Além do Cidadão Kane

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O que está em jogo no caso Raposa Serra do Sol

Vivemos um momento histórico no Brasil, disse a advogada índia Jôenia Batista de Carvalho, que defende no Supremo Tribunal Federal a demarcação contínua da reserva indígena de Raposa Serra do Sol, no julgamento da ação iniciada pelo governo de Roraima e por um grupo de fazendeiros que querem anular ou modificar a demarcação feita em 1998 e homologada pelo presidente Lula em 2005. Joênia tem razão: a decisão que sair do julgamento iniciado na quarta feira terá forte impacto em decisões judiciais envolvendo terras indígenas em todo o país.
A questão envolve forte controvérsia - que, muitas vezes se traduziu em confronto aberto e direto - entre comunidades indígenas, fazendeiros, e outros setores da sociedade, com destaque para os militares e sua justa preocupação com a segurança e a soberania de nosso país.
A controvérsia é antiga. Ela remonta aos tempos coloniais quando comunidades indígenas muitas vezes invocavam a proteção Del Rei para garantir suas terras. Mas, quase sempre, o ''julgamento'' era decidido pela força das armas, com a escravização ou extermínio puro e simples das populações originárias.
Demorou muito tempo para que o direito indígena às suas terras fosse reconhecido pela lei, e mais tempo ainda para que a lei fosse efetivamente aplicada. Levar o julgamento para o STF é, deste ponto de vista, um progresso histórico e democrático que deve ser saudado como um enorme aperfeiçoamento da civilização brasileira.
Há três pontos que merecem destaque nesta questão; eles se referem à defesa da Constituição, ao destino dos moradores não índios da área, e à soberania nacional.
A Constituição de 1988 não deixa dúvida a respeito dos direitos dos índios. Suas determinações foram acatadas e explicadas cabalmente no voto do relator do processo, ministro Carlos Ayres de Britto que, num voto memorável, refirmou os direitos por ela reconhecidos e rejeitou a ação movida pelos fazendeiros que ocupam parte daquela área.
No artigo 20, A Constituição declara as terras indígenas como bens da União e reconhece o direito dos índios a elas; no artigo 231, reconhece o direito dos índios à sua ''organização social, costumes, línguas, crenças e tradições'', e reafirma seus direitos sobre suas terras, delegando à União a tarefa de ''demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens''. Define como terras indígenas ''aquelas tradicionalmente ocupadas pelos índios, as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições'', destinando a eles ''sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes'', sendo ''inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis''. Proibe também a remoção dos grupos indígenas, salvo ''em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população''. Este mesmo artigo da Constituição garante a defesa nacional contra qualquer ameaça estrangeira ao arrolar entre os motivos de remoção o ''interesse da soberania do País''.
Finalmente, declara ''nulos e extintos'' todos os ''atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse'' de terras indígenas, ressalvando casos de ''relevante interesse público da União'', e veta o direito a ''a indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa-fé''.
É a legitimidade dos preceitos constitucionais sobre a questão que está em jogo no julgmento, pelo STF. O ministro Ayres de Britto não acatou a pretensão dos fazendeiros de mudar a demarcação da área indígena contínua feita pelo governo federal e criar ''ilhas'' dentro da reserva, que teria assim sua continuidade quebrada, com a apropriação por fazendeiros de terras indígenas cuja posse a Constituição declara ''inalienáveis e indisponíveis'', e os direitos dos índios sobre elas ''imprescrítíveis''.
O segunto ponto diz respeito à necessária indenização, na forma da lei, da população não índia residente na área antes da demarcação. Qualquer negociação com estes moradores deve ser feita respeitando a Constituição, e levando em conta a ação daqueles que, como exige a lei, tenham agido de boa fé. O governo já depositou em juízo valores referentes a esta indenização, e quase todos agricultores que lá residiam entraram em acordo e sairam da área. Resta um pequeno grupo liderado pelo prefeito da cidade de Pacaraima, Paulo Cesar Quartiero (DEM). Ele é um grande plantador de arroz que já foi preso, em maio, por insuflar a resistência contra a demarcação, e multado em mais de 300 milhões de reais por danos ambientais causados na reserva.
Finalmente, há a questão da soberania nacional. A Constituição prevê medidas para defendê-la. Ao definir as terras indígenas como propriedade da União, integrou-as ao patrimônio nacional, como partes do território brasileiro habitadas por povos indígenas, cuja guarda e defesa cabe ao Estado nacional, sendo as Forças Armadas o instrumento para isso. Não há portanto impecilho constitucional para a presença do Estado e das Forças Armadas dentro delas, para o pleno exercício da soberania nacional e defesa das próprias populações indígenas. Como disse o ministro Carlos Ayres de Britto em seu voto, as terras indígenas fazem parte do poder estatal brasileiro e submetem-se às regras da soberania nacional, definidas pela Constituição.
A importância do julgamento em curso no STF decorre da definição de regras para enfrentar estes três problemas. A primeira batalha preservou a Constituição e garantiu os direitos indígenas. Mas o resultado ainda não é final: um dos ministros do STF, Carlos Alberto Direito, não se sentiu suficientemente esclarecido e pediu vistas, protelando a decisão para um prazo ainda não definido. Até lá, a luta continua!
Original em vermelho
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

2.500 menores presos pelos Estados Unidos no Iraque

João Bernardo

Fonte: Jornal Mudar de Vida

Em Fevereiro (http://www.tribunaliraque.info/) chamei a atenção para o caso de um detido de Guantânamo, Omar Khadr, aprisionado pelos norte-americanos no Afeganistão quando tinha 15 anos de idade. Podemos agora ver que se trata de uma prática generalizada. Segundo um relatório enviado na semana passada pelo governo dos Estados Unidos ao Comité da ONU para os Direitos das Crianças, desde 2002 já foram presos pelas forças armadas norte-americanas no Iraque 2.500 menores de 18 anos, em alguns casos por períodos superiores a um ano. Este relatório informa que atualmente as forças dos Estados Unidos têm detidos no Iraque cerca de 500 menores, enquanto cerca de uma dezena está numa base no Afeganistão. Todos estes jovens foram acusados de participar em atividades de resistência à ocupação do seu país, incluindo ações de busca de informação. É curioso considerar que foi precisamente esta a origem dos "escutadores", organizados por um oficial britânico durante a guerra contra os Boers na África do Sul (no final do século XIX e começo do séculoXX) para escutarem o que se passava nas fileiras inimigas. Mas é sabido que os pesos e as medidas variam consoante o lado que os usa. Talvez como desculpa, o relatório oficial norte-americano argumenta que «a idade exata destes indivíduos é incerta, porque a maior parte não sabe a data do seu nascimento ou mesmo o ano em que nasceram». Entretanto, a diretora executiva da ONG International Justice Network declarou-se indignada pelo fato de os jovens estarem detidos em prisões de adultos, como se a inauguração de prisões especiais para jovens insurrectos pusesse tudo no devido lugar.
Notícia original aqui.


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sábado, 9 de agosto de 2008

Exigências democráticas

O povo brasileiro e as forças políticas progressistas, desde o fim da ditadura militar em 1985, num trabalho progressivo lutam para construir e ampliar a democracia no Brasil. A Constituição de 88 e o conjunto de realizações do governo do presidente Lula representam marcos destacados deste processo. Todavia, importantes exigências dos valores e dos princípios democráticos não se realizaram mesmo já passados 23 anos da redemocratização.

Entre estas exigências encontra-se a punição de agentes do Estado que praticaram torturas e outras violações dos direitos humanos durante o regime militar. Questão que foi defendida no último dia 31 de julho, por ministros do governo Lula, Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vanucchi (Direitos Humanos), em audiência pública da Comissão de Anistia. A tortura, o assassinato de prisioneiros, e até o macabro ato de ocultação e decapitação de cadáveres foram crimes cometidos durante o regime ditatorial imposto pelo golpe de 64. Inúmeros testemunhos, pesquisas e publicações atestam estes bárbaros acontecimentos, inclusive, o importante livro-relatório, ''Direito à Memória e à Verdade'', editado pela Secretária Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e que contém o trabalho de mais de uma década da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

A punição dos responsáveis por essas atrocidades é um anseio da consciência democrática do país e uma das tarefas inconclusas do processo de redemocratização. A tortura e outros crimes acima nomeados são práticas afrontosas aos mais elementares preceitos da civilização. São condenáveis mesmo pelos tratados internacionais que estabelecem direitos e deveres para as instituições e os indivíduos em tempos de guerra. A bandeira da punição se apresenta sob a convicção de que ela contribuirá para banir a tortura em nosso país. Somam-se a essa medida, enquanto exigências democráticas, a abertura dos arquivos do período da ditadura e a garantia do direito sagrado e humanitário das famílias dos mortos e desaparecidos políticos de enterrarem seus familiares. Enquanto os arquivos estiverem trancados em cofres se estará negando à nação o direito de conhecer sua própria história e dela retirar lições e enquanto os mortos e, desaparecidos políticos não tiverem um túmulo honroso, haverá uma dívida que a consciência humanista de nosso povo não cessará de cobrar.

Forças políticas democráticas -- das quais faz parte o Partido Comunista do Brasil --erguem e lutam por essas bandeiras com o propósito de realizar tarefas que respondem aos justos anseios da sociedade e que são úteis à plena reconciliação nacional. O campo político progressista não tem interesse algum em cultivar ódio e ressentimentos. Quem tem essa atitude são os renitentes do obscurantismo e do golpismo. A presente situação mundial, marcada por ameaças contra os povos e os países, exige que a nação e suas instituições, inclusive as Forças Armadas, estejam coesas em torno da soberania nacional, da democracia e dos direitos de nosso povo

