, a Rússia e a China.
Logo em seguida, neste "mapa da pólvora", apareceu a África Negra. Depois de 2001, os EUA mudaram sua política externa e aumentaram sua presença no continente africano. Mas tal mudança de posição não foi um fenômeno isolado, e foi seguida pela União Européia, Rússia, China, Índia, e também pelo Brasil. Em poucos anos, o cenário africano mudou. Aumentou a competição imperialista, e de novo, como nos séculos anteriores, as potências e suas grandes empresas utilizam a seu favor, e muitas vezes incentivam , as lutas tribais e as guerras locais, entre os estados que nasceram da decomposição dos seus próprios impérios coloniais. Neste momento, já estavam em curso rebeliões e guerras civis, no Congo, na Somália, no Zimbábue e na Nigéria, com participação de países e empresas de fora da África, e com o envolvimento direto de Angola, Ruanda, Namíbia e Burundi. Também neste caso, não havia perspectiva de acordo local, ou de retirada das grandes potências, e o mais provável é que a África se transformasse - uma vez mais - em território privilegiado da corrida imperialista e num verdadeiro "semilheiro" de rebeliões de todo tipo.
Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial
E o que se pode prever com relação à América do Sul? Durante os séculos 19 e 20, foi uma região de influência anglo-americana, sem grandes disputas imperialistas. Mas neste início do século 21, o cenário e as perspectivas mudaram. De forma lenta, mas implacável, a pressão da nova corrida imperialista, que começou na década de 90, está alcançando a América do Sul e deve produzir os mesmo efeitos do resto do mundo. Já fazem parte deste processo, o envolvimento militar americano com a Colômbia, a reativação da IV Frota Naval dos EUA para o Atlântico Sul, a intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, e os conflitos internos da Bolívia e da própria Colômbia. Mas também: a criação da UNASUL e do Conselho de Defesa da América do Sul, e todos os projetos políticos e econômicos de integração regional, assim como os grandes projetos de integração comercial e de investimento produtivo na região, da UE, da China, da Rússia, e demais países de fora do continente. Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial, produzindo uma maior integração do continente mas também, uma maior disputa entre os seus estados, e em particular, entre o Brasil, os Estados Unidos.
Nesta mesma direção, algumas áreas da América do Sul também devem transformar-se em "zonas de fratura" internacional, e aí podem surgir conflitos e rebeliões que envolvam as grandes potências e as empresas que competem pelo controle da região. E no caso das regiões de maior densidade indígena, nos próximos anos, estas rebeliões tenderão a ser de direita, brancas e racistas.
Finalmente, sobre este pano de fundo de deve e pode calcular o impacto da nova crise econômica mundial. Será prolongado e deverá atingir todas estas "zonas de fratura", acentuando suas tendências mais perversas. Por isto, neste momento, apesar de que se fale muito de economia, existe um outro fantasma que ronda o mundo e assusta mais os seus dirigentes: o fantasma das rebeliões.

Original em Le Monde Diplomatique


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domingo, 14 de dezembro de 2008

O "tem" e o "não tem" da crise

Homero Santos

Vai facilmente ultrapassar o trilhão de dólares o montante que os governos estarão no curto prazo aportando ao mercado financeiro global para estancar a crise monetária aguda, evitando que vaze em demasia para o setor real da economia, depreciando ainda mais os ativos produtivos e trazendo recessão e depressão.
O curioso é que Lester Brown, em seu último livro “Plan B 3.0 – Mobilizing to Save Civilization”(*) (2008) arrola dois conjuntos de medidas capazes, segundo ele, de reverter a degradação ambiental e erradicar a pobreza do planeta. Custo total anual, até a recuperação total: 190 bilhões de dólares – um sexto dos gastos militares globais e um terço do que os Estados Unidos (aliás, maiores exportadores de armamentos do mundo) gastam por ano!
O intrigante é que para cobrir as estripulias e a ganância dos banqueiros estróinas e dos jogadores do cassino global, tem! Também para matar ou, eufemisticamente, “combater o terrorismo e manter as forças de paz”, tem! Como se terrorismo, violência e miséria não andassem de mãos dadas...
O trágico, afinal, é que de fato para restaurar o bem-estar das populações, regenerar os ecossistemas e estabelecer a justiça social...não tem!!! “Passa outra hora, tá?”

Homero Santos é Diretor da Fractalis –Renovação Empresarial Consultor em Sustentabilidade Empresarial e Responsabilidade Corporativa.

Original em NovaE
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Argentina: A busca pela verdade em 25 anos de democracia

Os 25 anos da ascensão do primeiro governo democraticamente eleito na Argentina depois da ditadura militar (1976-1983), encontram o país, após mais de 20 anos de impunidade, em lento desenvolvimento de julgamentos contra o Terrorismo de Estado e a construção de memória e verdade, na intenção de recuperar o tecido social destruído. Esse processo, no qual se destaca as organizações Familiares, Mães e Avós da Praça de Maio, começou bem, continuou mal e somente agora os responsáveis por crimes de lesa-humanidade, militares e civis, voltam a ser julgados, condenados e encarcerados.
Por Dora Salas*

O quarto de século que transcorreu desde 10 de dezembro de 1983, mesmo com seus altos e baixos, demonstrou um profundo compromisso do povo com a democracia. Os organismos de direitos humanos que lutaram primeiro pelo "aparecimento com vida" de 30 mil desaparecidos, e em seguida por verdade e justiça, foram um exemplo mundialmente reconhecido.
O subsecretário de Direitos Humanos do país, Luis Alén, a presidente da associação das Avós da Praça de Maio, Estela Carlotto, e Angela "Lita" Boitano, da organização Familiares de Desaparecidos e Detidos por Razões Políticas, em entrevista a ANSA, coincidiram ao destacar estes aspectos no seu balanço do período.
Advertiram, no entanto, que "ainda existem coisas pendentes", mas o muro de impunidade começou a ser derrubado em 2003 e vem sido construída uma "política pública em matéria de Direitos Humanos, para continuá-las em futuros governos", destacou o subsecretário.
O arranque otimista de 83 teve seu primeiro contraste quando o governo desprezou o pedido das organizações de instalar uma Comissão Legislativa Bicameral para investigar o que aconteceu com os desaparecidos, como lembrou Angela.
A esperança se recuperou parcialmente com a criação da Comissão Nacional contra o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), em 1984, que recolheu denúncias de numerosos familiares e publicou o "Nunca Mais", um informe a respeito dos horrores da ditadura, base do julgamento do ano seguinte das primeiras juntas militares.
A ação do Conadep, presidida pelo escritor Ernesto Sábato, "foi resgatável, mas equiparava a violência oficial a atos de particulares, que jamais poderiam estar no mesmo plano", disse Alén.
O julgamento de 1985 das juntas militares que incluiu, entre outros, o ex-general Jorge Rafael Videla e o ex-almirante Emilio Massera, satisfez "em parte" dos familiares, que "sem analisar muito, choramos de emoção", disse Angela.
O julgamento e o Conadep foram passos importantes, sem precedentes, mas "com a debilidade política oficial desse momento, os pedidos de julgamento antecipavam a teoria dos dois demônios, que pretendia equiparar as cúpulas militares com cúpulas de organizações armadas", peronistas e de esquerda que atuaram antes e durante a ditadura, disse o subsecretário.
Porém, o mal-estar militar pelo julgamento às Juntas não demorou a se manifestar e em 1986 o presidente Raúl Alfonsín (da União Cívica Radical, 1983-1989) expediu uma "Lei de Ponto Final" de todos os processos, uma "fraqueza ética", segundo Alén.
Essa lei e a da "Obediência devida", do ano seguinte, levantaram um muro de impunidade que em 1990 consolidou o presidente peronista Carlos Menem (1989-1999), com indultos a favor dos poucos repressores julgados e condenados. "Mas nós e o homem do povo nunca baixamos os braços, e hoje está sendo reconstruído o tecido social, mesmo que ainda falte muito por fazer, como em trabalho, moradia e saúde", comentou Carlotto.
A luta dos organismos de Direitos Humanos nunca foi encarada como vingança pessoal, em um "forte e exemplificado compromisso democrático", afirmou Alén.
O governo de Néstor Kirchner (2003-2007) abriu um novo panorama, que se evidenciou logo depois de sua posse, na Assembléia Geral da ONU, em Nova York, quando Kirchner se disse "filho" das Mães e Avós da Praça de Maio.
Continuou a reformulação das cúpulas militares, mudanças na Corte Suprema de Justiça e nulidade por inconstitucionalidade das leis de anistia, que fizeram com que os afetados fossem buscar justiça no exterior, principalmente na Espanha, Itália e França, onde houveram processos e condenas.
Além disso, a Escola de Mecânica da Marinha (Esma) foi transformada em Museu da Memória, e desde 2004, organizações de direitos humanos planejam diferentes atividades nesse amplo prédio.
"Os Direitos Humanos são agora política de Estado" e já se pode pensar em "reconstruir o tecido social" porque "a consciência da impunidade agrava as feridas no corpo social", de acordo com os entrevistados.
Quase 370 militares presos, 800 indiciados e mais de 60 condenados, entre eles o pároco da polícia Christian von Vernich, considerado culpado em 2007 por crimes de lesa-humanidade, marcam a renovação da Justiça.
Mas, até o momento, foram identificados apenas 95 dos 500 bebês roubados de suas mães em campos de seqüestro, e localizadas quatro maternidades clandestinas, entre elas a Esma.
Carlotto ainda advogou pela recuperação da verdade histórica e pela confiança da política em criar uma cultura democrática num país que entre 1930 e 1983 viveu seis golpes de estado.

