Além do Cidadão Kane

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Exmº.Senhor Demetrio Giuliano Gianni Carta

Caro Mino
Uma das vantagens da adolescência distante é que antigamente os adolescentes liam e discutiam filosofia. O luxo era tanto que tínhamos aula de Filosofia, tanto no "científico" quanto no "normal"... Uma das desvantagens é que acabamos esquecendo detalhes como, por exemplo, onde lemos essa ou aquela coisa. O certo é que líamos. E líamos, entre outros, Sartre porque era a fantástica década dos anos 60.

Há uma obra de Sartre cujo nome perdi - possivelmente junto com algum dos neurônios que já se foram -, onde ele narra a história de um movimento revolucionário que acaba de chegar ao poder. O líder revolucionário, com o apoio absoluto do povo, tem planos para mudar radicalmente o país. O primeiro embaixador estrangeiro a visitá-lo é o norte-americano. Após essa conversa, o país segue sendo o mesmo que sempre fora...

Quando as forças retrógradas do Brasil viram que a vitória de Lula era inevitável começaram a se reorganizar baseadas em dois pontos: primeiro, na certeza de que ele não teria, no Congresso, maioria de esquerda para governar e, portanto, seria forçado a fazer concessões. Esse raciocínio mostrou-se correto. Na verdade nem era preciso ser muito inteligente para concluir isso. Bastaria conhecer o tamanho da falta de politização do povo brasileiro para saber que o voto é dado por critérios tais como a simpatia, o déjà vu que ocorre em relação aos candidatos vindo dos meios de comunicação, a beleza física e até mesmo o "sorteio" do número na urna eletrônica, mas quase nunca pela coerência política. Por isso, um detentor de cargo executivo é obrigado a governar tendo o legislativo como opositor.

A segunda aposta da reação era na incompetência e na forma irresponsável de governar que, imaginava, Lula teria. Afinal era um metalúrgico, um "apedeuta" como gostam de dizer aqueles que têm um dicionário em casa... Neste item foram mal. Por alguma razão que só a proteína tirada, sabe Deus de onde, lá no interior de Pernambuco e que lhe foi dada durante os primeiros sete anos de vida, o "apedeuta" sabia que, se fosse com muita sede ao pote das mudanças, seria sumariamente apeado do Poder. Então, meu caro Mino, foi aí que ele acertou. Não fazendo aquilo que a direita raivosa, e agora tu também, queria que ele tivesse feito.

Vamos ver, para começar, a questão da Reforma Agrária. Imagina que tivesse sido feita uma expropriação dos latifúndios deste país. Imaginou? Pois é. No mesmo dia seria chamado de "Ex-presidente"... Tanto eu quanto tu nos lembramos do que aconteceu quando Jango expropriou uns poucos quilômetros ao longo das rodovias federais, que naquela época eram duas ou três, não é verdade? Uma desapropriação? As burras dos latifundiários ficariam abarrotadas com o dinheiro público e nada mais seria feito... Como, então, poderia ter sido feito? Exatamente como está sendo feito: assentamentos pontuais, de forma continuada e dentro das possibilidades econômicas.

Falaste também da "esmola". Que decepção, meu caro Mino, que decepção... Essa é a palavra consagrada pelos mais furiosos reacionários quando se referem ao Programa Bolsa Família. Com certeza não sabes o que é fome, nem tampouco imaginas que o filho de uma mulher desnutrida nasce com 40% menos neurônios do que o de uma nutrida. Em permanecendo o quadro de desnutrição durante o primeiro ano de vida da criança, ela perde mais 10% deles, o que a transforma em um ser humano incapaz de competir em qualquer setor de atividade. Não te apegues ao frio número de 30.000.000 de pessoas que foram tiradas da miséria durante o governo de Lula. Pensa no resultado da melhor nutrição que só aparecerá dentro 15 anos e que se estenderá pelas gerações futuras.

Citaste em teu "adeus" a questão ambiental. É verdade que o Brasil tem sérias dificuldades nessa área. A Amazônia tem 5.217.423 Km² e corresponde a 61% do território nacional. O acesso ao interior é difícil, os proprietários de madeireiras ilegais as mudam de local frequentemente, existem centenas, talvez milhares, de quilômetros de estradas abertas pelos desmatadores ilegais e que ficam camufladas pelas copas das árvores... Enfim, uma tarefa quase impossível de ser realizada, essa de coibir o dano ambiental... Pelo menos na Amazônia... Para que percebas melhor a dificuldade, meu caro Mino, vê a questão de outra agressão ambiental, essa de muito menor proporção e que, apesar disso, também não se consegue resolver, que é a do lixo espalhado pelas cidades e que provocam alagamentos quando das enxurradas. Como vês, não é só uma questão de políticas ambientais, afinal as leis existem e são aplicadas, mas também uma questão de educação e consciência que, com a inclusão social que está, sim, sendo promovida pelo governo, tende a melhorar.

Fizeste referencia às eleições dos presidentes da Câmara e do Senado... Eu te pergunto: "que culpa tiene el tomate"...

Mas a questão chave, aquela que fez transbordar o cálice de fel que é defender um governo popular conduzido por um operário, parece-me, foi o asilo dado a Batistti.