Brasília, 7 de agosto de 2008
Comissão Política Nacional do PCdoB


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sábado, 2 de agosto de 2008

Elas são tratadas como profissionais de segunda categoria

Legislação brasileira ainda não reconhece a igualdade de direitos e a isonomia entre cidadãos e cidadãs. Medidas adotadas pelos governos não foram capazes de assegurar os direitos trabalhistas e previdenciários inclusivos dessas mulheres.
Este ano, quando se completam 20 anos da promulgação da Constituição Federal, merece ser marcado pelas discussões das pendências em relação aos direitos das mulheres. A Carta Magna de 1988 deixou de fora algumas significativas reivindicações dos movimentos feministas apresentados à época da Assembléia Constituinte. Em que pese ser marco para a abertura democrática do país, que reconheceu formalmente a igualdade de direitos e a isonomia entre as cidadãs e cidadãos brasileir@s, resta nela e após sua publicação uma série de matérias não contempladas ou tratadas de maneira insuficiente; ou ainda que necessitam de regulamentação para sua efetividade.
A proteção às mulheres, especialmente, no trabalho doméstico, é um exemplo de tema tratado de forma não satisfatória. Incidir politicamente para mudar isso é uma das prioridades do CFEMEA, em articulação com a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad).
O contexto maior em que está inserido esse assunto questiona construções culturais impostas por gêneros, especialmente na sociedade capitalista pautada no sistema patriarcal, que prioriza a posição hierárquica dos homens e subordina as mulheres. O trabalho doméstico foi destinado às mulheres como exercício de atividades “naturais” do sexo feminino. Sendo assim, é um trabalho visto sem necessidade de remuneração (ou quando é pago, é muito mal pago), ou ainda, um trabalho ao qual sociedade, governos e famílias não conferem qualquer valor contributivo para as riquezas do país. Estimativa de Hildete Pereira, Claudio Considera e Alberto Di Sabbato, que pesquisam o tema trabalho na Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense, dá conta de que cerca de 12,7% do PIB brasileiro advém das atividades domésticas de reprodução social.
A desvalorização do trabalho doméstico está diretamente relacionada a quem o realiza (mulheres, na maioria das vezes negras) e ao tipo de trabalho que se faz (doméstico). Como assinala a feminista Betânia Ávila, o tempo despendido pelas mulheres com a reprodução da vida, com o cuidado de pessoas que não podem se autocuidar (idos@s, crianças, doentes, pessoas com deficiência), com ações essenciais para a própria manutenção das atividades produtivas como educação, vestimenta, alimentação, saúde e abrigo, não é contabilizado como válido para a organização social do trabalho. Esse tempo - diz ela - é fruto da expropriação do trabalho das mulheres.
A construção do tempo validada pelo sistema capitalista é aquele empregado para as atividades da produção, para gerar mais-valia (com jornadas de trabalho definidas e tempo de lazer contado como parte do tempo que sobra das atividades de produção). Assim, falar sobre direitos sociais para uma profissão essencialmente feminina, negra, com baixa escolaridade e pobre e que se realiza na esfera do mundo privado não é tarefa fácil. Mais um obstáculo está no fato de o Estado entender que não deve legislar ou se intrometer na esfera onde se dá o trabalho doméstico. Basta ver os “impedimentos” para a fiscalização das relações de trabalho violentas e discriminatórias que acontecem nas “casas de família”.
Diante dessa realidade, é possível compreender os padrões de desigualdades que configuram o trabalho doméstico: seja o trabalho da reprodução social, do cuidado ou do emprego doméstico. Por isso, a discussão sobre o tema é essencial para a conquista de relações trabalhistas mais equânimes e igualitárias entre mulheres e homens, negras e negros.
Hoje, falar de trabalho é falar de trabalho decente e gerador de cidadania. As organizações nacionais e internacionais que atuam nesse tema já não se contentam apenas na geração de empregos. As discussões em torno da jornada de trabalho, da liberdade sindical, da igualdade de salário para trabalho igual, fim da discriminação, tratamento rigoroso para as práticas de assédio moral e sexual entre outras questões são tratadas em conjunto, para que trabalhadoras e trabalhadores possam atingir condições dignas no exercício de suas atividades.
No que diz respeito ao trabalho doméstico, quando a Constituição Federal e outras leis específicas garantem direitos para @s trabalhador@s numa condição diferenciada e reduz direitos em relação a outros tipos de ocupação, torna-o um sub-trabalho, um trabalho de baixa categorização.
O trabalho doméstico remunerado é a maior profissão feminina do país e está longe de ter garantido direitos iguais e acesso à previdência social. As medidas adotadas pelos governos não foram capazes de assegurar os direitos trabalhistas e previdenciários para milhões de mulheres nessas condições. Garantir a equiparação desses direitos para as trabalhadoras domésticas brasileiras é enfrentar as desigualdades de gênero e o racismo e contribui tanto para o desenvolvimento das relações de trabalho quanto para o aprimoramento da democracia brasileira.

Original em CFEMEA


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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Aumentaram em mais de 50 milhões os famintos no mundo, afirma Jack Diouf, diretor-geral da FAO


Por Deisy Francis Mexidor

• DURANTE 2007 aumentaram em mais de 50 milhões os famintos no mundo, o que poderia ascender neste ano. A profunda crise alimentar adquire tons cinzentos e trágicos, cujas conseqüências falam por si sós: deixou uma onda de protestos e se agudizou a fome no planeta.
Com tais palavras o doutor Jack Diouf, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) — em visita a Cuba—, explicou o panorama atual que se vive ao oferecer uma conferência magistral na Aula Magna da Universidade de Havana.
Os preços dos alimentos experimentaram uma alta notável "como média em 52%", apontou Diouf e referiu que junto a este "fenômeno particularmente preocupante", soma-se também o incremento dos custos dos insumos. Por exemplo, em nível global, os fertilizantes acresceram seus preços em 98% num ano, as sementes em 60% e as rações em 72%.
Se não se adotam de imediato as medidas pertinentes poderá fazer-se mais difícil a situação nas próximas cinco décadas já que a população mundial passará de "mais de 6 bilhões agora a 9 bilhões em 2050", apontou o diretor-geral da FAO, que também criticou o emprego dos cereais que "foram destinados para o mercado energético".
A este cenário haveria que acrecentar-lhe igualmente os efeitos da mudança climática que começam a serem percebidos e a presença dos capitais especulativos, disse.
Para o alto funcionário da ONU a volatilidade dos preços dos alimentos "da que fomos testemunhas nos dois últimos anos, continuará durante longo tempo" e concluiu com a mensagem de urgência que é necessário atuar "agora mesmo", pois ainda há muitas promessas descumpridas.
Ao término de sua intervenção e em declarações à imprensa, Diouf expressou que esta crise se sente "não apenas nos países em desenvolvimento mas também nos desenvolvidos" e augurou que é possível revertê-la, mas que "com certeza é um problema de decisão política", apesar de que reconheceu que há 57 nações onde já se tomam medidas para diminuir a presente conjuntura.
Nesse sentido, destacou a necessidade de produzir mais, de cultivar mais terras, "estes problemas são prioridades", assinalou e disse que o governo de Cuba "está tomando ações neste contexto".
Em horas da tarde o doutor Diouf dialogou com uma representação do corpo docente da Escola Latino-Americana de Medicina.

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terça-feira, 29 de julho de 2008

Brasil desenvolve supermáquina de enriquecer urânio

Criado por pesquisadores da Marinha, modelo avançado de ultracentrífuga já está em funcionamento em Resende

Roberto Godoy

O discreto e bem-sucedido programa de pesquisa nuclear brasileiro tem um novo segredo para guardar: entre março e maio entrou em funcionamento o novo modelo de ultracentrífuga, a avançada máquina de enriquecer urânio criada pelos pesquisadores da Marinha, no Centro Aramar, em Iperó, a 130 quilômetros de São Paulo. É uma façanha: as unidades, designadas Geração 1/M2, são pelo menos 15% mais eficientes que as anteriores - que, aperfeiçoadas, já apresentam rendimento 50% superior ao do começo da produção, há 20 anos. As Indústrias Nucleares do Brasil (INB) receberam e montaram o segundo conjunto desses equipamentos na sua fábrica de combustível, em Resende, na divisa entre os Estados do Rio e São Paulo. As entregas foram sigilosas, feitas em comboios sem identificação, protegidos por fuzileiros. Uma terceira cascata com as mesmas especificações deve entrar em atividade na INB no final de 2009. Enquanto isso, no Centro Tecnológico da Marinha (CTMSP), um tipo inteiramente novo de ultracentrífuga, ainda em testes de validação, deve estar disponível em 2011 - e será 40% mais eficaz. Projeto e construção são nacionais. O urânio é enriquecido a 4%, nível adotado pelo País, e alimenta reatores de energia. Armas atômicas exigem graus superiores a 90% de beneficiamento. A agência de pesquisa fica no campus da USP e cuida dos planos de criação dos sistemas de propulsão nuclear para submarino de ataque. É um objetivo de longo prazo que ganhou fôlego com a liberação de recursos determinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois de uma visita a Aramar, em julho de 2007. Com dinheiro em caixa, 'o plano foi retomado como um todo', explica o capitão de fragata e engenheiro naval André Luis Ferreira Marques, do grupo de especialistas do CTMSP. Prova prática: estão abertos concursos para provimento de vagas - de engenheiros especializados a pessoal administrativo, cerca de 400 funcionários. O submarino, de 6 mil toneladas, com 96,6 metros de comprimento e 100 tripulantes, exige cerca de 11 anos de trabalho. Antes disso, porém, será necessário testar e completar um reator PWR (de água pressurizada) de 48 MW. O dispositivo está pronto em Iperó, as grandes peças armazenadas em ambiente de gás inerte para evitar a deterioração. Aguarda a conclusão das obras do Laboratório de Geração Nucleoelétrica, o LabGene. O complexo teve as obras civis retomadas. Fica pronto no final de 2010. O reator que permanece desmontado vale US$ 130 milhões. Expandido, ele servirá ao submarino e à produção de eletricidade de usinas regionais de 300 megawatts. O Centro Tecnológico da Marinha vai receber R$ 1,040 bilhão em parcelas anuais de R$ 130 milhões. O dinheiro está sendo empregado no ciclo do combustível, geração de energia, propulsão e infra-estrutura. Marques estima que o processo exigirá sete anos, no mínimo, para ser completado. O investimento no programa nuclear tem sido feito principalmente pelo Comando da Marinha, com recursos próprios. Desde 1979, as aplicações somam US$ 1,117 bilhão - só US$ 216 milhões vieram de outras fontes governamentais. A ultracentrífuga é o produto mais sensível do processo. Os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não têm acesso às cascatas. As verificações previstas no acordo de salvaguardadas, firmado pelo governo brasileiro e renovado há pouco mais de dois anos, abrangem complexa contabilidade. 'O que interessa à AIEA é saber o quanto de gás de urânio entrou no sistema, o quanto saiu de urânio enriquecido, o U235, e também de urânio empobrecido, o U238 - é uma equação que tem de fechar sem erro', explica o almirante Carlos Bezerril, diretor-geral do CTMSP. A regra de preservação do conhecimento sensível vale desde 2003, quando a Marinha e a INB passaram a cobrir com painéis todas as ultracentrífugas, permitindo aos peritos internacionais a observação apenas do circuito de entrada e saída. Em Iperó, a cascata de beneficiamento é monitorada ininterruptamente por câmeras blindadas guardadas em caixas que foram lacradas pela AIEA. As ultracentrífugas do Brasil utilizam a flutuação magnética para evitar o atrito entre partes móveis. Assim, duram mais e têm maior capacidade. Os fundos liberados pelo presidente Lula permitirão o funcionamento, em dois anos, de uma central semi-industrial, para produzir até 40 toneladas por ano de gás de urânio, a última etapa do complexo ciclo do combustível nuclear que o País não executa, embora domine o conhecimento. A produção atenderá às necessidades do Comando da Marinha. A Força utiliza o hexafluoreto de urânio para ensaios científicos e para enriquecimento do mineral. Estão sendo investidos cerca de R$ 40 milhões nas obras em Iperó. A Financiadora de Projetos e Pesquisas (Finep) destinou R$ 23,60 milhões para o projeto desde 2007. Atualmente, o urânio transformado em yellow- cake é enviado em tambores de 400 quilos para a empresa Cameco, do Canadá, que realiza, sob contrato, a conversão para o gás.

Notícia obtida com a ajuda de Alexandre Nunes de Araújo


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domingo, 27 de julho de 2008

América Latina bipolar: os movimentos se movem

CONTRA-OFENSIVA NEOLIBERAL

Está em curso na América Latina uma contra-ofensiva articulada pelos Estados Unidos, misturando estratégias da Aliança para o Progresso com uma política de criminalização dos movimentos sociais. Esse processo de criminalização é ainda mais forte contra as comunidades indígenas, como vemos no Peru, no Chile e na Bolívia. A análise é do sociólogo Boaventura de Sousa Santos.