* Dora Salas é jornalista

Original em Vermelho


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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

EUA: tomada de fábrica por operários vira luta nacional

A tomada de uma fábrica por seus trabalhadores demitidos em Chicago se converteu em um símbolo nacional de que o resgate do setor financeiro por Washington não se traduziu em um apoio para as maiorias. Desde o presidente eleito Barack Obama e parlamentares federais e locais até o governador de Illinois já expressaram apoio às demandas dos operários.
Por David Brooks, para o La Jornada

Tudo começou quando os 260 operários da fábrica de janelas e portas Republic Windows and Doors foram informados por seus patrões, com apenas três dias de antecedência, do fechamento da indústria, previsto para o fim de semana passado. O fechamento ocorreu depois que o Bank of America suspendeu sua linha de crédito à indústria.
Na sexta-feira, dezenas de trabalhadores tomaram a fábrica e se negaram a deixá-la, pois denunciam que não foram notificados com os 60 dias de antecipação previstos em leu e não lhes pagaram o que deviam.
Em turnos, dezenas de trabalhadores, membros do sindicato nacional independente United Electrical, Radio and Machine Workers of America (UE), um dos mais progressistas e combativos do país, mantiveram guarda dentro da fábrica, enquanto recebiam visitas ilustres, desde o senador Dick Durbin, o segundo em importância na Câmara Alta do parlamento americano, até os representantes federais Luis Gutiérrez e Jan Schakowksy, e o reverendo Jesse Jackson.
A maioria dos trabalhadores são de origem mexicana, junto com um bom número de trabalhadores negros e alguns salvadorenhos e hondurenhos.
No domingo, Obama disse: "creio absolutamente que os trabalhadores, que pedem os benefícios e os salários pelos quais trabalharam, estão corretos, e entendo que o que lhes acontece é um reflexo do que ocorre em toda a economia".
Nesta terça-feira (9), o governador de Illinois, Rod Blagojevich, ordenou que as secretarias estaduais suspendam todos os negócios com o Bank of America até que este reverta sua decisão e abra uma linha de crédito para a empresa Republic. "Que tome parte do dinheiro federal que recebeu e o invista, para dar crédito necessário para esta empresa, conservando assim os empregos dos trabalhadores", manifestou.
"O Bank of America recebeu recentemente uma injeção de US$ 25 bilhões de fundos públicos e agora é um exemplo de como, enquanto se resgatam os grandes bancos, os trabalhadores são demitidos sem receber seus salários", afirma o sindicato.
O senador Durbin declarou aos meios de comunicação: "entregamos bilhões a bancos como o Bank of America, e a razão para isso era para que continuassem emprestando esses fundos a empresas como a Republica, para que não fossem perdidos postos de trabalho aqui nos Estados Unidos".
Enquanto os gerentes da empresa não aparecem, o Bank of America reiterou que não é responsável pelas práticas e decisões da Republica. Mas a ira dos trabalhadores se dirige tanto a seus patrões como também — e é aqui onde encontra eco nacional — contra um resgate financeira que só beneficia os executivos bancários e deixa em completo abandono milhões de trabalhadores, que padecem as conseqüências desta crise.
"Se não houver uma solução favorável, estamos dispostos a permanecer aqui pelo tempo que for necessário", comentou Leticia Márquez Prado, uma das trabalhadoras membro do sindicato em entrevista telefônica dada ao correspondente do La Jornada. Ela disse que as demandas mínimas eram o pagamento da demissão e das férias, entre outras remunerações que são devidas aos trabalhadores, mas que se desejava buscar uma forma de manter a fábrica em operações, cujo negócio foi impactado de forma severa pela crise econômica, particularmente no setor da construção
"O pior disso é que os trabalhadores estavam recebendo salários dignos, com benefícios de seguro de saúde e outros, e se perdem esses empregos só encontrarão, se encontrarem, empregos de salário mínimo e nenhum benefício", explicou Leticia.
Estava programada uma reunião entre representantes dos trabalhadores, da empresa e do banco para esta noite, a fim de tentar negociar uma solução.
Enquanto isso, o que seria uma notícia local, neste conjuntura se tornou um assunto nacional. Na noite de segunda-feira os telejornais das três principais cadeias de televisão colocaram reportagens sobre a ocupação em suas manchetes principais. Meios de comunicação nacionais eletrônicos e impressos caracterizaram esta ação como algo que se tornou "símbolo" do que estão padecendo os trabalhadores que perderam seus empregos durante esta crise ao longo do país (quase 2 milhões foram demitidos desde dezembro de 2007; mais de meio milhão somente em novembro).
Surpreendidos por todo alcance nacional, um dos trabalhadores, Melvin Maclin, também dirigente do sindicato, declarou à agência de notícias AP que "Nunca esperávamos isso. Ao contrário, achavamos que iriamos para a cadeia".

A ação gerou solidariedade entre vários sindicatos locais e nacionais, organizações civis e comunitárias, que prestaram apoio material e se somaram à campanha dos trabalhadores, que se revezam na ocupação 24 horas por dia.
A polícia não agiu e declarou que não tem nenhuma queixa de "atividade ilegal". "Não vamos nos mover", afirmou Melvin à CBS News. "Já é hora de nós, os pequenos, ficarmos de pé".
Silvia Mazon, outra trabalhadora, comentou no New York Times que "querem que os pobres continuem lá embaixo. Pois aqui estamos e não vamos a nenhum lugar até que nos dêm o que é justo e o que nos pertence". "Estamos fazendo história", disse, em outra entrevista.
Quase ninguém se lembra de quando foi a última vez que os trabalhadores tomaram uma fábrica nete país (talvez tenha ocorrido no fim dos anos 1980, quando mineiros de Virginia tomaram uma usina de processamento durante uma greve) e muitos dizem que o fato lembra cenas dos anos 1930, quando em Chicago e outras grandes cidades a militância sindical industrial sacudiu e transformou este país.
Talvez seja uma fagulha de algo novo (ou o ressucitar de algum mártir de Chicago).
La Jornada


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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Crise: reportagem revela medo e trapaça na GM de São Caetano

Na GM brasileira – que tem fábricas na cidade do ABC, em São José dos Campos e em Gravataí (RS) – os efeitos da crise já têm sido sentidos pelos funcionários, não porque tem havido uma diminuição brusca no consumo, mas porque as montadoras têm tentado se aproveitar do momento para aumentar seus lucros. “Quem fez a crise não foi o povo, mas quem paga somos nós”, diz Marcelo Toledo, primeiro-secretário do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Caetano do Sul, em São Paulo.
Por Priscila Lobregatte, para a Classe Operária.

No sistema capitalista, quando qualquer crise surge, os trabalhadores são sempre os primeiros a sofrer com seus efeitos. Na atualidade, as coisas não são diferentes. Epicentro da atual onda de temor na economia mundial, os Estados Unidos, por exemplo, assistiram executivos de grandes empresas abocanharem milhões de dólares pouco antes de a crise estourar.