A minha "bíblia" diz, entre outras coisas que só é possível analisar um fato histórico quando dentro da conjuntura de seu tempo. Pois bem. Os fatos que deram origem aos processos ocorreram entre 1976 e maio de 1978, portanto há 30 ou 31 anos, quando Cesare Batistti tinha entre 22 e 23 anos de idade - hoje ele tem 54 e é portador de hepatite C crônica com um prognóstico bastante desencorajador. É verdade que a Itália vivia em um regime "democrático" porém ligado "umbicalmente" aos Estados Unidos da América que criava e amparava as ditaduras em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, com a alegação da “ameaça comunista”. As dissidências dentro do Partido Comunista Italiano optaram pela luta armada, caso das "Brigadas Vermelhas" e dos "Proletários Armados pelo Comunismo". Essa opção de parte da esquerda pela luta armada gerou o estabelecimento de legislação própria dirigida ao que foi classificada pelos detentores do poder de "terrorismo". Faço a ressalva "classificada pelos detentores do poder..." porque sei, e sei que sabes, da tênue linha que separa o "terrorista" do "herói da resistência". Nesse período - que se estende de 1969 até 1980 – a tortura e os julgamentos sumários eram a regra quando se tratava da aplicação das leis “anti-terroristas”. Nota que a tortura na Itália, na época foi comprovada e denunciada pela Amnesty International. Não foi diferente no caso do julgamento de Cesare Batistti. Até mesmo a falsificação de sua assinatura foi feita em documento no qual ele desistia de ser defendido por advogado próprio e “optava” pela defensoria pública. Nessa situação, com a anuência de seus “defensores”, foi feito o julgamento sem a presença do réu. É interessante notar, meu caro Mino, que toda a peça acusatória foi feita baseada no depoimento de Pietro Mutti, um ex-ativista do PAC beneficiado pela chamada “delação premiada” que permitiu que ele, Mutti, receber, inclusive, uma nova identidade além, é claro, a liberdade. Dois dos quatro crimes dos quais foi acusado ocorrera no mesmo dia e, praticamente na mesma hora, um em Milano e o outro em Udine.

Ao contrário do que afirmas, a distância entre uma e outra cidade não é de "pouco mais de 200 quilômetros". Na verdade são exatos 384 quilômetro por via rodoviária, hoje. Essa distância é percorrida em cerca de 3h e 45 minutos, portanto, duas ocorrências "praticamente na mesma hora" é fisicamente impossível, logo, um desses dois crimes não foi cometido por ele. Mas a condenação foi pelos dois...

Dois crimes são cometidos. Um, por impossibilidade física, não pode ter sido cometido pelo réu... Terá ele cometido o outro? Qual dos dois foi cometido pelo réu? Sei, e sei que sabes, do princípio jurídico “in dúbio pro reo”.

Textualmente dizes: “Ocorre que, ao referir-se à extradição negada a mídia está certa, antes de mais nada em função dos motivos alegados, a exibir ao mundo ignorância, falta de sensibilidade diplomática e irresponsabilidade política, ao afrontar um estado democrático amigo.” Ora, meu caro Mino, Batistti esteve legalmente exilado na França por cerca de 10 anos até ter esse benefício cancelado pelo governo direitista de Sarkozy. Será que a França era ignorante, sem sensibilidade diplomática, e irresponsável politicamente até então?

Não me convenceste. Mas isso pouco importa. O lamentável é dar munição para a direita retrógrada e mal intencionada cujo único desejo é manter seus privilégios intocáveis.

P.S.: Por que a Itália se recusa a entregar o ladrão Salvatore Alberto Cacciola ?

Um comentário:

Fabian disse...

Na verdade o que esperava de Lula era que ele fizesse mais ou menos o que o Obama está fazendo. Ou seja, já na primeira semana, ainda com todo apoio que um recém eleito tem (e praticamente incontestável, mesmo pelos partidos de direita e pela imprensa) e que não terá da mesma forma durante o resto do mandato, começasse a fazer mudanças. Não mudanças radicais (tipo transformar o Brasil num país comunista), mas mudanças pontuais e necessárias (como acabar com as propagandas do governo na globo, só para dar um mínimo exemplo). No entanto, para isto ele deveria já estar com tudo organizado antes da posse. Seria tomar a posse e só assinar as leis, decretos etc., como Obama dá a impressão de estar fazendo. Mas, infelizmente, isto seria exigir extremamente demais de um brasileiro, qualquer que fosse ele. Organização no Brasil é algo quase que utópico e impossível. Não dá para comparar os anglo-saxões (e seu profissionalismo em tudo, até nas relações pessoais) com os latinos (e seu amadorismo em tudo, até nas relações profissionais).
Como foi dito, Lula apostou em primeiro conseguir se manter no poder para depois fazer coisas há longo prazo. Apostou também na diplomacia e na política, que na verdade é o que ele conhece e foi de onde veio, vide greves do início da década de 80. Por isto não se poderia esperar algo diferente dele.
A questão no entanto é que as mudanças estão acontecendo, mas em uma velocidade aquém da necessária para o povão, no meu modo de pensar. Embora uma revolução cultural (não como a da China) deva ser feita urgentemente neste país, ela na verdade só seria sentida nas próximas décadas, ou talvez séculos. Disto resulta que, se voltar um presidente da elite, como Serra, por exemplo, tudo que Lula fez provavelmente será desfeito em tempo recorde e esses oito anos terão sido perdidos.

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