Boaventura de Sousa Santos

A América Latina é peça-chave nas estratégias das empresas transnacionais e dos governos do Norte global. A expansão do mercado transformou a água, os serviços de saúde e a educação em mercadoria. A mercantilização dos recursos naturais é fundamental para a acumulação de capital a médio prazo, colocando a biodiversidade enorme da América Latina no centro dos interesses.
O processo de “refocalizar” a América Latina acelerou-se devido ao fracasso da guerra do Iraque. Os Estados Unidos perceberam que, durante sua relativa ausência, gestaram-se mudanças e os processos sociais avançaram fora de seu controle, resultando em governos progressistas e movimentos sociais fortes que chegaram ao poder através da democracia, sendo que os Estados Unidos usam o discurso da democracia para justificar suas intervenções.
Neste cenário, está se desenvolvendo uma nova contra-insurgência, mistura das estratégias da Aliança para o Progresso e uma política de divisão dos movimentos, especificamente o indígena. O protesto é criminalizado de maneira brutal e a militarização torna-se mais profunda. Incapaz de conquistar apoio popular, o neoliberalismo tenta substituir “desenvolvimento” e “democracia” por “controle” e “segurança”.
Isto é conseqüência do aprofundamento da exclusão social, da miséria e da desigualdade, o que implica na emergência de um fenômeno de fascismo social. Não um regime político, mas uma forma de sociabilidade onde alguns têm capacidade de veto sobre a vida de outros. Corremos o risco de viver em sociedades politicamente democráticas, mas socialmente fascistas.
O melhor exemplo desta lógica é o doloroso aumento da fome no mundo, que mostra a contradição entre a vida e a ânsia de lucro. A emergência do fascismo social mostra que a modernidade, como projeto, está quebrada, porque não cumpriu suas promessas de liberdade, igualdade e solidariedade, e não irá cumpri-las.
Surge, então, a contradição entre o paradigma da segurança e da luta contra o terrorismo e os Estados que reivindicam sua soberania, os movimentos sociais e, especificamente, as lutas dos povos indígenas. Nos territórios indígenas está 80% da biodiversidade latino-americana. Organizações como a Coordenadora Andina de Organizações Indígenas, a Confederação Nacional de Comunidades Afetadas pela Mineração do Peru e a Coordenadora Nacional de Ayllus e Marqas, são um perigo para o status quo.
A criminalização da dissidência na América Latina é ainda mais forte contra os indígenas, como vemos no Peru e no Chile. Existe a intenção de transformar os indígenas nos terroristas do século XXI, como mostram os documentos da CIA. O uso das leis antiterroristas contra os dirigentes indígenas está baseado em uma descaracterização total do conceito de terrorismo, uma vez que isto significa atacar e causar danos a civis inocentes. No caso das lutas indígenas, são ataques contra a propriedade privada para defender outra propriedade, a comunitária e ancestral.
Isto não cabe em nenhum conceito de terrorismo.
A regionalização subnacional tem sido promovida pelo Banco Mundial em forma de descentralização, que apontou a desmembrar o Estado central através da transferência de responsabilidades para os níveis locais. Na Bolívia, existia uma descentralização dirigida pelas autonomias indígenas, a partir de uma visão política e cultural sólida, que permitiu que os indígenas ganhassem alguma coisa com as políticas de descentralização do BM.
Mas a bandeira da descentralização foi assumida agora pelas oligarquias, em resposta à perda de controle do Estado central que elas sofreram. Eles sempre foram centralistas, mas agora levantam a bandeira da autonomia para defender seus privilégios econômicos. Isto gerou um problema político para o movimento indígena na Bolívia, que tem promovido a autonomia dos oprimidos, não dos opressores. A “autonomia” de Santa Cruz é ilegal sob a velha Constituição; uma nova está para ser aprovada. A decisão das autonomias caberia ao Congresso.
Tenho defendido, na Bolívia, a diferenciação entre autonomias ancestrais e as da descentralização. Proponho entender as autonomias indígenas como extraterritoriais em relação às autonomias departamentais. Deveriam estar baseadas no controle total do seu território, fora da governabilidade descentralizada, uma vez que são anteriores ao processo de descentralização. Mas seria necessário fortalecer a institucionalidade indígena, que ainda é frágil, diante do poder das oligarquias bolivianas.
O debate atual é perigoso, porque existem desejos recíprocos de enfrentamento armado. As oligarquias não querem deixar seus privilégios e os indígenas não vão deixar pacificamente que o país seja dividido. Seriam eles que defenderiam o país.
A Colômbia e o Peru representam o status quo neoliberal e os Estados Unidos na região. São complementares. A Colômbia representa a lógica militar que busca conflitos e tensões, os quais criam condições para a militarização e a intervenção. No Peru, é promovida uma lógica similar, com forte criminalização das organizações sociais, um primeiro passo que prepara a militarização posterior. Existem indícios de que a base de Manta, no Equador, vai se mudar para a Amazônia peruana.
Estamos entrando em uma fase histórica de polarização. De um lado, as políticas de mercantilização buscarão livre acesso aos recursos naturais e a continuidade dos privilégios das elites. Do outro, existe um imaginário radicalizado nas forças progressistas do continente, que desenvolveram concepções diferentes de democracia, desenvolvimento, direitos e sustentabilidade, compartilhadas por cada vez mais pessoas e organizações. As forças dominantes não podem mais cooptar este imaginário radical com suas propostas de proteção social. Por isso a repressão.
O horizonte continua sendo a democracia e o socialismo, mas um socialismo novo; seu novo nome é democracia sem fim. A democracia radical é uma alternativa para duas idéias fundamentais. Não acredito que seja possível mudar o mundo sem tomar o poder, mas também não podemos mudar algo com o poder que existe hoje. Então, devemos mudar as lógicas do poder e, para isso, as lutas democráticas são cruciais e são radicais, por estarem fora das lógicas tradicionais da democracia. Devemos aprofundar a democracia em todas as dimensões da vida. Da cama até o Estado, como dizem as feministas. Mas também com as gerações futuras e com a natureza, o que é urgente para deter a destruição do planeta.
Nosso objetivo é sair de uma democracia tutelada, restrita, de baixa intensidade, para chegar a uma democracia de alta intensidade, que torne o mundo cada vez menos confortável para o neoliberalismo. Mas a realidade não muda espontaneamente. Em política, para fazer algo é preciso ter razão a tempo, no momento oportuno; e ter força para impor essa razão.
De uma entrevista realizada por Raphael Hoetmer em Lima, Peru, durante a Cúpula dos Povos, em maio.
Tradução: Naila Freitas/Verso Tradutores

Original em Associação Cultural José Marti-RS


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sexta-feira, 25 de julho de 2008

MST denuncia Justiça por segredo de Estado no processo do RS

Na coletiva à imprensa, realizada nesta quinta-feira (24), em São Paulo, o advogado do MST, Aton Fon Filho, denunciou que o processo, movido por procuradores do Ministério Público gaúcho e baseado na Lei de Segurança Nacional, contra oito militantes do movimento não pode ser amplamente divulgado em função da determinação de que ele corra em segredo de Estado. Ele disse que recorrerá ao TRF-4 (Tribunal Regional Federal) da 4ª Região no Rio Grande do Sul para obter a quebra de segredo.

Por Carla Santos*
Ocupações ao Incra de BH, SP e Rio nesta quinta.
''Queremos que a sociedade possa ter acesso ao conteúdo do processo. Há inúmeras questões que poderão ser esclarecidas sobre a tentativa de extinguir o movimento e criminalizá-lo se pudermos trazer à luz os depoimentos nele contidos. Não se faz justiça às portas fechadas'', disse.
No dia 3/12/07 o Conselho Superior do Ministério Público aprovou o relatório, elaborado pelo promotor Gilberto Thums (processo nº 16315-09-00/07-9), que concluiu no “ (...) sentido de designar uma equipe de Promotores de Justiça para promover ação civil pública com vistas à dissolução do MST e declaração de sua ilegalidade (...)”.
Como não bastasse a tentativa de declarar o MST ilegal, o Ministério Público (MP) ainda decidiu “(...) pela intervenção nas escolas do MST a fim de tomar todas as medidas que serão necessárias para a readequação à legalidade, tanto no aspecto pedagógico quanto na estrutura de influência externa do MST.”
Diante da condenação da sociedade ao relatório, que ofende o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, especialmente o artigo 22, nº 1, reconhecido pelo Governo brasileiro através do Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992, o MP recuou, mas seguem as oito ações civis contra os sem-terra de Carazinho (RS). A primeira audiência está marcada para 29 de julho.
''É uma ação que, estando voltada contra oito [sem-terra], na verdade atinge todo o MST porque os crimes [previstos na Lei de Segurança Nacional] são crimes por participar de organização que visa a derrubada do regime de direito vigente. Desse modo, se um único deles for condenado, significa que esse único participa de uma organização que se volta para derrubar o regime de direito vigente. Que organização é essa? O MST'', disse Fon Filho.
Justiça ideológica
“Essa causa não é do MST, mas de todo o povo brasileiro. O Ministério Público não pode se deixar guiar por ideologias. As pessoas acham que só a esquerda tem ideologias, mas também há uma ideologia da direita, capitalista. O MP tem que seguir os princípios éticos fundamentais, que estão na Constituição Brasileira”, defendeu Fábio Konder Comparato, jurista e professor aposentado da Faculdade de Direito da USP, presente à coletiva.
Para ele, a ofensiva do MP-RS simboliza o “delírio” contra os trabalhadores sem-terra. ''Mas não o delírio do descontrole, mas sim da cega defesa da indústria do papel no RS'' . Ele leu para os jornalistas presentes a Lei de Segurança Nacional (LSN), classificada de entulho da ditadura militar, e defendeu que, em nenhum aspecto, o MST a fere.
''Esta Lei prevê que é crime os que lesam a integridade territorial e a soberania nacional. Por acaso a integridade territorial do país está sendo ameaçada pelo MST? Todos os dias 12 quilômetros de terras brasileiras - cerca de 31 milhões de hectares - são destinados à estrangeiros. Cerca de 14% dos territórios da Amazônia - ou a soma dos territórios de SP, do RJ e do RS - são de proprietários desconhecidos, são pessoas jurídicas das quais nem se imagina a nacionalidade. Não creio que seja o MST a ameaça a integridade do território nacional.'', argumentou o jurista.
Comparato defendeu que o país precisa perceber que a defesa da Constituição inclui a luta por uma sociedade livre, justa e igualitária. ''O segredo de Estado não é admitido pela LSN. Ele existe para não expor a intimidade dos envolvidos. O processo em questão não expõe a intimidade de ninguém. A governadora Yeda Crusius (PSDB) pode ficar tranqüila. O problema é essa distorção ideológica do MP'', alfinetou.
O 'crime' da luta pela reforma agrária
“Quem acompanha a história do MST nesses 24 anos percebe o processo de perseguição política às famílias sem-terra. Esse processo também tem uma face jurídica e desta vez veio de forma orquestrada, pelo Ministério Público”, denuncia Andressa Caldas, da Justiça Global. Junto com a Terra de Direitos e outras 11 entidades, foram protocoladas denúncias junto à ONU (Organização das Nações Unidas) e OEA (Organização dos Estados Americanos).
“A tentativa de criminalização do MST é uma forma de esconder as verdadeiras contradições da realidade, fruto das desigualdades sociais. Nós vamos continuar nos mobilizando em defesa do povo brasileiro e pela Reforma Agrária. O papel da Justiça é defender o povo, defender o direito ao trabalho, o direito à terra. Queremos ter garantido nosso direito de produzir alimentos saudáveis para abastecer a população brasileira”, afirma José Batista de Oliveira, da coordenação nacional do MST.
O papel da mídia na criminalização dos movimentos socias também foi destacado durante a coletiva. ''No caso da greve dos Correios vi uma pressão da mídia para que os trabalhadores 'aprendessem' a fazer greve sem parar de trabalhar, um absurdo'', registrou José Batista. ''Estou insatisfeito com o papel de alguns grandes veículos de comunicação que dificilmente registram a situação da criminalização dos movimentos socias e do MST'', agregou Comparato.
Nesta semana, o Movimento está mobilizado em 11 estados, para exigir o assentamento de 140 mil famílias acampadas, além de um programa de agroindústria para os assentados. O MST denuncia a lentidão no processo de reforma agrária e condena a criminalização das lutas populares, em especial no Rio Grande do Sul e no Pará.