No caso do banco de investimentos Lehman Brothers, um dos símbolos da irresponsabilidade dos setores financeiros, 20 mil funcionários foram demitidos em todo o mundo. Enquanto isso, um de seus executivos embolsou mais de US$ 100 milhões.

Os efeitos da crise ainda não chegaram ao Brasil com a mesma força que pegou outros países. Mas 2009 pode amargar um cenário negativo especialmente pelo medo geral da população em comprar diante de um quadro incerto.

Ademir Justino Cassemiro, conhecido como “Cabeça”, está a dois anos na GM. O metalúrgico questiona o uso do dinheiro vindo dos governos federal e de São Paulo (R$ 8 bilhões ao todo) para financiar as vendas de carros.

“A GM não está financiando nada. Está retendo esse dinheiro e ainda reduziu o prazo de financiamento para 36 meses. Eles querem aumentar seu lucro”. Paulo César, o “Pão Doce”, também funcionário da GM, concorda. “A quem interessa importar essa crise para cá? Ao patronato. Ele a usa como desculpa para diminuir salários e direitos trabalhistas”.

“Eles querem cortar empregos dos operários, mas não pensam em fazer o mesmo na área administrativa. Mesmo nesse período de instabilidade, deve haver crescimento na venda de carros. Quer dizer, para eles, a coisa ainda não está tão ruim assim”, diz Barba, ou José Divino, há 23 anos na GM.

Divino tem razão. Estima-se que as montadoras no Brasil devem aumentar suas vendas em 24% neste ano. Em 2007, este índice também foi recorde, então de 27,8%. Esses números explicam também o fato de esse ramo ter sido responsável por mais da metade dos lucros enviados para fora do Brasil, ou seja, para as matrizes que ficam em outros países. De acordo com o Banco Central, foram mais de US$ 1,2 bilhão em 2007.

Para Marcelo Toledo, é preciso que os governos exijam contrapartidas para empréstimos tão altos, como, por exemplo, a garantia de manutenção dos empregos dos operários. E questiona: “as montadoras têm batido recordes sucessivos de vendas e a GM do Brasil é uma empresa saneada, ou seja, não há motivos para querer prejudicar os trabalhadores argumentando ser a crise a culpada”.

Situação de risco

A GM brasileira ainda não sofreu o baque da matriz, que está prestes a quebrar. No dia 20 de novembro, a empresa americana teve seu valor de mercado avaliado em apenas 1 bilhão de dólares – menos do que valia em 1938, quando o mundo ainda passava pela Grande Depressão iniciada em 1929.

Porém, os funcionários brasileiros temem pelo que pode acontecer aqui se for decretada a falência lá. Afinal, quando uma empresa desse porte passa por problemas econômicos, suas filiais e toda a rede de pequenas empresas que lhes prestam serviços podem sofrer os efeitos.

Só neste ano, a filial de São Caetano teve uma semana de paralisação remunerada, dez dias de férias coletivas e seis day off (dia paralisado). Nestes dois últimos casos, os trabalhadores não recebem nada e ainda têm esses dias descontados de suas férias e do banco de horas. “A empresa só arcou com a licença remunerada”, explica Marcelo.

Ele lembra que para cada empregado direto da GM existem outros quatro na cadeia produtiva. Por isso, empresas como Scorpions, Oversound, Salmazo e A.Pedro – todas ligadas ao ramo metalúrgico em São Caetano – também entraram na dança das férias coletivas e no caso da última, houve redução de 50% no quadro de seus 300 funcionários.

“E a Barili está querendo pagar o 13º dividido em quatro vezes e para aqueles que não aceitam, a empresa ameaça com demissão”, denuncia Marcos Parra, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano.

Segundo Toledo, os trabalhadores do terceiro turno (da meia noite às 6 da manhã) estão em situação mais instável. Isso porque em 2008 foram criados 1.600 postos neste horário a fim de que a GM conseguisse cumprir sua meta de produzir 460 mil carros até o final do ano.

Para não sobrecarregar os funcionários com horas extras e ajudar na geração de novos postos, o sindicato conseguiu negociar esse novo horário. Porém, os contratos são anuais. Com o fantasma da crise, estes trabalhadores temem ficar sem seus empregos a partir de janeiro.

No sistema capitalista, quando qualquer crise surge, os trabalhadores são sempre os primeiros a sofrer com seus efeitos. Na atualidade, as coisas não são diferentes. Epicentro da atual onda de temor na economia mundial, os Estados Unidos, por exemplo, assistiram executivos de grandes empresas abocanharem milhões de dólares pouco antes de a crise estourar.

No caso do banco de investimentos Lehman Brothers, um dos símbolos da irresponsabilidade dos setores financeiros, 20 mil funcionários foram demitidos em todo o mundo. Enquanto isso, um de seus executivos embolsou mais de US$ 100 milhões.

Fotos: Priscila Lobregatte
Original em Classe Operaria

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Quem está por trás dos ataques de Mumbai?