Original em Vermelho


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segunda-feira, 14 de julho de 2008

Somos todos diabos sem-terra

Por Marcelo Salles

Os militantes sem-terra são demonizados não porque supostamente violentos, baderneiros e corruptos, como afirma a mídia hegemônica. Os militantes sem-terra são enquadrados dentro do arquétipo da maldade porque ousam dizer "não".

A decisão do Conselho de Promotores do Rio Grande do Sul de pedir a extinção do MST só encontra paralelo nas ditaduras mais sombrias. Seu entulho autoritário já serviu de base para oito ações contra os sem-terra, entre elas despejos violentos e proibição de manifestações pacíficas. Nesta terça-feira (24/6), a sede nacional do movimento, em São Paulo, foi invadida e vasculhada. São fatos inconcebíveis num Estado Democrático de DireitoA recente ofensiva contra o MST teve início em 4 de março, quando 900 camponesas ocuparam uma fazenda ilegal da empresa Stora Enso, no Rio Grande do Sul. As trabalhadoras protestavam contra o monocultivo de eucalipto praticado nas instalações da transnacional, da mesma forma que haviam feito na Aracruz Celulose dois anos antes. A ação fez parte da Jornada de Lutas das Mulheres Sem Terra. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, 60 camponesas tiveram seus corpos marcados por ferimentos causados pelas tropas da Brigada Militar e duas foram presas.Em abril, a juíza Patrícia Rodriguez Whately, a pedido da Vale do Rio Doce, arbitrou multa de R$ 5 mil contra João Pedro Stédile a cada vez que ele se manifeste em público ou que o MST promova ocupações para denunciar a violenta exploração capitalista que coloca o Brasil entre os países mais injustos do mundo. Segundo Stédile, que não se calou, os 10% mais ricos recebem 23,5 vezes mais que os 10% mais pobres. E de tudo que é produzido, 60,9% fica com os donos do capital e 39,1% com os trabalhadores – proporção que já foi de 50% a 50% na década de 1960.É a partir daí que devemos compreender as agressões jurídicas contra o MST. Além de alfabetizar e organizar os trabalhadores pobres, reforçando sua auto-estima e mostrando que eles são sujeitos de sua própria história – o que por si só já representa grande ameaça aos donos do poder – o Movimento dos Sem-Terra está na linha de frente da resistência contra a exploração capitalista. Foi o MST quem deu visibilidade à campanha pela anulação da privatização da Vale do Rio Doce, que pertencia ao povo brasileiro e foi entregue à iniciativa privada por um preço aviltante. É o MST quem chega e afirma que o agronegócio é inimigo da humanidade; que o latifúndio é inimigo do trabalhador; e que as corporações de mídia são sócias da violência.Por tudo isso o MST vem sendo demonizado. Como no mito do Paraíso Perdido, de John Milton, os militantes sem-terra são identificados como Lúcifer, o anjo rebelde. No mito, Lúcifer não se torna o inimigo número 1 do poder central porque é cruel, mesmo porque em nome de Deus se fizeram as Cruzadas, cujos métodos de conquista são conhecidos pela violência desmedida; Lúcifer não é expulso do Céu em razão de ser um sádico torturador, até porque muitos juízes não se preocupam em punir torturadores, sobretudo nesse pedaço de terra chamado Brasil; por fim, o diabo não se torna inimigo por ser corrupto, essa virtude tão cara ao sistema capitalista. Lúcifer se torna o símbolo da maldade quando se recusa a obedecer a uma norma, quando desafia o poder hegemônico; diz não àquele que tudo vê, tudo sabe, tudo pode.O mito de John Milton serve como analogia perfeita. Os militantes sem-terra são demonizados não porque supostamente violentos, baderneiros e corruptos, como afirma a mídia hegemônica. Os militantes sem-terra são enquadrados dentro do arquétipo da maldade porque ousam dizer "não". O MST diz não à privatização da Vale do Rio Doce; diz não ao monopólio do eucalipto, diz não às sementes transgênicas, diz não ao latifúndio, diz não ao agronegócio, diz não à violência policial contra negros e jovens. Ou seja, recusa-se a aceitar o conjunto de normas que fundamenta o projeto capitalista para o Brasil.Eis o grande crime do MST: dizer não ao sistema que tudo vê, tudo sabe, tudo pode. Pela rebeldia, enfrentará a fúria dos setores que lutam pela manutenção da exploração do povo brasileiro. Pela justeza de sua causa, receberá o apoio de milhões de brasileiros que ainda não perderam a capacidade de se indignar frente às injustiças. Seremos todos diabos sem-terra. Juntos, vamos lutar e vencer. Como disse outro diabo, o Santo Agostinho: "A esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. A raiva do estado de coisas e a coragem para mudá-lo".


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sábado, 12 de julho de 2008

Escândalos tucanos

Denúncias contra governos de SP e RS revelam mar de lama da direita

Caso Alstom em São Paulo, caso Detran, no Rio Grande do Sul. O mar de lama, alardeado pela direita, pelos caciques do PSDB e do DEM (ex-PFL), e pela imprensa inunda, tudo indica, os quintais daqueles que posam de reis da honestidade e da pureza.

Mau cheiro em São Paulo

Em São Paulo, a notícia de que a empresa francesa Alstom teria distribuído propinas para autoridades estaduais precisou aparecer primeiro no The Wall Street Journal, um dos principais dos EUA, para ser noticiada pela TV Globo, timidamente. O caso envolve denúncias de pagamento de propinas para “azeitar” a venda de equipamentos para o Metrô de São Paulo e para a Usina Hidrelétrica de Ita, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Propinas na América do Sul

Um ex-diretor da Alstom, o engenheiro José Sidnei Colombo Martini, chegou a ser nomeado, em 1999 – no governo de Mário Covas – presidente de uma estatal paulista, a Empresa Paulista de Transmissão de Energia (EPTE). Dois anos depois, ele mandou comprar dela, sem concorrência, equipamentos no valor de R$ 4,82 bilhões. Os negócios entre a Alstom e o governo paulista superam R$ 1,3 bilhão, em 139 contratos (assinados desde 1989), envolvendo o Metrô, a Cesp, CPTM, CTEEP, Dersa, Eletropaulo, Emae, Prodesp e Sabesp, entre outras estatais. Eles são investigados, desde novembro de 2007, pelas justiças da França e da Suíça, onde a Alstom é acusada de pagar propinas em países da América do Sul e da Ásia.

Lama no governo gaúcho

No Rio Grande do Sul, as revelações estão amparadas em uma prova forte, uma fita divulgada pelo vice governador Paulo Feijó (DEM-RS), que comprova o esquema de corrupção e pode envolver a própria governadora Yeda Crusius. Para apurá-las, a Assembléia gaúcha instaurou a CPI do Detran, que vai investigar fraudes que chegam a R$ 44 milhões no Detran gaúcho. As provas contra a Yeda Crusius se acumulam, sendo forte a pressão para a cassação de seu mandato. Isso seria um grande vexame nacional para os caciques do PSDB que posam de “guardiões da ética”. Com a revelação das fitas comprometedoras, Yeda e Paulo Feijó tornaram-se inimigos políticos, e a governadora acusa o vice de querer implodir seu governo.

Protesto tratado a porrete

Quando estudantes, trabalhadores e agricultores foram para as ruas protestar contra Yeda, no dia 11, a reação da governadora não podia ter sido pior: ela mandou a Brigada Militar impedir que a manifestação se aproximasse do palácio do governo. A consequência lembrou a ditadura militar: violência policial, cassetetes, balas de borracha e bombas de efeito moral contra os manifestantes. No total, 12 manifestantes e quatro policiais ficaram feridos. Doze manifestantes foram presos, inclusive o motorista do carro de som e os músicos levados para animar o protesto.

Leia o original em Classe Operária


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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Qual das Liberdades, "seu" Mário?

O senhor Mário Vargas Llosa - e uso o termo "senhor" no sentido de senhor de escravos - disse hoje que "os cidadãos dos países democráticos têm "a obrigação moral de ajudar os cubanos a recuperarem a liberdade"". É de fundamental importância que o "seu" Mário esclareça alguns pontos dessa bela frase.
Em primeiro lugar, quais cidadãos? Os detentores do poder econômico que acumulam fortunas às custas do trabalho mal pago dos operários e camponeses, ou os cidadãos excluídos do processo social, vítimas do analfabetismo, da prostituição, das doenças e da exploração perpetrada pelos acumuladores de capital? Dos banqueiros ou das vítimas dos agiotas?
Em segundo lugar, quais países democráticos? Os Estados Unidos da América, onde a maioria deseja o fim da ocupação do Iraque e do Afeganistão e o fim das mortes da sua juventude, mas que,"democraticamente" se mantém atolado nessas guerras covardes? Ou Porto Rico que é mantido contra vontade de seu povo atrelado ao poder colonialista como "Estado Associado" aos EUA? Ou talvez seja a "democrática" Colômbia ou o "libertado" Iraque? Quem sabe a Espanha, que ao brincar de reizinho se julga no direito de mandar um Chefe de Estado, eleito pela maioria do povo, calar a boca? Pode ser que os "países democráticos" citados sejam os emirados árabes vassalos da política expansionista norte-americana onde os príncipes usam privadas do ouro e o povo amarga a miséria. Qual desses, senhor? Qual desses?
Em terceiro lugar, que moral? A que impede o acesso da maioria do povo à assistência médica? A que explora e acumula bens com a prostituição infantil, com o tráfico de drogas e com a ignorância do povo? Ou aquela que acha justo destruir o planeta em nome da geração de bens materiais?
A mais importante definição, no entanto, e que urge esclarecer o mais breve possível, é a que liberdade se refere o escrevinhador. A liberdade de observar a limousine que transporta o magnata ao mesmo tempo em que se recolhe o lixo para alimentar os filhos? Ou a de poder achar que, se tiver chance, um dia será rico, não importando o fato de que para que exista um rico seja necessária a existência de 10.000 pobres? Talvez esteja sendo referida a liberdade de expressar a idéia que é melhor para os titulares do poder econômico. Será essa? Ou será apenas a liberdade de se poder achar que se é livre?


Por Rosalvo Maciel

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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Hirsch: US$500/barril dentro de três a cinco anos

por Jim Kunstler

O momento da verdade na semana passada foi o aparecimento de Robert Hirsh na CNBC, no programa financeiro matutino "Squawkbox", no qual sugeriu a probabilidade de US$500 por barril de petróleo dentro de "uns três a cinco anos". A apresentadora Becky Quick ficou claramente confusa diante do impassível Sr. Hirsch, autor de um (então) assustador relatório elaborado em 2005 para o Departamento de Energia (desde então mencionado como Relatório Hirsch e enterrado pelo secretário da Energia) que advertia quanto aos medonhos efeitos sobre o modo de vida americano quando a situação do Pico Petrolífero ganhasse velocidade. Talvez o maior contestador da realidade tenha sido o absolutamente idiota Larry Kudlow no show da noite sobre dinheiro, o qual se manteve a repetir a lenga-lenga "furem, fure, furem" quando lhe apresentaram sinais de que alguma outra coisa além dos "especuladores do petróleo" estava a conduzir os preços para cima e a criar escassez global. Estes idiotas retornam sempre ao amuleto de que "há muito petróleo fora daqui". O que eles não percebem é que mesmo no momento em que o mundo está a desfrutar o pico máximo da produção de todos os tempos (algo em torno dos 85 milhões de barris por dia), aquele mesmo mundo está a exigir pelo menos 86 milhões de barris – assim mesmo que se pense que há mais petróleo do que nunca, não há bastante. E o fosso só pode ficar maior. A diferença entre o que está disponível e o que é procurado está a ser sentida pelos países pobres e pessoas pobres nos países mais ricos. Os países do Terceiro Mundo que não têm petróleo estão simplesmente a retirar-se do mercado, e as classes mais baixas nos EUA estão a ter de escolher entre comprar gasolina e velveeta [1] . As inundações no cinturão do milho certamente agravarão o problema aqui nos EUA. Intervalos para almoço em breve podem ser uma coisa do passado para a WalMart Associates. Talvez eles se ponham apenas a jogar video games nos seus celulares no estacionamento de carros a fim de aliviar a fome. Enquanto isso, a noção de que furar furar furar no offshore dos EUA e mais acima no Alasca resolverá este problema mostra quão incrivelmente desinformados estão os noticiários dos próprios media. A probabilidade de ser encontrada qualquer coisa ao largo da Califórnia ou da Florida é próxima de zero, mesmo que compensasse em parte o esgotamento em curso no punhado de velhos e estabelecidos campos super-gigantes dos quais o mundo obtém a maior parte do petróleo. A propósito, apoio a idéia de furar na Reserva Natural do Alasca porque penso que isto pode ser feito de um modo higiênico e, o mais importante, faria com que os cornucopianos idiotas, imbecis da extrema-direita, finalmente calassem a boca acerca disso – antes de descobrirem que aquilo contém menos da metade do abastecimento anual de petróleo dos EUA às atuais taxas de utilização. Também na frente do "enquanto isso", a reunião de domingo da OPEP, em Jeddah, Arábia Saudita, foi simplesmente uma evasão desesperada, uma fantochada, um teatro kabuki de impotência. Mais uma vez os sauditas estão a pretender que podem aumentar a sua produção – em resumo, a pretender que realmente têm algum poder no jogo. Como destacou Jeffrey Brown em THEOILDRUM.COM, o reino ainda mostrará um firme declínio de três anos em relação às suas taxas de produção de 2005 mesmo se fossem capazes de aumentar a produção atual tanto quanto eles dizem que farão em 2008. Toda esta realidade principia a penetrar a consciência coletiva nos EUA, mas o resultado é sobretudo pânico ou descrença paralisada ao invés de qualquer conjunto de respostas inteligentes. Exemplo: recebi um telefonema de um dos produtores do Katie Couric no noticiário da CBS de sexta-feira. De algum modo, eles perceberam que os preços do petróleo estavam a tornar-se um problema na América. Chamaram-me para um comentário. A parte assustadora era que eles estavam claramente a tratar tal questão como uma estória "estilo de vida". Será que eu pensava que mais suburbanos mudar-se-iam para o centro das cidades? E seria isso uma boa coisa...? Eles não tinham a mais mínima pista sobre quão vastamente e profundamente estas dinâmicas afetarão a vida deste país, ou mesmo a nossa capacidade para permanecermos um país. Também, a propósito, isto demonstra como a rede dos noticiários noturnos tornou-se o equivalente das antigas "páginas da mulher" dos jornais diários. O universo paralelo do mundo financeiro está a mostrar a tensão resultante de toda esta ansiedade com o petróleo – uma vez que, afinal de contas, o petróleo é o recurso primário para movimentar economias industriais. Passou-se algum tempo desde que os rapazes a serviço dos banqueiros embarcaram na sua aventura fatal de alquimizar uma nova estirpe mutante de instrumentos de investimento para substituir as velhas ações e títulos, os quais representavam a esperança para a produção do excedente de riqueza da atividade industrial – agora posta em debate pela estória do petróleo. A idéia dos investimentos mutantes era produzir riqueza com nenhuma atividade real produtora de riqueza. Este velho truque, antigamente conhecido como finanças Ponzi ou um "esquema de pirâmide", era naturalmente auto-limitante, e de um modo que acabaria por se demonstrar muito destrutivo para sociedade como um todo. De fato, ele minou fatalmente a legitimidade de todo o sistema financeiro, e iniciou-se um estado de náusea abrangente quando testemunhamos todos a dissolução do fundamento da economia dos EUA sob um tsunami de dívidas que nunca serão reembolsadas. Os mercados parecem saber isto, os atos mais interventivos estão a guinchar mais acerca disso, alguns bancos estão a emitir amedrontadoras advertências "duck-and-cover" [2], utilizando frases de filme de horror tais como “... pior do que na Grande Depressão dos anos 30..." e o público geral está a afundar na areia movediça da bancarrota, devolução aos donos, e ruína. Não estive em quaisquer festas no relvado no Hamptons deste ano, mas imagino que borbulhas eczematosas de ansiedade estão a competir com queimaduras depois de acabado este ano. Realmente, estamos certos de voltar aonde estávamos por esta altura no ano passado, apenas pior. O petróleo duplicou, a comida está terrífica, as barragens romperam-se, as pessoas que dirigem as coisas estão a borrar as calças, e toda a gente está à espera da queda final.
23/Junho/2008

Notas

[1] Tipo de queijo nos EUA.

[2] Duck and Cover era o método sugerido de proteção pessoal contra os efeitos de uma detonação nuclear que o governo dos Estados Unidos ensinou a gerações de escolares dos Estados Unidos desde o fim da década de 1940 até a década de 1980. Este método era suposto protegê-los no caso de um ataque nuclear inesperado o qual, diziam-lhes, podia acontecer a qualquer momento sem advertência. Imediatamente depois de verem um clarão de luz eles tinham de parar o que estavam a fazer e ficar sobre o chão sob alguma cobertura – tal como uma mesa, ou pelo junto à parede – e assumir a posição fetal, deitadas com a cabeça para baixo e cobrindo as cabeças com as mãos. Os críticos consideram que tal treino seria de pouca, se é que alguma, valia em caso de guerra termonuclear, e tinha pouco efeito além de promover um estado de desconforto e paranóia. A finalidade era criar no povo a aceitação da possibilidade da guerra nuclear.


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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Nita Freire: ''No Brasil, a elite tem raiva do povo''

Nita Freire, a viúva do educador brasileiro Paulo Freire, está ''indignada'', segundo o portal Viomundo, pelo fato de os promotores gaúchos Luís Felipe de Aguiar Tesheiner e Benhur Biacon Júnior relacionarem o uso do método educacional desenvolvido pelo marido dela nas escolas do Movimento dos Sem-Terra (MST) como uma ''atividade ilegal'' e uma das provas a serem incluídas no processo com o qual pretendem extinguir o Movimento.

''No Brasil a elite tem raiva do povo'', observou Nita, ao protestar contra a menção ao Método Paulo Freire no processo. O educador Paulo Freire passou mais de 15 anos no exílio depois do golpe militar de 1964, que teve como uma de suas primeiras medidas repressivas a proibição do uso no Brasil do método educacional por ele desenvolvido e que tem como base menos teoria e fundamentalmente a observância da realidade.
A viúva de Freire assinalou que a ação do MP gaúcho pró-extinção do MST lhe lembra o marcatismo dos anos 50 nos EUA - o termo se origina na comissão conservadora do Senado americano presidida pelo senador Eugene MacCarthy, que tinha entre seus membros o então senador Richar Nixon, e que elaborou listas e desencadeou perseguições (convocava para depôr à comissão, prendia e impedia de trabalhar) a milhares de cidadãos americanos e estrangeiros que lá viviam acusando-os de comunistas. Muitos não eram.
Ata secreta de reunião de 3 de dezembro pp. e que só recentemente veio a conhecimento público revela que o Conselho Superior do MP do gaúcho constituiu uma força-tarefa para ''promover uma ação civil pública com vistas à dissolução do MST e a declaração de sua ilegalidade a bem da segurança nacional.'' A ata também já aponta as linhas de ataque ao movimento e os caminhos para extingui-lo.

Visão elitista também em Goiás
Na mesma linha de críticas à visão elitista de procuradores em relação a conteúdos educacionais, o deputado Pedro Wilson (PT-GO) criticou matéria publicada pela revista Época desta semana que informa que o Ministério Público Federal (MPF) pediu o cancelamento da curso de Direito exclusivo para assentados rurais e pequenos produtores. Na ação o MPF citou dois motivos para o encerramento do curso oferecido pela Universidade Federal de Goiás, desde agosto do ano passado: que ele restringiria o acesso universal a um curso que todos têm direito constitucional de pleitear; usa recursos do Incra para formar advogados, especialidade que não está em conformidade com o objetivo declarado da reforma agrária, o de fixar as pessoas no campo.
O deputado Pedro Wilson vê preconceito de classe na ação do Ministério Público Federal e na matéria da Época. “Esse viés da inadequação do curso de Direitos para assentados ou pequenos produtores vem da classe dominante que não aceita a revolução e a democratização educacional promovidas pelo Governo Lula. Segundo Pedro Wilson o governo avançou, saiu da política restrita à alfabetização, do apenas ler e escrever, para qualificar o trabalhador. Esses que são contra o curso de Direito são os mesmos que também são contra as cotas nas universidades e contra o ProUni”, criticou.
Para Pedro Wilson é importante sim que os pequenos produtores e os assentados tenham um curso específico de Direito. “Caso contrário eles aprenderão as disciplinas pela ótica dos latifundiários, pela visão daqueles que não entendem a terra como um direito de todos e com finalidade social. Nesse curso específico, eles vão estudar o direito agrário e outras disciplinas que valorizam a pequena propriedade, que valoriza os direitos humanos”, acrescentou.
O deputado destacou que o curso foi criado seguindo todos as exigências legais e teve o seu currículo geral aprovado pelo Conselho Acadêmico da Universidade e pelo Ministério da Educação. Pedro Wilson citou que para ingressar no curso o aluno faz o vestibular como qualquer outro estudante. “Nas avaliações do MEC ele tira nota igual ou superior aos demais alunos e ele ainda tem o compromisso de contribuir com o movimentos sociais e com os agricultores familiares”, acrescentou o petista.
De acordo com o autor da ação, o procurador da República, Raphael Perissé, o convênio firmado entre o Incra e a universidade para criar o curso privilegia um segmento da população em detrimento de outros.

Fontes: Blog do Dirceu e Informes


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quinta-feira, 26 de junho de 2008

REFLEXÕES DE FIDEL

Os Estados Unidos, a Europa e os direitos humanos
• A desprestigiada forma de suspender as sanções a Cuba que acaba de adotar a União Européia em 19 de junho foi abordada por 16 despachos internacionais de imprensa. Não implica em absoluto conseqüência econômica alguma para Cuba. Pelo contrário, as leis extraterritoriais dos Estados Unidos e, portanto, seu bloqueio econômico e financeiro continuam plenamente vigentes. Na minha idade e no meu estado de saúde, não se sabe o tempo que se vai viver, mas desde agora desejo confirmar meu desprezo pela enorme hipocrisia que encerra tal decisão. Isto fica ainda mais evidente quando coincide com a brutal medida européia de expulsar os imigrantes não autorizados procedentes dos países latino-americanos, nalguns dos quais a população em sua maioria é de origem européia. Os emigrantes são, ademais, fruto da exploração colonial, semicolonial e capitalista.

De Cuba, exigem, em nome dos direitos humanos, a impunidade dos que pretendem entregar a pátria e o povo, de pés e mãos atados, ao imperialismo. Até as próprias autoridades do México têm que reconhecer que a máfia de Miami, a serviço do governo dos Estados Unidos, arrebatou pela força ─ ou comprou ─, a um importante contingente de agentes migratórios desse país, dezenas de imigrantes ilegais detidos em Quintana Roo, entre eles, crianças inocentes transportadas à força por arriscados mares e até mães forçadas a emigrar. Os traficantes de pessoas como os de drogas, que têm a seu dispor o maior e mais cobiçado mercado do mundo, colocaram em risco a autoridade e a moral de que necessita qualquer governo para dirigir o Estado, derramando sangue latino-americano por todas as partes, sem contar os que morrem por emigrar através do humilhante muro fronteiriço sobre o que foi território do México.A crise dos alimentos e da energia, as mudanças climáticas e a inflação acossam as nações. A impotência política reina, a ignorância e as ilusões tendem a generalizar-se. Nenhum dos governos, e menos ainda os da República Checa e da Suécia, que eram renitentes à decisão da União Européia, poderiam responder de forma coerente às interrogantes que estão sob o tapete.