Washington promove divisões políticas entre a Índia e o Paquistão


por Michel Chossudovsky

Os ataques terroristas de Mumbai faziam parte de uma operação cuidadosamente planeada e coordenada que envolvia várias equipes de pistoleiros experimentados e treinados. A operação tem as impressões digitais de uma actividade paramilitar de serviços de inteligência. Segundo um perito russo em contra-terrorismo, os terroristas de Mumbai "utilizaram as mesmas tácticas que militantes chechenos [treinados no Paquistão] empregaram nos ataques ao Norte do Cáucaso em que cidades inteiras foram aterrorizadas, com o apresamento de lares e hospitais". ( Russia Today, 27/Novembro/2008). Os ataques de Mumbai são descritos como "o 11/Setembro da Índia". Eles foram executados simultaneamente em vários locais, a poucos minutos uns dos outros. O primeiro alvo foi o átrio principal da Estação Ferroviária Chatrapati Shivaji de Mumbai, onde pistoleiros dispararam indiscriminadamente sobre a multidão de passageiros. Os pistoleiros "saíram a seguir da estação e penetraram em edifícios vizinhos", incluindo o Hospital Cama". Ataques de grupos separados de grupos de pistoleiros tiveram lugar em dois hotéis de luxo de Mumbai – o Oberoi-Trident e o Taj Mahal Palace, localizado no centro da área turística, nas proximidades do monumento "Gateway of India". Os pistoleiros também abriram fogo sobre o Café Leopold, um restaurante fino na área turística. O terceiro alvo foi o Nariman House, um centro de negócios que aloja o Centro Judeu de Mumbai, Chabad Lubavitch. Seis reféns, incluindo o rabi e sua esposa, foram mortos. O aeroporto interno em Santa Cruz, o Metro Adlabs com vários pisos e o Estaleiro Mazgaon também foram alvejados.
"Os ataques verificaram-se nos lugares mais ocupados. Além de hotéis e hospitais, os terroristas atacaram estações ferroviárias, o Crawford Market, Wadi Bunder e a Auto-estrada Ocidental próxima ao aeroporto. Foram atacados sete lugares com armas automáticas e granadas. ( Times of India, 26/Novembro/2008),
Tropas indianas cercaram os hotéis. Foram enviados comandos das Forças Especiais Indianas para enfrentar os terroristas. Testemunhas nos hotéis disseram que os pistoleiros estavam a separar pessoas com passaportes estado-unidenses e britânicos. As baixas, segundo relatos, ultrapassam os 150 mortos. A maior parte deles eram indianos, muitos dos quais morreram no ataque à estação ferroviária de Chhatrapati Shivaji. Pelo menos 22 estrangeiros foram mortos nos ataques. Catorze oficiais da polícia, incluindo o chefe do esquadrão anti-terror, foram mortos nos ataques. Quem está por trás dos ataques? Um grupo virtualmente desconhecido denominado "os Deccan Mujahideen" declarou-se responsável pelos ataques, segundo relatos. O Deccan Plateau refere-se a uma região no centro Sul da Índia em grande medida centrada no estado de Andhra Pradesh. Este grupo desconhecido já foi classificado, sem provas, como pertencente à rede Al Qaeda de organizações terroristas. Relatos da polícia confirmam que nove "atacantes suspeitos" foram presos e três deles, segundo fontes policiais não confirmadas, confessaram pertencer à Lashkar-e-Taiba [Lashkar-e-Tayyiba], uma organização separatista cachemira, apoiada secretamente pela inteligência militar paquistanesa (ISI). Pelo menos um dos presos, segundo os relatos, é um cidadão britânica de descendência paquistanesa. Em coro, tanto os media do ocidente como os indianos estão a apontar o dedo para o Paquistão e o seu alegado apoio a organizações terroristas islâmicas:
"Gurus da estratégia e analistas de segurança nos EUA e por todo o mundo estão a examinar o papel do Paquistão no terrorismo a seguir a mais um episódio de terror na Índia com os dedos a apontarem para o seu malfadado vizinho. Enquanto relatos iniciais da Índia sugerem que a carnificina de Mumbai foi um ataque localizado de militantes descontentes na Índia devido ao disfarce do "Deccan Mujahideen" que foi utilizado para afirmar responsabilidade, a evidência mencionada pelo exército e peritos de segurança indianos com base em interceptações de telefones, natureza do armamento, modo de entrada através do marc, etc, rapidamente voltou a atenção para o Paquistão". ( Times of India, 27/Novembro/2008)
"Choque de civilizações" Na Europa e na América do Norte, os ataques de Mumbai pelos fundamentalistas islâmicos são percebidos como parte do "Choque de civilizações", "o Islão militante envolvido numa guerra contra a civilização". A perda dramática de vidas resultante dos ataques contribuíram inequivocamente para reforçar o sentimento anti-muçulmano por todo o Mundo Ocidental.
Os contornos dos ataques de Mumbai estão a tornar-se claros. Os terroristas tinham como objectivo a Índia, os EUA, a Grã-Bretanha e o povo judeu. ( Market Watch, 28/Novembro/2008 )
Segundo os media, o inimigo é a Al Qaeda, o ilusório "inimigo externo" que tem as suas bases operacionais nas áreas tribais e na província da fronteira Noroeste do Paquistão. O auto-proclamado mandato sagrado de Washington da "Guerra ao terrorismo global" é capturar bin Laden e extirpar o fundamentalismo islâmico. O direito da América de intervir militarmente dentro do Paquistão, violando a sua soberania, está portanto confirmado. Bombardear aldeias nas áreas tribais do Noroeste do Paquistão é parte de um "esforço humanitário", em resposta à perda de vidas resultante dos ataques de Mumbai.
"Antes destes raids odiosos, as notícias do Sul da Ásia eram encorajadoras. O problema central continuava a ser pacificar o Afeganistão, onde os EUA e outras forças da NATO lutavam para suprimir os Taliban e elementos da Al-Qaeda". ( Washington Post, 28/Novembro/2008) "Washington, entretanto, quer a cooperação do exército do paquistanês no combate ao terrorismo. Nas últimas semanas, oficiais dos EUA no Afeganistão relataram melhores resultados, creditando os paquistaneses por tomarem a ofensiva contra os Taliban no território paquistanês".
A desinformação dos media As redes de TV dos EUA cobriram amplamente os dramáticos acontecimentos em Mumbai. Os ataques serviram para desencadear uma atmosfera de medo e intimidação por toda a América. Dizem que os ataques de Mumbai estão intimamente relacionados com os do 11/Setembro. Declarações oficiais dos EUA e relatos dos media descreveram os ataques de Mumbai como parte de um processo mais vasto, incluindo a possibilidade de um ataque terrorista patrocinado pela Al Qaeda a território dos EUA. O vice-presidente eleito, Joe Biden, durante a campanha eleitoral advertira a América com a previsão de que " as pessoas que... nos atacaram no 11/Set – reagruparam-se nas montanhas entre o Afeganistão e o Paquistão e estão a tramar novos ataques" (ênfase acrescentada). Trata-se das mesmas pessoas que estavam por trás dos ataques terroristas em Mumbai. Trata-se também das mesmas pessoas que estão a planear atacar a América. Logo a seguir aos ataques de Mumbai, o mayor de Nova York, Michael Bloomberg, colocou o sistema do metro da Cidade de Nova York "em alerta máximo" com base num " relatório não comprovado de terrorismo potencial aqui em Nova York. Este relatório levou o Departamento de Polícia de Nova York a adoptar medidas de precaução para proteger o nosso sistema de trânsito, e faremos sempre o que for preciso para manter a nossa cidade segura" disse Bloomberg numa declaração" (McClatchy-Tribune Business News, 28/Novembro/2008, ênfase acrescentada). Isto aconteceu apenas um dia antes dos ataques de Mumbai, "o FBI e Department of Homeland Security (DHS) advertiram que há uma 'possível mas não confirmada' ameaça da Al-Qaeda contra o sistema de transportes de Nova York". (Ibid) "Quando os ataques em Mumbai foram executados, as autoridades dos EUA emitiram uma advertência de que a Al Qaeda pode ter discutido recentemente efectuar ataques ao sistema do metro de Nova York. Uma advertência vaga, certamente. 