Enquanto isso, em Cuba os mercenários e vende-pátrias a serviço do império se descabelam e se rasgam em defesa dos direitos à traição e à impunidade.Tenho muitas coisas que dizer, mas por hoje chega. Não desejo incomodar, mas vivo e penso.

Divulgarei esta Reflexão só pela Internet, hoje, sexta-feira, 20 de junho de 2008.



Fidel Castro

O original está em Granma Internacional


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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Internacionalização – as principais táticas usadas pelo imperialismo

A bandeira do ambientalismo, para o imperialismo, nunca foi uma luta ambiental. Serve para justificar sua pretensão hegemônica. A Amazônia sempre foi vista como reserva estratégica do imperialismo. Ações nesse sentido vão desde a organização da “Companhia Comercial Brasileira de Colonização, Agricultura, criação de gado, fabricação de sal e minerais” – criada em Londres, em 1832, para atuar no Norte do Brasil – até a recente declaração do presidente da Alemanha, Horst Kohler, por ocasião de sua visita ao Brasil em 2007, defendendo uma gestão compartilhada da Amazônia. Para viabilizar seu objetivo o imperialismo já recorreu desde a tática militar até a ciência, passando por “missões religiosas”, pela “defesa” de povos oprimidos e a defesa do meio ambiente. De maneira geral combina mais de uma forma de pressão e, em cada momento, uma determinada tática assume a centralidade. Hoje, a questão ambiental, especialmente a “teoria do bloqueio”, assume a centralidade. No século XIX a centralidade era a ocupação militar. Os insurgentes cabanos foram formalmente procurados pelo império britânico no sentido de separarem a Amazônia do Brasil em troca de proteção militar e apoio material. Recusaram. Fracassada a tática militar, surge a “teoria do arrendamento”, através do Bolivian Sindicate, pelo qual a região do Acre passaria ao controle norte-americano. O povo da região, em armas, pôs fim a esta pretensão. A ciência, então, passa a ser o pretexto. Surge a idéia do Instituto da Hiléia, um organismo supranacional encarregado de “estudar” a Amazônia, onde o Brasil só teria um voto. A teoria de que a Amazônia seria o “pulmão” do mundo justificaria ela ser tratada como “patrimônio da humanidade”, em decorrência de sua elevada complexidade e papel preponderante no equilíbrio ambiental do planeta. Embora a ciência tenha desautorizado tais “certezas cientificas”, a verdade é que a bandeira da Amazônia como “patrimônio da humanidade” nunca mais saiu de pauta. E hoje é esposada, por ignorância teórica ou propósitos inconfessáveis, até por gente que se reivindica de “esquerda”. Quando as queimadas se intensificaram, na década de 1970, a tática central passou a ser a questão ambiental. A bandeira da Amazônia como “patrimônio da humanidade”, ganhou ares de imprescindibilidade. Diversos “especialistas” passaram a defender que a Amazônia não teria capacidade de suportar “pisoteio humano” e as queimadas eram as responsáveis pelo aquecimento global. Sugeriam, na prática, que a Amazônia fosse “desocupada”. É a síntese da “teoria do bloqueio”, cujo objetivo é impedir toda e qualquer utilização de seus recursos naturais, até mesmo para projetos de elevado interesse social e de reduzido impacto ambiental. Hoje, mesmo demonstrada a fragilidade científica dessa opinião, o imperialismo não desiste. Volta com a tese do “arrendamento” de áreas amazônicas e desta feita é vitorioso, na medida em que leis neste sentido, de autoria do Ministério do Meio Ambiente, já foram aprovadas em Brasil, Peru e Colômbia. Como se pode constatar, a bandeira do ambientalismo, para o imperialismo, nunca foi uma luta ambiental. Serve para justificar sua pretensão hegemônica.

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General Marco Aurélio Costa Vieira, ex-comandante da Brigada de Operações Especiais do Exército:

Defesa da nossa soberania se dá com forte presença do Estado na Amazônia
Publicamos hoje os principais trechos de “A defesa de nossa soberania”, palestra do general Marco Aurélio Costa Vieira, então comandante da Brigada de Operações Especiais e atualmente chefe de gabinete do Estado Maior do Exército Brasileiro, proferida na Assembléia de Deus de Campinas, Goiânia, a convite do diácono João Carlos Barreto. A palestra foi realizada em maio de 2005. No entanto, as questões abordadas por ela são ainda mais candentes nos dias de hoje do que há três anos. Por essa razão, a oferecemos para apreciação dos nossos leitores
Euclides da Cunha já dizia: “A imensidão da Amazônia é tão majestosa que de súbita inteligência humana não lhe suporta o peso”. 56% do território nacional, cerca de 5 milhões e 100 mil km². Aí dentro nós temos 15 países da Europa. Apenas a Ilha de Marajó é maior que a Bélgica. Nove soberanias compõem a Amazônia, o Brasil e os vizinhos, 7 milhões de km² a Amazônia completa. São 5 milhões e 100 mil km² no Brasil, 1/20 da superfície terrestre, dois quintos da América do Sul, 1/5 da água doce do mundo, 1/3 das florestas tropicais do mundo - mais de 1/3 -, 3 fusos horários, distribuindo-se em dois hemisférios, com o maior banco genético do planeta.
A vegetação é fundamentalmente de floresta equatorial úmida, seu maior ecossistema. Entretanto, temos campos como se fosse o pampa gaúcho, em Roraima e Rondônia, principalmente. O clima é quente, e a temperatura varia entre 27ºC e 35ºC, com forte umidade. Temos ouro, estanho, nióbio - 92% do nióbio do mundo se encontra aqui na região de Seis Lagos, ou seja, todo o nióbio do mundo é brasileiro.
Uma observação do famoso barão Von Bismarck, “Recursos naturais nas mãos de nações que não querem ou não podem explorar deixam de se constituir em bens e passam a ser ameaças aos povos que os possuem”, é uma advertência.
Temos cinco milhões e 100 mil quilômetros quadrados e 12% da representação da população, cerca de apenas 2 mil dólares de renda per capita, enquanto no Sul do País a média é quase cinco mil dólares e 40 habitantes por km².
É necessário lembrar que depois do término da Guerra Fria - onde havia uma bipolaridade entre os países chamados aliados da OTAN e os países do pacto de Varsóvia -, com o fim da bipolaridade instituiu-se uma chamada globalização. Esta globalização desviou o eixo de confrontação estratégico que era basicamente Leste-Oeste e passou a acontecer uma confrontação Norte-Sul, fundamentalmente pobres versus ricos, primeiro x terceiros mundos.

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DIMINUI A DESIGUALDADE DE RENDA NO BRASIL

O Índice de Gini mede a desigualdade de um país, varia de 0 a 1; quanto mais perto de 1, maior desigualdade; quando mais perto de zero, menor desigualdade.
O levantamento foi feito a partir dos microdados da PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE. Os dados completos apresentam a comparação trimestral entre 2002 e 2008 e a renda média do trabalho atualizada até 2008, por décimos da população. Ou seja, valores de renda desde os 10% mais pobres até os 10% mais ricos.
Para a análise, o instituto divide os trabalhadores ocupados em dez faixas, sendo a primeira os 10% com menor renda e, assim por diante, até a última, com os 10% com maiores rendimentos. Os 10% com menor renda registraram aumento de 21,96% nos salários entre 2003 e 2007, passando de R$ 169,22 mensais para R$ 206,38, em média.
Já os 10% com maior renda registraram ganhos de 4,91%, passando de salário médio de R$ 4.625,74 em 2003 para R$ 4.853,03, no mesmo intervalo.
Dentro desse período, a maior variação da baixa renda foi observada entre 2006 e 2007, quando os salários registraram ganho de 9,4%, na média. No mesmo intervalo, a média de aumento salarial foi de 3,2%, considerando todas as faixas de renda. Já o grupo dos maiores rendimentos registrou aumento de 2,6%, em média.


Próximo passo
Para o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, a série de reajustes do salário mínimo acima da inflação e os programas de transferência de renda tiveram impacto fundamental na redução da desigualdade no país.
Apesar de levar em conta apenas algumas regiões metropolitanas do país, essa é a melhor avaliação desde o início do levantamento, em 1960, quando o índice também ficou em 0,50. “É a primeira vez que vemos uma redução do índice de Gini mesmo com o crescimento econômico. Apesar da tendência de redução da desigualdade, ainda estamos no grupo de países em que o índice ficou acima de 0,45, uma diferença primitiva”, afirmou.
Pochmann alertou que, apesar de haver uma melhor divisão da renda proveniente do trabalho, a massa total de rendimentos ainda tem uma participação pequena em relação ao PIB. Em 1995, 48,8% da riqueza do Brasil era composta pela renda da população. Em 2005, esse percentual recuou para 39,1%.
“É necessário um conjunto de outras políticas para fazer os salários aumentarem sua participação na renda nacional [PIB]”, disse o presidente do Ipea. Ele defende que se faça isso por meio da tributação, tornando a cobrança de impostos progressiva para as maiores faixas de renda. Pochmann avalia ainda que a reforma tributária que está no Congresso é tímida em relação a esse ponto.
Para ler o relatório do Ipea, clique aqui.
Do Vermelho com agências

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Julho-Dezembro de 2008: O mundo mergulha no coração da fase de impacto da crise sistêmica global