'Não temos pormenores específicos para confirmar que esta conspiração se tenha desenvolvido para além do planeamento aspiracional, mas estamos a emitir esta advertência com a preocupação de que um tal ataque pudesse possivelmente ser efectuado durante o período de férias vindouro', disseram o FBI e o Department of Homeland Security". ( Chicago Tribune, 29/Novembro/2008) A inteligência militar do Paquistão é o Cavalo de Tróia dos EUA Os media apontam, em coro, para o envolvimento da inteligência militar do Paquistão, o Inter Services Intelligence (ISI), mas não dizem que o ISI opera sempre em estreita ligação com a CIA. Os media estado-unidenses servem permanentemente os interesses do aparelho de inteligência dos EUA. As implicações dos seus relatos distorcidos são que: 1- Os terroristas são ligadas a Al Qaeda. Os ataques de Mumbai são uma operação "patrocinada pelo Estado" que envolve o ISI do Paquistão. 2- Os pistoleiros de Mumbai têm laços com grupos terroristas em áreas tribais do Paquistão e na Província da Fronteira Noroeste. 3- O contínuo bombardeamento das áreas tribais pela US Air Force, violando a soberania do Paquistão, é consequentemente justificado como parte da "Guerra global ao terrorismo". O ISI é o Cavalo de Tróia dos EUA, um procurador (proxy) de facto da CIA. A inteligência paquistanesa tem trabalhado, desde o princípio da década de 1980, em estreita ligação com os seus congéneres da inteligência dos EUA e da Grã-Bretanha. Se o ISI esteve envolvido numa grande operação encoberta contra a Índia, a CIA teria conhecimento prévio quanto à natureza precisa e o cronograma da operação. O ISI não actua sem o consentimento da sua congénere de inteligência dos EUA. Além disso, a inteligência dos EUA é bem conhecida por ter apoiado a Al Qaeda desde o princípio da guerra soviética no Afeganistão e durante a era pós Guerra Fria. (Para mais pormenores ver Michel Chossudovsky, Al Qaeda and the War on Terrorism , Global Research, 20/Janeiro/2008) Os campos de treino da guerrilha patrocinados pela CIA foram estabelecidos no Paquistão para adestrar os Mujahideen. Historicamente, a inteligência dos EUA tem apoiado a Al Qaeda, utilizando o ISI do Paquistão como um intermediário. "Com a CIA a apoiar e a canalizar quantidades maciças de ajuda militar dos EUA, o ISI paquistanês desenvolveu-se numa "estrutura paralela que exerce enorme poder sobre todos os aspectos do governo". (Dipankar Banerjee, "Possible Connection of ISI With Drug Industry", India Abroad, 02/Dezembro/1994). Na sequência do 11/Set, o ISI do Paquistão desempenhou um papel chave na invasão do Afeganistão em Outubro de 2001, em estreita ligação com o alto comando militar dos EUA e da NATO. Ironicamente, em Outubro de 2001, tanto a imprensa estado-unidense como a indiana publicaram relatos citando fontes do FBI e da inteligência a sugerir que o ISI estava a proporcionar apoio aos alegados terroristas do 11/Set. (Ver Michel Chossudovsky, Cover-up or Complicity of the Bush Administration, The Role of Pakistan's Military Intelligence (ISI) in the September 11 Attacks , Global Research, 02/Novembro/2001) Chefe dos espiões paquistaneses nomeado pela CIA Historicamente, a CIA tem desempenhado um papel não oficial na nomeação do director do Inter Services Intelligence (ISI) do Paquistão.
Em Setembro, Washington pressionou Islamabad, utilizando a "guerra ao terrorismo" como pretexto para despedir o chefe do ISI, o general de quatro estrelas Nadeem Taj.
"Washington está a exercer intensa pressão sobre o Paquistão para remover o patrão do ISI Nadeem Taj e dois dos seus vices devido à alegada "dupla negociação" da agência com os militantes. ( Daily Times , 30/Setembro/2008) O presidente Asif Ali Zardari teve reuniões em Nova York no fim de Setembro com o director da CIA Michael Hayden ( The Australian , 29/Setembro/2008). Uns poucos dias depois, um novo chefe do ISI aprovado pelos EUA, o general de quatro estrelas Ahmed Shuja Pasha, foi nomeado pelo chefe do exército, general Kayani, de acordo com o interesse de Washington. Nesse aspecto, as pressões exercidas pela administração Bush contribuíram para bloquear uma iniciativa parlamentar efectuada pelo PPP governamental no sentido de colocar os serviços de inteligência do país (ISI) sob a autoridade civil, nomeadamente sob a tutela do Ministério do Interior.
Os EUA violam a soberania territorial do Paquistão Os EUA actualmente estão a violar a soberania territorial do Paquistão através do bombardeamento rotineiro de aldeias nas áreas tribais e na Província da Fronteira Noroeste. Estas operações são executadas utilizando a "guerra ao terrorismo" como pretexto. Enquanto o governo paquistanês tem "oficialmente" acusado os EUA de efectuarem bombardeamentos aéreos no seu território, os militares paquistaneses tem "não oficialmente" endossado os ataques aéreos. Nesse aspecto, a oportuna nomeação do Lt. General Ahmed Shuja Pasha para o leme do ISI foi destinada a assegurar continuidade nas operações estado-unidenses de "contra-terrorismo" no Paquistão. Antes da sua nomeação como chefe do ISI, o Lt. Gen. Ahmed Shuja Pasha era responsável, em estreita colaboração com os EUA e a NATO, por executar ataques destinados alegadamente contra os Taliban e a Al Qaeda pelos militares paquistaneses nas Áreas Tribais Administradas Federalmente (FATA) e na Província da Fronteira Noroeste (NWFP). Após a sua nomeação, o Lt. Gen. Ahmed Shuja Pasha implementou uma grande troca de pessoal dentro do Inter-Services Intelligence (ISI), substituindo vários dos comandantes regionais do ISI. ( Daily Times , 30/Setembro/2008). No fim de Outubro, ele estava em Washington, na sede da CIA em Langley e no Pentágono, para encontrar-se com os seus colegas militares e da inteligência dos EUA. "O Paquistão está a queixar-se publicamente acerca dos ataques aéreos dos EUA. Mas o novo chefe de inteligência do país, Lt. Gen. Ahmed Shuja Pasha, visitou Washington na semana passada para conversações com militares de topo e chefes de espionagem dos EUA, e todos pareciam sair a sorrir ". ( David Ignatius, A Quiet Deal With Pakistan, Washington Post,04/Novembro/2008 , ênfase acrescentada). A temporização dos ataques de Mumbai Os ataques aéreos dos EUA às Áreas Tribais, que resultaram em incontáveis mortes civis, criaram uma onda de sentimento anti-EUA por todo o Paquistão. Além disso, eles também serviram, nos meses que antecederam os ataques de Mumbai, para promover uma renovada atmosfera de cooperação entre a Índia e o Paquistão. Enquanto as relações EUA-Paquistão estão num momento baixo, havia esforços significativos, nos últimos meses, da parte dos governos de Islamabad e de Delhi, para promover relações bilaterais. Cerca de uma semana antes dos ataques, o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, "encorajou a abrir a questão da Cachemira ao debate público na Índia e no Paquistão e deixar o povo decidir o futuro do IHK". Ele também apelou a "elevar as relações bilaterais a um novo nível" bem como a forjar uma união económica entre os dois países. Dividir e dominar Que interesses são servidos por estes ataques? Washington tenciona utilizar os ataques de Mumbai para:
1) Promover divisões entre o Paquistão e a Índia e travar o processo de cooperação bilateral e comércio entre os dois países; 2) Promover divisões internas sociais, étnicas e sectárias tanto na Índia como no Paquistão; 3) Justificar acções militares dos EUA dentro do Paquistão, incluindo a matança de civis que viola a soberania territorial do país; 4) Proporcionar uma justificação para estender a "guerra ao terrorismo" dos EUA ao sub-continente indiano e ao Sudeste Asiático.
Em 2006 o Pentágono advertiu que "um outro ataque [grande 11/Set tipo terrorista] poderia criar tanto uma justificação como uma oportunidade que hoje está a faltar para retaliar contra alguns alvos conhecidos" (Declaração de oficial do Pentágono, publicado no Washington Post, 23/Abril/2006). No actual contexto, os ataques de Mumbai são considerados "uma justificação" para ir atrás de "alvos conhecidos" nas áreas tribais do Noroeste do Paquistão. O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, declarou que "forças externas" executaram os ataques, aludindo ao possível papel do Paquistão. Os relatos dos media também apontam nessa direcção, sugerindo que o governo paquistanês está por trás dos ataques:
Responsáveis e juristas dos EUA abstiveram-se de nomear o Paquistão, mas a sua condenação do "terrorismo islâmico" deixa pouca margem para dúvida sobre onde estão as suas ansiedades. ... O que aumentou a força das acusações mais recentes contra Islamabad foi a própria avaliação da administração Bush – transpirada para os media dos EUA – que a agência de inteligência ISI do Paquistão estava ligada ao bombardeamento da Embaixada da Índia em Cabul algumas semanas antes que matou aproximadamente 60 pessoas incluindo um muito admirado diplomata indiano e um respeitado oficial superior da defesa. ( Times of India, 27/Novembro/2008)
Os ataques desencadearam um sentimento anti-paquistanês na Índia Os ataques serviram para promover o sentimento anti-paquistanês dentro da Índia bem como divisões sectárias entre hindus e muçulmanos. A revista Time destacou claramente o papel insidioso da "poderosa organização Inter Services Intelligenca – muitas vezes acusada de orquestrar ataques terroristas à Índia", sem reconhecer que o novo chefe do ISI foi nomeado por ordem de Washington. ( Time online ). A Time sugere, sem provas, que os arquitectos mais prováveis dos ataques são vários grupos islâmicos paquistaneses patrocinados incluindo Lashkar-e-Taiba (Exército dos puros), "o qual faz parte do 'bloco al-Qaeda'", Jaish-e-Mohammed, uma organização separatista cachemira pertencente a Al Qaeda a qual declarou-se responsável pelos ataques terroristas de Dezembro de 2001 ao parlamento em Delhi, e Movimento de Estudantes Islâmicos da Índia (SIMI). (Ibid) Tanto o Lashkar-e-Taiba como o Jaish-e-Mohammed são conhecidos por serem apoidos pelo ISI. A diplomacia móvel Islamabad-Delhi O presidente paquistanês Asif Ali Zardari assinalou que o seu governo colaboraria plenamente com as autoridades indianas. O recém eleito governo civil do Paquistão foi deixado de lado pelos seus próprios serviços de inteligência, os quais permanecem sob a jurisdição do alto comando militar. O Partido do Povo do Paquistão, sob a direcção do primeiro-ministro Yousaf Raza Gilni, não tem controle sobre o aparelho de militar e de inteligência, o qual continua a manter um relacionamento estreito com os seus congéneres dos EUA. Neste contexto, o presidente Asif Ali Zardari parece estar a jogar de ambos os lados: conivência com o aparelho militar e de inteligência, diálogo com Washington e retórica para com o primeiro-ministro Gilani e a Assembleia Nacional. Em 28 de Novembro, dois dias após os ataques de Mumbai, Islamabad anunciou que o recém nomeado chefe do ISI, Lt. Gen. Ahmed Shuja Pasha, seria despachado para Delhi para consultas com os seus colegas indianos incluindo o Conselheiro de Segurança Nacional M. K. Narayanan e os chefes da agência de inteligência externa da Índia, o Research and Analysis Wing (RAW) e o Intelligence Bureau, responsável pela inteligência interna. O RAW e o ISI do Paquistão são conhecidos por terem estado a travar uma guerra encoberta um contra o outro durante mais de trinta anos. [1] No dia seguinte (29 de Novembro), Islamabad cancelou a visita do chefe do ISI Lt. Gen. Shuja Pasha à Índia, depois de o ministro do Exterior indiano, Pranab Mukherjee, utilizar "um tom muito agressivo com responsáveis paquistaneses numa conversação telefónica após os ataques de Mumbai". ( Press Trust of India , 29/Novembro/2008 citando Geo News Pakistan). Situação tensa. Deterioração das relações Índia-Paquistão Os ataques de Mumbai já criaram uma situação extremamente tensa, a qual serve amplamente os interesses geopolíticos dos EUA na região. Islamabad está a contemplar a relocalização de uns 100 mil militares da fronteira paquistanesa-afegã para a fronteira indiana, "se houve uma escalada na tensão com a Índia, a qual aludiu ao envolvimento de elementos paquistaneses na carnificina de Mumbai". (Pakistan news source citado por PTI, op cit).
"Estas fontes disseram que o comando da NATO e dos EUA considerou que o Paquistão não seria capaz de concentrar-se na guerra ao terror e contra militantes em torno da fronteira do Afeganistão pois defender as suas fronteiras com a Índia era muito mais importante", (Ibid, Geo News citando o respeitado jornalista paquistanês Hamid Mir).
Interferência dos EUA na direcção da investigação da polícia indiana Também é significativa a imediata interferência de Washington na condução da investigação da polícia indiana. The Times of India destaca uma "cooperação de inteligência sem precedentes envolvendo agências de investigação e equipamentos de espionagem da Índia, Estados Unidos, Reino Unido e Israel". Tanto o FBI como o serviço secreto britânico MI6 têm escritórios de ligação em Delhi. O FBI despachou oficiais de polícia, contra-terrorismo e perícia forense para Mumbai "para investigar ataques que agora incluem vítimas americanas..." Peritos da Metropolitan Police de Londres também foram despachados para Mumbai:
"A hipótese de trabalho do governo dos EUA de que os grupos militantes paquistaneses Lashkar-e-Taiba e Jaish-e-Mohammed são suspeitos nos ataques foram incluídas quando as autoridades indianas começaram a sua investigação, disse o oficial. Os dois grupos militantes da Cachemira têm laços com a al Qaeda". (Wall Street Journal, 28/Novembro/2008)
O papel do contra-terrorismo e oficiais de polícia dos EUA, Reino Unido e Israel é essencialmente manipular os resultados da investigação da polícia indiana. Vale a pena notar entretanto que o governo de Delhi recusou o pedido de Israel para enviar uma unidade de forças militares especiais para assistir os comandos indianos na libertação de reféns judeus mantidos dentro do Chabad Jewish Center de Mumbai (PTI, 28/Novembro/2008). Bali 2002 versus Mumbai 2008 O ataque terrorista de Mumbai guarda alguma semelhança com os ataques de 2002 em Bali. Em ambos os casos foram alvejados turistas ocidentais. O sítio turístico de Kuta na ilha de Bali foi objecto de dois ataques separados, os quais alvejaram principalmente turistas australianos. (Ibid) Os alegados terroristas dos bombardeamentos de Bali em 2002 foram executados, a seguir a um prolongado período de julgamento, há umas poucas semanas atrás, em 9 de Novembro de 2008. (Michel Chossudovsky, Miscarriage of Justice: Who was behind the October 2002 Bali bombings? Global Research, 13/Novembro/2009). Os arquitectos políticos dos ataques de 2002 em Bali nunca foram levados a julgamento. Um relatório de Novembro de 2002 proveniente de altos escalões da Indonésia apontava para o envolvimento tanto do chefe da inteligência indonésia, general A. M. Hendropriyono, como da CIA. As ligações da Jemaah Islamiyah (JI) à agência de inteligência indonésia (BIN) nunca foram levantadas na investigação oficial do governo indonésio – o qual foi guiado nos bastidores pela inteligência australiana e pela CIA. Além disso, logo após o bombardeamento, o primeiro-ministro australiano John Howard "admitiu que autoridades australianas foram advertidas acerca de possíveis ataques em Bali para preferiram não emitir uma advertência". (Christchurch Press, 22/Novembro/2002). Em relação aos bombardeamentos de Bali em 2002, as declarações de dois antigos presidentes da Indonésia foram despreocupadamente ignoradas durante o julgamento, ambas as quais apontavam para a cumplicidade dos militares e da polícia indonésia. Em 2002, a presidenta Megawati Sukarnoputri acusou os EUA de envolvimento nos ataques. Em 2005, numa entrevista em Outubro à TV SBS da Austrália, o antigo presidente Wahid Abdurrahman declarou que os militares e a polícia indonésias desempenharam um papel cúmplice no bombardeamento de Bali em 2002. (citado em Miscarriage of Justice: Who was behind the October 2002 Bali bombings? , op cit)
30/Novembro/2008
[1] Nos últimos meses, o chefe da inteligência externa da Índia (RAW), Ashok Chaturvedi, tornou-se um alvo político. O primeiro-ministro Manmohan Singh pretende despedi-lo e substituí-lo por um indivíduo mais aceitável. Não está claro se Chaturvedi será envolvido na investigação da inteligência e da polícia. O original encontra-se em Global Research

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Com a crise, lutas sociais tendem a se intensificar

por Miguel Urbano Rodrigues entrevistado por Nilton Viana [*]

A ÚNICA alternativa para o capitalismo senil, que ameaça conduzir a humanidade ao abismo, é o socialismo. Essa é a convicção do jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues. Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Urbano fala sobre a grave crise desencadeada a partir do Império estadunidense, que já provoca efeitos perversos em todo o mundo. Ele vislumbra um futuro próximo de grandes sofrimentos para a humanidade, sofrimentos que, segundo Urbano, serão diferentes de continente para continente, de país para país, como diferentes serão as características da luta dos povos contra o sistema que continuará a impor-lhes a sua dominação. É categórico ao afirmar: os trabalhadores vão pagar a maior fatura dessa crise. Mas é otimista. Para ele, grandes movimentos de massa devem surgir, principalmente nos países da União Européia e nos Estados Unidos.
Brasil de Fato – O mundo inteiro vive um drama com a crise financeira desencadeada a partir do centro do império. Tem se dito que essa crise ainda está apenas começando e que ela tende a se agravar. Na sua avaliação, qual é a dimensão dessa crise? É apenas mais uma das tantas que o capitalismo já produziu? O neoliberalismo foi derrotado? Miguel Urbano Rodrigues – Esta crise é estrutural, e não cíclica como as anteriores. Do sistema financeiro, alastrou para a economia real, e dos Estados Unidos, passou à Europa e à Ásia Oriental. Ela tende a agravar-se muito. E o seu desfecho é por ora imprevisível. Uma certeza: o neoliberalismo, glorificado como a ideologia definitiva que assinalaria "o fim da História", fracassou. Hayek [Friedrich August von Hayek] é enterrado e Keynes [John Maynard Keynes] ressuscita. BF: O senhor disse que se trata de uma crise estrutural. As medidas anunciadas até agora alteram a atual estrutura desse processo? MUR: Por ser uma crise estrutural, e não apenas cíclica como as anteriores – confirmando previsões de autores marxistas como István Mészaros e Georges Labica –, as medidas tomadas pelos governos do G-8, transformados em bombeiros do capital, são apenas paliativos. A recuperação das bolsas e do dólar geram a ilusão de que tudo vai voltar rapidamente à normalidade, entendida esta como um reflorescimento do capitalismo sob um novo figurino. Tal convicção é enganadora. A economia real nos EUA, no Japão e na União Européia vai continuar a afundar-se em proporções no momento imprevisíveis. Os despedimentos maciços em dezenas de gigantescas transnacionais, os apelos angustiados dos grandes da indústria automóvel e aeronáutica à ajuda estatal e o encerramento de milhares de empresas ligadas à construção e ao comércio funcionam como espelho da gravidade e complexidade de uma crise de muito longa duração. BF: O senhor acredita que os Estados Unidos, como potência imperialista, saem derrotados dessa crise ou se fortalecem ainda mais? MUR: Os Estados Unidos, pólo hegemônico do sistema do capital, saem enfraquecidos. Mas enquanto o atual sistema monetário subsistir, com o dólar como moeda de referência mundial, os custos da crise serão distribuídos. Os Estados Unidos são o país mais endividado do mundo (a dívida já iguala o PIB do país). Mas o privilégio de emitir a moeda em que é faturado o petróleo – o produto-chave no comércio internacional – tem adiado um desfecho de bancarrota. Um sistema midiático perverso e desinformador, dominado no fundamental por grandes transnacionais estadunidenses, ocultou, por exemplo, que grande parte do chamado "resgate" de 700 bilhões de dólares será pago por países da Ásia, nomeadamente a China e o Japão, principais compradores dos Títulos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos. Somente a China possui cerca de 1.300 bilhão de dólares em reservas e bônus do Tesouro. Se os trocassem por outras moedas, os EUA iriam à falência. Mas a China também, porque a sua economia depende muito das exportações para os Estados Unidos. BF: Que avaliação o senhor faz das conseqüências desse cenário para a América Latina? MUR: No momento, a maioria das previsões sobre as conseqüências da crise para a América Latina são no fundamental do domínio da especulação. Mas essas conseqüências serão certamente graves. Os Estados Unidos são o principal mercado para as exportações da América Latina, em alguns casos com mais de 50%. No plano político, a estratégia de Washington terá de ser revista. É previsível uma redução da agressividade contra a Venezuela bolivariana e contra o governo de Evo Morales (Bolívia). As manobras conspirativas persistirão, mas a nova administração utilizará outra linguagem. BF: Em todo o mundo, temos a impressão de que a classe trabalhadora está apenas assistindo a crise. O senhor compartilha da idéia de que vivemos um período de descenso do movimento de massa e essa crise veio num momento muito ruim para os trabalhadores? MUR: É minha convicção de que, pelo contrário, as lutas sociais tendem a intensificar-se, sobretudo nos países da União Européia e nos Estados Unidos, porque os trabalhadores vão pagar a fatura maior da crise. O movimento de massas ganha amplitude na Europa. Por exemplo, no dia 8 de novembro, 120 mil professores (80% da categoria profissional) desfilaram em Lisboa, Portugal, protestando contra a política educacional do governo reacionário de Sócrates. BF: Como em toda crise, há sempre saídas. As elites já estão tratando de encontrar suas saídas. Quais os rumos que a esquerda deve buscar? MUR: A situação é dilemática porque todas as saídas são, na aparência, más. A única alternativa para o capitalismo senil, que ameaça conduzir a humanidade ao abismo, é o socialismo. Mas o capitalismo não vai acabar em data próxima, e o socialismo é, por ora, aspiração distante. As tentativas orientadas para a humanização do capitalismo (como é o caso de governos como o Lula, no Brasil; os Kirchner, na Argentina; Tabaré, no Uruguai) são perversas, por enganarem o povo com a cumplicidade de forças e partidos progressistas. Vão fracassar. Grandes sofrimentos – essa é outra certeza – esperam a humanidade no futuro próximo. Sofrimentos que serão diferentes de continente para continente, de país para país, como diferentes serão as características da luta dos povos contra o sistema que continuará a impor-lhes a sua dominação. BF: Nesses períodos de crise, quem paga a conta são sempre os trabalhadores. Teremos novamente de pagar a conta? O senhor acredita ser possível unir os proletários do mundo e encontrar saídas ou as soluções tendem a ser isoladas? MUR: A crise coloca os povos por ela atingidos, nomeadamente na Europa Ocidental, perante uma situação dilemática. A relação de forças, da Suécia à Itália, de Portugal à Grécia, não abre a possibilidade de que a crise atual desemboque em rupturas revolucionárias. Mas, simultaneamente, a transformação profunda das sociedades da União Européia, moldadas e oprimidas pelo capitalismo, não é possível pela via institucional, dita pacífica. A burguesia nunca entrega o poder sem uma confrontação final com as forças do progresso. Sejamos realistas. No caso português, fora do contexto de uma crise de proporções continentais, os partidos que representam o capital continuarão a vencer todas as eleições. A alternância no governo do PS e do PSD ilustra bem o controle que a classe dominante exerce sobre os mecanismos eleitorais da impropriamente chamada democracia representativa, que na prática funciona como ditadura da burguesia com máscara democrática. A crise do sistema financeiro mundial adquiriu as proporções de uma crise de civilização que atinge toda a humanidade. O seu desfecho é por ora imprevisível. A única certeza é a de que milhares de milhões de pessoas vão pagar a fatura da falência do capitalismo neoliberal e da ideologia a ele subjacente, enquanto os responsáveis pela crise pouco ou em nada serão afetados, no imediato, pelo naufrágio da monstruosa engrenagem por eles montada. BF: Em momentos como estes, o que fazer? MUR: Lutar, lutar com energia redobrada. Não são apenas a falência do sistema financeiro mundial, a recessão que alastra nos países do G-7, o encerramento de milhares de empresas em dezenas de países, que iluminam a gravidade e a fragilidade da crise estrutural do capitalismo. O sistema do capital dispõe de uma força enorme. Mas não pode mais funcionar de acordo com a sua lógica. Os EUA, pólo e motor do sistema, estão envolvidos em duas guerras perdidas no Oriente Médio e na Ásia Central. Na América Latina, desenvolvem-se processos de ruptura com a dominação imperial. Na Europa, anunciam-se num horizonte próximo grandes lutas inseparáveis das conseqüências da crise, que vai lançar milhões de trabalhadores no desemprego. No movimento da História, a maré da contestação ao sistema tende a subir. Da luta dos povos, da fusão do particular e do geral, do nacional e do universal, depende que essas lutas adquiram um caráter torrencial, assumindo com o tempo dimensão planetária numa atmosfera de internacionalismo dinamizado pelas organizações e partidos revolucionários. BF: Como jornalista, como o senhor tem acompanhado a cobertura da mídia sobre a crise? MUR: O sistema midiático apresenta uma frente única na difusão da mentira, nas explicações falsas da crise e nos remédios propostos para resolvê-la, todos orientados para a preservação do capitalismo. No discurso de sociólogos, economistas, historiadores, ministros e parlamentares chamados à televisão para esclarecer a "massa ignorante" da população, o povo não aparece como personagem. Está ausente. Os porta-vozes e epígonos caseiros do grande capital, cúmplices do caos financeiro e social que alastra pelo mundo, desprezam os trabalhadores. O panorama social da crise não é iluminado pela mídia, porque isso seria perigoso para os senhores da finança. BF: Nos Estados Unidos, Obama acaba de ganhar as eleições presidenciais. Como o senhor analisa essa vitória e o que pode mudar com o novo presidente? MUR: É positivo que o povo estadunidense tenha optado por Obama, um presidente negro, com um discurso muito diferente do de seu adversário republicano. Mas não participo da euforia gerada em nível mundial pela vitória de Barack Obama. É um grande orador e um político hábil e inteligente. Mas aparece-me também como o produto de uma gigantesca e milionária campanha de marketing eleitoral. Não esqueçamos que Obama foi o candidato das Finanças, dos grandes grupos transnacionais. As suas primeiras iniciativas não justificam o entusiasmo que por aí vai. Para chefe de gabinete na Casa Branca, designou já um falcão, sionista, ex-voluntário na guerra do Golfo, um belicista inflamado. Obama afirma pretender "ganhar" a guerra do Afeganistão, defende uma política agressiva contra o Irã, afirma que manterá o bloqueio a Cuba. O vice Joe Binden antecipou uma evidência ao afirmar que as primeiras medidas do futuro presidente serão "muito impopulares". Alguns dos assessores são republicanos de direita e clintonianos conservadores. A designação de Madeleine Albright como sua representante na Conferência dos 20 (G-20) é inquietante. Temo que Obama seja uma grande decepção para a humanidade progressista.
[*] Diretor do semanário Brasil de Fato, editado em S. Paulo.

O original encontra-se em Brasil de Fato, edição 299, 20-26 de novembro de 2008, pg. 11.