Por ocasião deste número 26 do Global Europe Anticipation Bulletin (GEAB), a equipe do LEAP/E2020 decidiu lançar um alerta sobre o período Julho-Dezembro de 2008. Com efeito, doravante nossa equipe está convencida de que este período será caracterizado por um mergulho do conjunto do planeta no coração da fase de impacto da crise sistêmica global. Os seis meses que vem aí vão, portanto constituir o verdadeiro núcleo da crise em curso. As turbulências dos últimos doze meses não foram senão uma fraca premissa.
Com efeito, é no decorrer do próximo semestre que todas as componentes da crise (financeira, monetária, econômica, estratégica, social, política...) irão convergir com a intensidade máxima
[1] . Sem entretanto rever em pormenor as diferenças seqüências já antecipadas nos números anteriores do GEAB, nossos investigadores escolheram apresentar as evoluções das diferentes grandes regiões do planeta nos próximos seis meses. Para fazer isto, optaram por desenvolver oito fenômenos principais que irão marcar os próximos seis meses de maneira decisiva e orientar duradouramente os anos de 2009 e 2010, a saber: 1. O dólar em perdição (1 Euro = 1,75US$ no fim de 2008): Um medo pânico do afundamento da divisa e da economia dos EUA atormenta a psique coletiva americana. 2. Sistema financeiro mundial: A ruptura por causa da impossível manutenção sob a tutela de Washington. 3. União Européia: A periferia afunda na recessão ao passo que o núcleo da zona Euro diminui de velocidade. 4. Ásia: O duplo "golpe de bambu" inflação/afundamento das exportações. 5. América Latina: Dificuldades em aumento mas um crescimento mantido para grande parte da região, com o México e a Argentina em crise. 6. Mundo árabe: Os regimes pro - ocidentais à deriva / 60% de riscos de explosão político-social no eixo Egipto-Marrocos. 7. Irão: Confirmação de 70% de probabilidade de um ataque daqui até Outubro de 2008. 8. Bancos/Bolhas especulativas: A colisão das bolhas. Paralelamente, a equipe do LEAP/E2020 apresenta neste GEAB Nº 26 cinco conselhos estratégicos destinados a bancos centrais, governos e instituições de controle que elaborou nestes últimos meses e cujo objetivo é limitar e canalizar as graves conseqüências da fase de impacto da crise. Para investidores privados, o LEAP/E2020 desenvolve igualmente neste GEAB Nº 26 uma série de oito conselhos operacionais a fim de evitar que comentam erros fatais nos próximos seis meses. Neste comunicado púbico, o LEAP/E2020 optou por apresentar sua antecipação acerca da próxima ruptura do sistema financeiro mundial.
A decisão de Washington de fazer subir os lances em termos de retorno ao "Dólar forte", obrigando Ben Bernanke a intervir, lança as sementes de uma aceleração do processo de ruptura do sistema financeiro mundial
[2] . Com efeito, Ben Bernanke é a última muralha antes da tomada de consciência definitiva por parte dos principais detentores de divisas americanas e de ativos denominados em Dólares de que Washington já não tem os meios de sustentar a sua moeda. Aquilo que, no princípio de 2006 (com o fim da publicação do M3 pelo Fed), correspondia a uma política deliberada de baixa do dólar a fim de tentar reduzir o déficit comercial americano e limitar o valor real (para os Estados Unidos) do seu endividamento mundial (que é denominado em dólar), voltou-se contra os seus iniciadores e transforma-se numa fuga generalizada para fora dos Estados Unidos (fuga de capitais, estabilidade dos déficits comerciais, aumento da inflação, ...). A carta "Bernanke" é a última carta "psicológica" que Washington pode jogar. O fato de utilizá-la mostra que os dirigentes americanos atingiram os maiores extremos par tentar reter seus parceiros no sistema criado após 1945, fundado sobre a economia dos Estados Unidos e na sua divisa [3] . . Ao empenhar-se neste caminho que não leva a parte alguma, consciente ou inconscientemente, voluntariamente ou não, Ben Bernanke acaba de assinar o fim do atual sistema financeiro. O retorno ao "Dólar forte" é um pouco como a "libertação do Iraque", um voto piedoso que se transforma em pesadelo.
Aliás, se porventura Washington tivesse realmente a intenção de tentar estabilizar o Dólar ou, mais ambicioso, de fazê-lo subir outra vez face às principais moedas mundiais, não haveria senão um único método
[5] , compreendendo dois aspectos: uma forte alta das taxas de juro do Fed e uma baixa drástica da criação monetária. Se as autoridades americanas decidissem executar esta política, a economia americana (real e financeira) pararia nas semanas que se seguissem: o mercado imobiliário cairia a zero sem créditos abordáveis e devido a uma explosão dos juros sobre as famílias endividadas a taxas variáveis, o consumo americano tornar-se-ia negativo (ou seja, recuaria mês após mês), as falências de empresas multiplicar-se-iam de maneira exponencial, Wall Street entraria em colapso sob o peso das suas dívidas múltiplas e sucumbiria à implosão imediata do mercado do CDS devido aos incumprimentos generalizados dos co-contratantes... Estes acontecimentos, absolutamente certo no caso de uma ação voluntarista de Washington em favor do Dólar forte, são sem dúvida inaceitáveis para as autoridades americanas. Portanto, além de falar, e de se desacreditar ainda mais, elas nada farão. O método tradicional destas últimas décadas não é mais encarável: ninguém mais aceitará comprar Dólares maciçamente para salvar a divisa americana sem uma ação muito voluntarista (aquela descrita anteriormente) por parte de Washington. Como este não intervirá, o resto do mundo tirará as conclusões necessárias: cada um por si doravante. E não se pode esquecer em meados de Agosto de 2008, Pequim estará aliviada do constrangimento de fazer a todo o custo com que os Jogos Olímpicos tenham êxito. Portanto um grande número de opções "brutais" [6] , postas em fila de espera até os Jogos Olímpicos, vão retornar à superfície [7] .
15/Junho/2008

Notas: (1) Para um calendário mais pormenorizado destas tendências, ver GEAB N° 18.

(2) Aliás, o Banque des Règlements Internationaux já se inquieta com o risco de uma Grande Depressão Mundial. Fonte: Banking Times , 09/06/2008

(3) Fonte: Euro Pacific Capital , 23/05/2008

(4) Ver a respeito, neste GEAB N°26, os conselhos de LEAP/E2020 aos bancos centrais, governos e instituições de controle.

(5) Afastamos o segundo método que consistiria em bombardear o BCE, o Banco da China e o Banco do Japão.

(6) Fonte: ContreInfo , 21/04/2008

(7) E com a Rússia a impor-se doravante como o primeiro produtor mundial de petróleo, diante da Arábia Saudita, as relações de força no mercado petrolífero também estão em vias de mudar rapidamente. Fonte: Times of India , 12/06/2008

O original encontra-se em http://www.leap2020.eu/ Este comunicado público encontra-se em http://resistir.info/ .


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sexta-feira, 20 de junho de 2008

PORTUGAL
Uma visita ao Brasil

Como noticiou o Avante! uma delegação do PCP, dirigida pelo camarada Jerônimo de Sousa, visitou o Brasil entre os dias 9 e 13 de Junho. Uma importante visita realizada a convite do Partido Comunista do Brasil com a duração de cinco dias e com deslocações a três cidades – São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro – que contribuiu fortemente para o reforço das relações de amizade e cooperação entre o PCP e o Partido Comunista do Brasil e para o aprofundamento do conhecimento sobre a complexa situação econômica, social e política desse país «continente» que é o Brasil.

Uma visita que se marcou por uma intensa agenda de contatos não só no plano partidário – a delegação do PCP realizou reuniões ao mais alto nível com o PCdoB, com alguns dos mais importantes partidos que compõem hoje a base de sustentação do Governo presidido por Lula da Silva (nomeadamente com o Partido dos Trabalhadores) e com o Partido Comunista Brasileiro – mas também no plano das Instituições de Estado, com a realização de encontros com altas figuras do Estado brasileiro como o Vice-Presidente da República do Brasil, o Presidente da Câmara de Deputados e o Presidente do Senado Federal, entre vários outros membros do Governo, da Presidência da República e da Câmara de Deputados do Brasil.

Uma visita que apesar de intensa no plano dos contatos oficiais não deixou de dar atenção às relações bilaterais do PCP no Brasil, que abriu portas a novas linhas de cooperação entre o PCP e o PCdoB que terão já no mês de Julho um outro importante momento com a visita de uma delegação do PCdoB, dirigida pelo seu Presidente Renato Rabelo, a Portugal.

Mas, uma visita que também não esqueceu a comunidade portuguesa residente no Brasil com a realização de encontros com a organização do PCP na emigração e com a visita à Casa de Portugal em São Paulo, recebida pelo Conselho das Comunidades Portuguesas no Brasil. Uma visita que fecharia com «chave de ouro» no seu último dia com a realização de uma visita da delegação do PCP ao arquiteto comunista Oscar Niemeyer com um encontro realizado em ambiente de profunda amizade e fraternidade.

No final de uma visita tão completa do ponto de vista político, institucional e cultural o sentimento que prevalece é de esperança no futuro daquele grande país e povo e no papel dos comunistas brasileiros. Uma esperança que não pode ser desligada do atual momento e tendências que se experimentam na América Latina. Tal como o restante subcontinente, o Brasil é hoje também um imenso laboratório social e político, marcado ainda pelas contradições resultantes da prevalência do sistema econômico, social e político capitalista na sociedade brasileira e da heterogênea base de apoio político do atual governo. Mas um país onde os esforços para afirmar a soberania do Brasil, desenvolver as suas forças produtivas, retirar da pobreza grandes massas da população brasileira, avançar para uma distribuição justa da riqueza produzida e para desenvolver uma política externa de solidariedade e cooperação com vários países da América Latina – o Brasil é hoje o principal parceiro econômico de Cuba – respeitando a sua soberania, nos parecem genuínos.

Uma visita importante para o PCP e as suas relações internacionais. Mas uma visita também importante para o nosso País e para as relações entre os povos do Brasil e de Portugal, cujo silenciamento escandaloso a que foi votada pela comunicação social portuguesa só pode ser explicado pelo anticomunismo mais primário.


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Aumenta o repúdio a Guantánamo e à ocupação

O Supremo Tribunal dos EUA decidiu que os detidos de Guantánamo têm direito a recorrer nos tribunais civis norte-americanos, contrariando a administração Bush, contestada na Europa pelos crimes cometidos na chamada «guerra contra o terrorismo» e no Iraque pela chantagem visando manutenção da ocupação.

Dias depois de um tribunal militar instalado em Guantánamo ter começado a julgar cinco presumíveis envolvidos nos atentados de 11 de Setembro em Nova Iorque, entre os quais Khalid Sheikh Mohammed, tido como o cabeça da operação, a máxima instância judicial norte-americana deslegitima o julgamento iniciado na base naval.

A decisão tomada quinta-feira, 12, pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos, representa um duro golpe contra a administração Bush e a interpretação da Casa Branca no que concerne aos direitos dos detidos em Guantánamo, não apenas pelo seu conteúdo, mas também pela consistência com dois acórdãos anteriores sobre a mesma matéria.

O que o Supremo aprovou, por cinco votos contra quatro, foi a suspensão de uma lei, em vigor desde 2006, usada por Washington para impedir que os 270 presos possam recorrer aos tribunais civis. «As leis e a Constituição são pensadas para sobreviver, e continuar em vigor, mesmo durante circunstâncias extraordinárias», disseram os juízes.

Reagindo à decisão que abrange os 270 homens em cativeiro desde 2001, a Alta Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Louise Arbor, considerou que agora os detidos têm caminho aberto para contestarem no sistema judicial regular dos EUA a sua permanência em Guantánamo, e que a apreciação sobre a situação deve ser a mais célere possível.

A sentença do Supremo surgiu na mesma semana em que o Comitê da ONU para os Direitos da Criança criticou os EUA por manterem encarcerados no Iraque, Afeganistão e Guantánamo várias crianças. De acordo com os dados divulgados por Radhika Coomaraswamy, representante especial das Nações Unidas, só no Iraque encontram-se presas mais de 1500 crianças, um terço das quais sob vigilância direta do exército norte-americano. Acresce, de acordo com Coomaraswamy, que os menores são considerados por Washington como prisioneiros de guerra e julgados em tribunais militares sem qualquer contemplação pelos direitos fundamentais inerentes a qualquer ser humano e pelo fato de se tratarem de meninos soldados.

Ocupantes e aliados

Entretanto, esta semana, George W. Bush chegou à Inglaterra para uma visita ao fiel aliado nas guerras de invasão e ocupação do Iraque e Afeganistão, naquela que será muito provavelmente a sua última visita oficial antes de abandonar a sala oval.

Para além de uma operação de (chá)rme com a monarca Elizabeth II no Castelo de Windsor, o presidente norte-americano jantou com Gordon Brown na residência do primeiro-ministro britânico. Como entrada, Bush brindou Brown com uma entrevista no The Observer onde afirma estar «confiante de que, tal como eu, [Brown] escutará os nossos comandantes para assegurar que os sacrifícios feitos até agora não tenham sido em vão», isto é, é melhor o governo de Londres nem equacionar o estabelecimento de um calendário para a retirada do Iraque.

Na capital inglesa e na capital da Irlanda do Norte, Belfast, onde Bush também esteve, ocorreram manifestações de repúdio ao presidente norte-americano, acusando-o de, juntamente com Blair, ser responsável por crimes de guerra no Iraque, Afeganistão, nas prisões secretas do Leste da Europa e do Magrebe, e exigindo o fim das ocupações e o encerramento imediato de Guantánamo.

Milhares contra governo e ocupação

Os protestos que acompanharam a passagem de Bush pela Europa sucederam à manifestação que, no passado dia 6, milhares de iraquianos realizaram na cidade de Kerbala, a Sul de Bagdá.

Os populares contestaram veementemente um possível pacto entre os EUA e o governo colaboracionista do Iraque cujo objetivo é perpetuar a presença norte-americana no território. Os termos do alegado pacto legitimariam a manutenção no Iraque de mais de 150 mil soldados, cerca de 50 bases militares e milhares de mercenários gozando de imunidade legal e liberdade de atuação.

Fontes do governo iraquiano informaram que o acordo não será aceito, mas segundo o The Independente, os EUA têm um valioso trunfo. O periódico britânico noticiou que no Banco da Reserva Federal de Novo Iorque, Washington mantém seqüestrados qualquer coisa como 50 bilhões de dólares do Iraque, montante que estará supostamente sendo usado como forma de pressão sobre Bagdá para que subscreva a condição de país eternamente ocupado.
Leia o original em Avante


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HÁ FUTURO NO CAPITALISMO?

Frei Betto

A modernidade está em crise. Seu início coincide com o Renascimento, o descobrimento da América e do Brasil, a passagem da era medieval, feudal, para o mercantilismo e, em seguida, ao capitalismo. Vivemos, hoje, não uma época de mudanças, mas uma mudança de época. No milênio que começa, emerge algo imprecisamente chamado pós-modernidade, que se insinua bem diferente de tudo o que nos antecedeu, imprimindo novos paradigmas.
Na Idade Média, a cultura girava em torno da idéia de Deus. Na modernidade, centra-se no ser humano. Episódio característico da modernidade ocorreu em 1682, quando mister Halley, baseado exclusivamente em cálculos matemáticos - pois não dispunha de aparelhos -, previu que um cometa voltaria a aparecer nos céus de Londres dentro de 76 anos. Na ocasião, muitos disseram: “Este homem é louco! Como, fechado em seu escritório, baseado em cálculos feitos no papel, pode prever o movimento dos astros no céu? Quem, senão Deus, domina a abóbada celestial?”.
Mister Halley morreu em 1742, antes de se completarem os 76 anos previstos. Po­rém, muitos ficaram atentos e, exatamente na data prevista, em 1758, o cometa, que hoje leva o seu nome, voltou a iluminar os céus de Londres. Era a glória da razão!
“Se é assim,” disseram, “então a razão haverá de resolver todos os dramas humanos! Criará um mundo de luzes, de progresso, de saciedade, de alegria!”
Tudo muito bonito e lógico; mas cinco séculos depois o saldo não é dos mais positivos. Os dados são da FAO: somos 6,5 bilhões de pessoas no planeta, das quais metade vive abaixo da faixa da pobreza, e 854 milhões sobrevivem com fome crônica. Nada indica que se cumpram, até 2015, as Metas do Milênio da ONU, entre as quais a erradicação da miséria.
Há quem afirme que o problema da fome é causado pelo excesso de bocas. Em função disso, propõem o controle da natalidade. Oponho-me ao controle, e sou favorável ao planejamento familiar. O primeiro é compulsório, o segundo respeita a liberdade do casal. E não aceito o argumento de que há bocas em demasia. Nem falta de alimentos. Segundo a FAO, o mundo produz o suficiente para alimentar 11 bilhões de bocas. O que há é falta de justiça, excessiva concentração da riqueza em mãos de uns poucos e, agora, etanol para abastecer veículos em vez de alimentos para nutrir pessoas.
Outrora falava-se em trabalho. Sentíamos orgulho de dizer: “Olha, meu pai educou a família trabalhando trinta anos na rede ferroviária”; “Minha mãe foi professora vinte e tantos anos”. O trabalho era fator de identidade. Ainda alcancei a geração que tinha o privilégio de falar em vocação. Posteriormente, deixou-se de falar em vocação. Falava-se em profissão: “Qual a sua profissão?” Hoje fala-se em emprego, e olhe lá! Não se menciona mais trabalho, porque infelizmente o fator de identidade social não é o trabalho, é estar no mercado.
Há futuro para a humanidade dentro do paradigma capitalista?

Frei Betto é escritor, autor de “Típicos Tipos – perfis literários” (A Girafa), entre outros livros.

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quinta-feira, 19 de junho de 2008

Um predador ferido é ainda mais perigoso

Noam Chomsky in The Guardian

No Médio Oriente, rico em energia, só dois países deixaram de se subordinar às exigências fundamentais de Washington: Irã e Síria. E, como seria de esperar, os dois são inimigos, sendo o Irã, de longe, o mais importante. Como era norma na Guerra Fria, o recurso à violência é regularmente justificado como uma reação à influência maligna do inimigo principal, frequentemente com os mais débeis dos pretextos. Não surpreende que, à medida que Bush envia mais tropas para o Iraque, se multipliquem as referências à interferência do Irã nos assuntos internos do Iraque – um país, de outro modo, liberto de qualquer interferência estrangeira – sob o tácito pressuposto de que Washington domina o mundo.

Na mentalidade de Guerra Fria, característica de Washington, Teerã é retratado como o pináculo do chamado crescente xiita, que se estende do Irã ao Hezbollah no Líbano, passando pelo Iraque meridional e pela Síria xiitas. Também não surpreende que a “insurreição” no Iraque e a escalada de ameaças e acusações contra o Irã sejam acompanhadas da rancorosa disposição de assistir a uma conferência de potências regionais, com a agenda limitada ao Iraque.

Presumivelmente, este gesto mínimo de diplomacia pretende apaziguar os crescentes temores e a indignação suscitados pela agressividade acrescida de Washington. Tais preocupações foram recentemente alimentadas por um detalhado estudo do “efeito iraquiano” escrito pelos peritos em terrorismo Peter Bergen e Paul Cruickshank, que revelou que a guerra do Iraque «multiplicou por sete a atividade terrorista à escala planetária». Um “efeito iraniano” poderia ser ainda mais grave.

Para os Estados Unidos, a questão principal no Médio Oriente foi e continua a ser o controle efetivo dos seus recursos energéticos sem paralelo. O acesso é uma questão secundária. Uma vez embarcado, o petróleo pode ir para qualquer parte. O controle é entendido como um instrumento de dominação global. A influência iraniana no “crescente” desafia o controle dos EUA. Por um acidente geográfico, os maiores recursos petrolíferos mundiais encontram-se, em grande parte, nas áreas xiitas do Médio Oriente: no Iraque meridional, nas regiões adjacentes da Arábia Saudita e do Irã, juntamente com algumas das maiores reservas de gás natural. O pior pesadelo de Washington seria uma ampla aliança xiita que controlasse o grosso do petróleo mundial independentemente dos Estados Unidos.

Tal bloco, se emergisse, poderia inclusive juntar-se ao Asian Energy Security Grid [Rede Asiática de Segurança Energética], com base na China. O Irã poderia ser um alicerce. Se os planejadores de Bush provocarem tal efeito, terão minado gravemente a posição dominante dos Estados Unidos no mundo.

Para Washington, a principal ofensa de Teerã foi o seu desafio, que remonta à queda do Xá em 1979 e à crise dos reféns na embaixada estadunidense. Como represália, Washington apoiou a agressão de Saddam Hussein contra o Irã, que resultou em centenas de milhares de mortos. Depois vieram sanções homicidas e, com Bush, a rejeição dos esforços diplomáticos do Irã.

Em Julho passado, Israel invadiu o Líbano, a quinta invasão desde 1978. Como antes, o apoio dos EUA foi um fator decisivo, os pretextos rapidamente se desmoronam quando inspecionados, e as conseqüências para o povo libanês são graves. Entre as razões dadas, como pretexto para a invasão do Líbano por parte dos EUA e de Israel, estava a de que os rockets do Hezbollah poderiam ser dissuasórios de um ataque estadunidense­‑israelita ao Irã. Apesar das ameaças, suspeito que não é provável que a administração Bush ataque o Irã. A opinião pública, nos EUA e no resto do mundo, é profundamente contrária. Parece que os militares e os serviços secretos estadunidenses também estão contra. O Irã não pode defender-se de um ataque dos EUA, mas pode replicar de outras maneiras, entre elas incitando ao aumento do caos no Iraque. Alguns emitem alertas que são muito mais graves: entre eles o historiador militar britânico Corelli Barnett, que escreve que «um ataque ao Irã desencadearia efetivamente a terceira guerra mundial».

A verdade é que um predador se torna mais perigoso, e menos previsível, quando está ferido. No desespero para salvar alguma coisa, a administração [Bush] poderia arriscar-se a desastres ainda maiores. A administração Bush gerou uma catástrofe inimaginável no Iraque. Foi incapaz de instituir um estado cliente fiável internamente, e não pode retirar-se sem encarar a possível perda de controle dos recursos energéticos do Médio Oriente.

Entretanto, Washington pode procurar desestabilizar o Irã a partir de dentro. A mistura étnica no Irã é complexa; boa parte da população não é persa. Há tendências separatistas e é provável que Washington procure excitá-las – por exemplo, no Khuzistão, no Golfo, onde está concentrado o petróleo do Irã, uma região de ampla maioria árabe, não persa.

A escalada de ameaças serve também para pressionar terceiros países a juntarem-se aos esforços estadunidenses para estrangular economicamente o Irã, com previsível êxito no caso da Europa. Outra conseqüência previsível, presumivelmente desejada, é induzir os dirigentes iranianos a exacerbar a repressão, fomentando a desordem ao mesmo tempo que se debilita os reformadores.

Também se torna necessário demonizar os dirigentes. No Ocidente qualquer declaração rude do Presidente Ahmadinejad circula em manchetes, traduzida de maneira duvidosa. Mas Ahmadinejad não tem controle sobre a política externa, que está nas mãos do seu superior, o Dirigente Supremo Ayatollah Ali Khamenei. Os meios de comunicação estadunidenses tendem a ignorar as declarações de Khamenei, sobretudo se são conciliadoras. Informam com alarde selvagem que Ahmadinejad disse que Israel não deveria existir – mas há silêncio quando Khamenei diz que o Irã apóia a posição da Liga Árabe na questão Israel-Palestina, a qual apela à normalização das relações com Israel, se aceitar o consenso internacional de um estabelecimento de dois estados.

A invasão estadunidense do Iraque praticamente instruiu o Irã a desenvolver armas nucleares dissuasórias. A mensagem era que os EUA atacam como querem, desde que o objetivo esteja desprotegido. O Irã encontra­­­‑se agora rodeado por forças estadunidenses no Afeganistão, no Iraque, na Turquia e no Golfo Pérsico, e tem muito perto as potências nucleares Paquistão e Israel, a superpotência regional, graças ao apoio dos EUA.

Em 2003, o Irã propôs negociações sobre todas as questões importantes, incluindo as políticas nucleares e as relações Israel-Palestina. A resposta de Washington foi censurar o diplomata suíço que trouxe a proposta. No ano seguinte, a UE e o Irã chegaram a um acordo de que o Irã suspenderia o enriquecimento de urânio; em troca, a UE proporcionava «garantias firmes em matéria de segurança» – uma alusão critica às ameaças estadunidenses­‑israelitas de bombardear o Irã.

Aparentemente sob pressão estadunidense, a Europa não cumpriu o acordo. O Irã recomeçou então o enriquecimento de urânio. Um verdadeiro interesse em impedir o desenvolvimento de armamento nuclear no Irã teria levado Washington a implementar o acordo conseguido pela UE, a concordar com negociações significativas e a juntar-se a outros nos esforços para integrar o Irã no sistema econômico internacional.


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