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

As promessas douradas dos desertos verdes viraram demissões e incertezas

Os jornais Correio do Povo e Zero Hora anunciam hoje que a Votorantim Celulose e Papel (VCP) demitiu 118 dos 207 funcionários do viveiro de Capão do Leão. A maioria dos trabalhadores atuava no plantio de eucaliptos. Em nota oficial, a empresa disse que, “devido aos impactos da desaceleração da economia global, com a conseqüente redução na demanda internacional por commodities, está adotando medidas de adequação da produção”.Outras duas empresas que prestam serviços à Votorantim também anunciaram demissões. A Carpelo, responsável pelo o plano de segurança da VCP e a Benfica Extremo Sul, encarregada do transporte, dispensaram os trabalhadores que tinham contratado. Segundo o gerente da Carpelo, José Andrade, o trabalho deste ano já foi finalizado e as atividades para 2009 estão suspensas. 'Eles comunicaram que, no ano que vem, não haverá plantio em nenhuma área da região', afirmou.A anunciada revolução na região Sul do Estado, que seria provocada pela expansão das monoculturas de árvores para a produção de celulose, começa a revelar que tinha pés de barro. Os prejuízos causados pelas operações especulativas da Aracruz e da Votorantim transformaram as promessas douradas em demissões e cortes de investimentos.O Diário Gauche destaca matéria publicada hoje, na “Folha de S. Paulo”: depois de ouvir especialistas e observadores de mercado do setor de papel e celulose, (a Folha) arrisca dizer que a empresa “Aracruz não tem como pagar dívida e continuar funcionando”. O jornal paulistano chega a falar em iminente “quebra” da papeleira, o que “geraria demissões em toda a cadeia produtiva” da celulose no Brasil.

Original em RS Urgente


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Aznar, para o banco dos réus!

Patricio Montesinos

As recentes revelações de que o ex-presidente do governo espanhol, José María Aznar, autorizou que vôos secretos da CIA com prisioneiros sobrevoassem ou pousassem nesse estado europeu, confirmam que o direitista e ex-líder do Partido Popular (PP) violou, inclusive, as leis de seu país para satisfazer o regime norte-americano de George W. Bush.
O denominado trio das Açores: Anthony Blair, George W. Bush e José María Aznar.
Um documento secreto, revelado no domingo, 30 de novembro, pelo jornal El País, destacou que, em 2002, Washington pediu para Aznar que os aviões da Agência Central de Inteligência com réus afegãos e de outros países pudessem pousar no território espanhol em suas viagens à prisão e centro de torturas que os Estados Unidos mantêm na ilegal base do território ocupado de Guantánamo, em Cuba.
O texto sustenta que José María sabia desde o início desses vôos, chamados da vergonha, e nos quais eram transladados os réus sem nenhum tipo de garantias e violando as mais elementares normas da Convenção de Genebra.
Mas essas revelações sobre o ex-chefe do direitista PP não surpreendem ninguém, levando em conta tudo o que fez a favor de seu "amigo" Bush, a quem deve sempre obediência e subordinação.
Aznar não só autorizou os vôos da CIA, mas também pôde ter feito qualquer outra coisa que lhe pedisse o atual inquilino da Casa Branca, porque, como é sabido, justificou os cárceres secretos que os EUA ainda têm no mundo, inclusive na Europa, e os escandalosos campos de concentração de Guantánamo e Abu Ghraib, condenados em toda parte do mundo pelas horrendas violações dos direitos humanos.
Também deu apoio incondicional à invasão sangrenta ao Iraque e à guerra do Afeganistão, para onde o ex-governante enviou tropas espanholas contra a vontade da maioria do povo dessa nação ibérica.
Junto ao ex-primeiro ministro, Anthony Blair, e Bush, posou na famosa foto das Açores, em março de 2003, após a qual, os Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) empreenderam a agressão contra o Iraque, sem contar com as Nações Unidas.
Mas não bastando isso ao ex-presidente espanhol e por ordem do chefe da Casa Branca visitou vários países da América Latina para alentar alguns governos dessa região a se imiscuírem na invasão ao território iraquiano, além de recrutar soldados como carne de canhão e mercenários.
Precisamente, na Espanha, ganha força uma plataforma denominada: Julgamento a Aznar, formada por intelectuais, políticos, advogados, catedráticos, que reclamam que seja aberto um processo judicial a ele e seja julgado por sua ativa participação no conflito desatado na nação do Golfo.
O que se pretende com essa iniciativa é conseguir o maior número de adesões para pedir no Tribunal Penal Internacional um processo, em que se exijam responsabilidades ao denominado "trio das Açores".
As revelações no El País constituem mais um argumento de peso para sentá-lo de uma vez por todas no banco dos réus.

Original em Granma


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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

John Reed: leitura obrigatória nestes tempos bicudos

por Osvaldo Bertolino*


Nestes tempos de crise econômica e moral, recomendo a leitura do meu professor de jornalismo, John Reed. Entre a sua rica e imperdível obra, destaco o livro ''Eu vi um novo mundo nascer'' - uma coletânea de artigos que relata acontecimentos sindicais e políticos do começo do século 20.
O gênio de Reed desfila em narrativas de greves heróicas e massacres de operários nos Estados Unidos, guerras na Europa, revolução no México e de um emocionante julgamento da Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo - IWW), ocorrido na Corte Federal de Justiça de Chicago em 1918.

Reed abre este artigo com a seguinte citação de August Spies, um dos mártires da luta pela jornada de oito horas semanais de trabalho. “Estou aqui como representante de uma classe, e falo a vocês, representantes de outra classe. Minha defesa é a sua acusação, a causa do meu pretenso crime, sua história”, disse ele. Reed encerra afirmando: “A humildade dos trabalhadores é bonita, sua paciência é quase infinita e sua nobreza, milagrosa.” Em outra obra, ele afirmara que os autoritários confundem humildade com humilhação.

Quase trinta

Arquiteto de frases belíssimas, seus escritos são reconhecidos pela genialidade literária. Um contemporâneo seu, certa vez declarou: “É um pouco embaraçoso ter que admitir para um sujeito que você reconhece que ele é um gênio.” Além de gênio, já se disse que Reed foi herói. Num prefácio do seu livro A filha da revolução, o crítico Rogério de Campos escreveu: “Num dado momento, John Reed está preso com trabalhadores imigrantes grevistas, em outro está vivendo com uma milionária em Florença. Ora está cavalgando junto aos exército de Pancho Vila (…), ora está em uma festa em Paris com Gertrude Stein e Pablo Picasso. (…) Neste meio tempo, consegue fazer teatro com Eugene O’Neill, entrevistar Trotski, jogar em Monte Carlo e ser aplaudido por guerrilheiros numa de suas brilhantes exibições de bebedeira.”

Autor de obras-primas como México Rebelde e Os dez dias que abalaram o mundo, Reed foi ainda fundador do Partido Comunista dos Estados Unidos e membro da Terceira Internacional Comunista. No primeiro artigo da coletânea Eu vi um novo mundo nascer, intitulado “Quase trinta”, escrito em 1917 quando ele tinha 29 anos, afirma: “Sei que este é o fim de um período de minha vida, o fim da juventude. Às vezes me parece também o fim da juventude do mundo. Certamente a Grande Guerra mexeu com todos nós. Mas este é também o início de uma nova fase da vida, e o mundo em que vivemos está tão cheio de mudanças rápidas, cores e significados, que não posso deixar de imaginar esplêndidas e terríveis possibilidades da época que está por vir.”

Cinzas

Reed interpretou os acontecimentos do seu tempo como ninguém. Rogério de Campos diz: “John Reed aparece aqui como um elo entre Mark Twain, Jack London, Walt Whitmam.” Além disso, tinha uma comovente sensibilidade social. Certa vez, perguntaram sua opinião sobre as causas da Primeira Guerra Mundial. “Lucros”, respondeu, sintetizando uma gigantesca gama de fatores em uma única palavra.


A passagem do livro Os dez dias que abalaram o mundo que relata o enterro dos operários que tombaram na luta pelo controle de Moscou é emocionante. “Ondas de povo e milhares de seres, com sofrimento gravado nas fisionomias, precipitavam pelas ruas, invadindo a Praça Vermelha. Chegou uma banda militar. E o som da Internacional fez com que todos, espontaneamente, começassem a cantar. (…) O cortejo fúnebre (…) desfilou (…), debaixo dos olhares do mundo e da posteridade.” Esse cemitério está entre o túmulo de Lênin e as muralhas do Kremlin. Na base das muralhas foram enterrados muitos revolucionários. As cinzas de John Reed também estão lá. Ele morreu de tifo aos 33 anos na Rússia Soviética.


*Jornalista


Original em Vermelho



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